Ana das Carrancas, uma personagem ligada ao "Velho Chico"

18/02/2015 12:50

Fotos: Sucena Shkrada Resk


Por Sucena Shkrada Resk 

A ‘dama de barro’. Assim era conhecida Ana das Carrancas, que se tornou uma personagem cultural reconhecida em Pernambuco e no Brasil, por seus trabalhos moldados no barro às margens do rio São Francisco, na região de Petrolina. A artista tinha uma sensibilidade especial que se traduzia nos traços de suas peças. Aos 85 anos, no ano de 2008, ela partiu, mas reviver a sua trajetória ainda é possível, pois seus familiares mantiveram o museu criado, em 2000, onde a mãe de três filhas, avó de 7 netos, bisavó de 16 bisnetos e por duas vezes tataravó desenvolvia esse “dom” e viveu com seu marido e parceiro de trabalho, José Vicente (que faleceu em 2014). Por sinal, um capítulo à parte de afeto e cumplicidade. É uma casa, que transpira cotidiano. Uma imersão no histórico da vida dessa nordestina que só sabia escrever “Ana” e ao mesmo tempo expressava tantas palavras por meio de sua arte.

De Santa Filomena (PE), a artista chegou aos 38 anos no Recife e depois seguiu para Petrolina onde permaneceu até falecer. “A partir dos 7 anos de idade, deu início às carrancas inspirada na aptidão de sua mãe Ana Maria”, conta sua neta Raquel Marques. A jovem já segue os passos da avó e de maneira tímida faz as “suas pequenas obras” em formato de souvernir.

Ao longo dos anos, a artista autodidata fazia utensílios domésticos e despertou para outras motivações de perfis , a partir de 1986. Ver a primeira obra de “Ana das Carrancas”, inspirada na barca que a impressionou no “Velho Chico”, revela o início de um despertar que carregou com a longevidade. Perto da ponte entre Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), encontrava a matéria-prima de seus trabalhos. Ela dizia: - “Meu sangue é negro, mas minha alma é de barro”.   

Nos bastidores, José Vicente (que era cego) a auxiliava na confecção das peças. “Ajudava vovó bater no pilão e amassar o barro com o pé”, conta Raquel. A delicadeza dos olhos que Ana delineava, era uma homenagem ao seu marido.  Até maturar e chegar no produto final, as obras ficavam por seis horas no forno rústico.

“Vovó era falante e me deu lições de vida, quando eu era pequena, de valorizar o próximo e ser humilde”. Mais um legado desta pernambucana, que conheci “postumamente” em minhas andanças em Petrolina, no final de 2014.

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