Água: um bem depreciado na sociedade do desperdício, por Sucena Shkrada Resk

14/10/2013 23:27

Já se tornou algo habitual ouvir falar que a água hoje tem o mesmo “valor” que o petróleo teve  neste século e no século passado no mundo. A comparação quanto ao peso geopolítico, socioeconômico e na balança das perdas e danos dos recursos naturais tem toda coerência, tendo em vista os cenários previstos para as próximas décadas.

O mais recente informe realizado durante a Cúpula da Água, que ocorreu em Budapeste, neste mês, é a possibilidade de que em 2030 a demanda por água seja 40% maior que a sua oferta no mundo. Entre os principais motivos para essa escassez, estão o desperdício, a poluição, o aumento de irrigação para os cultivos, além de produção de energia elétrica, que são fatores antrópicos, em combinação com o avanço das mudanças climáticas. Mas o sinal vermelho já se faz presente há muito tempo: afinal, mais de 800 milhões de pessoas não têm acesso à água potável. Algo impossível de mascarar.

Apesar de essa realidade perversa persistir, devido à inércia do sistema geopolítico vigente, os cerca de 1,5 mil participantes do encontro reforçaram que o acesso geral e universal à água potável e ao saneamento integra os Direitos Humanos. A questão básica e desafiadora, na prática, é tornar esse direito factível. As projeções pouco promissoras para os próximos anos já haviam sido destacadas  na 4ª edição do Relatório de Desenvolvimento Mundial da Água (http://www.unesco.org/new/en/natural-sciences/environment/water/wwap/wwdr/wwdr4-2012/),  no ano passado, quando ocorreu o 6º Fórum Mundial da Água, em Marselha, na França, como em ano anteriores e foram propostas centenas de soluções.

O problema é fazer com que haja ações coordenadas e essa questão não é desconhecida à governança mundial e local. Faltam projetos efetivos na área de tratamento e reúso das águas e conservação de ecossistemas. Iniciativas isoladas são propagadas, entretanto, não ganham corpo coletivo ou consorciado.

Na América Latina e Caribe, onde nós brasileiros vivemos, estão mais de 8% da população mundial e desse total, percentual superior a 80% no cotidiano das cidades (zona urbana). É uma bolha prestes a explodir. A expectativa é que em 2030 sejamos 609 milhões de pessoas. E como lidar com esse crescimento demográfico e todos os conflitos que envolvem a necessidade da repaginação das atitudes com relação ao consumo consciente no cotidiano e à maneira de lidar com a produção agrícola e industrial? Não é possível esperar que a salvaguarda na região sejam os 73 aquíferos existentes, com destaque para o Aquífero Guarani.

Se o ciclo vicioso continuar, não é difícil que os países de nossa região estejam na faixa dos hotspots globais como Camboja, Indonésia, Lao, Filipinas, Índia, Myanmar e Tailândia no continente asiático e os países do Chifre da África. Vale observar que pesquisadores da BGS e da Universidade College London constataram recentemente que ao norte da África, nas grandes bacias sedimentares de Líbia, Argélia e Chade, existem grandes reservas de aqüíferos como também no Congo, em Gâmbia, parte de Guiné-Bissau, na Mauritânia e no Senegal, entre outros países. E toda essa abundância está sob um deserto, que um dia foi uma savana. E numa savana, há a perspectiva de se transformar a Amazônia, no continente sul-americano.

Tudo isso reflete as fraturas existentes no nosso modelo de desenvolvimento no planeta. Com a possibilidade de cenários extremos até o final do século, que preveem o aumento da temperatura média do Planeta em até 4,8 graus, segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), a prioridade de ações mais efetivas se torna imediata. Tendo em vista a lógica de que o amanhã “indesejado” será brevemente o hoje.

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