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A curiosa Gansu: dos terremotos à energia renovável, por Sucena Shkrada Resk

13/04/2014 19:56

 Gansu, na China, é um exemplo no planeta que pode ilustrar os extremos ambientais, em que há o contexto de perdas e ganhos diante ao natural e ao antrópico. Um dos locais com os mais devastadores terremotos também é hoje a região onde o país maior poluidor do mundo está aplicando seus principais esforços em energias renováveis.

Em 22 de julho do ano passado, esta província foi afetada por um terremoto de 6,6 graus Richter. O incidente resultou em 95 mortos, 1.001 feridos, 226.700 pessoas que tiveram que ser retiradas de lá e cerca de 76 mil casas destruídas e 67 mil danificadas. Ao todo 417 municípios foram afetados. Com histórico de outras ocorrências anteriores, essa região é uma das mais vulneráveis do mundo, o que se acentua com a presença de várias aldeias de difícil acesso. Intensas inundações em 2010 também causaram deslizamentos e resultaram na morte de aproximadamente 1,3 mil pessoas.

E é justamente neste pedaço instável do gigante asiático, com forte presença de ventos, que fica concentrada a maior parte de empresas de produção de energia eólica do país, em especial na cidade de Jiuquan. Esse grande parque tem capacidade instalada para suprir a demanda da população da Grã-Bretanha e trilha o caminho de ser o maior no planeta. A energia solar também é um recurso que está sendo explorado por lá em contraposição a décadas de extração de carvão e petróleo. Afinal é nesta porção chinesa, que também se concentra grande parte das jazidas de minérios chinesas. Gansun ainda ocupa o nono lugar no país em potencial hidrelétrico.

Mas a província é um local historicamente fadado a desastres naturais. Foram pelo menos, 25 terremotos de magnitude superior a 5,0, em um raio de 200 quilômetros do epicentro de Dingxi, conforme descrito pelo Centro de Supervisão de Terremotos da China (CSTC). Essas ocorrências têm sido aceleradas no país, nos últimos tempos, excedendo a média anual de 20 tremores.

A fatalidade e o efeito destrutivo material, apesar de terem diminuído substancialmente ao longo de décadas, ainda são significativos. Um questionamento básico a fazer é o porquê de tantas pessoas ainda morarem em uma região tão instável. São mais de 26 milhões de chineses, tendo em vista o contexto da maior população mundial.

Nesta região no noroeste chinês, as piores ocorrências de terremotos registradas desde o século XX, aconteceram em 16 de dezembro de 1920, quando 230 mil pessoas morreram, após um terremoto de 8,5 de magnitude na província. Sete anos depois, mais 41 mil vidas foram perdidas, e no ano de 1932, foram cerca de 70 mil vítimas. O país asiático fica no chamado Círculo de Fogo do Pacífico, onde há maior parte dos terremotos e erupções vulcânicas no planeta.  É uma porção da Terra com constantes movimentações de placas tectônicas.

Esse conjunto de informações leva à curiosidade de se conhecer um local tão singular ambientalmente falando no planeta, onde já foi gerada tanta poluição com exploração desmedida de combustíveis fósseis e que também apresenta cerca de 60 reservas naturais. E é justamente nesta região, que está concentrada grande parte das espécies da fauna chinesa, desde pandas gigantes ao leopardo da neve e mais de 400 espécies de aves. A riqueza da vegetação também chama atenção. São quatro mil de plantas selvagens, sendo cerca de um mil, com valor medicinal, segundo o governo chinês. Entre elas, ruibarbo e fungos de larvas chinesas...

Gansu é essa caixa de surpresas, que para nós ocidentais, revela o quanto ainda há de se aprender entre os limites impostos pela linha tênue entre o que pode ser chamado de ‘natural’ e ao que cabe ao ser humano.

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23/02/2014 - Poluição no gigante asiático prejudica população local e extrapola fronteiras

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

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