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05/12/2010 17:59
Especial Fórum Social Pan-Amazônico – A luta só está no começo, por Sucena Shkrada Resk
Lutar pelos direitos mais básicos e ter consciência de que os mesmos são indiscutíveis fazem do Fórum Social Pan-Amazônico, realizado entre 24 e 29 de novembro, em Santarém, no PA, mais uma arena em que ficou perceptível que a pauta das minorais está longe de acabar. Lá, índios, quilombolas, caboclos, feministas, movimentos de diferentes minorias, intelectuais, estudantes e curiosos teceram a agenda, que já é registrada no âmbito do histórico do Fórum Social Mundial – em especial - no de Belém, em 2009.

A questão do território continua sendo uma reivindicação muito importante para esses personagens da Pan-Amazônia, com destaque ao contexto das implementações das grandes hidrelétricas no Norte do país. É como ouvir o ecoar de vozes que querem se libertar, mas ficam metaforicamente represadas.

É uma discussão em que o Estado e o empresariado estão em faixas diversas de sintonia. Por mais que haja os argumentos de Estudos de Impactos Ambientais – Relatórios de Impactos (EIA-Rimas), há um subdimensionamento da perspectiva de curto a longo prazo, nessa esfera socioambiental de diálogo.

Isso diz respeito à história, a tradições, meios de vida, ao reconhecimento de identidade, à biodiversidade, relação de custo-benefício na agenda energética nacional em contraponto a outras fontes, como PCHs, energia eólica, solar, das algas...A comunicação entre todos estes stakeholders (partes envolvidas) está pulverizada e fere o preceito da sustentabilidade. Por mais que se queira negar isso, é um problema que tem de ser encarado com seriedade.

Dentre todos os painéis apresentados no evento, também houve o relato de ações de educomunicação que conseguem sair da superficialidade, e possibilitam o empoderamento por parte dos povos tradicionais e indígenas, como é o Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia.

A iniciativa é um exercício prático dessas populações na autonomia do reconhecimento e gerenciamento do mapeamento de seus problemas socioambientais. Participar de oficinas, ouvir depoimentos e visualizar diferentes fascículos criados em vários locais no Brasil, confirmam a necessidade de ampliação nessa linha de trabalho pró-ativo, que sai do ciclo dos discursos.

Se é suficiente? Obviamente que não.
a Carta de Santarém , que foi o resultado do V FSPA, só reafirma o compromisso de que o reconhecimento dos personagens amazônidas faz parte do paradigma de um Estado, que respeita seu povo, suas angústias e necessidades tão prementes.

O território é só uma delas, sendo que a mais importante, é a qualidade do mesmo. Quando nos deparamos com esgoto a céu aberto, falta de infraestrutura sanitária, viária, logística, de saúde, de educação, aí se configuram problemas que são passados de gestão para gestão e são o alicerce do ‘desenvolvimento’ em seu strictu sensu. É uma realidade, que não pode ser mascarada, em qualquer um dos estados da Pan-Amazônia.

Com a proximidade da Rio+20, em 2012, essa faceta do Brasil, como tantas outras nas demais regiões do país, demonstram que estamos longe da edificação da Carta da Terra, da Agenda 21, do Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, da Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, do cumprimento da resolução nº 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e de tantos e tantos tratados firmados ao longo dos anos.

Não se trata de romantizar uma situação, mas de querer enxergar todos os contextos que envolvem esses problemas, em que a sociedade, ou seja, cada um de nós tem um papel a exercer, nesse complexo quebra-cabeças.

Veja mais no Blog Cidadãos do Mundo - Especial V Fórum Social Pan-Amazônico:
05/12 - Como comunicar nas mídias livres?
28/11 - Círio em Santarém leva à reflexão
28/11 - Sr. Mucura, do Tapajós
26/11 - Conciliação com arte
25/11 - Abertura leva centenas de pessoas à orla

Sucena Shkrada Resk |




05/12/2010 16:37
Especial Fórum Social Pan-Amazônico: Como comunicar nas mídias livres?, por Sucena Shkrada Resk
Acreditar naquilo que se escreve, fala, transmite e pensa e querer compartilhar essas informações faz parte da gênese da chamada mídia livre ou alternativa, em que o processo colaborativo para a transmissão do conhecimento está acima do apelo comercial. O desafio maior, no entanto, é conseguir empoderar a sociedade para se tornar protagonista nesta trajetória da comunicação. Esse foi o ponto central do painel Nossa Imagem e Nossa Voz: Mídias Livres e Alternativas, no segundo dia de debates e seminários do V Fórum Social Pan-Amazônico, no dia 27 de novembro deste ano.

Na opinião de Ermanno Allegri, da Adital – Brasil, conhecer significa ser livre. “Qualquer boletim, rádio comunitária devem ser valorizados. Mas é preciso exigir e ir atrás para que haja expansão (desses meios)”, defendeu.

Para Terezinha Vicente do Ciranda.net, informação é, acima de tudo, poder. “Por isso, ele será maior, quanto mais for organizada”. Na análise da jornalista, hoje ainda há um acesso maior por meio da TV e do rádio e é preciso expandir a proposta da banda larga gratuita para todos. “A comunicação forma valores e a leitura crítica da mídia, nesse sentido, deve ser ensinada desde a infância”, disse.

O fato de a grande mídia misturar informação com entretenimento é um aspecto a ser reavaliado, segundo ela. “ “Conflitos viram show, como se estivessem longe da gente”, falou. Terezinha lembra que em relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO, dos anos 80, no direito à comunicação está o de buscar as fontes, discutir e transmitir a verdade do coletivo.

Na busca de novos espaços para a mídia alternativa, o jornalista Sérgio Miletto informou que foi fundada a Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores de Comunicação - Altercom (www.altercombrasil.com.br), com esse propósito, como um dos resultados da Conferência Nacional da Comunicação - Confecom, no ano passado.

Respeito à regionalidade

A professora Rosane Steinbrenner, da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará (UFPA), reforçou que nos rincões do Brasil, as pessoas têm o direito de decidir como vai chegar a comunicação. “...O destino dos amazônidas (hoje) não está sendo discutido por eles, como com relação à Belo Monte...Sem comunicação, sem território não há jeito de apresentar identidade e, com isso, se pauta em referências externas...”, avaliou.

Nessa seara de exclusões, a educadora conta – “A gente diz que a Amazônia Continental é a periferia da periferia...”. A falta de oferta de tecnologia se acentua principalmente na região Norte rural. Segundo ela, jovens dos 10 aos 18 anos, que recebem na faixa de até três salários mínimos, e que pagam pelos serviços, são chamados de ´geração lan house´. “Só há na região 3% de oferta pública”, diz, baseada em dados do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação - CETIC 2008.

Dea Melo, da ABRA – Brasil refletiu que, ao mesmo tempo, é melhor que essas tecnologias não cheguem às comunidades (incluindo acesso à energia elétrica), caso não haja um preparo da mesma para a assimilação das mudanças a serem inseridas. “O meio de comunicação da Amazônia é tradicionalmente oral. O desafio é como fazer o diálogo entre as ‘raízes’ e as ‘antenas’, afirmou.

E é justamente a educação dialógica que vem com a comunicação, que deve ser pauta também nos espaços formais das escolas (além dos informais e não-formais), segundo Dan Baron, da Rede Brasileira de Arte-Educadores e da Comissão do FSM. “Há jovens no Pará, por exemplo, que não se identificam como da Amazônia”, disse.

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28/11 - Círio em Santarém leva à reflexão
28/11 - Sr. Mucura, do Tapajós
26/11 - Conciliação com arte
25/11 - Abertura leva centenas de pessoas à orla

Sucena Shkrada Resk |




28/11/2010 20:31
Círio em Santarém leva à reflexão, por Sucena Shkrada Resk
O Círio de Nossa Senhora da Conceição, realizado hoje (28), em Santarém, me levou a inúmeras reflexões. Acompanhei parte da procissão, que percorreu várias ruas da cidade, sendo a maior parte na orla, onde pude observar, desde exemplos de fé à falta de educação ambiental. O exercício de apreciar grandes manifestações de massa, nos obriga a ter um olhar mais realista, que independe de religião que sigamos. E com esse pensamento libertador, me inclui no meio da multidão.

Essa experiência me possibilitou conhecer a dona de casa cearense, radicada no Pará, Maria Silva Sousa, 85 anos, que estava acompanhada por duas de seus 12 filhos. Ela caminhava com certa dificuldade em meio a centenas de pessoas, mas com um semblante feliz, que me cativou. Isso me fez abordá-la, para saber o que levava àquela manifestação, que percorre uma longa extensão. E a resposta foi surpreendente.

´É a fé. Gosto de Nossa Senhora. Já fui atendida em meus pedidos...Não sinto nenhum cansaço, nada de agonia. Estou bem, graças a Deus`, disse dona Maria, que há pelo menos 30 anos participa da celebração. A espontaneidade expressa por ela realmente me proporcionou um bem-estar e respeito à sua devoção.

Depois desse momento, em particular, pude vislumbrar o conjunto da caminhada. Aí me deparei com um problema, que infere falta de educação ambiental. A quantidade de garrafinhas de água e de refrigerante jogadas nas ruas e calçadas por pessoas, que participavam da procissão, era realmente significativa. Em dado momento, vi uma jovem jogar, sem titubear, a garrafa que estava em suas mãos, e continuar no cortejo, como se nada tivesse acontecido.

O mais interessante é que na fala de uma representante da igreja, que se pronunciou durante o evento, uma das preocupações apontadas foi quanto ao meio ambiente. Em contra-partida, alguns cidadãos não estavam sintonizados com o papel que cabe a cada um de nós, neste sentido. Talvez, quem saiba, nas próprias igrejas ou em espaços ecumênicos, essa pauta possa ser melhor difundida.

Nesse caminhar, mais questões me surgiram, quanto à infraestrutura urbana local. Não dava para deixar de ver o esgoto escorrendo nos meios-fios e desembocando diretamente no rio Tapajós, que atualmente sofre com a estiagem. Os corpos de areia, que surgem na orla, em decorrência, da diminuição do volume de água, também revelavam essa faceta de saneamento ambiental que precisa ser melhorada.

Depois dessa imersão, parti para o Parque da Cidade, para participar do penúltimo dia do V Fórum Social Pan-Amazônico. E lá, parei antes para visitar a feira de economia solidária paralela, formada principalmente por associações de ribeirinhos ou cooperativas locais. E aí, mais uma reflexão surgiu. Ao ouvir narrativas, percebi que ao mesmo tempo, que artesãs se esforçam em participar de capacitações para aprimorar seus produtos (como artefatos de palha de tucumã, entre outros), ainda enfrentam dificuldades na gestão da comercialização.

E aí parti para as tendas do fórum, em que as reivindicações dessas populações no Brasil e em outros países da Amazônia, me deixaram cada vez mais certa, que é preciso ser revisto com brevidade o conceito de desenvolvimento e qualidade de vida em nosso planeta.

Sucena Shkrada Resk |




28/11/2010 10:25
Especial Fórum Social Pan-Amazônico - Sr.Mucura do Tapajós, por Sucena Shkrada Resk


O nome dele é Antonio de Oliveira, 72 anos, mas todo mundo o conhece por ´senhor Mucura´. A primeira pergunta, é claro, o que significa, e ele logo explica - ´Ganhei esse apelido quando era criança. Mucura é um animalzinho que vive na floresta que exala um cheiro muito forte e, que quando molhado, o cabelo fica todo separado`, conta o caboclo nascido na comunidade de Jauarituba, na região do Tapajós, PA. Esse é o indício de sua história com relação à terra, que brevemente deverá virar um livro, que escreve à mão e já totaliza 236 folhas, que mistura vivências e muita pesquisa, como destaca, desde 1918...

´Desde 1965, escrevo minhas experiências de vida´, diz. E que experiência, diga-se de passagem. Oliveira conta que viveu a maior parte de sua vida em Santarém. ´Trabalhei 20 anos como agricultor. Participei 20 anos (62-82) da Catequese Rural, depois do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém (82-2005). Fui comandante em embarcação que fazia o percurso para o Amazonas e Belém´, recorda.

Mas suas experiências não pararam por aí. O agricultor, navegador, sindicalista lembra que grande parte da sua vida sobreviveu do roçado. ´Acordava 8h e voltava pelas 15h. Ah` - emenda – Também trabalhei no Movimento de Educação de Base – MEB em uma comunidade e, durante seis anos, cuidei do Programa de Desenvolvimento do Extrativismo, no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA).

Dessa gama de experiências, ele afirma que surgiu a consciência ambiental, quando começou a fazer parte do Conselho Nacional de Seringueiros (CNS). ´Uma luta que começou em 1975, pela defesa da terra, para quem trabalha nela. Enfrentamos as grandes madeireiras. Criamos a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. Uma luta, que começou primeiro no âmbito dos movimentos eclesiais e depois, na década de 80, passou para o movimento sindical`, explica.

Essa defesa tinha endereço certo, segundo ele. Dos rios, da terra, da floresta. ´Hoje também trabalho com a questão do lixo na cidade e no interior. ´Senhor´ Mucura trabalha em várias frentes, na Escola da Floresta, ligada ao setor de educação municipal de Santarém. ´Fazemos reflorestamento, pois a mata é secundária´. Ele ensina que há espécies regionais que precisam ser preservadas, como o cedro, jatobá, ipê, itaúba. ´Também as frutíferas, como o açaí, bacaba, castanha, pequi e uxi´.

Os trabalhos para conservação do meio ambiente o deixam realizado. ´Eu também criei meus filhos com recursos naturais, pescando... Na época, também caçava caititu e queixada e com o tempo criei consciência que tem de ser algo controlado, para o sustento´, recorda.

Não tem preço o valor da conservação da biodiversidade, na opinião dele. ´Para ganhar dinheiro, não precisamos fazer desmatamento e nem matar espécies. Através do ecoturismo podemos ter o nosso sustento´, defende.

Além de suas atividades na Escola da Floresta, ´senhor´ Mucura faz artesanato com resíduos da floresta, conta muitas histórias para a garotada da segunda fase do ensino fundamental e visitantes, que frequentam o espaço.

Aí ele dá uma respirada e lembra de mais uma passagem de suas inúmeras atribuições, em pelo menos, seis décadas. Antes de fazer parte da Escola da Floresta, o simpático caboclo – com um pé rural e outro na área urbana – trabalhou no mesmo local, que fica em Alter do Chão, a 1h de Santarém, no Projeto Peixe-Boi (já desativado).

´Fizemos pesquisas, ouvindo histórias...Os primeiros exploradores que vieram para cá, matavam muitos exemplares, como também de jacaré e, nós, (brasileiros) seguimos essa onda, mesmo sendo nativos`. Ele lamenta o fim do trabalho de conservação, que ocorreu nos anos 2000, por questões principalmente de recursos.
E aí termina a prosa de forma amistosa – como é comum entre a comunidade local -, já que não há tempo a perder. Segue compenetrado em defesa da população ribeirinha, cabocla, dos índios, para mais uma atividade - participar de um dos paineis do V Fórum Social Pan-Amazônico, que acontece até o dia 29 de novembro, em Santarém.

Diante de toda essa vivência, agora, é esperar pelo lançamento de sua obra, que em 2011 deverá estar nas prateleiras e de mais um trabalho, que começa a todo vapor, segundo ele. ´Meu próximo livro será sobre os 12 anos da instituição das reservas extrativistas´, diz.

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26/11 - Conciliação com arte
25/11 - Abertura leva centenas de pessoas à orla

Sucena Shkrada Resk |




26/11/2010 23:16
Especial Fórum Social Pan-Amazônico - Conciliação com arte, por Sucena Shkrada Resk
Uma das atividades desenvolvidas no primeiro dia (26) da programação do V Fórum Social Pan-Amazônico, em Santarém, teve como foco, a promoção de oficinas voltadas à conciliação de conflitos. Os participantes mostraram sua ´porção artista´, em pinturas e produção de adereços e interpretações, que resultaram em um ambiente animado em uma das salas de uma escola estadual local, onde houve parte da agenda do dia.

Segundo o padre José Boing, presidente da Comissão de Justiça e Paz da Verbita Justiça, Paz e Integridade da Criação na Amazônia, filiada à entidade internacional ligada aos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), a preocupação é de se formar agentes de justiça e paz nas próprias comunidades.

´O objetivo é capacitar líderes locais que queiram aperfeiçoar o papel de mediador. Para isso, serão orientados para entender as leis e como ajudar a diminuir, desde conflitos ecológicos ao tema da terra`, diz. Entre as técnicas aprendidas, está a de abordar métodos de reconciliação em situações de crise, como entre vizinhos. ´Pensamos na justiça restaurativa e em ajudar também as pessoas a não cometerem mais crimes ecológicos, por exemplo´, fala.

Uma das estratégias de sensibilização utilizadas é da produção de bonecos para teatro, com objetos descartados no lixo. ´Cada um produz o seu, descobre a habilidade de algo para o bem`, explica. A dança e as artes plásticas também são incorporadas às opções.

Essa iniciativa teve início em Santarém, em 2003, e foi expandida a 10 municípios vizinhos. ´Hoje há 320 agentes comunitários de justiça e paz nessas comunidades`, relata padre Boing.

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25/11-Abertura leva centenas de pessoas à orla
Sucena Shkrada Resk |




26/11/2010 00:10
Especial Fórum Social Pan-Amazônico-Abertura leva centenas de pessoas à orla, por Sucena S.Resk
Hoje houve o lançamento do V Fórum Social Pan-Amazônico, em Santarém, PA, que reuniu centenas de pessoas em uma caminhada, desde o Parque da Cidade até a orla à beira do rio Tapajós. Foram praticamente duas horas em que cidadãos amazônidas e de outras partes do Brasil e dos países da região puderam se manifestar por meio da música e de cartazes, que repudiavam a violência contra a mulher; tratavam da reivindição da reforma urbana e que afirmavam a ação dos povos indígenas em defesa da Mãe Terra, entre outras pautas.

No meio desses cidadãos, estava a quilombola Maria Zenaide Rodrigues, 66 anos, que com suas vestes coloridas e semblante risonho, se destacou em meio à multidão. ´Meu traje é da minha terra. Esse colorido representa a Amazônia e a beira do rio`, contou. Segundo a líder da comunidade do Quilombo de Umaicá, próximo à cidade, estava lá principalmente para se mobilizar em defesa das mulheres.

´Muitas vezes, somos discriminadas e não temos liberdade. Quando todas nós nos unimos, por essa causa, nos sentimos felizes e temos um crescimento especial´, afirmou. A dona de casa, mãe de oito filhos, ainda destacou a importância da ligação com suas origens. ´Eu sou a raiz e meus filhos, os galhos, que partiram para o mundo´. E completou - ´Eu ainda trabalho, faço tapete, bordo e pesco muito. Sou viúva hoje e nada me para (de seguir meus ideais), só Deus`.

Logo, no início da caminhada, segurando um dos lados da bandeira do Fórum, estava a jovem indígena Raquel Ester Kampá Pereira, 19 anos, que também narrou a ânsia pelo respeito aos direitos humanos e por uma sociedade igualitária. ´O que me motiva estar aqui é mostrar para a população que nós (indígenas, quilombolas, caboclos...) fazemos parte do mundo. É um momento para poder gritar e para que ouçam esse grito por nossa luta´.

Segundo a estudante, ao olhar para os companheiros de caminhada e observar uma representativa presença de jovens a fez sentir esperança. ´Queremos coisas comuns. Que todos tenham o que comer, possam viver na terrra sem ter medo de assumir sua identidade. Eu sou índia, apesar de muitos acharem que não, por causa das roupas e traços´, disse.

Maria e Raquel se uniram a mais manifestantes que entoavam cânticos ou palavras pela defesa da igualdade ao som da Fanfarra Afro-Amazônica, na qual, havia em grande parte, jovens quilombolas, que tocavam músicas alegres e dançantes, contagiando os demais.

Nessa atmosfera, nem o calor intenso do final de tarde, na faixa dos 30 graus, foi capaz de dissuadir os manifestantes. A celebração mística teve um destaque especial, durante o evento. No início, povos tradicionais e indígenas fizeram um ritual, em que cada representante da Pan-Amazônia colocou uma porção d´água em uma cuia, simbolizando a metáfora sobre a união dos povos. Na fase de encerramento, à noite, tochas acesas iluminaram o trecho de areia próximo à beira do Tapajós, como sinal de abertura de caminhos. O encontro prossegue até o próximo dia 29 de novembro.
Sucena Shkrada Resk |




15/11/2010 17:51
São Paulo cria seu Fórum Social, por Sucena Shkrada Resk
Créd.foto: Sucena S.Resk

São Paulo se insere oficialmente na agenda local do Fórum Social Mundial, com o lançamento do
Fórum Social de São Paulo , ocorrido no último dia 9 de novembro. A iniciativa, que reúne diferentes movimentos e entidades do terceiro setor na 'região metropolitana", tem o objetivo de organizar as ações da sociedade civil para potencializá-las. De acordo com os organizadores, o primeiro grande encontro está programado para maio de 2011. Até lá, está agendada uma série de reuniões de grupos de trabalhos (abertos a novas adesões), desde a área de comunicação à ambiental.

Ao ouvir as falas dos representantes de iniciativas socioambientais, que se manifestaram, na terça-feira, foi possível perceber nas entrelinhas, a necessidade de inclusão no que se refere à gênero, raça, condições socioeconômicas, socioambientais e, acima de tudo, quanto à visibilidade de projetos já existentes mas, muitas vezes, desconhecidos da população.
A ambientalista Nina Orlow, por exemplo, expôs a proposta de um diálogo efetivo sobre Educação Ambiental em São Paulo, que teve um primeiro
painel sistematizado, reunindo sociedade, governo e academia, no dia 12, sob organização dos GTs de Meio Ambiente e de Educação, da Rede Nossa São Paulo.

Uma integrante da Agenda 21 do Centro contou que na região, cidadãos se articulam pela igualdade social. "Atualmente, nos encontramos no segundo passo do processo de nossa agenda, que está no quarto ano", disse.

No bairro de Bela Vista, a Rede Social que leva o mesmo nome, se mobiliza para o resgate do Bixiga, com o mote '2014', ao fazer uma conotação à Copa do Mundo.

Enfim, o que é possível avaliar preliminarmente, é que o desafio imposto é de se difundir o conceito do bem coletivo, para que haja, de fato, a consolidação de uma rede social, na qual antigos e novos atores possam construir planos de curto a longo prazo, que contagiem as novas gerações. E São Paulo é um universo gigantesco de paradoxos a serem superados.


Sucena Shkrada Resk |




01/11/2010 14:56
COP10-Biodiversidade: cartas colocadas à mesa, por Sucena Shkrada Resk
A
Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP10) , realizada em Nagoya, no Japão, entre 18 e 29 de outubro, foi encerrada com o desafio de que os 193 países representados - incluindo o Brasil - ratifiquem e cumpram as 20 metas acordadas no Plano Estratégico, para os próximos 10 anos, além do Protocolo sobre Acesso e Repartição de Benefícios dos Recursos Genéticos da Biodiversidade (ABS)... O que se espera é que as decisões não se transformem no desenrolar do Protocolo de Kyoto (no âmbito do clima) ou repliquem o acordo anterior não cumprido...Enfim, as cartas foram colocadas à mesa.

A coordenação do evento expõe como principais diretrizes, a aprovação de cerca de metade dos participantes, da possibilidade de se reduzir a quase zero a taxa de perda de habitats naturais, incluindo florestas. Outro acordo significativo estabeleceu a meta de conservação de 17% das águas interiores e áreas terrestres e 10% dos recursos marinhos e áreas costeiras. Hoje há 12% de áreas protegidas terrestres em todo o mundo e apenas 1% para os oceanos. Os governos ainda se comprometeram a recuperar, no mínimo, 15% das áreas degradadas em seus territórios.

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, declarou à Agência Brasil, que o país tem grandes desafios a enfrentar no tocante principalmente à conservação do Cerrado e da Zona Costeira.

Mais um aspecto considerado positivo entre as propostas firmadas, foi a inclusão do valor da biodiversidade nas contas públicas dos países, como também, da redução de subsídios destinados a atividades consideradas prejudiciais à biodiversidade.

Quanto à aprovação do Protocolo ABS, que nada mais é que um instrumento contra a biopirataria, pode-se dizer que foi a conquista mais árdua, durante todos esses dias de negociação. A meta é que haja base do consentimento prévio informado e condições mutuamente acordadas e a partilha equitativa dos benefícios, tendo em conta o importante papel do conhecimento tradicional (índigenas/povos da floresta). Para isso, foi proposta ainda da criação de um mecanismo multilateral global, que irá operar áreas transfronteiriças ou situações em que o consentimento prévio informado não pode ser obtido.

O encontro, que reuniu mais de 18 mil participantes, também agregou maior integração da biodiversidade com a agenda da mudança climática e do uso da terra, no Pavilhão Ecossistemas ( www.ecosystemspavilion.org), para costurar propostas para a COP16 (Climática), no México. Este será mais um importante evento ambiental para ser acompanhado.



Sucena Shkrada Resk |




26/10/2010 15:10
A Psicologia e os índios: na busca de respostas, por Sucena Shkrada Resk
Tudo é muito novo. Assim pode ser caracterizada a relação da Psicologia (tradicional) com o universo indígena. A busca de respostas para esse diálogo foi o mote
para a publicação da obra disponível em PDF, que trata do tema , lançada neste ano, pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP). No livro, são relatadas diferentes iniciativas no estado, entre 2007 e 2009, que tentam encontrar o equilíbrio entre as diferentes culturas.

Como principais recomendações, estão as seguintes diretrizes dispostas na parte final do documento, que reúne relatos tanto de psicólogos, como de lideranças indígenas de diferentes povos:

-O desafio das sociedades nativas é poder manter um contato com a sociedade nacional sem perder a integridade cultural e étnica. Este desafio deve ser tratado também como premissa ético-política dos psicólogos com as comunidades indígenas, embasando suas práticas e concepções.

-Apoiar as lutas dos povos indígenas, especialmente pelo direito à terra e à implantação de projetos estruturantes que promovam o desenvolvimento sustentável das aldeias.

-Apoiar a educação indígena diferenciada, expressa pela Constituição Federal, que garante uma educação bilíngue e a valorização étnica e cultural.

-Promover saúde mental a partir de um enfoque psicossocial, com base nos determinantes sócio-históricos dos problemas enfrentados hoje pelas diversas comunidades. Superar relações históricas de dominação.

-Fortalecer os laços familiares e comunitários. Intermediar conflitos e promover vínculos integradores da comunidade, por meio do fortalecimento da identidade étnica e cultural e da legitimação dos conhecimentos tradicionais.

-Inserir a temática indígena nos espaços de debate e formulação de políticas • públicas, como Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente, da Saúde, da Assistência, da Educação. Torná-los presentes na formulação de políticas locais.

-Incentivar a participação de lideranças indígenas nesses espaços e na relação com pesquisadores.
-Contribuir nas discussões interdisciplinares, especialmente sobre a natureza dos processos psicossociais e a ética nas relações interculturais.

-Tratar de modo diferenciado cada etnia, em função de sua cultura particular.

-Tomar cuidado nas pesquisas de campo; princípios éticos devem prevalecer aos interesses acadêmicos. Garantir as devolutivas dos conhecimentos produzidos às comunidades interessadas

Entre outras.

“...Já existe a psicologia do indígena que é conhecida pelo pajé. Agora, se deve aproveitar a potencialidade de ambas culturas. É importante compreender que a dimensão subjetiva não se expressa das teorias mais importantes da Europa. Ao mesmo tempo, a generalidade servirá para qualquer ser humano, como o exemplo das dinâmicas de grupo adaptadas às circunstâncias locais”, explica o psicólogo Odair Furtado.

Na análise da pedagoga Dora Pankararu, os indígenas apreendem ainda hoje o conhecimento da vivência e não do que a Academia busca. “...O mais velho é a estrutura da comunidade. Muitas vezes, os pesquisadores têm pressa a abordá-los e esses (anciãos) pedem que eles venham outro dia e, em algumas ocasiões, também não entendem as perguntas”, explica. São tempos e necessidades diferentes a serem conciliadas, segundo ela.

Em sua avaliação, desde 2007, há um estreitamento das relações entre os psicólogos e indígenas, mas ainda existem questionamentos por parte das comunidades. “Quanto tempo (o psicólogo) vai permanecer? Será que só quer pesquisar? Vai falar o que contei sobre o vizinho?”, diz.

Para Edinaldo Xucurú, estudante de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), o desafio está em desconstruir bases com conceitos da colonização europeia, para alicerçar trabalhos genuinamente brasileiros. Ele produz hoje um livro voltado à saúde indígena, focado no estado de PE, onde fica a etnia a que pertence. Segundo ele, os pajés ainda hoje são vistos como ‘grandes psicólogos’, entre os povos indígenas, e isso não pode ser desprezado.

Para o pesquisador, no campo da psicologia, existe hoje um tempo de diálogo entre as populações indígenas e brancas, que devem construir uma proposta conjunta.
Ao se constatar ‘esses dois mundos’ da psicologia, se verifica que na última década, surgem demandas na área indígena, por serviços de saúde mental, com o uso de medicamentos psicotrópicos, como também problemas de alcoolismo. Mais um problema em que o campo da psicologia pode contribuir, na visão de algumas comunidades e especialistas, é em relação às que estão em terras demarcadas, pois passaram por processo de perseguição extensa e tiveram de desenvolver outras técnicas de sobrevivência.

O antropólogo Rinaldo Sérgio Vieira Arruda, coordenador do Núcleo de Estudos de Etnologia Indígena, Meio Ambiente e Populações Tradicionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), constata a importância de se reconhecer as (diferentes) formas de sentir o mundo. “Na socialização, se incorpora maneiras emocionais, por meio da cultura, que tem muitos significados. O ser humano não é somente um organismo físico biológico que age automaticamente”, diz.

Segundo o especialista, o ambiente cultural está ligado à história do grupo no qual nascemos. “Mas as culturas nunca estão isoladas...não têm fronteiras. A diferença, entre uma e outra, está na maneira como cada povo incorpora esse conteúdo”, alerta.

A quebra de paradigmas são estratégicas para esse novo olhar, em sua opinião. “Quando as mudanças ocorrem conosco, chamamos de progresso; quando ocorre com os outros, visualizamos como perda”, ilustra para reflexão

Arruda explica que a questão identitária se desenvolve no campo político. “E apesar de ações conservadoras ainda vigentes, o próprio movimento indígena abriu muitos espaços”, avalia.

Mais informações sobre as ações do Grupo de trabalho do CRP-SP sobre a Psicologia e os povos indígenas podem ser consultadas no site http://www.crp06.org.br/povos/acoes.aspx.

Veja mais, no Blog Cidadãos do Mundo:
19/09/2010 - O pensamento de nova liderança indígena, por Sucena Shkrada Resk

Sucena Shkrada Resk |




19/09/2010 17:19
O pensamento de nova liderança indígena, por Sucena Shkrada Resk
O atual cacique da aldeia Tenondé Porã, na região de Parelheiros, em São Paulo, é o jovem Ataíde Gonçalves Papá Mirin, de 24 anos, que também atua como conselheiro na Comissão Nacional da Juventude Indígena. Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, concedida em agosto deste ano, ele conta quais são os anseios e desafios de seu povo, no século XXI.

Cidadãos do Mundo - Ataíde, conte um pouco de sua história.

Ataíde - Tenho quatro irmãos e quando tinha entre 12 e 13 anos já fazia trabalhos voltados para a educação. Eu me formei como educador, quando estava no Espírito Santo. Há um ano sou cacique, aqui, e antes fui coordenador do conselho guarani local. A liderança anterior foi do cacique Timóteo.

Cidadãos do Mundo - Quais são seus anseios como nova liderança?

Ataíde - Eu tenho vontade de adquirir mais conhecimentos para a minha comunidade. A vida é uma aprendizagem. Nossa maior preocupação é cuidar para que nossos jovens não caiam no mundo e se entreguem para as drogas. Já fiz antes trabalho em três aldeias voltados para essa questão e ainda tenho muito a aprender para orientar a minha comunidade. A liderança, como o pai de família, passa os conhecimentos por gerações.

Cidadãos do Mundo - Que elos há entre o seu povo e outros que falam guarani no Brasil?

Ataíde - Nosso elo é a luta pelo território. No nosso caso, hoje somos 1,2 mil pessoas distribuídas em um território de 26ha, que se tornou pequeno, e é um desafio. Na década de 80, cerca de 90 pessoas de meu povo seguiram para cá e formaram nossa aldeia. Daí houve mais migrações vindas do PR e ES. Atualmente a maioria da população local (70%) é de crianças e adolescentes. Outra luta em comum é pela saúde e educação e para ter o espaço de nossa cultura valorizado pelos não-indígenas.

Cidadãos do Mundo - A educação bilíngue ajuda nesse processo?

Ataíde - A educação bilíngue é importante para que a gente consiga reivindicar em português e em tupi-guarani e para compreender os documentos escritos dos brancos. Hoje nosso povo frequenta duas escolas. Na municipal, as crianças de 0 a 6 anos aprendem nossa cultura índigena, e a continuação é na estadual, onde começam a aprender português.

Cidadão do Mundo - Como você faz para ter uma comunicação contínua com outros jovens indígenas, já que participa da Comissão Nacional da Juventude Indígena?

Ataíde - Hoje o orkut é um dos principais elos de comunicação, além do MSN. Na minha lista, tenho quase 1 mil participantes, sendo a maioria indígenas.

(Ataíde concedeu a entrevista antes do lançamento do livro Psicologia e Povos Indígenas, do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo)
Sucena Shkrada Resk |




19/09/2010 15:16
Pensata: Joverina e Benedito, cidadãos brasileiros, por Sucena Shkrada Resk
Outro dia eu estava refletindo sobre quais são as situações nas quais eu realmente sinto aquela sensação terna de bem-querer, e cheguei à seguinte conclusão: uma dessas vivências ocorrem quando posso compartilhar histórias de vida de pessoas humildes. Ouvi-las me faz recarregar todas as energias dissipadas em experiências desgastantes do cotidiano frenético, em que "ter" parece ser um divisor de águas. E foi assim, que dona Joverina, 56, em Gaúcha do Norte, MT, me fez sentir com um "dedo de prosa", no saguão de um pequeno hotel local, onde eu estava hospedada, voltando da viagem à aldeia Aweti, no mês de agosto.

Ela e seu marido Benedito, que moram há pelo o menos 60 km da cidade, estavam lá, aguardando para falar com um rapaz responsável pelos contatos administrativos com as populações, que aguardam chegar energia na área rural, no Programa Luz para Todos. Eles precisavam autorizar que os postes fossem instalados em suas propriedades e aí deveriam esperar mais (um tempo indeterminado), para ver se iriam ser beneficiados ainda este ano. No caso dessa família, já se somavam pelo o menos dois anos, nessa expectativa.

Dona Joverina contou que nunca havia tido contato com energia elétrica nos lugares em que morou, exceto quando visita sua filha casada. Os candeeiros e velas iluminam há décadas seu cotidiano, desde seus avós e pais. E como uma criança, que exprime grandes expectativas, falou - "...O Benedito já chegou a comprar uma TV e um freezer, faz dois anos, que ainda estão na caixa, na espera de a gente conseguir que chegue a luz elétrica em casa".

Quando ela mencionou isso, foi como se alguns cenários se formassem em minha mente e vi como há tantos brasis. Imaginem, como para essas pessoas adquirir um bem de consumo tem um valor tão diferente do nosso, que vivemos nas metrópoles. Eu me emocionei, pois ela estava narrando uma realidade que se contrasta do adquirir desenfreado que faz com que se lotem as lojas todos os dias de clientes que querem o mais moderno, apesar de já ter modelos que mal acabaram de pagar.

Durante o bate papo, ela me convidou para conhecer a casa dela (sem ao menos saber quem eu era realmente), mas com uma amistosidade tão encantadora, que me fez sentir bem.

A dona de casa falou ainda que cultivava um pouco de horta para alimentação, mas que um glaucoma a impedia de fazer muitos esforços. Mas logo em seguida, disse contente -
"Ah, mas agora a gente espera fazer a primeira colheita, da carreira de pequi, que o Benedito plantou", afirmou.

Resolvi destacar essa conversa no blog, pois são desses pequenos encontros, que as nossas vidas são feitas, e às vezes, esquecemos, nos lembrando somente daqueles que não merecem tanta atenção...

Sucena Shkrada Resk |




09/09/2010 19:02
Cepal utiliza metodologia da síndrome de mudança climática, por Sucena S.Resk
A Comissão Econômica para a América Latina e Caribe da Organização das Nações Unidas (CEPAL/ONU) adota hoje a Metodologia da Síndrome de Mudança Climática e sustentabilidade, que foi desenvolvida pelo Postdam Institut for Climate Impact Research (www.pik-postdam.de), para atuar na região. Projetos estão sendo desenvolvidos na Argentina, Colômbia e México, sob esse modelo de sistema.

“É um instrumento que tem a relevância de reconhecer as causas de mudanças no meio ambiente, ao promover a seleção de plataforma de indicadores e envolver diversos stakeholders”, diz o Doutor em Economia, Andrés Schuschny, da Divisão de Recursos Naturais e Infraestrutura, da Cepal, em Santiago, no Chile. Ele foi um dos palestrantes do Simpósio Internacional de Mudanças Climáticas e Pobreza na América do Sul, realizado pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), neste mês.

Segundo o especialista, nesse sistema, primeiro foram identificados os problemas centrais das mudanças globais, como mudança climática, degradação do solo, perda da biodiversidade, escassez e contaminação das fontes de água potável, dos oceanos e incidência crescente dos desastres naturais pressionados pela ação antrópica.

Ao todo fizeram a descrição de 16 síndromes globais. Entre elas, está a do desenvolvimento, que tem a ver com a economia. “Nessa síndrome, se constata a deterioração das paisagens naturais, como resultado de projetos de grande escala, degradação por métodos agrícolas inapropriados e por causa do crescimento urbano descontrolado, além da síndrome da favela, dos Tigres Asiáticos, ....e de grandes acidentes, como Chernobyl”, explica.

Nesse modelo, também existe a síndrome do sumidouro, que está relacionada à chamada síndrome da chaminé e da terra contaminada. “Dependendo do local, em que se é aplicada a metodologia, são investigados quais itens têm maior relevância e urgência”, diz Schuschny.

As esferas de intervenções são divididas entre as biosfera e atmosfera, instâncias hidrológica, demográfica, dos solos, econômica, de cultura, de organização social e de inovação. “Isso quer dizer que são incorporadas as principais pautas da problemática socioambiental. E aí vai se fazendo as relações mais aprofundadas e o cruzamento entre essas áreas, para se encontrar as causas dos problemas. A proposta é quebrar o ciclo vicioso”, expõe o economista.

“Na Argentina, sobre a região dos Pampas, por exemplo, houve o diagnóstico de uso crescente das terras para cultivos agrícolas, além de intensificação do monocultivo”, relata Schuschny.

De acordo com o economista, houve aumento de mais de 70% da superfície agrícola entre 1988 e 2002. O monocultivo da soja é mais de 90% transgênico. Quanto a impactos ambientais, há prognósticos de erosão severa e diminuição de rendimento entre 30 e 40%, por exemplo. “A intensificação da soja causou efeitos sociais, como perda de emprego rural. É uma grande teia de relações”, analisa.

No âmbito de países da América Latina e Caribe, a Cepal já produziu 14 informes de avaliação de desastres, segundo ele. “Foram observados 13 fatores recorrentes e proposta a síndrome de vulnerabilidade como ponto de partida para negociações. Foi previsto o incremento de ocupações em áreas de riscos, relacionadas ao aumentos de afetados por desastres”, diz. Em sua avaliação, hoje ainda há pouca comunicação entre os setores acadêmicos e estruturas de governo, como também falta de alerta aos riscos e meios de prevenção, nessas circunstâncias.

Segundo Schuschny, há prós e contras ao se adotar essa metodologia, por isso, é necessário haver redução de redundâncias, para que o instrumento possa ser aplicado, e não exista conflitos entre escalas locais e nacionais. “Caso houver um ‘mal desenho’, pode resultar em dados confusos ou reduzir a complexidade do tema. Se a sociedade não valida o indicador, não tem sentido”, considera. O gargalo, em sua opinião, ainda é a ausência de informação básica e a falta de consciência ambiental.

Mais um aspecto a se considerar nas análises, é a identificação de variáveis quanto a indicadores, como também definir marco conceitual e tratamento de dados perdidos. “O tema de mudanças climáticas está relacionado a áreas protegidas, de cultivo com fertilizante e pesticidas, quantidade de espécies ameaçadas, áreas degradadas, afetadas por desertificação e proporção de áreas com florestas”, afirma.

Nessa escala de aprofundamento, são avaliados os recursos hídricos disponibilizados, qualidade das águas, estado de contaminação e tratamento de águas residuais. Com relação aos oceanos, população vivendo em áreas costeiras, peixes em limites biológicos seguros. No campo da atmosfera, as emissões de CO2, consumo de substâncias que esgotam a camada de ozônio e concentração de contaminação do ar.

Ao se pesquisar desastres naturais, são levantadas áreas propensas para as ocorrências, como também números e tipos, prevenção e respostas os mesmos.
São avaliados ainda padrões de produção e consumo sustentável, no tocante a materiais, intensidade de uso energético, fontes renováveis, proporção de tratamento, transporte terrestre, aéreo, serviços sanitários, água potável, acesso à energia e condições de vida das pessoas vivendo em favelas, entre outros.

Para completar o ciclo, a gestão ambiental é mais um aspecto priorizado. “São apuradas as companhias com ISO 14001, feitas avaliações de indicadores de informe de estado ambiental, sistemas de informação, convenções internacionais e financiamentos”, explica o representante da Cepal.

Sucena Shkrada Resk |




08/09/2010 16:37
Pensamentos de Alfredo Pena-Vega, por Sucena Shkrada Resk
O pesquisador e escritor Alfredo Pena-Vega, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, autor de O Despertar Ecológico, pela Garamond, é um defensor da ecologia complexa, e nutre obviamente, por Edgar Morin, grande reconhecimento. Os seus trabalhos mais recentes são sobre a consciência ecológica dos jovens na China, país que figura como maior emissor de gases de efeito estufa (GEEs) no planeta.

Para o acadêmico, não é possível esquecer em qualquer que seja a análise, a componente histórica. "Qual é a história de noção de natureza e meio ambiente? Há a importância da contextualização, para compreender, por exemplo, as catástrofes dos últimos 20 anos. Como Edgar Morin diz, existe um blecaute. Cada prática social construiu uma imagem da natureza. Isso levou a uma situação viciada da mesma", avalia.

Segundo o pensador, é necessário para todos que trabalham com Meio Ambiente, que revisitem o relatório de Roma, que alerta sobre o que acontecerá décadas depois. "É o primeiro passo para verificar o sistema de mundo... Chernobyl, Mar Negro, chuvas ácidas....Trabalhei 10 anos, na Ucrânia e Bielorrússia sobre Chernobyl e nos últimos 20 anos, sobre Aquecimento Global. Por isso, vejo a necessidade de reconstruir a noção de meio ambiente", diz.

Ele ainda defende que haja a revisão epistemiológica e se revisite os últimos 40 anos, para se mudar os paradigmas. "É importante entender natureza, ecologia e sociedade. A Ecologia nasce como Ciência para entender a complexidade da biosfera. Minha crítica, é que desde o século XIX, acabou isolando o homem do meio ambiente", critica o cientista social.

Alfredo Pena-Vega foi um dos palestrantes que participaram do Simpósio Internacional de Mudanças Climáticas e Pobreza na América Latina, realizado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), entre 29 de agosto e 1 de setembro deste ano.

Veja mais no Blog Cidadãos do Mundo:
08/09 - Precisamos nos reconhecer sul-americanos (II)
08/09 - Precisamos nos reconhecer sul-americanos (I)
02/09 - Adaptação tem de ultrapassar a retórica

Sucena Shkrada Resk |




08/09/2010 16:03
Precisamos nos reconhecer sul-americanos (II), por Sucena Shkrada Resk
Durante o Simpósio Internacional de Mudanças Climáticas e Pobreza na América Latina, realizado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), tive a oportunidade de ouvir, no dia 31 de agosto, relatos de pesquisadores do Equador, Paraguai e Uruguai sobre os problemas que afligem esses países, além da Bolívia e Chile, no dia anterior. Os diagnósticos, apesar de parciais em alguns setores, devido à falta de disponibilidade de dados, revelam mais uma vez como são urgentes ações de adaptação em nosso continente. As doenças infecto-contagiosas tendem a se alastrar, caso nenhuma medida de fundo sanitário e de planejamento urbano seja tomada.

Equador...

Sandra Jimenez, da Pontifícia Universidad Católica del Ecuador, reitera que o tema ambiental tem conotação econômica importante. "A zona rural representa 35% da população e 18% do território são áreas protegidas, mas a exploração do recurso de petróleo tem levado ao desflorestamento. Na área de saneamento, o país tem hoje 15% das casas com cobertura, sendo 72% de água encanada", fala.

Estudos que já estão sendo viabilizados no país apontam secas futuras em regiões de montanhas, como na Amazônia. "As comunidades mais expostas, são indígenas e de origem afro", esclarece a professora.

"No Equador, foi criado um índice de risco provincial, baseado no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), entre 2010 e 2030. Cruza cobertura vegetal e registra cenários de clima de alto risco em Guayas, Bolívar e Cañar", explica.

Com esse prognóstico, haverá perda de ecossistemas e meios de subsistência, produtividade agrícola e de infraestrutura. "As populações tradicionais vão perdendo suas fontes de subsistencia, além de adquirirem as infecções. Os indígenas serão afetados pela seca. Há a possibilidade do aumento de malária, com a expectativa de temperaturas entre 15 a 27 graus...", informa.

Na possibilidade de haver o aumento da temperatura de 2,8 graus até 2030, segundo Sandra Jimenez, também se multiplicarão casos de dengue e malária e a vulnerabilidade será maior na costa.

Paraguai...

Antonieta Rojas de Arias, do Centro de Desenvolvimento da Investigação Científica, do Paraguai, afirma que o perfil de problemas no país é similar ao de outros paíse sul-americanos. "Nossa economia também depende da agricultura. O país tem praticamente 8% da mata atlântica, e é o quarto em produção de soja, grande parte para subsistência", fala.

As secas atingem principalmente a região do Chaco e s populações indígenas locais estão sujeitas a adquirir cólera. Já nas zonas orientais, há frequência das chuvas. "O El Niño resultaou em impacto no PIB... Também temos preocupação com as epidemias", alerta.

Uruguai...

O oceanógrafo Gustavo Nagy, da Universidad de la República, em Montevidéu, no Uruguai, considera que quando se trata do tema adaptação às mudanças climáticas, há muito papel na academia, mas que reverte em pouca ação. Ele citou a dificuldade no país, de haver associações interdisciplinares para essas pautas.

Entre os problemas levantados, nos últimos anos, o acadêmico contou que durante 55 dias, em 2007, a temperatura no Uruguai não ultrapassou os 15 graus, o que gerou mortalidade infantil. "O país tem sérios problemas de saúde, mas não há dados suficientes para estudar e ainda emitimos mais metano, e a última seca durou 10 meses, representando a perda de 3% do Produto Interno Bruto (PIB)", conta.

Em sua avaliação, falta aprofundar projetos baseados no tempo presente. "Caso isso não seja feito, podemos incorrer no erro da má adaptação. A pobreza hoje atinge 22% da população e a informalidade é de 25%", diz.

Em contra-partida, há outros indicadores positivos, quanto à matriz energética. "Quase 99% são hidrelétricas e há cobertura de água potável praticamente na totalidade do país", afirma.

Veja mais no Blog Cidadãos do Mundo:

08/09 - Precisamos nos reconhecer sul-americanos (I)
02/09 - Adaptação tem de ultrapassar a retórica
Sucena Shkrada Resk |




02/09/2010 16:57
Precisamos nos reconhecer sul-americanos (I), por Sucena Shkrada Resk
Quando pensamos em América do Sul, então, aí que se configura a ausência da força regional articulada. Nós, a maioria dos brasileiros, nem imaginamos o que ocorre em outros países e no nosso próprio país, porque essa falta de conectividade já vem da escola. Não aprendemos a incorporar o sentido de ser sul ou latino-americano, pois não faz parte dos nossos currículos e da gênese de nossa cultura. Ainda há muito a avançar neste sentido.

Bolívia...

Quando ouvi Maria Del Carmen Ledo Garcia, da Universidade Mayor de San Simon, na Bolivia, falar durante o Simpósio Internacional de Mudanças Climáticas e Pobreza na América do Sul, eu constatei o quanto ignoro dos países do cone Sul.

Ela explicou que a Bolívia ocupa o primeiro lugar em nível de desigualdade na América Latina, seguido pelo Brasil. "Meu país não só tem diversidades ecológicas, mas culturais e politicas...O último censo foi em 2001, e La Paz, Cochabamba e Santa Cruz centralizam a população urbana, em 72%, e 90% da população vive em 5% do território. O atraso na estrutura produtiva é um desafio. Há precarização das forças de trabalho e um rosto feminino da pobreza, não só na faceta vísível, como na invisível”, afirma.

Segundo ela, quase da metade dos bolivianos não tem moradia própria. “Os efeitos simultâneos das mudanças climáticas estão na inseguridade, desemprego,...Em alguns pontos de Cochabamba – que foi objeto principal de sua exposição - , há índices similares aos africanos e subsaarianos. A migração é resultado de duas facetas: inspirações e insatisfações”, constata.

Dramaticamente o analfabetismo feminino é uma realidade hoje, de acordo com a pesquisadora. “A mortalidade infantil é acima de 100 em cada 1000 nascidos vivos. A política pública está atrasadíssima. A desigualdade é revelada, por exemplo, com a diferença do custo da água, que chega a 4 dólares por metro cúbico, dependendo da localização”, diz.

No campo da saúde, há dificuldade em levantar estatísticas, explica Maria Del Carmen, devido aos registros precários de dados. “Mas a maior parte de problemas é de diarréia, cólicas e dores de cabeça, e há muitos casos de sarnas em crianças”. Outro aspecto preocupante, é a contaminação em fontes de água.

“Há necessidade de se estabelecer parcerias entre os sul-americanos, para mitigar os danos...O
Desenvolvimento Humano tem de ser visto de forma holística. Cochabamba é uma síntese da Bolívia. Há dois círculos perversos, a inserção precária no mercado de trabalho e falta de acesso aos serviços básicos, principalmente problemas hídricos”, explica. Carmenledo@gmail.com

Chile...

Oscar Parra, da Universidade de Concepción, no Chile, considera que é preciso falar da vulnerabilidade aos desastres naturais, vendo a regionalidade de cada país. No caso chileno, há condições extremas desérticas ao norte, como o deserto de Atacama, e de muita umidade ao Sul, vulcões muito ativos, além de o país ser afetado pelos fenômenos El Niño e El Niña.

“Cerca de 12 mi habitantes vive em escassez de água. A Patagônia Chilena, onde há mais recursos hídricos, com chuvas constantes, é muito sensível à mudança climática. E onde existe mais atividade econômica, há mais restrição hídrica”, afirma.

O Chile, ao estar localizado no Cinturão de Fogo do Pacífico, tem alta produtividade na área sísmica, que é um elemento crucial em sua análise. Parra citou o exemplo do terremoto de 27 de fevereiro, além do tsunami, que atingiu cidades da costa. “Após os cataclismas, ocorreram grandes mortandades de animais e processos de desertificação. Por isso, não podemos analisar mudança climática, sem desastre natural”, avalia.

Com todos esses fatores, o especialista explica que há necessidade de se recuperar o saneamento ambiental destruído. “São necessários US$ 150 milhões a serem aplicados só na infraestrutura e essa recuperação deverá demorar por volta de três anos”, diz.

“O reservatório de água do Chile está na Cordilheira dos Andes e os setores mais afetados são os agrícolas, com a diminuição da área andina das geleiras", explica

Apesar de já existir plano de adaptação e mitigação, o trabalho é intenso. “Depois do terremoto, os recursos hidrológicos foram modificados, há rios que não mais desembocando no mar...E ainda precisamos verificar o comprometimento no ecossistema patagônico”, revela.

A fala de Parra foi complementada pela do sociólogo Jorge Rojas, da Universidade de Concepción, que trouxe o case de Bío Bío. O Projeto Anillos SOC-28, executado lá, destaca a importância em todo o processo de adaptação de se respeitar o conhecimento popular, que é o saber acumulado por meio da experiência das populações em seus nichos ecológicos.

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02/09 - Adaptação tem de ultrapassar a retórica
Sucena Shkrada Resk |




02/09/2010 16:46
Adaptação tem de ultrapassar a retórica, por Sucena Shkrada Resk
Por qualquer caminho que se discuta a questão das mudanças climáticas, a adaptação se configura como o grande gargalo, desde os campos de estudos, políticas públicas e de manutenção de ações contundentes multidisciplinares em beneficio da população vulnerável. Apesar de o problema ser detectado, a maioria dos estudiosos e afetados diretamente não tem dúvidas de que faltam projetos efetivos neste sentido, o que reflete impotência de gestão compartilhada e diálogo permanente a respeito, o que exige ações em rede.

Por mais agressivo que possa parecer, o retrato dessa desarticulação se revela em milhares de crianças na região morrendo ainda de diarréia, aumento de doenças de fundo hídrico, desnutrição, desemprego, analfabetismo...

Essa constatação permeou o Simpósio Internacional de Mudanças Climáticas e Pobreza na América do Sul, nesta semana, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). O grande embate a enfrentar é fazer com que o campo dos discursos ultrapasse e interaja com a realidade que existe do lado de fora do auditório, das salas de aula, dos gabinetes administrativos, das empresas...

O que consegui observar, após refletir sobre os inúmeros relatos que ouvi, é que as doses são homeopáticas demais nessa discussão no Brasil e no mundo. E os desastres naturais já ocorrem há muito tempo, sejam antrópicos ou não. Vide os terremotos no Haiti e Chile, inundações e deslizamentos ocorridos, no Vale do Itajaí, SC, em São Luiz de Paraitinga, SP, em Angra dos Reis, Niterói, Rio de Janeiro, no RJ, além de incidentes de grandes proporções que atingem o Paquistão e a Rússia, nesse caso, com temperaturas altas contínuas jamais vistas. E como esquecer, a baixa umidade do ar que nos atinge aqui em São Paulo e as queimadas de grandes proporções no Centro-Oeste Brasileiro. Enfim, é um mar sem fim de acontecimentos.

No Brasil, foi sancionada a Política Nacional de Mudanças Climáticas, além de algumas legislações municipais e estaduais no setor, como no caso de São Paulo, mas isso ainda é muito pouco. Implementar todos os dispositivos propostos requer posturas políticas contínuas e aparato técnico para as ações. Caso contrário, nada feito. Há um inimigo supostamente invisível dos lobbies...

A recém aprovada Política Nacional de Resíduos Sólidos vem nesse contexto, mas precisa ser regulamentada e associada a de Saneamento, Meio Ambiente e à de Mudança Climática, pois todas estão relacionadas. Senão, será mais uma sustentação institucional sem o vigor necessário para as transformações.

E diante de tudo isso, quem estava devidamente preparado?... A resposta já sabemos...E a reboque vemos as ações emergenciais acontecendo, mas que não substituem medidas a longo prazo. Nessa avalanche de acontecimentos gerados pelas mudanças climáticas, as populações tradicionais e/ou de baixa renda ficam praticamente invisíveis, pois raramente sabem o que está sendo discutido a seu respeito ou tem poder de fala nessas interlocuções, apesar de serem objetos de reflexões no chamado pacote 'pobreza'... Não podemos ser hipócritas em desconsiderar esse contexto.

Sucena Shkrada Resk |




28/08/2010 17:28
Cora Coralina: pensamentos intensos, por Sucena Shkrada Resk
Neste mês, tive a oportunidade de entrar em contato com o pensamento transcendente de Cora Coralina (1889-1985), ao ser contagiada pela atmosfera da casa onde nasceu e viveu boa parte de sua vida, em Goiás (Velha), GO, à beira do rio Vermelho. Após sua morte, o imóvel se tornou um museu, mantido pela Associação Amigos de Cora Coralina, que tenta manter os traços originais da construção do século XVIII e dos pertences e história da autora. Não é difícil sentir a presença dela, o que é uma sensação tão envolvente e até posso dizer, transformadora.

Logo na entrada, ouvimos vídeos em que Cora foi entrevistada pela TV Cultura e TV Brasil Central, no limiar de seus 95 anos. Emociona! Lúcida e com um humor perspicaz, ela diz que considerava ter um fogão, um ferro...mordomias e isso para ela era suficiente na sua maturidade...Objetiva, demonstra que a felicidade está muito além dos bens materiais. Sua ligação com a terra, as raízes, o respeito ao outro e com sua evolução espiritual é traçada em cada frase.

Ao brincar com as palavras, conta como a Ana Lins dos Guimarães Peixoto (seu nome original) se transformou em Cora... "...Esta cidade era cheia de Ana: a burra, a louca...Eu tive medo que a minha glória literária não fosse com Ana...Achei Coralina e juntei..."

Os seus pensamentos ecoam também em manuscritos originais ou ampliados nas paredes da residência de pau-a-pique, com aquelas portas imensas de madeira e um imenso quintal... Foi nesse espaço, que aos 14 anos começou a escrever e só conseguiu publicar sua primeira obra, aos 76 anos, após ter 6 filhos, 15 netos e 30 bisnetos.

Essa trajetória exigiu determinação da poetisa. Depois de passagens por outras cidades, como São Paulo, retornou a Goiás Velha em 1956, onde começou a atuar como doceira, reconhecida principalmente, pelo doce de laranja..., que era a fonte de sua subsistência. Esse cotidiano também foi impresso em seus escritos, destacando a originalidade de suas palavras.

Algumas frases da poetisa retratam isso - "...Eu estava nos meus doces. Eu me punha nos meus doces, imprimia os tons da minha personalidade no meus doces..." - "...Sou poeta por acaso e doceira por convicção e necessidade..."

As metáforas carregadas de sentido de Cora Coralina, que somente com o curso primário, transpôs todos os redutos da intelectualidade, sendo reconhecida mundialmente, demonstra o quanto o nosso valor está no poder de nossa essência. Arrojada, aprendeu datilografia aos 70 anos. Ela foi atrás dos seus sonhos na melhor idade, sem pestanejar. Eu sinto orgulho por ela ter existido e ser um exemplo para todos nós, que titubeamos tanto a lutar por nossos sonhos.

"Sou mulher como outra qualquer.Venho do século passado e trago comigo todas as idades" (trecho de Cora Coralina, quem é você?) traduz o pensamento maduro, que perpetua o pensamento da autora, que foi a primeira mulher no Brasil a receber o Troféu Juca Pato, em 1984, da União Brasileira de Escritores; quebrou dogmas em um reduto até então predominantemente masculino e constituído dos 'homens das letras'.

Para quem não pode presencialmente visitar o museu, desde o ano passado, tem a possibilidade de acessar o espaço virtualmente pelo site http://www.eravirtual.org/cora_br/. E informações sobre a casa de cultura são encontradas no site www.casadecoracoralina.com.br. Vale a pena ter essa experiência para se descontaminar das redomas das palavras difíceis, que não conseguem atingir nossa sensibilidade e propiciar transformações.

E como Cora Coralina dizia em seu poema Aninha e suas pedras -

"...Não te deixes destruir...

Ajuntando novas pedras

e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha

um poema..." (Cora Coralina)


Sucena Shkrada Resk |




28/08/2010 13:46
Entremundos: ter orgulho de ser..., por Sucena Shkrada Resk
A palavra orgulho pode ter diferentes conotações e quando ganha o seu sentido mais nobre, é carregada de emoção. Foi essa emoção que me foi passada, nesta semana, pelo quilombola José Lolasco de França, 68, de Nhunguara, no município de Poranga, SP, e pela índigena guarani, da região do Jaraguá, na capital, Ywa Poty Mirim, 55 anos. Eles participaram do evento Entremundos, em Registro, SP.

Ele me contou que ainda conserva sua rotina de vida, de décadas. "Acordo 7h para ir para a roça...". Lá cultiva arroz, feijão, milho, batata doce, mandioca...um cotidiano vivido pela maior parte das 140 famílias, que moram por lá.

"Não gosto de TV e só assisto jornal", confessa o quilombola, que muito tempo não teve acesso à energia elétrica e que até hoje não deixa de lado seu lampião e sua relação com a terra, que segundo ele, também tem papel de guardião.

Em sua filosofia de vida, diz - "A gente é o que Deus deixou no mundo e não somos melhores do que o outro...".

Para Ywa, o que mais lhe dá orgulho, é ser índigena guarani originária de terras brasileiras. Ela conta que o cultivo do respeito à ancestralidade ainda é muito forte entre seu povo, apesar de estarem na área urbana. "Até os seis anos, as crianças aprendem somente tupi e sua cultura e só depois lhes é ensinado também o português", fala.

Recentemente voltou a estudar e está concluindo o ensino médio. "Eu gostaria de cursar Medicina para ajudar meu povo, mas às vezes, sinto incerteza se não estou velha para isso...", mas logo lhe vem a motivação de continuar o seu propósito incentivado pela sua comunidade, onde por muito tempo atua como agente de saúde indígena. Aprender a medicina do branco, em sua visão, é uma forma de complementar os conhecimentos e ações dos pajés, sem ferir os costumes de seu povo. Veja ainda:

28/8 - Olhar atento ao leque de conhecimento
28/8 - Identidade, uma questão semântica?
28/8 - Qual é a nossa identidade?
27/8 - PR tem a Rede Puxirão
27/8 - Entremundos: antropóloga fala das diferenças
25/8 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte
23/8 - Resumo de hoje


Confira a íntegra do evento em Ocareté-Entremundos
Sucena Shkrada Resk |



28/08/2010 13:05
Entremundos:olhar atento ao leque de conhecimento, por Sucena Shkrada Resk
"Posso ser o que você é sem deixar de ser quem sou". Essa frase estampada no slide apresentado por Marcos Terena, no dia 24, no encontro Entremundos, em Registro, SP, segundo ele, é da sua fase de estudante, proferida em 1981, na União das Nações Indígenas (UNI) e traduz todos os anseios presentes hoje entre eles.

"Pela primeira vez no Brasil, na semana passada, a banca examinadora de mestrado de dois indígenas Terena ouviu dos mestrandos suas defesas em português e terena, na própria aldeia. Isso é um momento histórico", conta. Segundo Marcos, o único cuidado que não pode ser desprezado, nessa integração, é para que os índios com formação universitária não menosprezem suas tradições ancestrais. Ele lembra que há um longo processo histórico, há décadas e séculos atrás, quando o índio era considerado incapaz pelo Estado. brasileiro... ".

Ele conta que sofreu na pele isso, quando teve de esperar por três anos, para reconhecerem que estava apto a pilotar aviões e liberarem seu brevê, apesar de ter cursado na Força Aérea Brasileira (FAB). "Depois pilotei na Fundação Nacional do Índio (FUNAI)...". Foi uma das oportunidades em que conheceu vários povos pelo Brasil e facilitou seu trabalho político e militância voltados aos índigenas.

Ele foi coordenador geral da Conferência Mundial dos Povos Indígenas durante a RIO 92 e também participou da criação da Declaração da Organização das Nações Unidas sobre os Direitos Indígenas, como contribuiu aos direitos indígenas na Constituinte de 88.

Hoje Terena, além de seu papel político, participa da Cátedra Índigena Itinerante e representa o Brasil em fóruns internacionais, no campo da espiritualidade indígena.
Veja ainda:

28/8 - Identidade, uma questão semântica?
28/8 - Qual é a nossa identidade?
27/8 - PR tem a Rede Puxirão
27/8 - Entremundos: antropóloga fala das diferenças
25/8 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte
23/8 - Resumo de hoje


Confira a íntegra do evento em Ocareté-Entremundos
Sucena Shkrada Resk |



28/08/2010 11:06
Entremundos: Identidade, uma questão semântica?, por Sucena Shkrada Resk
A visão do antropólogo Gersem Baniwa, coordenador geral da Educação Escolar Indígena, no Ministério da Educação (MEC) levou à reflexão sobre se a proposta de homogeneização das políticas públicas é o caminho a se trilhar, visto que identidade é um conceito ocidental. Ele compôs a mesa, com Manzatti e Marcos Terena.

"Na vivência das comunidades indígenas, não se fala em identidade. Esse é um conceito ocidental. Não há algo mais artificial, do que falar de liderança indígena. Na verdade, "eu" sou liderança para o não-índio", diz.

Segundo Baniwa, neste sentido, identidade tem a ver com representação. "Por isso, há dificuldade de se trabalhar com política pública, que na verdade, deveria ir à comunidade. Hoje são cerca de 10 mil baniwas no Brasil, Colômbia e Venezuela, e nós nos reconhecemos se eu falar sobre o meu clã, vão me compreender", explica.

A identificação "povos indígenas" veio depois de décadas. "O que há de semelhança entre as sociedades já reconhecidas, com cosmologias próprias, são os processos históricos que sofreram de dominação e de experiência de vida autônoma", afirma. Atualmente, nas regiões N e NE, os indígenas já se identificam como parentes e especificamente na região amazônica, há o reconhecimento como 'povos da floresta'. Em cada lugar do país, são constituídos novos termos de designação.

"Os povos indígenas da Amazônia não aceitam serem denominados como povos tradicionais, apesar de se aliarem em mesmas causas e os grupos de interesse surgem em função dessa relação com o mundo branco", afirma.

O que é preciso ficar claro, segundo Baniwa, é que a diversidade existe e está pautada no caráter social, religioso e político. Por isso, tratamos de educação Terena, Baniwa distintamente...

Na avaliação de Gersem Baniwa, por sua vez, a globalização tem ajudado, mais do que prejudicado. "Isso acontece pela habilidade dos povos indígenas se apropriarem e adequarem, como na questão da comunicação. Não acredito que haja o risco de que as identidades desapareçam", avalia. Mais um aspecto relevante é que há uma emergência étnica. "Algo sem precedentes, mas ninguém sabe como será daqui por diante. Talvez bateremos a marca de 1 milhão de índios contra os 5 mi, no início da colonização...".

Diante de todos esses fatores, o antropólogo 'indígena' diz que identidade pode ser considerada a base da autodeterminação, como também do auto-controle do governo. "Esses termos ainda inspiram medo, por isso os indígenas preferem falar de autonomia".

Veja ainda:

28/8 - Qual é a nossa identidade?
27/8 - PR tem a Rede Puxirão
27/8 - Entremundos: antropóloga fala das diferenças
25/8 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte
23/8 - Resumo de hoje


Confira a íntegra do evento em Ocareté-Entremundos
Sucena Shkrada Resk |



28/08/2010 10:36
Entremundos: Qual é a nossa identidade?, por Sucena Shkrada Resk
Traçar interpretações para o que entendemos por identidade foi um bom exercício realizado, no segundo dia (24) do Entremundos Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil, realizado em Registro, no Vale do Ribeira, SP. Com certeza, o despertar para a noção de que somos sujeitos históricos foi um dos pontos mais relevantes nesse processo, na minha opinião.

O antropólogo Marcelo Simon Manzatti partiu da seguinte premissa: "Eu posso me identificar como...filho de, pai de, antropólogo, cientista social, caipira...A identidade nunca é restrita a um só elemento e só se dá na relação com outras pessoas".

O fato de o Brasil ter centenas de grupos étnicos abre mais essa questão, em sua avaliação. "Entre os grupos indígenas, há projeções de que havia centenas de milhares que foram massacrados. Atualmente se conhece cerca de 230 povos, que existem, apesar do massacre. E ainda há os "isolados" (voluntariamente), que estão sendo identificados. Aí esse número pode passar para 260", diz.

Manzatti conta que a formação acadêmica não deu suporte a essas leituras. "Os índios brasileiros não são ensinados na etnologia brasileira. Na faculdade, era uma disciplina optativa...".

A construção de sentido foi ocorrendo com o contato com esses povos. Segundo ele, foi aí que percebeu que a fluidez para a constituição da "identidade" não é fácil". Há uma tensão constante e isso se dá com diferentes grupos. "Os preconceitos existem até hoje, apesar de o Brasil se dizer a favor da diversidade. Institui-se rótulos e se evita o conflito, ou seja, se vai conduzindo as coisas com 'jeitinho'..."

Na sua avaliação, talvez o Estado não possa ser considerado como mediador de conflitos. "Tende a jogar no campo da vida privada as mazelas. Nos EUA, por exemplo, há o multiculturalismo, em que há 'tolerância' ao diferente, o que também não acredito ser uma boa ideia no dia a dia", diz.

Para Manzatti, no Brasil ainda há o conceito pré-concebido de se esperar ver o índio como na "carta de Pero Vaz de Caminha". "Hoje a conquista de direitos na prática é das mais difíceis, apesar da Constituição Cidadã (88). Quantos anos demorou para a criação da Secretaria de Saúde Indígena (recentemente)? O Estatuto dos Povos Indígenas há 20 anos para ser votado no Congresso. Por isso, vejo que acima de tudo, deve haver o controle social, além do marco legal, etc...".

Mais um ponto a se refletir, segundo o antropólogo, é que o Estado não legitima ou reconhece categoricamente em suas relações, os caciques, pajés, mães e pais de santos, entre outros. "Se não forem reconhecidos para pleitear recursos públicos, realmente fica difícil. Esse processo na política é pedagógico para os povos tradicionais (de uma maneira geral)", considera.

Veja ainda:

27/8 - PR tem a Rede Puxirão 27/8 - Entremundos: antropóloga fala das diferenças
25/8 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte/
23/8 - Resumo de hoje


Confira a íntegra do evento em Ocareté-Entremundos
Sucena Shkrada Resk |



28/08/2010 09:55
O tempo de conversar comigo, por Sucena Shkrada Resk
Por Sucena Shkrada Resk

Pensata que me fluiu no Networking Saudável desta semana, realizado, no último dia 26: "A verdade que está dentro de mim não pode ficar confinada. Ouvir é essencial nesse processo de aprendizado de vida. E aí está o desafio: de ser aberta ao polissêmico e desconstruir 'preconceitos', que estão ainda pulsantes. Então, vejo que a simplicidade me leva ao caminho do meio, me nutre e me faz feliz; dá a liga ao meu equilíbrio..."

E do que eu abriria mão? Pensei...da intolerância ao erro, do perfeccionismo e do rancor, que realmente corrói. E de que não abriria mão? Da minha autenticidade, sensibilidade. auto-estima e da minha lealdade para com o outro, pois sem essas características, não conseguirei evoluir, no sentido espiritual...

E mais:
27/8 - Quando os anseios se convergem


Sucena Shkrada Resk |




27/08/2010 19:21
Entremundos- PR tem a rede Puxirão, por Sucena Shkrada Resk
O direito de fala a diferentes manifestações foi uma marca do encontro Entremundos. Rômulo Barroso Miranda, religioso de matriz africana, do Fórum Paranaense das Religiões de Matriz Africana e da coordenação da Rede Puxirão, apresentou o histórico de lutas do grupo, no primeiro dia do evento (23).

"Entrei na militância, por causa da dificuldade de mostrar que havia essas religiões no PR. Quer queira ou não, o povo tradicional tem de discutir essa modernidade. Para nos manter, tivermos de colocar a cara na rua, porque quem assume a instância de poder são os inimigos", diz. Segundo ele, as casas de candomblé começaram a ser invadidas por religiosos fanáticos de outra religião. Hoje, entretanto, o Fórum vai fazer um ano com adesão de 80 casas.

Miranda falou que os desafios ainda são muitos. "No Censo 2010, na região de Colombo, por exemplo, muitos religiosos de matriz africana não foram contemplados na amostragem. "Dia 2 vamos fazer um acampamento em Curitiba, dos povos tradicionais, para discutir essas questões..."

De acordo com o religioso, o povo tradicional que cultua com a natureza é considerado, por muitos, como do mal, e isso é um desafio a quebrar. "A Rede Puxirão existe oficialmente desde 2008. Queremos que o governo do Paraná nos reconheça como povos tradicionais. Já afirmar a nossa existência enquanto grupo já é um avanço nos últimos anos", considera.

Mais um empasse, segundo Miranda, é o confronto com as mobilizações de ambientalistas, no sentido da criação de mais áreas ambientais em localizações onde os religiosos vivem. "Quando criam uma Área de Preservação Ambiental (APA), o meu povo não pode mais comer, porque o rio é bonito...A Academia é equivocada sobre os nossos valores, temos de mudar o pensar sobre nós. Atualmente há oito decretos municipais aprovados no PR para o reconhecimento de nosso segmento", afirma o religioso.

"Queremos políticas e ações neste sentido. O povo tradicional quer perpetuar sua relação com a terra. A Rede Puxirão tem oito segmentos, com demandas individuais, mas descobrimos que junto somos fortes, e nos apropriamos um pouco do saber do outro. O maior problema é no campo do Direito", fala o coordenador. No ano que vem, a discussão deverá ser em âmbito nacional.

"O poder de transformar a sociedade, é do povo tradicional. Não pode ser colocado na mão da academia e do gestor...O conhecimento do candomblé é um culto de ancestrais divinos e humanos, passados desde nossos bisavôs. Os divinizados (Olorum) tem diferentes nomenclaturas em outras religiões. Na judaico-cristão, por exemplo, é o Jeová. A aura que a gente carrega é o sopro de Deus no nosso nariz", fala.

A figura do Exu foi demonizada pelas Igrejas, segundo Miranda. "Ele não tem chifre ou rabo. Cada orixa cultua a natureza, as aves e rios. Todo mundo tem ligações energéticas, dentro do candomblé, onde os laços ancestrais são divinizados. Pode não ter o vínculo com o negro africano, mas pode ter o vínculo divino", explica.

O sincretismo, em sua avaliação, foi uma ferramenta de resistência para que pudéssem se manter vivos. "Temos nossos ritos ligados à natureza, alguns contestados como o sacrifício de animais. O candomblé não é uma religião catequisadora e todo mundo é sacerdote. Não vamos fazer propaganda de ninguém para chamar devotos", afirma.

"Insisto na questão do direito, para que seja colocado em prática. Não existe a identificação de povos tradicionais no sul do Brasil. Lá são tão oprimidos como na Amazônia", diz o coordenador da Rede Puxirão.

Veja ainda:

27/08 - Entremundos: antropóloga fala das diferenças
25/8 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte/
23/8 - Resumo de hoje


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Sucena Shkrada Resk |



27/08/2010 18:47
Entremundos: antropóloga fala das diferenças, por Sucena Shkrada Resk
No primeiro dia (23) do encontro Entremundos - Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil, realizado em Registro, no Vale do Ribeira, Rita Laura Segato, antropóloga da Universidade de Brasília (UnB) permeou a questão da diferença de comunidade com a sociedade de massa moderna. Segundo ela, a colocação de nós e outros é produto disso e isso resulta na seguinte pergunta: como fugir dessa armadilha? "Não é simples dar um estatuto de cada povo. Existe um pluralismo, com um caos e anarquia, no bom sentido da palavra. Cada um é diferentemente diferente, mas todos iguais em sua forma de relação com o Estado", fala.

O Estado, por sua vez, formula políticas públicas, e por outro lado, é um formatador das comunidades nesta relação, de acordo com a acadêmica. Ela considera esse aspecto negativo.

"Uma comunidade, na definição estatal, é a forma de operacionalizar a relação, mas aí contém alguns perigos, porque fecha essa definição. Já a comunidade opera com relação coletivista e tem de restringir o individualismo, com metas diferentes das adotadas no mercado. Mas também opera com racionalidade", diz.

No mundo moderno, a antropóloga afirma que o discurso é igualitário, entretanto, há prática individualista, com o cálculo do custo-benefício do mercado. "A esfera pública sequestra a política e tira o caráter doméstico, como o resto".

Em sua análise, avalia que na suposta gestão para a cidadania, existe também um sujeito da República com aspecto masculino, sobretudo branco, letrado, proprietário e pai de família. "Ele não tem nada de democrático. Quando colocamos esse dilema com discurso hierárquico, há o contraponto de que a imaginação não é", fala.

"...Quando entra o salário nas aldeias indígenas, por exemplo, isso gera hierarquias ou são ampliadas. Apesar das boas intenções das políticas públicas, essa situação acaba rasgando o tecido comunitário, que é o mais importante de todos", considera.

Segundo a antropóloga, a linguagem do Estado tem sua origem histórica. É herdeiro da colonização portuguesa, criado para administrar em benefício das elites, com repartições e carimbos para destinar os recursos da nação.

"Estamos vivendo a tentativa que repasse ao papel redistributivo. Esse pensar coletivista envolve fortalecer as comunidades em algum grau de economia, que passa a se configurar como um povo, que é algo complexo. Tem de haver uma densidade simbólica, chamada de cultura e de tradição", afirma.

Essas definições enlatam a comunidade, na sua avaliação. "A cultura tem o lado bom do compartilhamento de crenças, religião, como também, retira a comunidade da História. Todo povo se encontra na História e o que o faz ser um povo é compartilhá-la, mesmo havendo os conflitos de interesse internos".

Indo mais além nessa reflexão, ela diz que um povo é aquele que se sente construindo uma história comum, um sujeito coletivo vivo que se sente parte, mas não está restrito a uma cultura fixa. Por isso, é preciso devolver ao povo o sentido juridicional, quando esta justiça própria é devolvida.

Portanto, se uma nação é definida como confederação de povos, deliberar constantemente, avaliar e julgar seus conflitos, (aparentemente) devolve a rédea de sua própria história. "Quando o Estado devolve esse empoderamento, obriga a todos os membros da coletividade a produzir uma fachada de identidade para haver a relação", explica Rita.

Como exemplo, cita o caminhar das comunidades do candomblé. "O povo do terreiro...como estratégia de sobrevivência, incluiu o branco, em um ambiente que era hostil e conseguiu algo milagroso, de se expandir. Agora, o Estado muda de signo e propõe a política de identidade racial. Ela quer dizer que há o engessamento nos mesmos padrões e formas", diz.

Veja ainda:
25/8 - Bastidores Entremundos - Direto na fonte/
23/8 - Resumo de hoje


Confira a íntegra do evento em Ocareté-Entremundos
Sucena Shkrada Resk |



27/08/2010 16:28
Quando os anseios se convergem, por Sucena Shkrada Resk
‎Participei, nesta quinta-feira (26), pela primeira vez, do encontro presencial do Networking Saudável (6), da Rede Novo Olhar, da qual participo, no NING, desde novembro de 2009. Já estava mais do que na hora (rs), não é?

O evento aconteceu no espaço HUB, em São Paulo, que é um local que abriga diferentes empresas/profissionais em uma mesma área, o que reflete uma nova tendência no mercado, de compartilhamento e redução de custos, e eventos neste perfil. Posso dizer que foi uma experiência e tanto de trocas e compartilhamentos de conhecimentos, com grupos de profissionais afins e, acima de tudo, seres humanos em busca de um equilíbrio nas relações de trabalho, com o mote de sustentabilidade.

Quando me dei conta, já estava interagindo com diferentes pessoas e conhecendo um pouco de suas histórias e dividindo a minha com eles. Pudemos fazer imersões em questionamentos que nos levam ao entendimento das 'nossas verdades'. Refletimos, por exemplo, sobre o que abrimos e não abrimos mão em nossas atividades, entre outras indagações.

Considero esse tipo de iniciativa positivo, como um contraponto a um mundo, em que as relações tendem a ser cada vez mais superficiais. Mais detalhes podem ser encontrados em www.novolhar.ning.com.
Sucena Shkrada Resk |




27/08/2010 14:16
Diferentes olhares sobre a biodiversidade, por Sucena Shkrada Resk
‎Ontem, ao acompanhar o Fórum de Biodiversidade e Nova Economia, promovido pelo
Planeta Sustentável entre outros parceiros, na Abril, achei interessante a informação que Bráulio Dias, coordenador de Conservação da Biodiversidadedo Ministério do Meio Ambiente (MMA), passou, de que na próxima assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU), em 22 de setembro, deve ser aprovado o Intergovernmental Platform on Biodiversity and Ecosystem Services-IPBES, plataforma internacional similar ao Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Algo que estabelece um trabalho científico mais aprofundado sobre o tema, de forma sistemática.

"...O Brasil precisa assumir papel de protagonismo nas discussões sobre a biodiversidade, hoje é reativo...e não tem sabido aproveitar o espaço no cenário internacional", avalia. Ele ainda expôs, que no cenário internacional, os países europeus têm como meta sustar até 2020 todas as perdas da biodiversidade e que isso depende, obviamente, dos setores de energia, agrícola, além do ambiental.

"...Quanto do potencial dos 10% da biodiversidade conhecida foi utilizada (de forma sustentável)? Precisa-se aumentar a escala de iniciativas de ciência e tecnologia", fala o gestor. Ele considera que não dá para sustentar divergências entre MMA e MCT. "...A maior parte das nossas Unidades de Conservação (UCs) são caixas pretas. Não sabemos o que tem lá dentro e elas representam 17% do país..."

No Fórum, Fabio Scarano, da Conservação Internacional - Brasil (CI-Brasil), fez a seguinte análise: "O Brasil lançou sua primeira lista de plantas depois de 100 anos. Não temos uma rede nacional de diversidade...O governo precisa investir mais e também muito conhecimento não é compartilhado por cientistas, por desconhecimento ou preciosismo em muitas questões. Precisamos mandar gente (por exemplo) para o exterior para estudar biologia marinha", diz.

A secretária de Biodiversidade e Florestas da pasta, Maria Cecília Wey de Brito, disse que na 10ª COP sobre Diversidade Biológica (http://www.cbd.int/), que será realizada em Nagoya, Japão, no mês de outubro, o Brasil tem condições de mostrar ao mundo o processo de certificação e que o país alcançou 75% das metas. Mas a secretária analisa que não haverá posição brasileira consensuada, pois também há dificuldades no legislativo. "No país há avanços no marco regulatório, mas são tratados como impedimento à atividade econômica, de forma retrógrada...A Biodiversidade não está na agenda política brasileira, espero que isso mude com rapidez", afirma.

Uma das pautas que precisam ser aprofundadas, segundo ela, é a dos serviços ambientais. "Sequer temos ideia de quanto é necessário e quanto custam...", diz.

Na pauta do dia, o Código Florestal não poderia ficar de fora. O economista José Eli da Veiga, tratou da questão do substitutivo da legislação, cujo parecer do deputado Aldo Rebelo, foi aprovado por Comissão Especial, na Câmara. "...Se não sair um texto do MMA que contemple a comunidade científica e ambiental (a tempo da votação, pós Eleições), será um desastre. Acredito que há chances de salvar a questão no Senado...". Maria Cecília Wey de Brito informou que o documento está sendo produzido.

Maurício Messias, do BB, também expôs ontem case interessante de incentivo a empreendedorismo sustentável, sobre grupo de moradores da região do Montanhão, em São Bernardo do Campo, que coletavam óleo de cozinha para não ser despejado no rio. Com o incentivo das linha de sustentabilidade do banco, criaram a Cooperativa Sabão Selecta, que é um meio de gerar renda, além da preservação ambiental que essas pessoas já praticavam.

Eu fui verificar hoje, na Internet, se encontrava mais dados sobre a Cooperativa de Sabão Selecta, que é uma pauta bacana. Segue o endereço do blog: http://sabaodoselecta.blogspot.com/2008_05_01_archive.html.

Sucena Shkrada Resk |




25/08/2010 20:45
Bastidores Entremundos - Direto na fonte, por Sucena Shkrada Resk
Quando ouvimos pessoas que realmente têm algo a agregar, conseguimos perceber o quanto perdemos tempo com outras, que se prevalecem do dom da oratória, para fazer da palavra moeda de mercado...

Ontem (24), tive o privilégio de entrevistar nos intervalos do Entremundos, Gersem Baniwa e Marcos Terena, sobre suas leituras da ECO-92 a Rio+20, além da indígena guarani Ywa Poti Mirim e do quilombola José de França, que falaram sobre suas identidades e modos de vida. Todos os depoimentos foram carregados de ricas experiências e serão apresentados aos meus alunos na área ambiental, para que possam ter o contato mais próximo com as falas originais de representantes das comunidades tradicionais brasileiras.

Na parte da manhã, a questão da identidade indígena foi o tema da mesa que reuniu Baniwa, Terena e Marcelo Manzatti, com discussões profundas e reflexivas, sobre as diferentes interpretações que permeiam o universo conceitual. No final, Terena homenageou os guarani, que são o povo indígena da região, e encerrou o painel, com uma oração, em sua língua...!

Veja mais:
23/8 - Bastidores Entremundos - Resumo de hoje
Sucena Shkrada Resk |




23/08/2010 21:37
Bastidores Entremundos- Resumo de hoje, por Sucena Shkrada Resk
A antropóloga Rita Segato falou, hoje (23), dia de abertura do evento Entremundos - Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil, realizado em Registro, no Vale do Ribeira, sobre a necessidade de os indígenas poderem discutir a questão da remuneração feita pelo Estado, aos agentes de saúde e educação indígenas. Rômulo Miranda, do Fórum PR das Religiões de Matriz Africana defendeu mobilização contínua para promover a visibilidade. Dia 2 ocorrerá manifestação em Curitiba. E o antropólogo Aderval Costa Filho falou do desafio de transformar o Decreto 6.040, do ano de 2007, em lei.

O grupo Batucajé, por meio de contos regionais e da música com requintes de percussão, transmitiu aulas de educação ambiental à plateia.
´...Tem tempo de colher, tem tempo de plantar...
´...Deixe o caiçara ser feliz em seu chão...
...Anhangá é símbolo da sustentabilidade...
Alunos da educação municipal do município se encantaram com a maneira lúdica de ensinar.

A quilombola Antonilha, 72 anos, da comunidade São Pedro, em Eldorado, me concedeu uma entrevista com riqueza de autenticidade, durante intervalo do evento...

E ainda tive a oportunidade de conhecer a senhora Conceição Watanabe, 78 anos, em seu empório tradicional de Registro, que foi criado por sua família, desde a década de 20. Uma viagem ao túnel do tempo...Prateleiras e pisos antigos...Doces tradicionais de banana, que são uma marca do Vale do Ribeira...Encantador!

Sucena Shkrada Resk |




22/08/2010 20:52
Especial Viagem ao Xingu - Quebrando estereótipos, por Sucena Shkrada Resk
Todas as experiências resultam em aprendizados. E foi exatamente isso que me aconteceu no Xingu. Percebi que não posso construir um modelo padronizado do índio brasileiro. Cada povo tem sua história e construção de identidade. Tender ao extremo do purismo é um caminho equivocado.
Com os Aweti, fiquei imaginando quais os anseios de cada índio da comunidade, pois são gerações diferentes como as nossas, que nutrem múltiplas expectativas. E em meio a essas indagações, percebi elos em comum. Têm um apelo forte na composição do sentido de família.
As pequenas crianças de colo ficavam praticamente o tempo todo com suas mães e as que são maiores brincavam harmoniosamente. Cheguei a flagrar uma cena bonita, na qual um pequeno grupo trocava ideias em tupi e carregava com cuidado filhotes de papagaios, animais que se tornam de estimação na aldeia.

As mulheres faziam beijus e mingaus de mandioca, tratavam da produção para consumo do sal extraído dos aguapés, teciam desenhos com linhas nos tapetes que produzem com palha...

Enfim, viviam suas realidades no meio da floresta, de forma harmoniosa...Simplesmente...

Esp.- Viagem ao Xingu - Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:


Fotos de bastidores Viagem ao Xingu - Sucena-08-2010
21/8 - De encontro como Kurisevo 21/8 - Relações transparentes
16/8 - Linha histórica
05/8 - Primeiros flashs
30/7 - Aprendendo em um mosaico do Xingu
Sucena Shkrada Resk |




21/08/2010 16:05
Especial Viagem ao Xingu - de encontro com o Kurisevo, por Sucena Shkrada Resk
O rio Kurisevo, no Alto Xingu, com suas linhas sinuosas, é um cenário encantador de se ver. Entre a ida e volta da aldeia Aweti, neste mês, pude apreciá-lo por 12 horas. Flagrei durante o percurso, um casal de pacas, dois tracajás, sendo que um foi pego pelos Aweti para sua alimentação, e outro ficou camuflado sobre um pedaço de pau, no meio das águas. Até consegui ver uma espécie de iguana, que tão ligeira sobre as areias, quase passou despercebida...Já no céu, alguns tu-iu-ius e outras espécies rapidamente faziam suas revoadas difíceis de serem registradas pela câmera.

Os trechos de mata nativa que margeiam o Kurisevo são característicos de Cerrado mesclado com mata tropical. Alguns pontos apresentavam composição mais densa e outros assoreados, sem mata ciliar, fazendo com que grandes árvores tivessem suas raízes arrancadas e ficassem sobre as águas. Com isso, em várias ocasiões os indígenas tiveram de prestar muita atenção e fazer contornos com o pequeno barco motor da aldeia, para evitar acidentes. Mais um aspecto que redobrava o cuidado é que nessa época de estiagem, baixa muito o nível das águas, chegando na faixa de três metros.

Toda essa composição, que ainda era permeada, volta e meia, por bolsões de areias ao lado do leito do rio, proporcionaram um relaxamento mental para mim e a certeza de que precisamos conservar a natureza. Tanto que em uma pequena área vi a mata queimada, o que é um perigo constante nessa região, como estamos constatando com as notícias de queimadas no Centro-Oeste.

Esp.- Viagem ao Xingu - Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:


Fotos de bastidores Viagem ao Xingu - Sucena-08-2010
21/8 - Relações transparentes
16/8 - Linha histórica
05/8 - Primeiros flashs
30/7 - Aprendendo em um mosaico do Xingu
Sucena Shkrada Resk |




21/08/2010 09:27
Especial Viagem ao Xingu - Relações transparentes, por Sucena Shkrada Resk
A relação transparente é algo extremamente importante em qualquer setor de nossas vidas e não poderia ser diferente nessa experiência que tive com os Aweti, no Xingu. Desde o convite que recebi do cacique Awajatu, deixei claro que iria arcar com a minha viagem - o que para uma profissional liberal de classe média exige apertar o cinto. Afinal tive de arcar com as passagens desde São Paulo, pagamento de combustível do barco que leva e traz da aldeia (um dos itens mais caros), hospedagens até chegar lá, minha alimentação, compra de itens de consumo que pediram se eu poderia levar. E fui honesta, que iria fazer tudo de forma racional, que não comprometesse meu orçamento...

Nesse diálogo, ao mesmo tempo, expus que o meu intuito como jornalista era que parte dos relatos, entrevistas e conhecimento absorvidos nessa vivência resultassem em pautas socioambientais, nos veículos nos quais sou jornalista colaboradora, além de memorial em meu blog, e como elementos de aula, como educadora ambiental. E isso seria feito, respeitando seus costumes.

O cacique concordou e assinou a autorização para o uso de entrevista dele e de outros índios, por ele traduzidas, além de imagens para esse propósito. (cujas cópias das reportagens a ele serão enviadas, ao serem publicadas). E ele me disse que queria mostrar os Aweti à sociedade, porque até hoje são pouco reconhecidos na história do Xingu e, ao mesmo tempo, gostaria que essa divulgação pudesse auxiliá-los em seus projetos, que visam a preservação de sua cultura, como a extração de sal de aguapés.

Simplesmente houve uma relação verdadeira, que muitas vezes, não ocorre entre a sociedade branca e os povos tradicionais, o que gera desconfortos e desentendimentos, que vemos se repetir cotidianamente.

E acima de tudo, achei importante ele expor a cada membro de sua família entrevistado, as questões e destinação do conteúdo. Não é porque falam tupi e ele estava traduzindo, que não deveriam estar cientes do que se tratava. E assim foi se compondo o processo de interação. Pude conhecer um pouco do pensamento de seu pai, que é um dos cinco pajés da aldeia, de sua mãe, que tem um traço peculiar de conservação de costumes ancestrais, de uma jovem índia artesã e aluna da educação bilíngue e de uma das indígenas que produz o sal...Fui compondo o quebra-cabeças de relatos e impressões.

Os itens de consumo que comprei para eles foram separados de forma harmoniosa, entre homens e mulheres, no centro da aldeia, o que eu achei um gesto muito bonito de compartilhamento.

Acima, de tudo, os respeitei e fui respeitada, perguntando também se poderia tirar algumas fotos deles, tanto que somente obtive imagens consensuais. E pude compartilhar alguns momentos de seu dia a dia, como ser hospedada na grande oca, onde vive a família do cacique. Lá eles penduraram a minha rede de nylon e separaram um espaço para eu colocar a minha bagagem...

Eu me adaptei aos seus costumes. Como dormem por volta das 20h, também me recolhi nesse horário...Eu me senti aquecida contra o frio, que é comum em uma zona de mata, pois acendem pequenas fogueiras dentro da oca feita com palha de buriti, que segundo me informaram, só é trocada, por volta de cinco anos...

Para que eu me sentisse mais à vontade, eles disponibilizaram o banheiro da unidade do Posto da Saúde da Família local, para poder utilizá-lo, e preservaram seu cotidiano de acordar por volta das 6h, para se banharem em um rio próximo.

Fui recebida em cada "casa" das famílias, que compõem a aldeia, de uma forma gentil, nessa troca de conhecimentos. Eu mais recebi do que doei, neste sentido. Enfim, considero que foi um momento de construção conjunta.

Esp.- Viagem ao Xingu - Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:


Fotos de bastidores Viagem ao Xingu - Sucena-08-2010
16/8 - Linha histórica
05/8 - Primeiros flashs
30/7 - Aprendendo em um mosaico do Xingu
Sucena Shkrada Resk |




16/08/2010 10:44
Especial Viagem ao Xingu - Linha histórica, por Sucena Shkrada Resk
Para tecer a linha histórica da curta imersão que fiz neste mês de agosto, no Parque Índigena do Xingu, em visita à Aldeia Aweti, mediante o convite do cacique Awajatu, é necessário que eu retorne ao ano de 1994. Especificamente na edição de 10 a 16 de setembro daquele ano, da Rede A de Jornais de Bairro, foi publicada
a entrevista que fiz com o sertanista Orlando Villas Bôas (1914-2002), com o título Fiel escudeiro dos índios. Com certeza, foi um momento ímpar para mim, poder compartilhar as memórias dele e ver parte do acervo que guardava com cuidado sobre seus longos anos no Xingu em companhia de seus irmãos e posteriormente de sua família...

Essa passagem de minha carreira guardei em minhas lembranças com carinho e a recobrei no ano passado, quando propus a pauta e fiz a matéria
Xingu, um paraíso sob ameaça, para a edição 19/2009, da Revista Leituras da História, da Editora Escala. Nesta reportagem, pude alinhavar o processo de formação do parque com os irmãos Villas-Bôas, entrevistar os familiares de Orlando, além do jornalista Washington Novaes e do cacique Awajatu Aweti. Esse último participava de um encontro indígena, no SESC Pompéia, em SP.

Passaram-se os meses e em 17 de outubro do ano passado, o cacique me passou um e-mail, convidando para conhecer sua aldeia. E como eu iria custear a viagem com recursos próprios e tinha de tramitar oficialmente via Fundação Nacional do Índio (FUNAI), consegui concretizá-la, neste mês. Isso dá um sabor especial a toda essa trajetória, porque exigiu empenho e esforço, como também, uma certa dose de idealismo com o qual sou contagiada até hoje...

Esp.- Viagem ao Xingu - Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:


Fotos de bastidores Viagem ao Xingu - Sucena-08-2010
05/8 - Primeiros flashs
30/7 - Aprendendo em um mosaico do Xingu
Sucena Shkrada Resk |




05/08/2010 12:52
Especial Viagem ao Xingu-primeiros flashs, por Sucena Shkrada Resk
‎Da viagem ao Xingu, não consigo me esquecer da emoção que extravasei ao andar de barco, principalmente na volta, que durou 5h, pelo rio Kurisevo (no dia 3), com seu tom esverdeado (que me lembrou o Tapajós) e o vento batendo ao rosto. Tive a sensação de conversar com Deus e realmente me emocionei...As lágrimas vinham sem querer, além da vontade de agradecer. Só os sons dos pássaros ecoavam naquele cenário de águas sinuosas, ora com floresta densa às margens, ora com imensas árvores caídas.

A vivência de praticamente três dias, na aldeia Aweti, me fez rever alguns conceitos tão desgastados que tenho na vida urbana. Ao conhecer uma anciã indígena de mais de 90 anos, debilitada, deitada na rede, em uma das grandes ocas, me deparei ao mesmo tempo com a fragilidade e a força dessa mulher. Longe de tudo..., mas talvez, com uma essência mais próxima do caminho do meio...

Hoje (5) Saí de Gaúcha do Norte - MT, às 4h30 (hor local, -1h de Brasília) e cheguei em Canarana-MT, 5h dep.O Cerrado é um dos retratos mais interessantes do mosaico brasileiro, em q nos deparamos com rodovias não-pavimentadas em extensões de quilômetros, terras e terras com agricultura extensiva, gado, vegetação menos ...densa, estiagem, poeira.E com pessoas humildes encantadoras, que nos deixam à vontade num proseado.

Esses são alguns dos flashs que estou narrando dessa experiência. Aos poucos vou relatando mais memórias da viagem, nos intervalos em que encontro lan houses, nas paradas de volta para casa...Até...

Esp.- Viagem ao Xingu - Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:


Fotos de bastidores Viagem ao Xingu - Sucena-08-2010

30/7 - Aprendendo em um mosaico do Xingu
Sucena Shkrada Resk |




30/07/2010 21:35
Aprendendo em um mosaico do Xingu, por Sucena Shkrada Resk
Hoje (30) cheguei a Canarana, MT, depois de uma viagem de ônibus de 16h, partindo de Brasília, percurso que integra a primeira etapa para visitar a aldeia Aweti, no Xingu. Posso dizer que, ao mesmo tempo, que é uma vivência desgastante fisicamente, se torna um profundo aprendizado de relações humanas, de tentativa de compreensão da cultura índigena, no século XXI, extra o aspecto socioambiental presente.

Amanhã, provavelmente, seguirei em companhia do cacique Awajatu, de seu irmão e primo, para Gaúcha do Norte, e de lá deveremos viajar via fluvial, por praticamente 7h, até chegar à aldeia. Neste período, estarei fora do ar, absorvendo essa experiência que deverá agregar valor à minha vida. Não nego que estou com um friozinho na barriga. Mas a vontade de conhecer, compartilhar e ter essa relação de convívio pessoal e profissional supera tudo isso.

Sucena Shkrada Resk |




22/07/2010 10:13
É interessante acompanhar propostas da Plataf.Cidades Sustentáveis, por Sucena S. Resk
‎‎Nesta quarta-feira (21/7), fui ao lançamento da
Plataforma Cidades Sustentáveis , formulada pelo Movimento Nossa São Paulo e pela Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, com apoio da Fundação Avina. O material é interessante e apresenta cases de diversas cidades no mundo, como Bogotá, que tem 300 km de ciclovias, além de Rizhao, na China, que implementou aquecedores solares, que hoje atendem 99% da população.

Exemplos de municípios brasileiros também fazem parte do material, como o Plano Municipal de Segurança Pública, de Diadema e a Lei do Plano de Metas aprovada em 2008, o projeto Bairro-Escola, o Programa Ambientes Verdes e Saudáveis e Lei da Cidade Limpa, em São Paulo. Ainda são apresentados o planejamento urbano orientado pela sustentabilidade e arranjos educativos locais, em Curitiba (PR), além do Biossistema integrado, em Petrópolis (RJ).

Segundo o secretário-executivo do Movimento Nossa São Paulo, Maurício Broinizi, a publicação está sendo encaminhada a gestores de todos os municípios e estados brasileiros. "...A sustentabilidade é transversal ao planejamento em todos os níveis da Federação", disse.

Antes do início do lançamento da publicação, uma cidadã foi à frente da plateia e desabafou algo bastante coerente - "...elegemos os candidatos para gestões de 4 anos...". A afirmação foi uma crítica aos políticos que tentam reelerger-se ou/e se descompatibilizam no ano eleitoral, não cumprindo o total do mandato.

O trabalho resultou em uma carta-compromisso assinada por candidatos às Eleições, por São Paulo. Lá estavam: os candidatos a governo - Mercadante, Paulo Búfalo e representados - Alckmin, SKaff e Feldmann. Ao Senado: Ricardo Young, Romeu Tuma, e representado, Aloísio N Ferreira, e por carta, Marta Suplicy. Agora, é acompanhar!


Veja a íntegra da carta
Sucena Shkrada Resk |



20/07/2010 16:24
Reflexão: Gastos com campanha presidencial, por Sucena Shkrada Resk
Ao juntarmos as previsões de gastos com as campanhas presidenciais divulgadas pelos três principais candidatos nas Eleições 2010 - as cifras chegam a aproximadamente R$ 430 milhões. É muito dinheiro! Valor que poderia ser aplicado, por exemplo, em esgotamento sanitário, já que mais da metade do Brasil não tem esgoto tratado. Um dos principais problemas de infraestrutura do país, que até hoje não foi resolvido.

Sucena Shkrada Resk |




18/07/2010 12:44
Mandela: 92 anos de universalidade, por Sucena Shkrada Resk
Nelson Mandela completa hoje 92 anos de vida e 67 anos dedicados à liberdade e paz. A história desse homem me emociona sempre, por sua coerência de convicções e energia que emana. Exibe uma ligação tão forte com o sentido de raiz, que provoca uma avalanche de sensações. Ver o lindo semblante iluminado e enrugado com as marcas da maturidade traduz sua trajetória, com muitas linhas incisivas e marcantes deixadas como exemplo nesse Planeta. Apesar do cansaço físico, ainda consegue contagiar o mundo com esperança, honra e o verdadeiro sentido positivo da persistência. É um exemplo de homem público que deve servir de inspiração em ano de Eleições, pois não é calcado em falácias.

Talvez eu esteja me excedendo em adjetivos, mas não consigo ficar inerte à importância desse cidadão. É uma pessoa que nos faz bem. Nossos políticos deveriam se espelhar na autenticidade e coerência desse homem sul-africano, que dedicou sua vida a lutar por uma nação sem apartheid e a um mundo fraterno. Os quase 30 anos que ficou detido devido a um regime de segregação só o fortificaram, e extrapolaram as paredes das celas, contagiando o planeta. Os resultados nas urnas ocorridos em seu país, em 1994, deflagraram essa verdade. Uma verdade de luta, solidariedade, igualdade racial, socioeconômica...da sustentabilidade.

Agora, dia 18 de julho é mais uma data instituída no calendário da Organização das Nações Unidas (ONU). Entretanto, com profundo sentido, que deve ser explicada às nossas crianças e adolescentes. Nesse dia nasceu um homem que faz a diferença nesse mundo tão desigual.

Sucena Shkrada Resk |




16/07/2010 10:03
Chico Mendes: Centro de Memória deve ser reaberto, por Sucena Shkrada Resk
‎As notícias veiculadas neste mês (veja abaixo), sobre o fechamento do Centro de Memória Chico Mendes, em Xapuri, no AC, por sua família, devido a problemas financeiros, revela como a sustentabilidade defendida pelo ambientalista, assassinado em 22 de dezembro de 1988, é difícil de ser praticada na contemporaneidade. É algo que envolve gestão eficiente, vontade política, educação socioambiental e para a cidadania e, acima de tudo, pensamento que incorpore o coletivo.

Espero que as denúncias a respeito de falta de prestação de contas de uso de verba pública estadual pela família, contestada pela mesma, sejam devidamente apuradas e solucionadas, mas que acima de tudo, haja uma mobilização nacional para a conservação do espaço e da representação como patrimônio material e imaterial que a trajetória do seringueiro, ambientalista e sindicalista representa para a sociedade e à história da evolução das diretrizes do ambientalismo.

No ano passado, quando participei do Fórum Social Mundial, em Belém, PA, tive a oportunidade de entrevistar o também serigueiro e ativista Júlio Barbosa (companheiro de Chico Mendes), que resultou na publicação A Amazônia de Chico Mendes, veiculada na edição 20, da Revista Leituras da História/Escala. Além do conhecimento precedente que eu já tinha sobre a história dele, ouvir narrativas sobre os bastidores de suas ações foram importantes como incentivo a incorporar na prática o conceito de sustentabilidade.

É disso que se trata. Não fazer com que tudo vire poeira e caia no esquecimento. É necessário extrair as lições que cada existência nesse Planeta nos possa oferecer, tanto de erros como de acertos, para que possamos construir caminhos melhores. Isso não significa colocar Chico Mendes em um pedestal, mas respeitar a sua contribuição.

Veja mais detalhes sobre matérias a respeito:

06/07-A Gazeta.net -Família decide fechar casa onde morava Chico Mendes, por Rutemberg Crispim

14/7-Folha de São Paulo - Casa e Museu de Chico Mendes são fechados por falta de verba, por Jean-Philip Struck

Entrevista com Júlio Barbosa - A Amazônia de Chico Mendes, por Sucena Shkrada Resk - Edição 20/2009 - Revista Leituras da História

Sucena Shkrada Resk |



15/07/2010 09:25
Reflexões sobre resíduos sólidos, por Sucena Shkrada Resk
Quando vejo o descarte indiscriminado de lixo em nossas ruas, observo o quanto a Política Nacional de Resíduos Sólidos deverá ser aplicada de forma consonante à educação ambiental, o que já é previsto nos Arts. (8º/VIII) e (19º/X), este último referente aos Planos Municipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, constantes na redação do texto final do projeto de lei do Senado nº 354/89. Uma tarefa e tanto a sair do papel, tendo em vista, que a discussão ocorre há 19 anos.

A realidade é cruel no dia a dia. Alguém pode explicar como, por exemplo, pode haver tanto entulho na av Almirante Delamare, em São Paulo, próximo à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do ABC e à região da comunidade do Heliópolis. O que ocorre também em terreno próximo ao Viaduto do Expresso Tiradentes/Terminal Sacomã? Aí está configurada uma situação clássica local de desrespeito à cidadania.

Pela nova legislação, há a determinação da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos - "conjunto de atribuições individualizadas e encadeadas dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, dos consumidores e dos titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos, para minimizar o volume de resíduos sólidos e rejeitos gerados, bem como para reduzir os impactos causados à saúde humana e à qualidade ambiental decorrentes do ciclo de vida dos produtos, nos termos desta Lei".

Isso é importante, mas não exime no ontem e no hoje a responsabilidade que cabe a cada um de nós - cidadãos-, desde a produção ao despejo do lixo que geramos, além do que cabe ao poder público.
A área do Sacomã é significativa e tempos atrás serviu de canteiro de obras. Há quase dois anos, é possível visualizar lá rotineiramente montanhas de lixo orgânico e entulho se misturando ao cenário cinza da cidade. Algo insalubre! Para completar, nas calçadas adjacentes, pessoas jogam mais resíduos, como se tudo deixasse de ter fronteira.

Nesse processo de reflexão, aliado a um desabafo, se soma a experiência de ter ido a uma cidade do Litoral Norte de São Paulo, neste fim de semana. Os resíduos produzidos na região (São Sebastião, Ilhabela, Caraguatatuba e Ubatuba) migram para o Vale do Paraíba (Tremembé) e à cidade de Santa Isabel, pois 'falta espaço'. Infere a poluição produzida pela logística, custo, e transferência de problemas a médio e longo prazo - e acima de tudo, necessidade de redução de consumo e, obviamente, ações efetivas de EDUCAÇÃO, no âmbito escolar, nas comunidades, nas empresas etc.

O sistema entrou em estado de alerta a partir de 2008. Estima-se que mensalmente sejam geradas 5.000 t de resíduos, que chegam a triplicar no período do verão. Estuda-se atualmente a implementação de uma usina de energia a partir da queima dos resíduos coletados na região, como forma de minizar este cenário. Em abril, a TV Cultura chegou a exibir o documentário ´O caminho do Lixo no Litoral Norte´, produzido por estudantes do curso de Rádio e TV da Universidade do Vale do Paraíba.

No PLS 354/89, uma ocorrência desse tipo se enquadraria aos tópicos: "a existência de plano municipal de gestão integrada de resíduos sólidos não exime o Município ou o Distrito Federal do licenciamento ambiental de aterros sanitários e de outras infraestruturas e instalações operacionais integrantes do serviço público de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos pelo órgão competente do Sisnama", como também da logística reversa, prevista na legislação. E qualquer uma das disposições deve ser regulamentada posteriormente, para que se instituam os efeitos práticos.

Isso demonstra o quanto a questão dos resíduos sólidos não pode ser banalizada, como ocorre há décadas, no país. É uma verdadeira chaga ambiental. Ainda é preciso lembrar que há cerca de 6 mil municípios neste país e de 200 milhões de habitantes!

Mais uma vez é necessário questionar como a Política Nacional a ser sancionada, lidará com esse tipo de problema, que é uma constante no Brasil


Redação Final PLS 354/89-Substitutivo Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovado neste mês no Senado, que seguiu para sanção

Sucena Shkrada Resk |



14/07/2010 18:09
Uma realidade sem agrotóxicos é possível, por Sucena Shkrada Resk
Nada melhor do que gastar sola de sapato e conhecer experiências de como é possível haver uma agricultura saudável, sem agrotóxicos. Essa experiência vivenciei, neste mês, no Centro de Promoção Social Bororé, que fica localizado em uma região carente da zonal Sul de São Paulo, na Área de Proteção Ambiental (APA) Bororé-Colônia. Lá pude ver carreiras de alface, beterraba, cebolinha, coentro, couve e repolho cultivados simplesmente - com irrigação e adubo orgânico - pelo 'agricultor urbano" paraibano Reginaldo, 54 anos.

Essas verduras e legumes chegam ao prato de 350 pessoas diariamente, principalmente crianças e adolescentes atendidos pela instituição. Isso demonstra como é possível otimizar espaço de forma saudável. "Gosto de plantar, capinar. Meus pais eram da roça e nasci nesse ambiente e aqui em São Paulo, onde estou desde 1966, também continuei a plantar nas casas onde morei e fui feirante durante 13 anos", explicou o agricultor.

Diante de produtos que davam gosto de ver, não resisti, e comprei algumas verduras para levar para casa, que carreguei feliz da vida, por saber que poderia confiar na origem. Aí está um exemplo que cada cidadão pode potencializar. Posso relatar, inclusive, uma experiência doméstica. Minha mãe (Valia) tem uma horta caseira, da qual também retiramos a produção para nos alimentar. Neste caso, posso dizer, que o mérito é dela, ao tratar da terra com carinho e disciplina...

Agora, é expandir esse conceito de agricultura sustentável aos médios e grandes agricultores. Ao mesmo tempo, boicotarmos a aquisição dos produtos que utilizam agrotóxicos, já que muitos estão em não-conformidade ao que determina a legislação, conforme dados disponibilizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e noticiados pela mídia. O propósito era que exterminassem as pragas, mas muitos podem prejudicar a nossa saúde. Afinal, o Brasil é campeão mundial na utilização do produto, segundo estudo da consultoria alemã Kleffmann Group, encomendado pela Associação Nacional de Defesa de Vegetal (Andef), em 2009.

Veja mais:
Blog Cidadãos do Mundo - O que comemos? (29/06/2010)

Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA
Lei do Agrotóxico
Sucena Shkrada Resk |



02/07/2010 17:41
Ficha Limpa: não são admissíveis exceções, por Sucena Shkrada Resk
A sociedade deve acompanhar e cobrar uma postura coerente quanto à aplicação da legislação da Ficha Limpa, nestas Eleições. Será que admitirão exceções, neste processo? Isso é inadmissível em um Estado democrático.

Uma decisão que já está causando polêmica é do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao permitir ao senador Heráclito Fortes (DEM-PI) registrar sua candidatura, segundo noticiado pelo Estadão hoje -
Decisão não pode ser de um só, reage especialista . Afinal, o magistrado sozinho não representa um colegiado, tendo em vista, que as determinações constantes na Lei Complementar 135/2010 são muito claras quanto a este aspecto.

De acordo com a reportagem, o questionamento se pauta no fato de o parlamentar ter sido condenado por "conduta lesiva ao patrimônio público" pelo Tribunal de Justiça do Piauí (TJ-PI), e o seu recurso extraordinário estar em julgamento pela 2.ª Turma do STF. Então, o que é passível de entendimento é o seguinte: somente após a decisão do colegiado, será possível estabelecer se Fortes pode se candidatar ou não, conforme estipula as novas normas válidas a partir deste ano. Isso vale para qualquer outro candidato.

Vale lembrar que a legislação é fruto de uma grande pressão da sociedade, com mais de 1,6 milhão de assinaturas. Isso é digno de nota e não pode ser menosprezado.

Veja mais no Blog Cidadãos do Mundo:
18/06 - Eleições 2010: Ficha Limpa, sem meias palavras
Confira também a íntegra:
Lei Complementar 135

Sucena Shkrada Resk |



29/06/2010 18:40
Mudanças Climáticas em pauta, por Sucena Shkrada Resk
Este mês está sendo produtivo quanto a iniciativas com relação a ações em benefício da conscientização e efetivação de políticas para redução dos gases de efeito estufa (GEEs). Uma delas é a sanção do decreto nº 55.947, de 24/06/2010, que regulamenta a Lei nº 13.798, de 9/11/2009, da Política Estadual de Mudanças Climáticas paulista. Outra é o lançamento de duas publicações sobre o tema dirigidas aos povos indígenas (Cartilha Mudanças Climáticas e Povos Indígenas e o estudo Povos Indígenas, Terra e Proteção na Amazônia).

A Cartilha, com cerca de 30 páginas, foi produzida pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e por alunos do Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI), com apoio técnico do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). O material apresenta como metodologia, perguntas e respostas curtas, com linguagem simples, que tratam de temas como a definição de GEEs, o Protocolo de Kyoto, os direitos indígenas no universo das mudanças climáticas (aos seus territórios ancestrais, ao uso exclusivo dos recursos naturais nos territórios indígenas, à autodeterminação e autonomia e de consulta e de participação) a créditos de carbono.

O estudo também foi realizado pela COIAB com apoio técnico da TNC e da Fundação Vitório Amazônica (FVA).

Regulamentação da política paulista

O decreto paulista determina a criação do Comitê Gestor da Política Estadual de Mudanças Climáticas, sob a coordenação da Casa Civil, que deverá ter 12 membros do poder público, além do Conselho Estadual de Mudanças Climáticas. Esse, por sua vez, manterá representantes do Estado, dos municípios e da sociedade civil e terá caráter consultivo.

Um dos principais destaques do documento fica por conta do pagamento por serviços ambientais. Segundo a regulamentação, se trata de transação voluntária por meio da qual uma atividade desenvolvida por um provedor de serviços ambientais, que conserve ou recupere um serviço ambiental previamente definido, é remunerada por um pagador de serviços ambientais, mediante a comprovação do atendimento das disposições previamente contratadas nos termos deste decreto...

Esse dispositivo permitiu a publicação da resolução sobre o Projeto Mina D’água – Projeto de Pagamento por Serviços Ambientais na modalidade proteção de nascentes no âmbito do Programa de Remanescentes Florestais. O objetivo é remunerar pequenos agricultores que preservarem nascentes e cursos d`´agua em suas propriedades. O montante anual que cada um deverá receber gira entorno de R$ 75 a R$ 300, que serão provenientes do Fundo Estadual de Prevenção e Controle da Poluição (FECOP).
Mais um elemento interessante da regulamentação é configurar o Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), como instrumento básico e referencial para o planejamento ambiental e a gestão do processo de desenvolvimento.

Confira:

Decreto nº 55.947
Minuta d`água
Cartilha Mudanças Climáticas e Povos Indígenas
COIAB

Sucena Shkrada Resk |



29/06/2010 11:33
O que comemos?, por Sucena Shkrada Resk
Parece surreal, mas é pura realidade. Literalmente não sabemos o que ingerimos e ficamos a mercê, muitas vezes, de propagandas enganosas, de que nos alimentamos de legumes e vegetais saudáveis, que nos são vendidos no dia a dia. No entanto, parte deles contém substâncias prejudiciais à saúde, que obviamente não estão descritas nos rótulos. É essa a conclusão ao se ler os resultados do
Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), divulgados neste mês, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). De um total de 3.130 amostras, 29% registraram algum tipo de irregularidade, como utilização de substâncias proibidas ou em quantidade acima da permitida pela legislação vigente.

Para a maioria da população, como eu e você, que é leiga, quanto a esse assunto, descobrir que come substâncias tóxicas, como endossulfan (em pepinos e pimentões), acefato (em cebolas e cenouras) e metamidofós (em alfaces, cebolas e tomates), é atestar que sofreu um atentado ao direito do consumidor, cidadão, ou melhor, aos direitos humanos. O relatório aponta que a quantidade expressiva desses componentes pode causar, desde problemas neurológicos até câncer. E quem paga a conta no bolso e na qualidade de vida? Nós.

No balanço das avaliações, os campeões de irregularidades foram o pimentão (80% das amostras), uvas (56,4%), pepino (54,8%) e morango (50,8%), segundo a Anvisa.

Diante disso, o mais revoltante é a sensação de ser lesado por um mecanismo de produção deficitário. Resta mudarmos nosso padrão de consumo, indo em busca das "origens", como verdadeiros rastreadores. Nessa peregrinação, os produtos orgânicos ganham relevância. Experiências de se adquirir a produção de agricultores que plantam em áreas de linhões de concessionárias de energia, como acontece em São Paulo, são interessantes, como também a possibilidade de cultivar a horta caseira.

Mais uma medida de suma importância é quanto à higiene, no ato da lavagem antes do consumo. Devemos ainda cobrar dos mercados uma postura ética com o consumidor, ao não permitir que em sua cadeia haja fornecedores que não mantenham boas práticas de produção. E cobrarmos uma legislação e fiscalização mais duras, que não fiquem reféns de brechas jurídicas, que punem, na verdade, a sociedade.

Sucena Shkrada Resk |




28/06/2010 14:41
A relação das APPs e as enchentes nordestinas, por Sucena Shkrada Resk
As chuvas continuam a castigar Alagoas e Pernambuco, o que torna a instabilidade maior em cidades afetadas pelas enchentes. O flagelo que atinge cidadãos dos municípios desses estados são importantes estudos de caso, que podem ser colocados em remissão implícita ao atual parecer sobre a reformulação do Código Florestal (Lei nº 4.771/65), divulgado pelo relator da Comissão Especial dos Códigos Ambiental e Florestal, deputado Aldo Rebelo (PCdoB), no último dia 9, ao que se refere a Áreas de Proteção Permanente (APPs). Afinal, a questão é a seguinte: qual é a segurança proporcionada pelo parecer, quando defende uma faixa inicial menor (15 metros) para cursos d´água com menos de cinco metros de largura...?

A indagação se pauta em constatações da realidade: distanciar-se das margens de corpos d`água não significa somente levantar bandeiras de conservação da natureza, mas a promoção da qualidade de vida. Não é por acaso, que autoridades de algumas localidades afetadas pela tragédia da última semana afirmaram hoje que reconstruirão as moradias em outros terrenos, que estão sendo desapropriados (longe das margens de rios, como o Mundaú, AL). Afinal, seria um crime realocar essas pessoas novamente nas áreas de risco. Aí, me pergunto: e as centenas de milhares de ribeirinhos que vivem por este país, literalmente em palafitas sobre as águas (independente da legislação vigente)?

As cenas de destruição não mentem. As águas ultrapassaram, e muito, os telhados das casas e transformaram bairros em front de guerras e focos de doenças endêmicas. Algumas horas de chuvas torrenciais foram suficientes para fazer com que campos de refugiados climáticos emergissem. Respostas à intensa precipitação podem ser muitas ao lado da deficiência de infraestrutura e planejamento urbano. Assoreamento, destruição de matas ciliares, falta de esgotamento sanitário e, acima de tudo, de política pública próativa em consonância com a visão multidisciplinar.

A estrutura habitacional está profundamente interligada à área ambiental e de saúde. Não é preciso ser catedrático para observar essa teia de relações. O problema que assola o Nordeste demonstra que é preciso fazer essas conexões. E isso implica alinhavar o Estatuto das Cidades com o Código Florestal, com as Políticas Nacionais de Saneamento e de Recursos Hídricos e com a futura Política Nacional de Resíduos Sólidos (que continua parada no Senado).

Veja mais:
27/6 - Enchentes AL-PE: necessidades atuais

Sucena Shkrada Resk |




27/06/2010 13:32
Enchentes AL-PE: necessidades atuais, por Sucena Shkrada Resk
São praticamente 300 mil pessoas afetadas pelos temporais que atingiram Alagoas e Pernambuco, nesta semana. A situação de calamidade pública demonstra a fragilidade de infraestrutura em muitas localidades do interior brasileiro. Como as chuvas continuam, segundo a metereologia, a dificuldade de acesso às áreas atingidas e o nível de destruição se ampliam, além de notificações de registros de surtos, devido à água contaminada (diarréia).

Essa tragédia ainda requer mais empenho da mobilização nacional (governos e sociedade), que já ocorre, em prol das vítimas- a maioria pessoas simples de regiões ribeirinhas - que ficaram sem teto, água, comida e roupas. Hoje, o maior apelo do setor de Defesa Civil desses Estados é que empresários possam disponibilizar tanto transporte aéreo (para donativos de outros estados) e caminhões para ajudar no encaminhamento de mantimentos e donativos às cidades atingidas pelas chuvas. Quanto às doações, faltam principalmente material de limpeza e de higiene pessoal, colchões, cobertores e utensílios domésticos, além dos alimentos não-perecíveis.


Esse cenário reitera uma questão pública premente: é preciso efetivamente planejamento urbano, que contemple os pequenos municípios. Em Alagoas, as principais cidades afetadas são: Branquinha, Cajueiro, Capela, Murici, Quebrangulo, Paulo Jacinto, Palmeira dos Índios, Rio Largo, Santana do Mundaú, São José da Laje, União dos Palmares e Viçosa. De acordo com autoridades do Estado, mais de 200 mil pessoas foram afetadas. O saldo até agora registrado é de 34 mortes, 76 pessoas desaparecidas; cerca de 26.700 desabrigados e 47.700 desalojados, como também serviços essenciais destruídos, entre eles, 43 postos de saúde e 25 escolas.

No Estado de Pernambuco, há um número superior a 80 mil pessoas desalojadas, cerca de 20 mortos e praticamente 40 municípios em situação de calamidade pública. Os pontos em situação mais crítica são Água Preta, Barreiros, Correntes, Cortês, Jaqueira, Palmares, São Benedito do Sul e Vitória.

O Governo Federal anunciou que está liberando um montante de R$ 550 mi (entre os dois Estados), que deverão ser utilizados para ações emergenciais.

Informações sobre doações e voluntariado em Alagoas são fornecidas por meio dos sites:
- www.sosalagoas.al.gov.br
- Banco do Brasil - C/C 5241-8 / Agência 3557-2 (Beneficiado: CBMAL – Defesa Civil)
Caixa Econômica Federal – C/C 955-6 / Agência 2735 / Operação 006 (Beneficiado – Defesa Civil)
Banco Bradesco – C/C 10000-5 / Agência 389-1 (Beneficiado: Defesa Civil)

Em Pernambuco:

Codecipe - Coordenadoria de Defesa Civil de Pernambuco
Fone: (81) 3181.2490 / 3181.2491
SOS Pernambuco (conta aberta pelo Governo do Estado)
Caixa Econômica Federal – Código 104
Agência – 1294
Operação – 006
Conta – 2010-0
Mais informações pelo site: http://www2.pe.gov.br/web/portalpe/home

Outras campanhas:
Copa Solidária (http://acaoglobal.globo.com/)
SOS Nordeste (http://www.ressoar.org.br/sos_ne_conta.asp)
Sucena Shkrada Resk |




18/06/2010 07:57
Eleições 2010: Ficha Limpa, sem meias palavras, por Sucena Shkrada Resk
Um ponto a favor dos direitos dos cidadãos, que inclui todos os eleitores deste país, e acima de tudo, uma resposta à iniciativa da população, no ano passado, composta por mais 1,6 milhão de assinaturas. A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proferida ontem (17), deixa claro que não há meias medidas da validação da Ficha Limpa, nas eleições 2010. Portanto, os políticos condenados por órgãos colegiados antes da sanção da Lei nº 135/2010 (7 de junho), também estão inelegíveis por oito anos. A situação legal já deverá ser verificada, a partir de agora, no ato de registro das candidaturas. É bom destacar que, no hall de excluídos à candidatura, ainda estão os parlamentares que renunciaram ao mandato para evitar processos de cassação por quebra de decoro.

Esse saneamento sempre foi necessário e demorou décadas para ser enquadrado na legislação. Nada mais óbvio do que não termos nos quadros de nossa política, pessoas condenadas por crimes contra a administração pública, o sistema financeiro, ilícitos eleitorais, de abuso de autoridade, prática de lavagem de dinheiro ou formação de quadrilha, além de tráfico de drogas, tortura, racismo e trabalho escravo.

Nós, cidadãos brasileiros, muitas vezes somos enganados por falácias nas retóricas floreadas das falsas promessas, o que exige um nível de reflexão sobre essa complexidade cada vez maior. Pelo o menos, agora, em tese, estamos livres de pagarmos por meio de impostos e tributos, o salário de quem 'comprovadamente' lesou a sociedade.

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16/06/2010 09:36
Reflexão: Segunda ou primeira?, por Sucena Shkrada Resk
Apenas dois municípios no país têm como 'segunda' língua oficial, a indígena. Um é São Gabriel da Cachoeira, no extremo norte do Amazonas, que fala Nheengatu, Baniwa e Tukano. E agora, em Tacuru, MS, próximo ao Paraguai, o guarani foi instituído também 'legalmente', pelo Governo Federal, já que 30% da população local correspondem a esse povo, de um total de 9.554 habitantes.

Diante dessa notícia, veiculada pela Secretaria de Identidade e Diversidade Cultural, do Ministério da Cultura (SID/MINC), fiquei pensando: segunda ou primeira língua? Afinal, o recorte do Brasil multirracial tem uma história polêmica de fundo e moralmente, qual é a raiz? Hoje estima-se que haja cerca de um milhão de indígenas, de 270 povos diferentes (os que restaram em mais de cinco séculos de colonização), que falam mais de 180 línguas, segundo a própria SID/MinC.


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11/06/2010 08:59
Pensata: Relações sublimes, por Sucena Shkrada Resk
Nesta semana, ao tomar o metrô no Sacomã com destino à Consolação, em São Paulo, eu me deparei com uma cena que me instigou a repetir mentalmente como é bom nos depararmos com relações sublimes. Um rapaz entrou com o seu cão-guia, na composição, e se sentou próximo ao banco onde eu estava. O belo Golden Retrivier de cor preta se postou sob as pernas de seu dono e com o olhar dócil debruçou a cabeça sobre o joelho dele, para olhar o movimento da porta do vagão. Algo que me chamou a atenção...

Vocês podem considerar que a cena é banal, mas naquele momento me inspirou delicadeza e amorosidade. O animal queria se aconchegar ao seu companheiro humano em um gesto que intitulo de pura amizade.

Depois de algumas estações, o cão colocou sua cabeça no chão, naquele típico gesto de descanso e esperou a hora de partir para guiar seu dono. Não demorou muito tempo, os dois seguiram para suas jornadas e me deixaram essa sensação gostosa de companheirismo que compartilho com vocês. E isso revela uma relação muito além do adestramento, e uma demanda reprimida. Estima-se que haja no país cerca de 60 cães-guias, sendo que o contingente de pessoas com deficiência visual é de aproximadamente 1,4 milhão, de acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

Esses dados revelam que poderia haver mais investimento, neste sentido, com patrocínio de empresas em projetos sustentáveis, neste campo de atuação. O alto custo e os poucos locais de adestramento nacionais inviabilizam a oportunidade de um maior número de pessoas ser agraciado com a companhia desses leais escudeiros de quatro patas.
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10/06/2010 10:37
A multiplicidade da ação simbólica ambiental, por Sucena Shkrada Resk
O símbolo ou elemento representativo inserido em uma ação ambiental só existe se resultar em sentido ao receptor. Para isso, precisa ser divulgado e gerar um processo de comunicação. Isso exige linguagem (escrita, oral, gestual etc) adaptada ao público-alvo

As ações simbólicas devem ser construídas de forma conjunta, o que propõe o processo de reflexão e o diagnóstico. Caso não reconheçamos o problema ou meios de solução, criaremos um ruído neste processo.

Geralmente o que só registra a imposição como forma de metodologia, não se mantém por muito tempo. É necessário haver o empoderamento de todas as partes.

As perguntas presentes são: o quê, por quê, onde, para quem? Ou seja, qual é o sentido da ação simbólica?

E aí enveredamos para um universo de multiplicidades, que começa com o gesto mais simples de um cidadão, de colocar o papel de bala na bolsa e não jogar na rua ou não emitir ruídos altos que afetem a vizinhança, além de:

Abaixo-assinados

Árvore dos sonhos

Atos de silêncio

Campanhas (coleta de lixo reciclável, lixo eletrônico, pela mata atlântica, cerrado, amazônia, biodiversidade, pelo consumo consciente, pelos povos tradicionais, pela redução do uso das sacolas plásticas, uso racional de energia...)

Caminhadas, passeatas

Comparar cenários (ex: degradado/recuperado)

Criação de jingles, músicas, peças com mote de educação ambiental

Demonstrar o ciclo do ecossistema (oficinas, dinâmicas)

Documentário

Grafitagem

Feiras de trocas

Festas/eventos com caráter de educação ambiental

Levantamento oral/roda de conversa com populações tradicionais

Muro das lamentações

Mutirões de limpeza

Mostras e concurso de redações, fotográficos temáticos

Passeios ciclísticos por uma causa

Produção de imagens, frases (flagrantes, alertas, de reconhecimento de ações propositivas...)

Revitalizar uma área degradada

Trotes da cidadania

Seguem alguns eventos e mobilizações tradicionais, com participação popular:

Viva a mata (SOS Mata Atlântica)

Hora do planeta www.horadoplaneta.org.br (WWF Brasil entre outras entidades)

Segunda sem carne http://diasemcarne.wordpress.com/ (secretaria do verde e meio ambiente de são paulo, entre outros)

O dia do fóssil (durante as conferências de mudanças climáticas) – para eleger os países com posicionamentos mais retrógrados quanto ao tema, durante os eventos - www.climatenetwork.org/.../fossil-of-the-day-1,
Entre outras.

Enfim, as ações simbólicas ambientais são um ótimo exercício de educomunicação, que exigem desprendimento, objetividade e sensibilização, acima de tudo, para não se perderem em possíveis estratégias de marketing verde ou de recursos políticos.
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26/05/2010 10:52
Pauta para Reflexão: lançamento do Plano Nacional de Trabalho Decente, por Sucena Shkrada Resk
O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) lançou, neste mês, o Plano Nacional de Trabalho Decente, com o mote de combater a pobreza e as desigualdades sociais. O documento com 37 pp. é um bom instrumento de análise para um fórum.

A partir do momento que se trata da palavra decente, temos o pano de fundo do indecente, que aflige as relações de trabalho. E como colocar essas mudanças de paradigmas em prática?

Estamos falando de ética, moralidade, sustentabilidade e muito mais.


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26/05/2010 08:59
Mapa é recurso para pesquisa sobre injustiça ambiental, por Sucena Shkrada Resk
Levantamentos sistematizados de estudos de caso contribuem bastante aos gestores públicos, empresas, ao terceiro setor e, principalmente, aos educomunicadores socioambientais. Neste sentido, o lançamento do Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, no último dia 5, pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a instituição FASE, é uma interessante ferramenta de pesquisa. Cerca de 300 casos estão disponibilizados no site http:/www.conflitoambiental.icict.fiocruz.br/. Esse número, entretanto, deve ser ampliado, segundo a coordenação do trabalho, com novas denúncias e apurações.

Os dados estão organizados por estados/municípios e são constituídos de histórico, tendo como premissa, o ponto de vista das vítimas, por meio de entidades do terceiro setor, do Ministério Público, além de outras referências bibliográficas de consulta. Ao interagir com o material, é interessante observar que há situações que envolvem, em grande escala, populações tradicionais, além de passivos ambientais de destaque em grandes cidades, envolvendo contaminações industriais.

A relação de todas essas situações, que em muitos casos, acontecem há décadas, demonstra o quanto é importante se promover ações mais substanciais, para que não ocorram tantos quadros de doenças e mortes, além do prejuízo da qualidade de vida de milhares de cidadãos.
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25/05/2010 09:49
Pensata: Entre os discursos e as ações, por Sucena Shkrada Resk
Ouvir. Como é importante essa palavra de cinco letras...Nossas vidas são povoadas de discursos explícitos e implícitos, com os quais, muitas vezes, não sabemos lidar. O vício de manter ideias preconcebidas no auge de nossos valores, nos torna insensíveis às chamadas entrelinhas. E aí enveredamos para as equivocadas e tendenciosas interpretações, que acabam nos fazendo perder literalmente o tempo, em sua vertente de integralidade. E ledo engano, quem considera que somos seres apolíticos (não se aplica aqui o sentido de partidarismo de legendas).

Aonde quero chegar com essa reflexão? Ao chamado pensamento crítico. Nas últimas semanas, ao fazer entrevistas e matérias sobre diferentes pautas socioambientais, ao ministrar aulas de educomunicação e voltadas à saúde ambiental, senti o quanto precisamos achar o 'nosso tempo' de parar, ouvir e dissecar as informações. O grande desafio é fazer o processo de imersão, que nos permita contextualizar a carga arrebatadora de informações com a qual nos defrontamos diariamente. Aí as desculpas da 'falta de tempo' são as mais usuais.

Mas é neste ponto, que está um elemento importante: saber administrar essa 'ditadura do relógio' e priorizar pautas, sem querer abraçar todos os temas de uma vez. Podemos, sim, nos informar sobre variados assuntos, mas elencarmos alguns nos quais pretendemos nos aprofundar. Isso vale para qualquer segmento de nossas vidas. Caso contrário, seremos sempre os generalistas do ontem e do amanhã. Os repetidores de discursos vazios e que não conseguem transpor a barreira do 'achismo'.

Com certeza, é uma tarefa difícil. Mas qual seria o sabor de nossas existências, se não fôssemos desafiados continuamente, nesse cotidiano dos discursos, que levam a escolhas e, obviamente, a ações concretas?

Enfim, o grande desafio é não comprarmos facilmente belas retóricas, e aqueles glossários rebuscados ou supostamente 'humildes', que se repetem. O que percebemos, no fundo, é que a falta de consistência não preenche nossa assimilação. Por isso, toda hora é momento de refletir, pois somos seres pensantes e protagonistas nesse mundo. Precisamos, então, nos dar esse tempo para encontrarmos nossas raízes, nossas histórias, nossos objetivos...

O sentido de 'nosso' ingressa no contexto holístico. Isso não quer dizer que devemos anular a nossa individualidade, que é o DNA da presença de cada um no Planeta. Mas significa que não podemos vislumbrar somente linhas retas, sem a transversalidade.
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23/05/2010 10:36
A flora na biodiversidade brasileira, por Sucena Shkrada Resk
2010 tem um peso importante no campo de ações ambientais, por ser o Ano Internacional da Biodiversidade, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), o que repercute em várias iniciativas pelo mundo, de forma mais ordenada e visível à mídia. Nesse cenário, o Brasil, ao ser um país megadiverso, é um protagonista estratégico - muito além do recorte da Amazônia - e está apresentando alguns trabalhos nas áreas da pesquisa, de campanhas e de mobilizações, que são importantes destacar. Entre eles, a recém-lançada Lista da Flora Brasileira.

O material foi produzido pelo Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), sob coordenadação do Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora), ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). O levantamento, segundo o JBRJ, envolveu equipe formada por aproximadamente 400 taxonomistas brasileiros e estrangeiros.

A lista exibe 41.123 espécies da flora brasileira, sendo 3.633 de Fungos, 3.521 de Algas, 1.522 de Briófitas, 1.176 de Pteridófitas, 23 de Gimnospermas e 31.248 de Angiospermas; uma descoberta que está ainda longe de acabar. Para se ter ideia, uma pesquisa desse porte só havia sido feita entre 1846 e 1906, na obra Flora brasiliensis, elaboradora por Von Martius, Eichler & Urban, na qual constavam 22.767 espécies. E ainda há muita pesquisa a fazer, porque conhecemos uma parcela ínfima de nossa biodiversidade.

No estado de Minas Gerais, também houve um lançamento interessante por parte da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É o livro Plantas Úteis de Minas Gerais na Obra dos Naturalistas, que respeita os conhecimentos tradicionais das chamadas raizeiras.

Já em Padre Bernardo (GO), uma parceria da representação da publicação Geo, no Brasil, com o MMA, resultou no "Action Day", que já ocorre em outros países. Neste caso, o propósito da mobilização foi a conservação do bioma do Cerrado. O evento reuniu pesquisadores, representantes de Secretarias da Agricultura e do Meio Ambiente, empresas do setor privado, entre outros. Segundo a organização, os participantes focaram o trabalho na experiência da comunidade de mulheres do Assentamento Colônia I, com a Cooperativa Central do Cerrado e a Associação Sabor do Cerrado.

Em São Paulo capital, no evento Viva Mata, organizado pelo SOS Mata Atlântica no Parque do Ibirapuera, pude observar ontem (22), alguns estandes que me chamaram a atenção, por envolver, em especial, o caráter socioambiental. Com isso, mais uma vez é reiterado, que as populações tradicionais são o maior exemplo de respeito à biodiversidade, de forma sustentável. Mas para isso, sem dúvida, precisam de incentivos e apoios do poder público, do terceiro setor e do empresariado.

Como exemplo de que a união desses atores faz toda a diferença, lá estavam expostos trabalhos da Associação de Moradores da Reserva Extrativista de Mandira, que tive a oportunidade de conhecer no ano passado, na região de Cananéia, além de artefatos com fibras de piaçava, produzidos pela Associação de Mulheres Artesãs de Ponto Central, em Santa Cruz de Cabrália, BA e de artesanato taboa produzido por integrante da Associação de Artesãos de Feliz Deserto (AL), entre outros. Prova de que a forma racional do uso dos recursos naturais, para a geração de renda dessas comunidades, é o caminho do tripé (ambiental, econômico e social).

Cases de trabalhos de educação ambiental e reflorestamento e manutenção das características nativas em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN), por meio de parcerias, também apontaram caminhos possíveis das unidades de conservação de uso sustentável, sem ter o ecoturismo como simples fachada. Um dos exemplos ilustrados foi da RPPN Alto da Boa Vista, localizada na Serra do Relógio, MG.

Mais um atrativo da edição deste ano, do Viva Mata, que termina hoje, é o incentivo ao conhecimento e conservação da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, que ocupa uma área de 78.465.476 hectares em território nacional, envolvendo 2.385 municípios em 16 estados. É um apelo forte para que somente o mote do 'ano internacional da biodiversidade' não seja suficiente, pois se trata de algo sem data ou hora para acabar. Lembremos, que restam 7% da vegetação nativa do bioma.

E não podemos esquecer que no Brasil inteiro, ações anônimas ocorrem e transformam cada cidadão em um potencial protagonista na história ambiental nacional, em busca de tornar a nossa qualidade de vida e das próximas gerações rica em experiências nessa flora, que não só nos enche os olhos de beleza, mas é substancial à nossa existência e de todo o ecossistema.

Sucena Shkrada Resk |




05/05/2010 18:49
Impacto ambiental-vazamento de petróleo: subestimamos a história, por Sucena Shkrada Resk
Quando se fala que nossa memória é curta, há um profundo sentido nesse comentário. Somente com o vazamento de petróleo recente no Golfo do México, que se expande para a região do estado da Lousiana, além do Mississipi, nos EUA, é que foi recobrado o alerta decorrente do acidente com o petroleiro Exxon-Valdez, que se chocou contra um recife, no Alasca, em 1989. Na época, vazaram 42 mil toneladas de petróleo, o que comprometeu cerca de 6 mil km2 do mar e o ecossistema local.

Vinte e um anos depois, se percebe que ainda é frágil o sistema de adaptação e mitigação a ocorrências desse porte, em plataformas marítimas e oleodutos. Estima-se que mais de 600 espécies de animais possam estar ameaçadas. Ao mesmo tempo é interessante observar, que além do aparato da guarda costeira, entre outras retaguardas operacionais governamentais, a população também se mobiliza para ajudar, afim de evitar que haja a morte indiscriminada da fauna contaminada com o óleo. É a mobilização socioambiental presente, mas que também fica de mãos atadas, por não saber lidar com certas circunstâncias de salvamento.

Tudo isso foi um alerta ao Brasil. Em notícia veiculada, pela Agência Estado/Gabriela Moreira, ontem (4), foi divulgada a formação de uma comissão por integrantes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, da Petrobras e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o objetivo de estabelecer trabalho para prevenção e mapeamento de riscos em plataformas de petróleo nacionais.

A dificuldade de contenção apresentada no atual incidente apontou que é preciso maior atenção de caráter preventivo. Atualmente, o estado responde por cerca de 80% da produção petrolífera nacional, mas a iniciativa deverá ser ampliada aos demais estados produtores. No país, incidentes de grandes proporções ocorreram em 2000 e 2001, no RJ e no PR.


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03/05/2010 10:23
Educação ambiental: o saneamento é um elemento básico, por Sucena Shkrada Resk
As discussões que giram em torno da educação ambiental, muitas vezes, perdem de vista um elemento essencial: a pauta do saneamento básico e ambiental. Em março deste ano, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) emitiu o relatório Progress on Sanitation and Drinking-Water: 2010 Update Report, no qual, aponta que 39% da população mundial, que correspondem a cerca de 2,6 bilhões de pessoas, vivem sem instalações sanitárias melhoradas. Isso quer dizer, sem condições de higiene. Com isso, a expectativa de se atingir os Objetivos do Milênio relacionados ao saneamento, até 2015, se torna mais difícil. Esse é o retrato da desigualdade social, que avassala algumas regiões do planeta e as periferias das grandes cidades.

O que é importante se discutir, já que pouco se fala a respeito em EA, é que 17% da população mundial (dados 2008) ainda defecam ao ar livre, principalmente no sul asiático. Não podemos descartar que essa realidade também atinge os rincões latino-americanos e a África. São milhares de pessoas expostas aos riscos de doenças ou que adoecem e até morrem, em decorrência dessa insalubridade. Estima-se que 1,5 milhão de crianças menores de cinco anos morram anualmente em decorrência dessa situação.

Quando voltamos a atenção ao Brasil, não é preciso ir muito longe. É só ver as construções desordenadas nas encostas ou em regiões de vale, sobre os esgotos, onde o resíduos orgânicos se misturam ao reciclável e o chorume emerge, durante as enchentes. Um dia, aqueles trechos foram límpidas nascentes, mananciais e cursos d´água potáveis. Quantas pessoas ainda mantêm poços artesianos bem próximos de fossas sépticas em bairros, por exemplo, de São Paulo.

Tudo isso demonstra o quanto ações preventivas são importantes no curso da educação ambiental. É preciso tirar falsos rótulos de que só as pessoas de baixa renda produzem os danos ao saneamento. O filão de culpa cabe também à classe média e rica. Como os bueiros entopem? Será que o R, do reduzir, não está interligado a esse cenário? E o simples ato de jogar o lixo no lixo?

O relatório ainda registra alguns avanços nos últimos anos consideráveis quanto ao acesso a água potável, mas mesmo assim, cerca de 884 milhões de pessoas não integram o contingente de pessoas beneficiadas. Há um longo caminho a percorrer, para que esses cidadãos reconstituam o mínimo de dignidade, que é um direito universal.

Diante desses dados, é perceptível que o educador socioambiental tem uma tarefa cada vez mais árdua na constituição das agendas 21. Não é por acaso que a Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática, realizada em abril deste ano, em Cochabamba, na Bolívia, ecoou 'o grito' de defesa da Pachamama (Mãe Terra). Nos discursos e reivindicações, ficou tão claro, o quanto o saneamento está ligado às mudanças climáticas, ao quadro de fome no mundo...

Quando falam de agricultura orgânica, água limpa e rede de coleta e tratamento de esgoto são princípios implícitos. Como é possível haver qualidade de vida, com extração desenfreada de recursos naturais, que prejudicam os solos e as águas? O projeto da Declaração dos direitos da Mãe Terra, decorrente do encontro, apresenta como algumas das reivindicações, a reafirmação do 'direito à água como fonte de vida', 'direito a estar livre da contaminação e poluição de dejetos tóxicos e radioativos; 'direito à saúde integral'...

O conceito de saúde integral demonstra que precisamos incentivar na educação socioambiental nos campos formal, não-formal e informal, essa visão holística, em que todos são responsáveis. Enquanto não houver esse sentimento de pertencimento, atitudes não serão renovadas na sociedade, nas empresas e no poder público. O saneamento não só tem de atingir a água/esgoto, como nossas mentes.


Sucena Shkrada Resk |




21/04/2010 16:24
Comportamento: atenção a mentes adoecidas, por Sucena Shkrada Resk
A vida moderna exige cada vez mais que o cidadão 'enfrente um leão a cada dia', para superar as adversidades, e consiga manter o seu humor 'saudável'. Mas o que podemos perceber no dia a dia é algo mais complexo do ponto de vista psicológico, que deve ser objeto sistemático da saúde pública: os transtornos bipolares de humor, pois são mais comuns do que possamos imaginar.

Quando lidamos diretamente com o público, ou melhor, temos o convívio mais contínuo com as pessoas, começamos a perceber o quanto comportamentos extremos dos indivíduos podem se alterar. sem respostas lógicas. É como se uma mesma pessoa tivesse dupla personalidade. Algo que assusta, pois não sabemos até onde as euforias e depressões podem levar esses cidadãos.

Segundo José Alberto Del Porto, do Departamento de Psiquiatria da Unifesp/EPM, o transtorno bipolar é caracterizado pela ocorrrência de episódios de “mania” (exaltação do humor, euforia, hiperatividade, loquacidade exagerada, diminuição da necessidade de sono, exacerbação da sexualidade e comprometimento da crítica) comumente alternados com períodos de depressão e de normalidade. Em algumas situações, essas ocorrências incluem irritabilidade, agressividade e incapacidade de controlar adequadamente os impulsos.

Ao chegar ao extremo, essas pessoas começam literalmente a delirar, com manias de grandeza ou de poder, excesso de humor ou delírios de perseguição. Nesse ponto, o especialista explica que o quadro clínico é confundido com a esquizofrenia. O interessante é que a doença pode ter um histórico precedente familiar e tem incidência mais recorrente a partir dos 20 anos ou após os 50 anos. O alerta é que os pacientes graves não diagnosticados podem chegar até ao suicídio. Ao mesmo tempo, são potencialmente perigosos à integridade física alheia. Nos casos agudos, de acordo com a bibliografia médica, há maior dificuldade para a eficácia do tratamento.

Diante dessas mentes adoecidas, a sociedade deve se mobilizar, seja a família, os amigos, companheiros de trabalho ou de estudos. Não considerar que seja algo normal, com frases do tipo - "Ah, ele é assim mesmo, não ligue...Ele é esquentado..." Ao se detectar sintomas contínuos, é preciso verificar a melhor maneira para que a pessoa possa aceitar se submeter a uma consulta com um especialista e iniciar o tratamento. É óbvio que não podemos somatizar os problemas, mas ao menos, tentar ajudar. O importante é que o paciente reconheça que está doente.

As características opressivas do meio ambiente contemporâneo podem mascarar o transtorno bipolar de humor, pois infelizmente a violência, em todos os sentidos, é banalizada na sociedade do 'ter'.

Sucena Shkrada Resk |




08/04/2010 20:40
As imagens da dor, por Sucena Shkrada Resk
Até ontem (7), poucas pessoas sabiam onde fica o Morro do Bumba. Em poucos minutos, o que já era uma área de risco, na cidade de Niterói, no RJ, se transformou em um espetáculo de horror difícil de ser esquecido. Estima-se que aproximadamente 200 pessoas ficaram soterradas, em questão de minutos, sob toneladas de lixo, pois elas moravam sobre esses resíduos e fonte de gás metano. A cena é tão dantesca, que é indescritível a dor que causa. Dor pela perda, pela humilhação de crianças, jovens, adultos e idosos serem misturados ao chorume, ao concreto, à lama e ao descaso crônico, que por décadas, marca a vida de cidadãos de baixa renda.

Quando vi, no final da tarde, uma menina em estado de choque salva pelos bombeiros, em cobertura ao vivo, pela TV Bandeirantes, eu pude sentir toda a fragilidade daquela criança diante do "monstro" que havia engolido sua casa e seus familiares. Mães, pais, avós, filhos chorando suas perdas. E agora, começou a chover denovo e há risco de mais deslizamentos, não só lá, mas em outras áreas. Com isso, os resgates de vidas e de corpos ficam mais difíceis.

O mais incompreensível é ouvir de representantes do poder público e de especialistas, além de moradores, em entrevistas à mídia, que sabiam há anos dessa situação, ou melhor, décadas. E o que foi feito para solucionar o problema? Absolutamente nada. Diagnósticos sobre a área se perderam na burocracia e com o descaso. A ocupação irregular avançou cada vez mais e o resultado é este - praticamente toda a comunidade local está 'morta' sob esse amontoado de resíduos, resultado de nosso consumo desenfreado.

A situação é extremamente grave, pois há milhares de pessoas que moram nos morros do estado do Rio de Janeiro, além de outras vítimas que perderam tudo com as enchentes. Até o momento, há o registro de mais de 15 mil desabrigados, segundo as autoridades locais, e esses números mudam a cada momento. Falar de mortos, então, é uma incógnita, diante deste deslizamento.


Sucena Shkrada Resk |




07/04/2010 21:33
Os reflexos do planejamento urbano deficitário, por Sucena Shkrada Resk
O caos vivido por cidadãos fluminenses, com o temporal que atinge o Estado, desde ontem, só prova que é preciso haver ações concretas de planejamento urbano para mitigar e adaptar a situação dos moradores vitimados, principalmente de encostas e em localidades próximas a morros. É extremamente triste, até agora, saber que pelo menos 130 pessoas morreram, sem a mínima chance de se proteger.

Esse quadro de emergência acontece pouco tempo depois do V Fórum Urbano Mundial, que ironicamente, ocorreu no Rio de Janeiro, no mês passado. E como resultado deste evento, foi divulgada a Carta do RJ, na qual destaco os seguintes trechos.

"...que espaços institucionais devem ser criados e fortalecidos para representar diferentes segmentos da sociedade, permitindo que estes participem de decisões estratégicas, como orçamentos, planos diretores, projetos de larga escala, megaeventos, melhorias de áreas degradadas, preservação do meio ambiente, da cultura e da história...

O documento ainda sela as propostas estabelecendo que,"para garantir o direito à cidade, as instituições responsáveis em níveis local, nacional e internacional devem assegurar acesso à moradia, habitação decente, infraestrutura e mecanismos de financiamento para projetos inclusivos e sustentáveis".

A única coisa a dizer é que as ações são prementes e que essa carta não pode ser um papel a ser engavetado. Não é possível que fiquemos também entorpecidos pelo 'glamour' de uma Olimpíada à vista. A palavra infraestrutura ganha peso no hoje, no momento imediato. Quem resgatará a vida dessas famílias vitimadas, tanto dos entes que partiram, como os que ficaram sem nada, pois tudo se perdeu no meio de escombros. E as pessoas que ficaram sob as águas ou para evitá-las, pernoitaram sobre viadutos, para não terem os seus carros e suas vidas tragadas pelas águas?...

Agora, o Governo Federal anunciou a construção de 4.080 casas, em convênio com o Governo do Estado e com pelo menos 11 prefeituras. Mas será que essa reestruturação habitacional precisava ser decidida com base em uma tragédia?

Sucena Shkrada Resk |




03/04/2010 10:56
Educomunicação: Resolução Conama abre novas perspectivas, por Sucena Shkrada Resk
O cenário da política pública ambiental no Brasil registrou ocorrências importantes, nas últimas semanas, com a publicação da Resolução nº 422, de 23/03/2010, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que destaca o papel da educomunicação na educação ambiental (EA), e quase ao mesmo tempo, a saída, no último dia 31, de Carlos Minc do cargo.

Ao se descompatibilizar, para concorrer às eleições de deputado estadual, no Rio de Janeiro, o ministro foi substituído pela bióloga e doutora em Planejamento, Izabella Teixeira, que é funcionária de carreira e ocupava recentemente, o cargo de secretária-executiva da pasta. Com a dança de cadeiras, o que se espera é que não haja interrupção dos principais programas do MMA, principalmente na área de educação ambiental e no que tange a essa nova resolução, já que EA é um dos setores com menor investimento no ministério.

O valor agregado da resolução nº 422 é 'finalmente' definir o papel da educomunicação como campo de intervenção social que visa promover o acesso democrático dos cidadãos à produção e à difusão da informação, envolvendo a ação comunicativa no espaço educativo formal e não-formal.

Ainda salienta que são diretrizes das campanhas, projetos de comunicação e educação ambiental: promover a educomunicação, propiciando a construção, a gestão e a difusão do conhecimento, a partir das experiências da realidade socioambiental de cada local.

Na série histórica legislativa do setor, é importante destacar que a proposta da educomunicação, de forma 'subliminar', faz parte do Tratado de de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, oriundo da Rio 92. Em seu princípio 14, diz que a "EA requer a democratização dos meios de comunicação de massa e seu comprometimento com os interesses de todos os setores da sociedade...mas também promovendo intercâmbio de experiências, métodos e valores.).

Já na Política Nacional de Educação Ambiental (lei nº 9.795, de 27/4/1999), no parágrafo IV, diz que no âmbito dos meio de comunicação, cabe a colaboração de maneira ativa e permanente na disseminação de informações e práticas educativas sobre meio ambiente e incorporar a dimensão ambiental em sua programação (tendo o pressuposto do empoderamento).

No site do MMA, também está inserida no link http://www.mma.gov.br/sitio/index.php?ido=conteudo.monta&idEstrutura=20&idConteudo=9447&idMenu=10165, com os projetos do Circuito Tela Verde e Nas Ondas do Ambiente. Apesar de ter havido a produção de um CDRom, em 2008, sobre o tema, não houve a difusão da divulgação na fase posterior. Agora, quem sabe, haja a implementação de forma mais sistemática da educomunicação nos programas do governo. Entretanto, é necessário criar regras bem claras, para que as campanhas não sejam massa de manobra de interesses, que não constituam o empoderamento dos cidadãos.

Veja mais sobre educomunicação, no Blog Cidadãos do Mundo: 13/01/2010 09:56 -Propostas da 1ª Conf. Nac. de Comunicação virarão lei?;
17/11/2009 00:23 - Especial Educomunicação Ambiental (4)-Entrevista:Maria del Carmen Chude;
02/11/2009 20:52-Esp. EA (3)-Entrevista: Vilmar Berna;
01/11/2009 19:11 -Esp. EA (2)-Entrevista: André Trigueiro;
26/10/2009 09:17 -Esp. EA (1) - Entrevista: Heitor Queiroz de Medeiros;
04/08/2009 15:37 -Especial-VI Fórum de Educação Ambiental-A importância do empoderamento.
Sucena Shkrada Resk |




02/04/2010 20:33
Diego, obrigada por sua existência, por Sucena Shkrada Resk
A canção Encontros e Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant, cala fundo, quando diz - "Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica, me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando...". A letra se funde ao anseio de centenas de pessoas que se depararam ontem com a partida de Diego Frazão. O menino, aos 12 anos, interrompeu sua trajetória, para seguir a uma nova estação. O jovem violinista da Orquestra de Cordas do AfroReggae, em sua curta passagem por esse plano, deixou o legado de que a sensibilidade aflora os mais maravilhosos talentos - 'de ser gente'.

Ao conhecer um pouco de sua história, a gente se emociona. Diego foi vitimado por meningite e pneumonia, aos 4 anos, que deixaram sequelas em suas memórias...Mas nada que pudesse prejudicar a sua vocação musical, que emocionava e, acima de tudo, era e é uma ótima influência a outros meninos e meninas de comunidades carentes. Morador de Parada de Lucas, no Rio de Janeiro, essa criança autodidata inspirava amizades, sorrisos e o que é mais importante - bons sentimentos.

Ver a cena em que ele tocou no enterro de Evandro da Silva, coordenador social do AfroReggae, em outubro passado, é algo inesquecível. Visualizar sua bela negritude, com seus olhos inocentes úmidos, e suas mãos regendo o violino expressou o que todos nós precisamos renovar a cada minuto das nossas vidas - sermos verdadeiros.

Apesar de eu não ter conhecido Diego, é como se ele começasse, de alguma forma, a fazer parte de minha vida, por meio de sua representação da esperança. Esse pequeno artista é um cidadão do mundo a quem devoto respeito pelo o maior legado que deixou: ser autêntico, amigo e que deixará saudades 'boas', que nos povoam de esperança.

Os jovens violinistas, que o acompanhavam na orquestra, hoje o homenagearam com os acordes de "Asa Branca" (Luiz Gonzaga e Alberto Teixeira), transpiraram a emoção de carinho tão necessária nessas comunidades, que também sofrem com a violência. Então, menino Diego, o que te desejo, com toda sinceridade, é que voe como os sonhos de Ícaro e na estação que pare, nos mande notícias, por meio de inspirações de paz.
Sucena Shkrada Resk |




28/03/2010 17:00
Pensata: O caminho dos sonhos possíveis, por Sucena Shkrada Resk
O filme Um Sonho Possível, sob direção de John Lee Hancock, com o jovem Quinton Aaron e Sandra Bullock exibe um roteiro que mexe com os paradigmas da cultura ocidental e traz um aspecto a seu favor, ao ser inspirado em uma história real. O longa-metragem remete, de certa forma, a uma outra obra - Pedagogia dos Sonhos Possíveis - de Paulo Freire, publicada em 2001, postumamente à sua morte, sob organização de Ana Maria Araújo Freire, pela Editora UNESP.

Em ambas as produções, há a ânsia pela quebra de preconceitos e de fronteiras físicas e mentais. Ao mesmo tempo, tratam da essência das palavras respeito, esperança e persistência. Nada de chavões, mas reflexo de uma realidade que integra os desafios da sociedade nos dias de hoje.

Como dizia Freire - "para mim, desde o início, nunca foi possível separar a leitura das palavras da leitura do mundo...". Ao discutir os desafios sobre a alfabetização de jovens e adultos, ele proporcionava uma reflexão sobre o sentido da comunicação quebrar as barreiras das fachadas. Para isso, ele refletiu sobre a experiência prática do dia a dia. Com isso, concluiu que não deveria impor aos camponeses conhecimentos pré-concebidos, mas deixá-los à vontade para que trouxessem seu conhecimento sobre o seu contexto local e de mundo e sua habilidade para expressá-los com sua própria linguagem.

O personagem Michael Oher, interpretado por Aaron, também aguardava alguém que o enxergasse e ouvisse, para que pudesse expressar e reconhecer a potencialidade de seus anseios e sonhos, se abrisse para o aprendizado das letras, da matemática e das ciências, mas acima de tudo, para o universo das relações. Fruto de uma família desestruturada, sem lar, esse jovem não havia perdido o bem mais precioso a um ser humano, a dignidade. Mesmo sem roupa, sem um endereço para voltar, e somente com uma oportunidade aberta em uma escola - que também teve de desconstruir modelos pré-concebidos para aceitá-lo integralmente- ele se reconheceu com um ator importante nesse mundo.

Mas o que foi necessário? Simplesmente oportunidade, mas vale ressaltar que significou uma iniciativa de mão dupla. A personagem de Sandra Bullock, a bem-sucedida Anne Tuohy, também precisava dar um sentido aos seus discursos e valores. E foi assim, que as vidas dos dois se cruzaram e transformaram sonhos em ações concretas e conscientes. Ambos se doaram e se reconheceram em suas habilidades e fraquezas e, assim, puderam crescer juntos.

Uma premissa que rege o caminho da educação libertadora proposto por Freire. Um de seus pensamentos destacado em Pedagogia dos Sonhos Possíveis reforça essa tese -"aquele aluno que sabe ouvir implica um certo tratamento de silêncio e os momentos intermediários do silêncios. Aqueles que falam de modo democrático precisam silenciar-se para que se permita que a voz daqueles que devem ser ouvidos emerja...".

Uma reflexão profunda e sábia...Há o tempo de falar e o de ouvir, para que existamos na plenitude e não fiquemos submersos em um sistema de opressão, que castra perspectivas e realizações.
Sucena Shkrada Resk |




19/03/2010 18:10
Biodiversidade - Abelhas: pequenas, mas estratégicas, por Sucena Shkrada Resk
Minúscula, mas estratégica. Quem poderia imaginar, que esse inseto é considerado importante para a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO)? Pois é, tanto que a instituição coordena o projeto Conservação e Manejo de Polinizadores para Agricultura Sustentável, em andamento, em vários países, inclusive, no Brasil, pois as mudanças climáticas já estão reduzindo o número de espécies no planeta.

A iniciativa é oriunda da Declaração de São Paulo sobre os Polinizadores, que foi aprovada em 2000 pela quinta Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica (COP5/CDB), ratificada por 187 países, e ampliada na COP6, em 2002. Essa preocupação mundial é reforçada, desde 1995, quando a COP2/CDB, em 1995, introduziu a polinização e a conservação dos solos como temas de relevância na agenda para a manutenção da diversidade agrícola.

"A polinização é essencial para o ciclo da produção alimentar", como destaca a professora do Instituto de Biologia da Universidade de São Paulo e do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IB-IEA/USP), Vera Lúcia Imperatriz Fonseca. A pesquisadora é uma das coordenadoras do trabalho "Avaliação do Uso Sustentável e Conservação dos Serviços Ambientais Realizados pelos Polinizadores no Brasil", em fase de conclusão, em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O levantamento tem por objetivo, otimizar a produção de alimentos, biocombustíveis e a conservação da biodiversidade, por meio de serviços de polinizadores.

Segundo ela, cerca de 90% das plantas com flores são polinizadas e isso interfere de forma substancial para a qualidade do alimento, que nos chega à mesa. "No mundo, há pelo o menos 20 mil espécies de abelhas, sendo que no Brasil são 3 mil, e pouco se desenvolve de pesquisas a respeito no país", explica.

A bióloga afirma que no hemisfério Norte, a situação é de alerta, já que há cerca de 35% de perda das abelhas anualmente, o que compromete cultivos. "No caso do Brasil, é importante o estudo, porque cerca de 2/3 das áreas cultivadas ficam em países tropicais e mais de 50% da agricultura, nestas áreas, é dependente da polinização", fala. Como exemplo, ela cita que a florada do café, que é de apenas três dias, caso seja polinizada, tende a ter a produção ampliada em 14 a 50%.
Sucena Shkrada Resk |




18/03/2010 08:13
Paulo Freire: lembranças de Ana, por Sucena Shkrada Resk
A tarde desta quarta-feira, 17 de março, teve um toque de 'libertação', se assim é possível dizer. A pedagoga e editora Ana Maria Araújo Freire, 77 anos, - ou melhor, Nita Freire, durante praticamente duas horas viajou por suas lembranças para resgatar momentos importantes da vida do educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997), que foi seu companheiro, a partir de 1988 até sua morte, e do qual, se tornou multiplicadora de suas obras. Com olhos e ouvidos ávidos, embarquei junto a professores e estudantes, nesse roteiro, que começou em Jaboatão dos Guararapes, em Recife, retornando à UMAPAZ, no Ibirapuera, onde essa narrativa aconteceu.

Nesse vaivém, uma frase marcante de Freire foi resgatada por ela, como uma chave para compreender o seu pensamento..."Eu luto para transformar o mundo para torná-lo mais fácil...". E essa afirmação tinha razão de ser, como Ana destaca.

Daqui por diante, deixo vocês à vontade para refletir sobre a fala 'em primeira pessoa', de Ana Freire, afim de que seja possível sentir a 'sensibilidade' que suas palavras irradiaram sobre fragmentos da história do pensador Paulo Freire.

- ..."Eu estive há uma semana, no lugar onde Paulo viveu sua infância - que era um casebre. Continua um lugar miserável...Lá, praticamente da adolescência aos 20 e poucos anos viveu com seus pais, quatro irmãos e com a tia 'Lurdes' e a empregada Dadá...Fiquei pensando como todos eles conseguiam se acomodar por lá, naquela casa pequena e escura. Mas foi ali que ele começou a se sentir cidadão do mundo"...

O pai dele foi capitão em PE, era da cavalaria, mas depois de levar uma patada, ficou afastado, o que levou a família a passar dificuldades. Ele ouvia o pai dizer que ia ganhar dinheiro, vendendo rapaduras, mas ninguém comprava...Daí partiu para itens de palha, e nada...e se viu obrigado para mudar com a família para Jaboatão.

Mas Paulo repetia, que mesmo antes, já aprendeu princípios da convivência com a simplicidade a começar a escrever com gravetos das mangueiras do quintal onde nasceu, com o empenho de sua mãe e pai.

...Foi crescendo e, por algum tempo, teve dificuldade de compreender como se escrevia palavras com dois 'rs', não sabia diferenciar dois 's' de 'ç', mas tinha muita vontade de estudar. O segredo era o seguinte - a curiosidade inata, uma grande virtude que não pode ser descartada ou desincentivada...

...Para conseguir ir a uma escola com melhores recursos era difícil, não tinha condições de pagar o trem ou o custo das parcelas...E Paulo a vida toda teve horror a pechinchar, pois foi marcante em sua infância, relembrar de sua mãe quase não ganhar nada com a venda de produtos ao ceder aos pedidos das freguesas...Com isso, identificou a importância de valorizar o trabalho, a dignidade.

...Nessa atmosfera de pobreza, Paulo Freire, se tornou homem e aprendeu a não ter piedade de si mesmo", diz Ana. Nessa pequena casa, ele começou a valorizar seus pais. Lá cabiam poucos pertences, que não haviam vendido - o piano de tia Lurdes e a gravata do pai, que resgatavam o período em que foram da classe média...

...Um universo, em que ele aprendeu a jogar futebol com garotos pobres, ler e escrever, a namorar...Com esse sentido de pertencimento, percebeu que não havia diferença entre ele e o filho do operário, do camponês. Algo que destacou durante toda sua vida... A indignação com as lutas de classes sociais já aflorou nesse período da infância e adolescência...

...E aos 16 anos, ele estava cursando a quinta-série, e conseguiu gratuidade para continuar seus estudos, na escola Osvaldo Cruz, que era de meu pai. Lá vinha gente de todo o Nordeste e de todas as religiões, era um espaço ecumênico. Lá ele reforçou a importância da tolerância com o diferente e com o multiculturalismo...E foi nessa época, que eu tive meu primeiro contato com Paulo, na verdade, aos três anos de idade...

...Os anos foram se passando e Paulo se tornou professor de Língua Portuguesa ao receber a classificação de 'notório saber', já que não havia licenciatura à época. Aos 22 anos foi estudar na Faculdade de Direito de Recife, porque não havia outro espaço para o pensamento filosófico... Quando estava no último ano, percebeu que seu caminho não era esse. Ao ter de cobrar um dentista a devolução do equipamento que não havia pago, o devedor falou - Se o senhor me tirar isso, não conseguirei pagar, pois vai tirar o sustento de minha família...". Isso foi decisivo para que visse que não teria condições de agir nesses casos...

Na década de 40, assumiu a direção do Departamento de educação e cultura do Sesi local. Foi aí que começou a pensar a educação para a transformação social. Criticava o que intitulava de educação bancária, pois não enxergava os alunos como vasilhas vazias...O seu conceito era que, por meio das emoções, conseguia perceber a intolerância, a malvadeza, proporcionando a reflexão...Por sua vez, a reflexão ao começar pela prática, é iluminada pela teoria...

A vida fez com que Ana e Paulo se reencontrassem..."Paulo foi meu orientador na faculdade. Ele me dizia - "Nós aprendemos com o corpo inteiro...Só com a raiva (indignação) se pode construir o amor, ao combater a rejeição aos diferentes, e com isso, estou anunciando o amor a essas pessoas..."

...Naquela época, brilhava o pensamento de Piaget... Havia o pensamento sistemático no Brasil, após as guerras, de que o bom vinha de fora. Mas Euclides da Cunha, em Os Sertões, e João Cabral de Mello Neto, com Morte e Vida Severina, começaram a pensar o Brasil como ele é. Com isso, houve a reflexão sobre a proposta do diálogo. Esse diálogo podia ser entre eu e o livro, o teatro, ou melhor, do eu com a objetividade...

...Ao dialogar, Paulo via nesse contexto, que as perguntas são fundamentais - o quê, por quê, para onde, a favor ou contra quem? Assim, se desvela o mundo. E essa premissa, o educador aprendeu com os operários, no dia a dia... Ele dizia que ao apreender, se aprende e se apropria. A educação tem de contemplar as crendices, festas, desejos populares...

Isso fez com que adotasse aulas em que as pessoas se sentavam em círculos, olhando umas para as outras, expressando os seus saberes diferentes e com isso se facilitava a alfabetização de jovens e adultos...

...Paulo criou uma filosofia da educação. Ele dizia - 'uma certa compreensão ética e crítica da educação"...Segundo ele, o processo de consciência só é acelerado, dessa forma, se tornando libertador. A base do seu pensamento era que havia necessidade de se fazer a leitura de mundo, e acreditar na cultura de paz e de sustentabilidade...

...Ele expressava sua 'raiva' e, não, 'raivicidade' sobre situações cruéis, por meio da mansidão e humildade...Paulo valorizava ser mais gente...E não menosprezava ninguém... Dizia que nunca a gente perde tempo em conversar com outras pessoas...

...Uma vez ele recebeu reclamações de algumas mulheres, de que falava em seus discursos e textos somente de homens (que na verdade, queria dizer do ser humano)...Mas começou a refletir, que na condição de opressão, a expressão tinha um peso importante, e passou a falar e escrever homens e mulheres... A cerne de seu pensamento, posso dizer, que é a Pedagogia do Oprimido...

Para ele, coisas feias eram as anti-éticas...Ele acreditava que se a gente não tratar o semelhante com humildade, a gente se perde...Em sua concepção, não existia o determinismo marxista...Mesmo em cargos públicos, rodando mundo, dando aulas, palestras, vivendo no exílio e retornando ao Brasil, Paulo foi fiel a ele até o fim...

...E posso dizer, que nosso amor foi realmente radical. Pedagogia da Esperança foi o primeiro livro que ele escreveu, após nos unirmos (ambos éramos viúvos). Nesta fase, sua linguagem se tornou cada vez mais fácil e bonita...
Sucena Shkrada Resk |




10/03/2010 15:16
Acessibilidade: Novo dicionário de libras, por Sucena Shkrada Resk
Com a tônica de difusão da acessibilidade, segue nota sobre o lançamento do DEIT-Libras: Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Libras), baseado em Lingüística e Neurociências Cognitivas, pela Edusp, em versão capa dura. São 9.828 entradas para os sinais, que correspondem a 14 mil verbetes em português e 56 mil, na língua inglesa.

A obra, de autoria de Aline Maurício, Fernando Capovilla e Walkiria Duarte Raphael, é dividida em dois volumes de 2.460 páginas e pode ser consultada gratuitamente na Biblioteca do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP/USP). O atendimento é das 8h às 18h45, de segunda a sexta-feira, à avenida Professor Mello Moraes, 1721, Cidade Universitária - São Paulo. Mais informações por meio do telefone 3091-4190. O dicionário também está à venda nas lojas da Edusp.

Mais informações:

Instituto de Psicologia - Biblioteca IP/USP: http://www.ip.usp.br/biblioteca/biblioteca.htm
Site Edusp: http://www.edusp.com.br/detlivro.asp?ID=31411786
Arte Pau Brasil: http://www.artepaubrasil.com.br/descricao.asp?cod_livro=8531411785&origem=edusp

Sucena Shkrada Resk |




06/03/2010 19:23
As necessidades elementares, por Sucena Shkrada Resk
O Haiti e o Chile ainda têm uma longa jornada para conseguir restituir o que pode se chamar de retomada da normalidade. Os dias 12 de janeiro e 27 de fevereiro precisam ficar marcados para a humanidade, como exemplos de que a fragilidade do ser humano à força da natureza não é superada por padrões de crescimento, que se pautam em explorar cada vez mais riquezas do nosso solo e águas e, inclusive, do universo. Ao mesmo tempo, é possível detectar uma corrente de solidariedade de vários segmentos, inclusive do futebol, com doações de jogos amistosos antes da Copa ao Haiti. Estamos em um tempo de revisão de valores.

Só no Haiti, segundo agências de notícias internacionais, 1,3 milhão de civis não têm onde morar e mais de 220 mil estão mortos. Essa é a realidade dois meses depois do terremoto. No Chile, o número de residências a serem reconstruídas também chega a 1,3 milhão, conforme estimativas governamentais. Muito trabalho de mitigação e adaptação que levará anos...

Enquanto isso, profissionais da Defesa Civil, de organizações como Cruz Vermelha, Médicos Sem Fronteiras, entre outros, se desdobram no socorro às vítimas. Cidadãos desses países com atitudes resilientes auxiliam uns aos outros. Não há tempo a perder, pois ferimentos, casos de diarréia e desnutrição matam sem piedade. As condições sanitárias são o que mais preocupa os especialistas em saúde e autoridades. Centenas de pessoas estão bebendo água contaminada e vivendo entre o lixo.

Nesse momento de crise civilizatória, é possível questionar do que adianta o homem ir à Lua e gastar bilhões para desvendar os segredos do espaço, se de um dia para outro, milhares de pessoas estão mortas ou desabrigadas, sem acesso a saneamento básico e ao mínimo de infraestrutura para viver no planeta Terra.

É interessante fazer algumas comparações. O orçamento anual da Agência Nacional Norte-Americana, por exemplo, é de US$ 18,7 bi, um pouco acima do valor que deverá ser gasto para a infraestrutura da Copa do Mundo, no Brasil, segundo o governo. O Produto Interno Bruto (PIB) do Haiti, em 2008, era de US$ 6,9 bilhões.

Segundo especialistas, provavelmente serão necessários pelo o menos 15% desse valor para que nos próximos anos, o mais pobre país das Américas consiga se recuperar. Agora, recuperar uma situação que já era - sem os efeitos do terremoto - de extrema carência, com habitações que não suportam terremotos... Esses são exercícios de reflexão importantes a se fazer.

O presidente Barack Obama deve ir ao Haiti, na próxima semana, quando se reunirá com René Préval. Daí definirá o teor de auxílio que os EUA se comprometerá a efetivar. Nicolas Sarkozy anunciou uma ajuda de 270 milhões de euros, nos próximos dois anos. Historicamente há uma dívida da França para com o ex-país colonizado, que não pode ser esquecida, e chega a ser surreal a França decidir 'cancelar' a dívida de 56 milhões de euros que o país caribenho mantinha. Uma mesma palavra tem sentidos tão diferentes...


No Chile, cidades como Concepción, Talcahuano, Bio Bio e o povoado de Dichato estão em situação de calamidade pública. Apesar de o país estar 'crescendo' nos últimos anos e manter renda per capita das mais favoráveis na América do Sul, não estava preparado para o abalo de 8.8 graus e 'falhou' quanto ao alerta do Tsunami. Isso acabou resultando na demissão do responsável pelos 'alertas'.

Hoje mesmo, o país sofreu mais um abalo sísmico, o que vem ocorrendo há dias. Ainda não se sabe ao certo o número de mortos, estima-se que sejam na faixa de 800, mas foram encontrados cerca de 450 corpos. Outras pessoas estão desaparecidas, muitas tragadas pelas águas. Diante desse cenário de catástrofe climática, campanhas movimentam vários países, mas é necessário se ter em mente, que as ajudas multilaterais deverão ser a longo prazo.

A Organização das Nações Unidas (ONU) deve enviar US$ 10 mi para o auxílio da recuperação. A estimativa da atual presidente Michelle Bachelet (que daqui alguns dias sairá do cargo, quando será empossado o novo presidente, Sebastián Piñera) é que pelo o menos serão necessários quatro anos para que o Chile consiga estabilizar a reconstrução.

Sucena Shkrada Resk |




28/02/2010 16:22
Mindlin eternizado em Brasiliana, por Sucena Shkrada Resk
Há alguns personagens ao longo da História, que se eternizam por seu papéis, que excedem a citações em livros e na mídia. José Mindlin é um desses cidadãos, que aos 95 anos, partiu hoje para uma nova morada, deixando ao mundo, por meio de doação, em 2009, à Universidade de São Paulo (USP), a Coleção Brasiliana Guita e José Mindlin(http://www.brasiliana.usp.br/). São mais de 40 mil volumes. Uma riqueza em um Brasil que ainda tem muito a avançar, já que mantém cerca de 15 milhões de analfabetos de 15 anos ou mais e outros milhares de potenciais leitores sedentos por descobrir o sabor da literatura e das diferentes linguagens compostas por imagens e textos.

Ao longo de décadas, o bibliófilo, jornalista e empresário, com ascendência ucraniana, se revelou um cidadão do mundo persistente e ético. Pode-se dizer que foi um cuidador das letras, dos símbolos, das memórias juntamente com sua esposa Guita (falecida em 2006). Aos trezes anos, ele já sabia dar valor à literatura, como ninguém. Mais do que raridades em suas coleções, como os originais da obra Saragarana, do autor Guimarães Rosa, e de primeiras edições de José de Alencar, buscou a história do país por esse mundo afora, atrás de mapas, manuscritos e tudo que pudesse compor um mosaico brasileiro. Com isso, exemplares portugueses também foram agregados ao seu acervo.

Boa parte desse material também está sendo digitalizada, para facilitar o acesso ao público. A biblioteca deverá ser aberta ainda neste ano, na Cidade Universitária. Mas só isso não basta. É importante que as escolas, os docentes, os intelectuais, os jornalistas, os articulistas... incorporem em seus programas e discursos a história desse 'senhor das letras' e possibilitem o encantamento ou o reencantamento pela viagem à linguagem nas suas mais diferentes expressões.


Sucena Shkrada Resk |




27/02/2010 09:48
Abalo no Chile é mais um alerta, por Sucena Shkrada Resk
Terremoto no Chile e alerta de Tsunami em várias localidades até o Havaí exigem atenção do mundo à adaptação às mudanças climáticas. São Paulo também sentiu abalos, segundo Corpo de Bombeiros, que recebeu chamados, mas sem registrar rachaduras ou feridos.

Nas próximas horas, haverá notícias mais detalhadas das proporções desse incidente geológico, que exige ações multilaterais. Afinal, foram praticamente 9 graus na Escala Richter.

Presidente do Chile, Michelle Bachelet, anuncia estado de catástrofe. Órgãos de defesa civil e sismólogos ainda avaliam os efeitos e quantidade de mortos e vítimas.

Lembremos que iceberg gigante se desprendeu da Antártida, nesta semana...Incidentes em cascata...Haiti, Antártida, Chile. E a COP 16, que tipo de postura, nossos governantes terão no México, depois do fracasso de Copenhague?
Sucena Shkrada Resk |




21/02/2010 19:38
Pensata: Da ‘Pachamama’ ao ‘avatar’, por Sucena Shkrada Resk
A simbologia expressa pela linguagem escrita, oral, dos gestos e do olhar é um material infinitamente poderoso para reconhecermos e identificarmos nosso papel socioambiental neste planeta. Por meio da manifestação cultural, podemos desenvolver essa concepção e promover reflexões.

Isso se torna cada vez mais evidente em alguns exemplos semióticos, como a interpretação do profundo sentido da expressão “Pachamama’, que significa a Mãe Terra ou Natureza, na língua indígena dos povos andinos da América do Sul. Ouvi com profundo respeito essa palavra, quando a escutei da boca do sociólogo peruano Roberto Espinoza e do índio equatoriano Virgilio Churuchumbi, durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, neste ano.

Nas entrelinhas do filme Avatar (reencarnação ou transformação; termo originário do sânscrito e utilizado no hinduísmo), do diretor norte-americano James Cameron, pude viajar a caminho dos diferentes significados da ‘árvore-mãe’, que foi um eixo central da trama.

Eu fiz essa analogia ao assistir hoje o longa-metragem, sem me prender obviamente aos efeitos técnicos e ao custo milionário da produção, que ao meu ver, poderia ter outro tipo de destinação em um mundo tão desigual, fazendo jus à mensagem proposta pelo enredo, contra a exploração desenfreada do planeta, que, por conseqüência, suga as suas energias vitais.

Deixei-me levar pela sensibilidade de ver como o ser humano, ou seja, nós, temos o livre arbítrio da escolha e podemos mudar os rumos de ações e recomeçar nossas histórias. Podemos escolher o caminho do lucro a qualquer custo ou do respeito à vida, ou melhor, ao meio ambiente. É algo tão evidente, mas que temos dificuldade de exercitar de forma responsável e consciente no dia a dia, em pequenos atos ou gestos.

Consegui extrair da mensagem expressa no filme, que somos, sim, responsáveis pela mobilização do coletivo em prol do planeta, o que infere conceito de rede ou teia. É um princípio no qual acredito. Os povos ‘Avatares’ de diferentes locais se uniram pela preservação da natureza, dos seus costumes, de suas crenças e, acima de tudo, da harmonia material e espiritual. Foi impossível não correlacionar esse recado subliminar ao dos povos tradicionais, que lutam pela ‘Pachamama’.

A analogia é a seguinte: o nosso desafio é unir os povos do planeta, em todos os continentes, pela mãe Terra ou pela ‘árvore-mãe’ (seja qual nome queiramos dar), nos possibilitando a segunda chance de corrigir os erros. Não importa que haja culturas, línguas e histórias diferentes. São justamente essas diferenças que dão ritmo à harmonia do planeta, nos obrigando a sermos eternos aprendizes em busca do compartilhamento.



Sucena Shkrada Resk |




20/02/2010 21:33
Dengue: prevenção não pode ser sazonal, por Sucena Shkrada Resk
Boa parte dos brasileiros desconhece que os picos de casos de dengue, no Brasil, ocorreram em 1991, 1998 e em 2002, quando se registrou um dos quadros de epidemia mais intensos (467 casos/100 mil habitantes), segundo o Datasus. As manchetes eram sucessivas, apontando centenas de milhares de casos, o que mobilizou os departamentos de vigilância epidemiológica e em saúde a fazer operações de combate ao mosquito-fêmea do Aedes aegypti, que transmite a doença, além de aumentar a retaguarda para tratamento. Agora, oito anos depois, os cenários de alerta começam a se repetir, no Centro-Oeste, principalmente no Mato Grosso e Distrito Federal.

No Mato Grosso, foi registrado em janeiro, o aumento de 804% (mais de 12 mil, atualmente acima de 15 mil) de notificações de casos com relação ao mesmo período do ano passado. Até ontem haviam sido confirmadas 17 mortes. Na capital federal e cidades satélites, o percentual ultrapassa 300%. Isso demonstra a fragilidade de políticas permanentes de educação socioambiental, que prevê combate aos criadouros.

Água limpa e parada, eis a combinação perfeita para a proliferação das larvas do mosquito. Uma situação que exige medidas preventivas ininterruptas, pois os 'ovinhos' podem ficar em estado de latência até por um ano, aguardando o ambiente propício, para que o ciclo de reprodução se inicie.

Não é possível que ainda hoje pessoas deixem suas caixas d`água destampadas, pratinhos de vasos expostos à chuva, pneus a céu aberto e joguem cada vez mais entulhos por todos os lados nas vias e passeios públicos, além de quintais, o que facilita o acúmulo de água.

Além das autoridades, é preciso que a sociedade, por meio das associações de amigos de bairro e de organizações não-governamentais ampliem ações educativas em suas comunidades e multipliquem a conscientização e atitudes pró-ativas. A mídia, por sua vez, não pode se eximir de ser um canal para orientações, reforçando o caráter público de prestação de serviços. Todos nós temos um papel importante, nesta rede social. Não é possível estarmos no século XXI e nos depararmos com mortes causadas pela ausência de mínimos cuidados sanitários, que nos remetem aos idos dos séculos passados. Será necessário reavivar ações de Vital Brazil e de Oswaldo Cruz?

Sucena Shkrada Resk |




15/02/2010 07:42
O seu nome era Alcides, por Sucena Shkrada Resk
O dia 6 de fevereiro marcou a partida abrupta do estudante de biomedicina pernambucano, Alcides do Nascimento Lins, de 22 anos. O material que manipulava em trabalho que desenvolvia no laboratório da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ainda está lá, como noticiado pela imprensa. As risadas gostosas e o trabalho do jovem esforçado, prestes a se formar, agora, só serão lembranças aos seus companheiros e à sua família. A ironia do destino é arrebatadora. O rapaz de origem humilde, que se destacou em noticiários, em 2007, por passar no vestibular nas primeiras colocações de uma universidade pública, agora voltou à mídia, como mais uma vítima da violência urbana.

Um dos acusados de matar Alcides, preso na semana passada, alegou que, ele e o seu comparsa queriam eliminar outra pessoa, mas na ausência desta, tiraram a vida do rapaz. O argumento demonstra o quanto nossa sociedade, em suas entranhas, está doente e desumanizada.

Quantos Alcides não têm suas vidas interrompidas por esse Brasil? O filho da ex-catadora de lixo queria mudar os rumos da família humilde do Recife. De acordo com relatos de familiares, ainda auxiliava no pagamento do cursinho de uma das irmãs, que agora, passou no vestibular. Em poucos segundos, todos esses sonhos foram retirados do jovem, que apenas batalhava por um espaço digno nesta sociedade, para não ser mais um número nas estatísticas da pobreza.

O destino de Alcides só nos faz repensar que precisamos resgatar valores de amor e de compaixão. Isso significa que a sociedade e o Estado não podem ficar omissos neste processo, que envolve acesso à educação e empregabilidade e, acima de tudo, à cidadania. No duelo dos antagonismos, as chamadas minorias são as maiorias, desde os primórdios da colonização. É como uma chaga e até quando?

Sucena Shkrada Resk |




13/02/2010 12:11
É preciso muito mais do que ortografia, por Sucena Shkrada Resk
Desde janeiro do ano passado, o Brasil instituiu no país, a implementação do Acordo Ortográfico dos Países de Língua Portuguesa, que é mantido em conjunto por Portugal, Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Trinidad e Tobago. Uma discussão, que se prolongou desde os anos 90, e que agora, passa por mais um desafio, sair do campo das palavras e ganhar projeção em acordos multilaterais, que incorporem cultura, educação, infraestrutura, inovação e saúde. É preciso constituir um sentido mais profundo, que lide com as realidades dessas populações.

Tirar o trema, acrescentar ou colocar hífen, acentos agudos, circunflexos...Essas novas regras ainda são assimiladas por pequena parcela dos cerca de 200 milhões de brasileiros. Muitos desconhecem que até 2012, em tese, todas as modificações deverão estar estruturadas no país. Isso chega a mostrar um abismo, ou melhor, uma ferida quanto ao tema justiça social, que está na entrelinha de todo o processo em andamento.

Quantos analfabetos funcionais existem nesses países, que um dia foram colônias portuguesas? Como é a situação geopolítica, já que boa parte dessas nações sofreu décadas de guerras civis, além de epidemias. Ao ver o ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de 2009, o quadro é o seguinte:
173º lugar: Guiné-Bissau
172º “ : Moçambique
162º “ : Timor-Leste
143º “ : Angola
131º “ : São Thomé e Príncipe
121º “ : Cabo Verde
75º “ : Brasil
64º “ : Trinidad e Tobago
34º “ : Portugal

Um retrato que demonstra que a unificação deve consistir em ações concretas de transferência e compartilhamento de conhecimento, para que a qualidade de vida de cada cidadão desses países possa sofrer, de fato, uma influência a caminho da maturação dessas relações instituídas primeiramente no campo da ortografia.

Algumas missões brasileiras do Brasil, a partir do ano passado, principalmente a Guiné-Bissau, apontam ao direcionamento de um 'trabalho de reestruturação do exército do país africano'', que mantém uma situação geopolítica complexa.

Foi implementada a partir de 1997, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (http://www.cplp.org/). Alguns acordos de cooperação em andamento, como no campo da saúde, no que se refere a Aids e Malária, por exemplo, parece ser um indício de que ao longo dos anos, o que começou com palavras, possa se constituir em atitudes mais holísticas de longo prazo. Mas ainda é muito cedo, para se fazer diagnósticos, visto que, depende também das gestões governamentais manterem e aprimorarem os programas.

Mais um aspecto que não pode ser desprezado é o fato de parte dos portugueses manifestar rejeição ao acordo. Conforme matéria publicada na Revista Língua Portuguesa, escrita por Lúcia Jardim, na edição de janeiro deste ano, enquanto no Brasil o Ministério da Educação (MEC) já lança livros didáticos atualizados, além da mídia e dicionários já seguirem as novas regras, Portugal se restringiu a adotar o acordo somente em dicionários. No campo da imprensa, até agora, três veículos aderiram. E o prazo para efetivar as mudanças é até 2014.
Os questionamentos inferem que há muitas lacunas nesse acordo, tanto que não interferem na língua oral.

Sucena Shkrada Resk |




02/02/2010 23:52
Esp.FSM 2010 - Muitos mundos possíveis, por Sucena Shkrada Resk
A experiência de participar, pela segunda vez, de uma edição do Fórum Social Mundial, me faz pensar que não é possível sonhar com 'um outro mundo possível'. Mas, sim, em muitos mundos possíveis, que se confrontarão indefinidamente, numa relação dialética e, até certo ponto, esquizofrênica. A única convergência entre tantos interesses diferenciados é que, de alguma forma, todas as centenas de milhares de pessoas que se deslocam para participar desses encontros, querem ser felizes.

Não há receita pronta para mensurar felicidade. Diria que é possível tentar traduzir alguns relatos e observações de atores, que compõem esse intrigante e, ao mesmo tempo, fascinante mosaico, ao dar voz a essas personagens. A cidadania se constrói com esse tipo de participação. E mesmo num espaço plural, percebemos que muitas vozes ainda são caladas ou ficam represadas, por causa, de uma cultura da negação do outro.

No último dia 29, o encerramento do Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Mundo Possível, do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, ressaltou esse aspecto. O interessante foi ouvir pessoas de diferentes gerações se expressando, o que demonstra que o empoderamento deve ser de todos. A juventude não pode desprezar os mais velhos e vice-versa. Esse quebra-cabeças é que enriquece o diálogo.

Assim é possível acreditar na construção de uma rede mundial, a partir do momento, em que se unam as vozes do fórum de Porto Alegre, no Brasil, com as dos EUA, do Paraguai, da Palestina, de Israel e da Europa, entre outros, que ocorrerão neste ano, rumo a Dakar, no Senegal, em 2011. Há um apelo, cada vez maior de que a justiça socioambiental e econômica saia do campo das utopias, que nos dão esperança, para as ações, que as renovam.

Entre os relatos que ouvi, selecionei o do estudante de Relações Internacionais, Pedro Borba, 21 anos, do RS, que resumiu em poucas palavras, o que é o indício dessa busca de felicidade. "É preciso que haja mais discursos propositivos do que perguntas sobre o que fazer", disse o jovem, que também participou da edição de 2005 do FSM.

Na sua opinião, movimentos como de moradores de Cochabamba, pela o direito à água, é prova de que a ideia de bem-viver, concebida pelos povos originários, tem tudo a ver com as populações dos grandes centros. "Pensando na agenda de futuro, me preocupo com os falsos consensos quanto à hegemonia. A questão é descontruir a agenda atual. Temos de combater o aquecimento global, com a ideia de justiça climática", diz.

Borba falou ao Blog Cidadãos do Mundo, que no FSM ainda a participação do jovem é superficial, em sua avaliação. "A mobilização juvenil nasce em outros espaços, como o de manifestações sobre quotas de direitos étnicos nas universidades. "A soma de pequenos esforços amplia a consciência. O desafio é ser um multiplicador", afirma.

Veja mais nos posts do Blog Cidadãos do Mundo/jornalista Sucena Shkrada Resk Especial Fórum Social Mundial 2010:
01/02 - Qual é a nossa conjuntura ambiental?
31/01 - Índio do Equador apresenta manifesto
30/01 - Voluntários: exemplo de espírito de equipe
30/01 - Como a população se integra à política pública
29/01 - Muito além do consumo inconsciente
28/01 - Boaventura Santos traça o perfil da hegemonia
27/01 - Vítimas de chuvas em SC se manifestam em Porto Alegre
27/01 - 10 anos de Fórum registrados pelas rádios comunitárias
26/01 - Índios na ofensiva ideológica
26/01 - Mobilização em prol do Haiti
26/01 - Agroecologia e mulheres camponesas
25/01 - Caminhada celebra diversidade
25/01 -Desafio é levar reflexão à massa
24/01 -Esta edição não reunirá multidões
21/01 - Pensata: Qual é o mundo possível?
Sucena Shkrada Resk |




01/02/2010 21:28
Esp.FSM 2010 - Qual é a nossa conjuntura ambiental?, por Sucena Shkrada Resk
Chuvas torrenciais causam grandes estragos pelo Brasil. Ontem vivenciei, em São Caetano do Sul, no Grande ABC paulista - onde moro - , um temporal de granizos, acompanhado por ventos de 60 km, que causou destruição na cidade, que exibe o melhor Índice de Desenvolvimento Humano, no Brasil (veja fotos na rede www.cidadaosdomundo.ning)...O que nesta hora, não faz muita diferença, para quem é vitimado por esta situação.

No Paraná, trechos de rodovias e moradias viraram entulho e, o mais importante, vidas foram perdidas. Hoje as cenas de impotência diante das águas se repetiu em Diadema, em São Bernardo do Campo, em São Paulo...Na cidade de Iguape, famílias estão isoladas. Em São Luiz de Paraitinga, a população tenta retomar a vida. Enfim, a cada dia temos a confirmação de que precisamos ter medidas de adaptação às mudanças climáticas. E a questão é a seguinte: qual é a conjuntura ambiental em que vivemos?

O Seminário Internacional Conjuntura Ambiental Hoje, realizado em 26 de janeiro, durante o Fórum Social Mundial 10 anos, em Porto Alegre, trouxe à discussão justamente a questão das mudanças climáticas e a justiça socioambiental, que vem de encontro com os problemas da atualidade no país e no mundo.

Segundo o educador Moacir Gadotti, o fracasso da COP15 - 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas atesta a crise de um modelo econômico, que utiliza desordenadamente os recursos do planeta. Na cronologia da história ambiental, ele afirma que não é possível dizer que os alertas não estão sendo, dados desde a década de 60. "Nessa época, o Clube de Roma alertava para os limites do crescimento. Em 70, houve o relatório Brundtland, seguido da Agenda 21, do Tratado de educação Ambiental, da Carta da Terra, do Protocolo de Kyoto e a Conferência de Johannesburgo e, mais recentemente, de Copenhague", disse.

O sociólogo Roberto Espinoza, coordenador do Fórum da Crise civilizatória e consultor técnico da Coordenação Andina de Organizações Indígenas destacou que a Ciência demonstra, que se em 15 anos, os rumos do planeta não mudarem, o comprometimento será irreversível. "As construções de hidrelétricas irão destruir o Peru, para gerar energia a indústrias de São Paulo. Não vamos aceitar. Não se pode desrespeitar a soberania. A maior diversidade biológica está associada à maior diversidade popular. Quem está sofrendo são os quilombolas, indígenas e povos descendentes", citou como exemplo. A exposição foi feita poucos dias antes da liberação do licenciamento ambiental, da Usina de Belo Monte, no rio Xingu, que ocorreu hoje.

Segundo o sociólogo peruano, os povos indígenas andinos têm as seguintes propostas:
- Mais controle do subsolo pelos indígenas, contra o lobby de empresas petrolíferas,
- Apoio aos movimentos sociais e ambientalistas políticos para defender a natureza e as populações tradicionais:
- Combater as indústrias de extração de minério suspeitas, que 'colocam mercúrio na terra que nunca desaparece'.

"Vamos chegar à COP16, com um cenário de disputa grande, cobrando medidas efetivas. Estamos pessimistas que no México haja o mesmo resultado de Copenhague. Não é uma luta só indígena. Todas essas crises são da civilização, que continuam no modelo colonial, de opressão". Essas questões serão discutidas na Cúpula da Mãe Terra, em outubro, na Bolivia.

Hildebrando Veléz Galeano, coordenador de Mudanças Climáticas do Amigos da Terra, analisa que o discurso dos ambientalistas agora está no coração dos debates, devido à situaçao atual do planeta. "Mas será que governos progressistas assumirão a agenda ambientalista, para sair dessa crise civilizatória?", questionou.

O ambientalista lembrou da importância, nos anos 60, da obra Primavera Silenciosa, de Rachel Carson. "Hoje há necessidade de enfrentamento das estruturas do poder, de buscar a ecoeficiência, mas não são as únicas respostas. As lutas devem ser territorializadas. Existe a possibilidade de a utopia trazer a esperança. Estamos falando da soberania dos povos e não dos Estados". Ele considera o cooperativismo como um caminho para a autonomia econômica.

Para Adriana Mezadri, dirigente nacional de Mulheres Camponesas, é incontestável que acontece a destruição dos biomas nacionais com monocultivos e o perigo dos agrotóxicos. Ainda há a tomada dos territórios indígenas e quilombolas. "As mulheres têm papel fundamental na agroecologia, com a conservação das sementes crioulas. Trata-se de soberania alimentar, com a preservação da biodiversidade. Esse processo ocorrerá quanto mais houver consciência política", considera.

Antonio Marcos Muniz Carneiro, coordenador ambiental de pesca e agricultura sustentável da COPPE, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisa que a tecnologia não pode ser vista como simples artefato. "Mas por meio do uso que fazemos dela, ou seja, a prática social", diz.

O pesquisador reforça a necessidade de se estudar o campo do conhecimento tradicional, principalmente na região sul do planeta, nos trópicos. "A Itaipu Binacional produz 50% da energia elétrica do país, sendo que não é o maior reservatório. Isso quer dizer que é possível produzir energia sem maior área ocupada", afirma.

Segundo ele, é preciso considerar que um pescador, por exemplo, dificilmente se transformará em um apicultor. "Isso quer dizer que deve se respeitar o conhecimento que tem do ecossistema do rio", fala.

Nicola Bullard, da Focus on the Global South, alerta sobre a efetivação da justiça climática, contra o quadro presente de fome e imigrações pelo o mundo, com os refugiados climáticos. "Copenhague mostrou o despertar para a falta de democracia e exclusão. Os governos chegaram ao mínimo de acordo político, que é melhor do que acordos fracos, em sua opinião. "É perigoso que a alta tecnologia esteja nas mãos dos países poderosos" analisa.

"As bases sociais podem transformar as relações, em lugar do que simplesmente resistir.Depende da sociedade dizer aos governantes o que fazer, e não das organizações", afirmou. Nicola citou a presença de cerca de 120 governantes na COP15, como algo importante. O Brasil, África do Sul, China e Índia são atores poderosos para as negociações do clima globais, segundo a ambientalista.

O questionamento sobre a transformação dos seres humanos em mercadoria foi destaque na exposição de Gilmar Mauro, coordenador nacional dos Trabalhadores sem Terra. "Os agrotóxicos contaminam o aquífero guarani. A produção desenfreada automobilistica recebe subsídios", afirmou.

Segundo o militante, ao haver a especialização em tantos assuntos, as dificuldades de acesso de informação à população aumenta. "O trabalhador morre por produtividade, como os cortadores de cana e os autônomos", falou.

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31/01 - Índio do Equador apresenta manifesto
30/01 - Voluntários: exemplo de espírito de equipe
30/01 - Como a população se integra à política pública
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Sucena Shkrada Resk |




31/01/2010 15:00
Esp.FSM 2010 - Índio do Equador apresenta manifesto, por Sucena Shkrada Resk
O encerramento, nesta sexta-feira, do Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Mundo Possível, em Porto Alegre, que integra o Fórum Social Mundial 2010, contou com a intervenção do índio equatoriano Virgilio Churuchumbi, da organização Ecuarunari (www.ecuarunari.org), filiada à Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie). A sua participação teve como objetivo apresentar um manifesto contra o desrespeito aos direitos desses povos, que acontece atualmente, no país sul-americano, segundo ele. As tensões vêm se agravando nos últimos anos, e chegam às ruas. Em outubro do ano passado, um confronto resultou na morte de um professor da etnia Shuar.

Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, Churuchumbi afirmou que tudo o que está sendo pedido não é algo 'novo'. "Os povos indígenas querem o de sempre, se libertar da colonização espanhola, com a recuperação de territórios, exigindo direitos de educação, saúde e meios de produção. Queremos debater as leis privatizadoras e de educação bilíngue", diz.

O indígena afirma que os direitos coletivos das comunidades, que constam na Constituição de seu país, estão sendo desrespeitados. "Temos nossos governos comunitários, formados pelas próprias organizações, que não são ouvidos".

De acordo com o representante da Conaie, existe atualmente um problema de relacionamento com o governo equatoriano. "Há exploração de petróleo e minério em territórios indígenas, e não existe a compreensão governamental, de que ocorre uma violação dos direitos da Constituição e da natureza, quando os povos indigenas não são consultados. O FSM deve ser espaço de denúncia, por isso, trouxe o documento para buscar apoio dos movimentos", afirma.

O discurso do índio Churuchumbi só reforça as reivindicações de centenas de povos na América Latina, e que ganha força no Brasil, principalmente na região Norte, devido aos projetos de construções de hidrelétricas e de rodovias, que ocupam as manchetes dos jornais, principalmente, desde o ano passado. Na edição do FSM, em Belém, essa tônica já era acentuada, e de lá para cá, é notório que pouca coisa avançou no sentido do diálogo.

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Sucena Shkrada Resk |




30/01/2010 22:32
Esp.FSM 2010 - Voluntários: exemplo de espírito de equipe, por Sucena Shkrada Resk
Quando podemos presenciar o esforço de cooperação por uma causa, não devemos deixar isso passar em branco. Estou me referindo ao papel desenvolvido por um grupo de cerca de 100 pessoas, de diferentes idades, que atuaram como voluntárias, durante o Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Mundo Possível, no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, de 25 a 29 de janeiro. Em conversa de bastidores, soube que o trabalho foi realizado na 'raça', pois chegou a faltar tíquetes-restaurantes para componentes da equipe. Ainda ouvi de duas voluntárias, que estavam lá, por amor à causa e repetiam a dose, depois da edição de 2005, que também foi na capital gaúcha. Uma afirmação espontânea e sem demagogias, de pessoas simples, literalmente do povo.

Nesta sexta-feira, 29, durante o encerramento, essas pessoas mostraram seus rostos para a plateia que ocupava o auditório da Assembleia Legislativa, um dos locais que sediou o evento, e foram aplaudidos. Os incidentes de percurso e dificuldades que enfrentaram foram irrelevantes diante do espírito cooperativo que promoveram. Esses são cidadãos do mundo, no estrito senso da palavra, que fazem com que tenhamos esperança num mundo melhor. Confira a foto do grupo no site
Rede Ning - Cidadãos do Mundo , no qual também coloquei outras fotos do evento.

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Sucena Shkrada Resk |




30/01/2010 20:41
Esp.FSM 2010 - Como a população se integra à política pública, por Sucena Shkrada Resk
Os resultados dos Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município
IRBEM , - um trabalho promovido pelo Movimento Nossa São Paulo, sob coordenação técnica do IBOPE Inteligência -, em 2009, registram que a opinião pública é um importante referencial para os gestores conduzirem as políticas nas cidades. O secretário-executivo da organização, o historiador Maurício Broinizi, em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, nesta semana, explicou que o instrumento de pesquisa pode ser aplicado por outras cidades. "É uma forma de pressão e, ao mesmo tempo, de subsídio. Também pode servir como meio para o gestor público olhar com mais critério a distribuição de recursos", avalia.

O levantamento está à disposição, na íntegra, no site do movimento. "Só pedimos a citação, mas qualquer município pode utilizar. No entanto, é preciso ser adaptado às realidades locais, e para isso, há necessidade de aporte técnico e de pesquisa", explica. A metodologia já foi disponibilizada à Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, da qual o Nossa São Paulo faz parte, que conta com 30 organizações pelo Brasil.

"O processo de construção da pesquisa foi coletiva. Cerca de 37 mil pessoas ajudaram a escolher as questões de qualidade de vida apresentadas pelo IBOPE, sobre aspectos da vida pública e privada", explicou.

O universo de amostragem totalizou 1.512 entrevistados, a partir de 16 anos ao público da terceira idade, entre o período de 2 a 16 de dezembro do ano passado. Um total de 45% considerou que a qualidade de vida ficou estável. Já os menores níveis de satisfação foram relacionados a:
- Oportunidades de trabalho para terceira idade;
- Distribuição de renda;
- Respeito ao pedestre;
- Segurança no trânsito;
- Acompanhamento dos políticos eleitos;
- Punição à corrupção;
- Honestidade dos governantes, entre outros.

A informação foi concedida por Broinizi, em Porto Alegre, durante o Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Mundo Possível, que integra o Fórum Social Mundial 2010.

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Sucena Shkrada Resk |




29/01/2010 05:34
Esp.FSM 2010-Muito além do consumo inconsciente, por Sucena Shkrada Resk
Mais do que o problema do consumo inconsciente, há uma mazela maior a ser refletida – o subconsumo. Essa foi a discussão trazida pelo indiano Amit Sengupta, da organização Peoples Health Movement, durante o Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas para Um Outro Mundo Possível, dentro da programação do Fórum Social Mundial (FSM) 10 anos, em Porto Alegre, nesta última quinta-feira (28). O militante propõe que o evento, neste sentido, se mobilize ao desafio de se tornar um espaço multiplicador de outras iniciativas pelo o mundo, de construção de uma hegemonia, que não se alicerce no eterno conflito de direita e esquerda.

´É preciso desafiar as classes dominantes. Em Mumbai, que é a terceira maior cidade do mundo, o tipo de pobreza é grave. Dez pessoas morrem por dia, por exemplo, porque têm de pegar transporte público urbano, que é muito inseguro. Embora, tenhamos a Índia dos turistas, temos a Índia dos sem-teto, andarilhos, que foram tirados de suas terras e estão desempregados, sem comida`, diz.

O indiano alerta que não é possível se fechar os olhos a essa questão. ´Acredito que 50% dos cidadãos de meu país compartilham da visão de querer salvar o planeta. Mas muitas pessoas no mundo não têm esse interesse`, diz.

Nesse contexto, Sengupta analisa que o FSM começou há dez anos, em Porto Alegre, mostrando que o ´monstro´ do capital global poderia ser desafiado. ´Era um dos poucos lugares onde a voz saiu do sul para o sul. Estamos dez anos depois, decidindo se vamos fazer história`, afirma.

O representante da Peoples Health Movement considera que é possível que os países em desenvolvimento reconstruam os parâmetros de crescimento, e citou a importância do Brasil, neste processo junto à Índia. ´O planeta vai sobreviver, mas estamos preocupados se a espécie humana não conseguirá sobreviver.

A sua crítica é aos países com governos progressistas e de esquerda. ´Fico incomodado que a construção da hegemonia alternativa seja uma eterna oposição (direita-esquerda). ´Não podemos construir o socialismo do século XXI, sem enfrentar o do século XX`, afirma.

Sengupta acredita que o caminho é que a humanidade seja capaz de revolucionar as forças produtivas. ´Embora o Capitalismo pareça estar morrendo, ainda procura colonizar nosso futuro. Em nível global, movimentos feministas, de defesa do clima surgiram porque os antigos não conseguiam captar as aspirações das pessoas. Precisamos ir além da hostilidade, precisamos de uma nova linguagem para que os antigos e novos movimentos possam conversar um com outro`, analisa.

Segundo ele, é natural a impaciência dos integrantes no FSM, em buscas de soluções. ´O desafio é ver se podemos trazer movimentos de outros lugares que vejam no fórum um espaço para construir hegemonia futura. Em Porto Alegre, em Nairobi, em Belém, havia esperança de transformação. O amanhã pertence a nós e ninguém pode nos tirar isso`, diz.

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28/01/2010 20:14
Esp. FSM 2010 - Boaventura Santos traça perfil da hegemonia, por Sucena Shkrada Resk
O doutor em Sociologia, o português Boaventura de Sousa Santos, traçou hoje os caminhos da hegemonia, em uma exposição ovacionada, durante o painel Como Construir Hegemonia Política, que integra o Seminário Dez Anos Depois: Desafios e Propostas Para um Outro Mundo Possível, durante o Fórum Social Mundial (FSM), em Porto Alegre. O intelectual trouxe, no bojo de seu discurso, o respeito aos povos tradicionais. E finalizou sua apresentação, com a seguinte provocação - "Nós queremos criar rebeldes competentes, e não ser conhecidos como somentes inconformistas".

Segundo Santos, hegemonia é um consenso, pelo o qual, pode se juntar grupos sociais distintos para compartilhar determinadas ideias. "Estamos agora na corrente contrária e o neoliberalismo não foi derrotado. Está mais difícil de se estabelecer os consensos, de que falava Gramsci (pensador italiano referência do pensamento de Esquerda).

O intelectual, que é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, contesta as bases do pensamento neoliberal. "O movimento capitalista é insustentável. Pertencemos à pequena porcentagem do mundo que se beneficia dessa injustiça. Estamos todos envolvidos nessa injustiça e na insustentabilidade ambiental, que vai afetar tanto Bangladesh como a Holanda", afirma.

Em sua avaliação, ao final de 10 anos, o FSM tem de mudar o ciclo. "É necessário que se criem sujeitos de direitos humanos (DH). Alterar o que fundamentalmente são os dh hoje. Com isso, o FSM tem de ser apropriado pelas classes populares", defende.

Até hoje, segundo ele, na América Latina, há a criminalização dos movimentos sociais e um controle repressivo e autoritário. "A democracia deve ser entendida como estratégia revolucionária, com uma prática cotidiana", considera.

Neste momento, ele anunciou que denunciaria ao Ministério Público (MP), o desmantelamento das escolas do Movimento Sem-Terra (MST), e que pediria o arquivamento as ações civis públicas contra o movimento. O que fez pouco tempo depois, retornando posteriormente ao evento.

Santos defende que a compreensão do mundo é muito mais ampla que a concepção ocidental do mundo. "Temos ideias novas de pensamento ocidental em outros continentes. Os povos indígenas falam de dignidade e respeito e, não do socialismo. Isso significa que podemos ter diferentes linguagens do Socialismo. E a hegemonia deve juntar todas essas ideias", afirma.

A conjuntura do FSM, em sua opinião, tem de assumir o papel protagônico, em que figurem menos diferenças de propósitos entre os movimentos. "O sentimento de urgência é prioritário para nós, é de mudança civilizacional".

"Nesta década, lançamos a ideia de que cada movimento isolado não consegue atingir agenda. Temos de consolidar esta ação. O FSM deve ser espaço de espaços, para que em outros lugares do mundo leve o selo do fórum. É o fórum social em movimento".

Em sua exposição, o doutor em Sociologia também se aprofundou na metalinguagem, com frases, como - "Ao lado de cada esperança há um caixão". Referiu-se ao que chama de necessidade de desmercantilização. "É preciso tirar do capital, os bens públicos, a soberania alimentar.... O economista e sociólogo defende a economia solidária e a luta contra o colonialismo sobre os quilombolas e os povos indígenas. "Descolonizar é vencer os preconceitos raciais e sexistas", considera.

Boaventura de Sousa Santos ainda critica o prêmio nobel da Paz. "Temos de denunciar o comitê do Nobel da Paz, que se tornou um comitê de guerra. Não dá para dizer que não temos a ver com isso", diz.
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27/01/2010 19:52
Esp: FSM 2010 - Vítimas de chuvas em SC se manifestam em Porto Alegre, por Sucena Shkrada Resk
Vítimas das chuvas que atingiram o estado de Santa Catarina, em 2008, participaram nesta quarta-feira, do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, para pedir auxílio global à população que ainda sofre devido às chuvas e intempéries climáticas, que são frequentes nesta parte do Brasil. Durante uma oficina sobre a COP 16 - 16ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (que ocorrerá no México, no final do ano), apresentaram a publicação da Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (ABONG) - "SOS Comunidade Vale do Itajaí - monitoramento e organização comunitária em desastres".

A revista, com 50 páginas, é um dossiê da situação de calamidade, que até hoje ainda reflete na vida da população local, apesar de intervenções do poder público. No material disponibilizado em CD, há o relatório "Direito à Sobrevivência", lançado em 2009, pela Oxfam Internacional. O levantamento aponta que os eventos de desastres climáticos podem aumentar em 50% em todo planeta, até o ano de 2015.

Algumas das vítimas das chuvas concederam entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, e relataram, que o dia a dia das famílias sofre interferência da tragédia até hoje, mais de um ano após o incidente. O presidente da Associação de Moradores do Rio da Luz e Barra do Rio, Hélio Teixeira da Rosa, 36 anos, de Jaraguá do Sul, conta que a infra-estrutura do bairro onde mora - bairro Rio da Luz, é precária, mesmo após providências tomadas pelo poder público em auxílio aos moradores locais.,br>
"Sofremos com o deslizamento de terra e alagamentos em novembro de 2008, quando houve a morte de 9 pessoas. O problema é que fica em área de encosta e ribeirinha. Acredito que mora cerca de 2000 pessoas em áreas de risco na região", conta.

Segundo o morador, os rios Jaraguá, da Luz e Guamiranga, que atingem outros bairros, chegaram a subir em dois metros. "Até hoje sinto tristeza e desânimo. Minha casa teve rachaduras e as casas de alguns vizinhos foram abaixo ou interditadas", afirma. Cerca de 20 famílias ficaram desalojadas. "A Prefeitura pagou um ano de aluguel e agora, as pessoas têm de se virar por conta própria" afirma.

A reivindicação da comunidade, de acordo com Teixeira da Rosa, é que as ruas da região sejam pavimentadas e que seja construída área de lazer. "Ainda não temos endereço, não recebemos carta, com nome de rua. Só vem a conta de água e luz", fala.

A história de moradora assistida pelo Centro de Direitos Humanos Maria da Graça Braz, de Joinvile, retrata mais uma situação de dificuldade provocada pelos temporais. "A minha casa cedeu, foi interditada pela Defesa Civil, em novembro de 2008. Eu morava lá, há 18 anos. Somente em 95 , tinha ocorrido chuva semelhante", diz.

A dona de casa lamenta, que não pôde mais voltar com sua família à sua casa própria, que foi resultado do esforço de longos anos, porque o 'solo não tem firmeza', segundo laudo oficial. "A Secretaria Municipal de Habitação ofereceu um outro local, em terreno menor, não aceitamos. A nossa casa tinha três quartos, sala e cozinha e lavanderia. Mesmo sem estar lá, temos ainda de pagar Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) e taxa de lixo", conta. Ela se recorda que ficou em pânico na época. "Eu e minha família (marido e dois filhos), por 11 dias, tivemos de permanecer alojados em um colégio. Depois mudamos para Guaramirim, onde pagamos aluguel".

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Especial Fórum Social Mundial 2010:
27/01 - 10 anos de Fórum registrados pelas rádios comunitárias
26/01 - Índios na ofensiva ideológica
26/01 - Mobilização em prol do Haiti
26/01 - Agroecologia e mulheres camponesas
25/01 - Caminhada celebra diversidade
25/01 -Desafio é levar reflexão à massa
24/01 -Esta edição não reunirá multidões
21/01 - Pensata: Qual é o mundo possível?
Sucena Shkrada Resk |




27/01/2010 13:48
Esp. FSM 2010 - 10 anos de Fórum registrados pelas rádios comunitárias, por Sucena Shkrada Resk
Hoje foi lançado o CD "Palavras dos Primeiros 10 anos do Fórum Social Mundial, com entrevistas, depoimentos e coberturas realizadas pelas rádios comunitárias. A iniciativa foi da Associação Mundial de Rádios Comunitárias da América Latina e Caribe (AMARC-AL) e da Associação Latinoamericana de Educação Radiofônica (ALER), no programa conjunto Ritmo Sur.

Para a chilena Maria Pia Matta Cerna, presidente da AMARC -AL, o trabalho representa um incentivo aos movimentos sociais. Ela lembrou que há um processo difícil de reconhecimento deste segmento de mídia mundialmente, como as perseguições, que ocorrem no Brasil, com cerca de 7 mil pessoas punidas. "Iniciamos a captação do material em maio do ano ano passado e foi uma contribuição de vários multiplicadores pela América Latina", conta. Entre as entrevistas, há depoimentos de intelectuais, como do sociólogo português Boaventura de Souza Santos, que está presente nesta edição.

"São diálogos múltiplos registrados, neste período, que representam um aporte da memória do encontro", afirma Nestor Busso, da ALER, da Argentina.

Cobertura em Porto Alegre

Com uma rede de aproximadamente 400 associadas, as organizações das rádios comunitárias estão cobrindo a edição do FSM, que acontece em Porto Alegre. "Aqui está ocorrendo uma reavaliação de todo o histórico, com a proposta de uma articulação mais avançada. Em Belém, no ano passado, o foco foi a força local dirigida ao global, trazendo a problemática da Amazônia", analisa Maria Pia.

A ativista da mídia livre acredita que a construção de interferência do FSM é 'paulatina'. "Deve ampliar a ação ativista, não é uma revolução. Eu acredito que neste processo deve haver a construção dos sujeitos midiáticos", diz.

A brasileira Rita Freire, da Ciranda.net, conta que neste ano, um dos intercâmbios que ocorre em Porto Alegre é com a Rádio Koch, de Nairóbi, no Quênia, que tem uma representante na edição. "Essa rádio, que foi instalada em um conteiner, é inspirada na Rádio Favela, do Brasil, que chegou a ser retratada no filme "Uma Onda no Ar"", diz a ativista.

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Especial Fórum Social Mundial 2010:
26/01 - Índios na ofensiva ideológica
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26/01/2010 19:23
Especial Fórum Social Mundial 2010 - Índios na ofensiva ideológica, por Sucena Shkrada Resk
O painel A Conjuntura Ambiental Hoje, do Fórum Social Mundial - FSM 2010, em Porto Alegre, teve como destaque, nesta manhã, a exposição de Roberto Espinoza, coordenador do Fórum de Crise Civilizatória e da Coordenação Andina de Organizações Indígenas. Com convicção, chamou a atenção do público, ao afirmar - "Os povos indígenas estão na ofensiva ideológica...".

Espinoza explicou ao Blog Cidadãos do Mundo, após o seminário, que em outubro, haverá um encontro em Cochabamba, na Bolívia, entre indígenas, povos africanos e grupos de apoio ao FSM, para discutir a crise civilizatória, que representa a modernidade com interferências da colonialidade. A estimativa é que participem cerca de 2000 mil pessoas.

"Queremos a desmercantilização da vida e o crescimento da felicidade. Trataremos do tema subjetividade, para discutir conceitos a serem reavaliados. Não podemos, por exemplo, dissociar egocentrismo do racismo e do patriarcalismo", disse.

O indígena afirma que a construção de hidrelétricas, como Belo Monte, no rio Madeira, também afetam as comunidades do Peru. "O que pedimos é que haja consulta aos povos indígenas para a construção de hidrelétricas e de rodovias", diz. Segundo ele, a maior diversidade biológica está associada à diversidade popular e as indústrias (petroleiras, mineradoras) não podem deter o poder sobre o subsolo.
Espinoza está atento aos efeitos das mudanças climáticas. "Em 15 anos, se nada for alterado, as mudanças serão irreversíveis, de acordo com as divulgações científicas. "Na Bolívia, já temos a malária, e na África, as catástrofes também são presenciadas...Chegamos ao limite da incapacidade ao desenvolvimento sustentável, por causa do Capitalismo...", diz.

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26/01 - Mobilização em prol do Haiti
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26/01/2010 17:14
Especial Fórum Social Mundial 2010 - Mobilização em prol ao Haiti, por Sucena Shkrada Resk
A Via Campesina e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) anunciaram hoje, em entrevista coletiva, durante o Fórum Social Mundial 2010, em Porto Alegre, ações dos movimentos, que estão em andamento no Haiti, antes e depois do terremoto do último dia 12. O intuito é entregar uma
carta , com reivindicações de auxílio aos projetos propostos pelas organizações, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda hoje. O encontro deverá acontecer, à noite, quando o presidente fará pronunciamento, no ginásio Gigantinho, na capital gaúcha.

O camponês e técnico agrícola paranaense, radicado em Rondônia, Carlos Roberto Oliveira, 31 anos, e o também técnico agrícola capixaba, Sidevaldo Miranda, 25, contaram a experiência que vivem no Haiti, desde janeiro de 2009. Os dois integram uma equipe de quatro representantes da Via Campesina, responsável por um projeto junto aos camponeses do país, para auxiliá-los no enfrentamento da crise humanitária pré-existente ao terremoto. Eles devem retornar no dia 31 de janeiro para lá. "Mais 40 militantes da Via Campesina deverão seguir para lá, em 25 de fevereiro. E estamos reivindicando que 120 jovens haitianos possam ter formação técnica no Brasil", disse Sidevaldo Miranda.

Os profissionais fizeram uma imersão no idioma, cultura e geografia haitiana, antes de iniciarem a prospecção da área rural, com o auxílio dos movimentos campesinos locais. "Viajamos por 10 estados e detectamos várias organizações sociais e verificamos a possibilidade de propostas para executar em 2010, quanto ao abastecimento de água, produção de sementes de legumes e reflorestamento, ", contou Oliveira.

Eles se depararam com dados ambientais impactantes, como uma cobertura florestal de 3% e 90% do uso de energia do carvão destinada para produzir alimentos. "Identificamos que o nível de analfabetismo chega a 70% e verificamos que a falta da água é grave. Às vezes, as pessoas demoram até 5 horas no deslocamento para ter acesso..., e há o problema dos coliformes fecais...", explicou Oliveira.

Desse levantamento, surgiu a seguinte demanda:
- Implementação de escola técnica agrícola;
-- Cultivo de 20 milhões de árvores frutíferas;
- Construção de 50 mil cisternas;
-Além de açudes para as famílias nos campos e poços artesianos, entre outras.

O secretário -geral da CUT Nacional, Quintino Severo, expôs que 60% dos haitianos estão desempregados. "Já estabelecemos uma relação com o movimento sindical local, para auxiliá-los neste sentido. Com o terremoto, retomamos este contato. Também decidimos criar duas brigadas, uma concentrada na prevenção de saúde pública e outra com pedreiros, carpinteiros...", explicou. Entretanto, o fator logístico ainda dificulta o transporte dos profissionais para o Haiti. "A questão do deslocamento é precário, vamos pedir auxílio ao poder público. A entidade também providenciou um galpão no Rio de Janeiro, onde deverá armazenar donativos às vítimas do terremoto haitiano.

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Especial Fórum Social Mundial 2010:
26/01 - Agroecologia e mulheres camponesas
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25/01 -Desafio é levar reflexão à massa
24/01 -Esta edição não reunirá multidões
21/01 - Pensata: Qual é o mundo possível?

E posts sobre o Haiti:
21/01/10 - Haiti: mais braços se somam
14/01/10 - Haiti - A comunicação e a saúde ambiental
13/01/10 - Pensata: Haiti - O sentido da universalidade (2)
11/01/10 - Pensata: o sentido da universalidade
10/12/09 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu
Sucena Shkrada Resk |




26/01/2010 14:21
Especial Fórum Social Mundial 2010 - Agroecologia e mulheres camponesas, por Sucena Shkrada Resk
O trabalho no campo, nos dias de hoje, começa a manter novos sistemas de relação do trabalho e o meio ambiente. Para falar sobre este tema, que envolve a agroecologia, o Blog Cidadãos do Mundo entrevistou a dirigente nacional do Movimento Mulheres Camponesas, Adriana Mezadri, que foi uma das participantes do Fórum Social Mundial 2010, em Porto Alegre. Ela integrou, pela manhã, o painel A Conjuntura Ambiental Hoje, com outros convidados do Brasil e do exterior, mediado pelo pensador Moacir Gadotti. Adriana é gaúcha, de uma pequena localidade a 400 km da capital, e única dos quatro irmãos, que continuou no meio rural.

Blog Cidadãos do Mundo - Qual é a história da origem do Movimento Mulheres Camponesas?

Adriana Mezadri - O grupo começou em 2004, devido ao desafio de combater o modelo do agronegócio e a violência praticada contra as mulheres e hoje já se encontra em 22 estados, com exceção de AP, DF, PI, RJ e SP. Nossa missão é tentar libertar as mulheres da exploração e discriminação e incentivar a agricultura agroecológica, baseada na ótica feminista. Apostamos na construção da relação da troca com a natureza. As camponesas são posseiras, quebradeiras de coco e ribeirinhas principalmente.

Cidadãos do Mundo - Explique como funciona, na prática, o sistema de agroecologia do movimento.

Adriana Mezadri - É importante lembrar que a agricultura foi descoberta pelas mulheres e que a agroecologia tem como base que trabalhemos com sementes crioulas, ou seja, nativas, que não sofreram alterações genéticas. Com isso, trabalhamos com hortaliças, feijão, milho, entre outras, com a proposta de obter uma alimentação saudável para subsistência, como também, para venda em feiras ou diretamente nas casas dos consumidores, que são trabalhadores como nós.

Cidadãos do Mundo - Além da alimentação, há investimento em outras frentes de produção?

Adriana Mezadri - Também estamos trabalhando com plantas medicinais, usando o conhecimento local, que vem de geração em geração. No meu caso, que sou da região sul, cultivo marcela, que é uma flor que tem um ritual interessante, de ser colhida na Sexta-feira Santa. É usada para problemas do sistema digestivo e desde que sou gente soube disso e agora a gente está re-significando esta cultura.

Cidadãos do Mundo - Vocês mantêm algum tipo de parceria técnica para o cultivo agroecológico?

Adriana Mezadri - São poucas as parcerias, como o curso de extensão que tivemos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sobre reconhecer que o trabalho das mulheres camponesas vai além do campo, cuidando de casa, de seus animais, dos idosos. Uma companheira do movimento chegou a levantar, que de maneira geral, chegamos a trabalhar, por muitas vezes, 18 horas por dia.

Cidadãos do Mundo - E a questão da mobilização contra a violência, o que tem a dizer?

Adriana Mezadri - É um assunto muito sério, porque no meio rural, há um maior conservadorismo. As mulheres no campo, na maioria das vezes, sofrem violência física e moral e são vítimas dos próprios companheiros ou familiares. A dificuldade aumenta, por causa das distâncias às cidades e que os agressores estão muito próximos. A Lei Maria da Penha é importante, mas as mulheres precisam ser mais incentivadas a fazer as denúncias. Esse é um dos principais desafios e bandeira de luta de nosso movimento, além da manutenção de direitos adquiridos, como o salário maternidade, e da aposentadoria como seguradas especiais, aos 55 anos, com um salário mínimo.

Veja mais nos posts - Especial Fórum Social Mundial 2010:
25/01 - Caminhada celebra diversidade
25/01 -Desafio é levar reflexão à massa
24/01 -Esta edição não reunirá multidões
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Sucena Shkrada Resk |




25/01/2010 19:46
Especial: Fórum Social Mundial 2010 - Caminhada celebra a diversidade, por Sucena Shkrada Resk
Os termômetros marcavam hoje, mais de 30 graus, e os participantes da caminhada oficial do Fórum Social Mundial 2010, não arredaram pé das ruas centrais de Porto Alegre. A concentração foi em frente ao mercado municipal, a partir das 15h, e teve como destino final, a Usina do Gasômetro, às margens do rio Guaiba, por volta das 19h. A pluralidade de reinvindicações marcou mais esta edição. Aos manifestantes se juntaram participantes da Marcha Estadual pela Liberdade Religiosa 2010, que comemoravam principalmente as expressões das religiões afro. Ao mesmo tempo, sindicalistas, sambistas, curiosos e artistas de rua interagiram nessa festa popular, que acabou em apresentações musicais, no decorrer da noite.

O ponto negativo, como se repete nesses encontros, se refere à educação da população, ao jogar o lixo nas ruas, o que não combina com a consciência ambiental, esperada num evento com esta temática. Com isso, os varredores tiveram bastante trabalho, num mutirão de limpeza que foi praticamente simultâneo ao evento. Por outro lado, centenas de participantes demonstravam em suas falas, faixas e palavras de ordem, que o que os movia era a necessidade de encontrar caminhos para um mundo melhor.

Nesse grupo eclético, tive a oportunidade de conversar com a presidente da Organização de Mulheres de São Joaquim (Chile), entidade criada em 1999, que hoje reúne cerca de 300 integrantes. "É a terceira vez que participo do FSM, é uma forma de intercâmbio", disse ela. Eva contou que o movimento nasceu como reação à fase ditatorial. "Hoje nossa luta é para combater as desigualdades sociais, que são muito intensas em nossa região", conta.

A entidade compartilha conhecimentos com o Centro de Assessoria e Estudos Urbanos, de Porto Alegre, que atua na formação de conselheiros do orçamento participativo, há 21 anos. "O nosso público-alvo são lideranças comunitárias principalmente femininas", diz a a socióloga Daniela Tolfo, que representa a instituição.

A presença desses cidadãos de diferentes partes do mundo, neste ato popular, funciona como um aquecimento para discussões mais sérias. Entre elas, justiça social, igualdade de gênero, direitos trabalhistas e defesa ambiental, que deverão ocorrer nos próximos dias. Amanhã, o destaque será o Seminário Internacional Conjuntura Mundial Hoje, em Porto Alegre, e o Terceiro Encontro Nacional de Agendas 21, em Gravataí.

Neste primeiro dia, entretanto, foi possível fazer comparações com a edição passada, em Belém, que registrou momentos ímpares da história do FSM, com um diferencial expressivo, com a atual. Na capital paraense, as minorias tiveram representatividade significativa. Aldalice Otterloo, representante da coordenação do FSM 2009, fez um balanço hoje do movimento, ao definir que uma de suas marcas foi a de estabelecer o caráter pan-amazônico. Ela reinvindicou que esta, como as próximas edições deem prosseguimento à defesa de direitos de índios, ribeirinhos, quilombolas, entre outros, que são o principal público-alvo, que gerou a concepção do fórum.

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25/01 - Especial FSM 2010 - Desafio é levar reflexão à massa
24/01 - Especial FSM 2010 - Esta edição não reunirá multidões
21/01 - Especial FSM 2010 - Pensata: Qual é o mundo possível?
Sucena Shkrada Resk |




25/01/2010 13:37
Especial: Fórum Social Mundial 2010 - Desafio é levar reflexão à massa, por Sucena Shkrada Resk
Hoje, a abertura do Fórum Social Mundial - 10 anos, em Porto Alegre, teve como tônica, o desafio de o evento conseguir pluralizar as reflexões à sociedade, ou melhor, popularizar a difusão das propostas, que são discutidas nos encontros. Os principais idealizadores do movimento expuseram o balanço que fazem das ações, nos últimos anos, que se confrontam com uma resistência ao modelo neoliberal e imperialista.

O arquiteto e pensador, Chico Whitaker, priorizou em sua fala, o chamado 'alter-mundialismo', como uma visão de criar espaços abertos para conceber ações propositivas. "O nosso objetivo atual é encontrar a união dentro deste alter-mundialismo. Isso enfrenta uma das maldições que paira sobre a Esquerda, que é a divisão que nos debilita", disse.

De acordo com Oded Grajew, do Movimento Nossa São Paulo e também um dos idealizadores do FSM, não será possível chegar à universalização dos ideais manifestados no evento, por meio de imposições. O respeito à gênese do respeito à diversidade deve ser uma meta a ser seguida pelo o movimento, em sua análise.

Na opinião de João Pedro Stedile, da Via Campesina, 'democracia demais' também não pode ser o caminho a ser seguido pelo FSM, como ocorreu em tempos passados. "Quando todos fazem o que querem, não funciona a democracia", afirmou.

Um dos méritos do FSM, de acordo com Cândido Grzybowski, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), é a decisão de não concentrar o evento em um único local. "Foi uma decisão acertada rodar o mundo, o que desencadeou processos autônomos", considera.

A crítica à grande imprensa quanto à cobertura do FSM foi feita pelo representante da Central Única dos Trabalhadores (CUT), João Antonio Felício. "Não gosta de nós", disse. O sindicalista ainda ressaltou a necessidade do movimento se concentrar nas ações consensuais, o que facilitaria o êxito das metas do fórum.,

De uma maneira geral, as avaliações dos idealizadores do FSM pontuam que ainda há um longo caminho a trilhar, para que haja uma sociedade mais justa e sustentável. Um dos principais pontos para isso, segundo eles, é não dissociar o papel do encontro com a política (não-partidária), pois deve ter influência sobre políticas públicas, entre outras atribuições. O peso do 'descaminho ambiental' no mundo é mais um problema a solucionar para se chegar ao ideal de 'um outro mundo possível'. Com isso, o FSM 2010 pretende ainda chegar a algumas propostas para a COP16 - 16ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, no México, em novembro deste ano.

Veja mais nos posts:
24/01 - Especial: Fórum Social Mundial 2010 - Esta edição não reunirá multidões
21/01 - Especial: Fórum Social Mundial 2010 - Pensata: Qual é o mundo possível?
Sucena Shkrada Resk |




24/01/2010 14:26
Especial: Fórum Social Mundial 2010 - Esta edição não reunirá multidões, por Sucena Shkrada Resk
Cheguei a Porto Alegre e estou me familiarizando com a organização do Fórum Social Mundial 2010, que fará uma reflexão sobre os 10 anos do evento. Diferentemente da edição anterior, em Belém, e do encontro na cidade, que ocorreu em 2005, a organização não pretende reunir multidões em um mesmo local, já que a programação está descentralizada em diferentes temáticas, na região metropolitana de Porto Alegre e em outras regiões do mundo.

Em conversas de bastidores, a proposta, neste ano, será promover uma reflexão que tenha como um dos eixos, os rumos do planeta, principalmente, na contagem regressiva à COP 16 - 16ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que acontecerá no México, no final do ano. O fracasso em Copenhague é visto como um sinal de alerta - para o mote 'de um mundo possível'.

Hoje ocorreu uma coletiva de imprensa com Oded Grajew, Chico Whitaker, entre outros representantes, a um grupo pequeno de jornalistas brasileiros e internacionais, que já se encontram na cidade. Amanhã haverá a abertura oficial, com um Seminário, pela manhã, e passeata, no período da tarde. Aí será possível sentir a atmosfera que se produzirá até o encerramento, no dia 29.

Veja mais: post 21-01 - Especial Fórum Social Mundial 2010 - Pensata: Qual é o mundo possível?
Sucena Shkrada Resk |




21/01/2010 14:40
Haiti: mais braços se somam, por Sucena Shkrada Resk
Mais tremores atingem a nação caribenha do Haiti e mais braços se somam no auxílio às vítimas do terremoto de 7 graus, do último dia 12. Aqui, no Brasil, o Ministério da Saúde (MS)iniciou uma campanha de cadastramento de doares de medicamentos, insumos de saúde e de profissionais autônomos voluntários, que tenham interesse em participar de uma lista de reserva para possíveis missões humanitárias.

Os dados são disponibilizados no site p/para medicamentos e insumos (
http://formsus.datasus.gov.br/site/formulario.php?id_aplicacao=3646) e para profissional de saúde http://formsus.datasus.gov.br/site/formulario.php?id_aplicacao=3647 .
Mais informações podem ser obtidas no site:
www.saude.gov.br .
Segundo a Agência Saúde, o MS analisará as inscrições. Os critérios são estabelecidos pelo gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, que coordena a ação de apoio ao Haiti.

Na frente de auxílio, também constam organizações não-governamentais. Seguem os sites:
Care Brasil:
www.care.org.br/
Cruz Vermelha brasileira: www.cvbb.org.br
Médicos sem Fronteiras: www.msf.org.br

Veja mais no Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:
14/1/2010 - Haiti - A comunicação e a saúde ambiental
13/01/10 - Pensata: Haiti - O sentido da universalidade (2)
11/01/10 - Pensata: o sentido da universalidade
10/12/09 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu

Sucena Shkrada Resk |




21/01/2010 12:17
Especial: Fórum Social Mundial 2010 - Pensata: Qual é o mundo possível?, por Sucena Shkrada Resk
Qual é o mundo possível? Uma pergunta que não cala em minha mente. Depois de um ano, em que fui ao Fórum Social Mundial (FSM)
Fórum Social Mundial 2009, em Belém, no PA, estou me preparando para seguir a Porto Alegre, RS. O encontro comemorará 10 anos do evento, em cinco dias, e reunirá personagens de diversas partes do mundo em busca de respostas para a construção de um planeta sustentável. Nesta contagem regressiva, um turbilhão de ideias povoa minha mente, no balanço sobre os caminhos que estou trilhando como cidadã e profissional integrante desta sociedade. Com isso, metaforicamente em minha 'caderneta' de anotações, o alerta é - 'tenho muito ainda a fazer''. E o seu, qual é?

É positivo dialogarmos conosco, entre nós, sem muitos rodeios. A pior coisa é tentarmos nos enganar. No saldo devedor ao mundo, elenquei o seguinte:
- Preciso ouvir mais, para refletir sobre o que falo e faço. As palavras são edificações;
- Pulverizar as mágoas as confrontando com tudo de bom que nos acontece e que, nem sequer, prestamos atenção;
- Ajudar ao próximo em ações contínuas (se possível, anônimas), tendo em vista, que o transitório e o 'alarde' não agrega valor moral;
- Ampliar o meu papel de jornalista/comunicadora em contribuição às causas humanitárias; ser multiplicadora
- Ampliar o meu papel como educadora ambiental com o objetivo de provocar cada vez mais reflexões e compartilhamentos de ideais e práticas sustentáveis...E sempre me colocar também como aprendiz, nesta relação.
-Tentar enxergar no outro os seus melhores potenciais e ajudar com que os mesmos se aflorem.
-Dizer eu te amo ao companheiro do hoje e do amanhã, familiar, amigo, ao cidadão que está abandonado e colocar para fora esse sentimento com ternura, se possível, em todos os dias da minha vida

Enfim, esta 'caderneta' poderia ser sua ou de outra pessoa, ou melhor, de todos nós. O FSM simboliza, de certa forma, esses anseios e questionamentos, dos quais estou falando. E o principal nisso tudo é que a troca de experiências, que ocorrerá em Porto Alegre e região metropolitana, e em outros lugares do mundo, tem a possibilidade de desconstruir pilares erguidos em vaidades, casuímos e de estabelecer uma estrutura sólida, fortificando principalmente as ações de Agenda 21 por este mundo, que resumem esse propósito perseguido por milhares de pessoas. E isso exige participação integral de nossa parte, ou seja, uma meta de vida.

Veja mais no Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:
Cobertura FSM 2009

24-02 - Encerramento leva à reflexão sobre exclusão
24-02 - Ministro declara que biomas serão monitorados
24-02 - O manifesto da Ciência na Amazônia
20-02 - A constituição dos estados plurinacionais
20-02 - A palavra quilombola
08-02 - Nota sobre breve ausência
08-02 - Reflorestamento em pauta
08-02 - Experiências da Agenda 21
08-02 - Os caminhos da mídia livre
02-02 - Índios nas ondas digitais
01-02 - Mídia livre discute a necessidade de mais poder de articulação
31-01 - Protesto contra hidrelétricas marca dia 30
31-01 - Fitoterapia chega a usuários da saúde pública
30-01 - Bastidores A realidade a olho nu para se refletir
30-01 - Pensata - Caldeirão de diversidades
28-01 - O clamor dos povos indígenas
27-01 - Pela ótica da simplicidade
22-01 - Especial Fórum Social Mundial (2009)
Sucena Shkrada Resk |




14/01/2010 15:51
Haiti - A comunicação e a saúde ambiental, por Sucena Shkrada Resk
Os acontecimentos trágicos que afligem o Haiti me remetem aos dados apresentados na 5ª edição do Global Climate Risk Índex 2010, da organização não-governamental(ONG) Germanwatch -
http://www.germanwatch.org/klima/cri2010.pdf, na qual figura em sexto lugar no mundo, quanto à vulnerabilidade, no período de 1990 a 2008. O documento exposto, durante a COP15, em dezembro passado, registra aproximadamente 600 mil mortes no mundo, neste intervalo, devido a mudanças climáticas. Não importa se os cataclismas são de fundo antrópico ou não. O fato é que as ações preventivas são indispensáveis. É uma questão de saúde ambiental e a comunicação pode ter um importante papel neste processo.

Primeiramente o país caribenho sofre com centenas de furações e abalos sísmicos de menor proporção anualmente, o que exige um investimento de reconstrução, que tenha foco em defesa civil e em sistema de alerta integrado, que atende ao princípio da adaptação. Tantas vidas estão perdidas, não só, por causa do terremoto, mas porque pessoas vivem na miserabilidade. O mundo agora enxerga esses irmãos, que por tantas décadas, sofreram opressão de regimes despóticos e foram negligenciados.

A comunicação entra com apelo educativo, que visa desde orientações de ferver a água a como proceder em situação de perigo de cataclismas climáticos. O fato é que, apesar de esses homens, mulheres e crianças viverem em um lugar rico em belezas naturais, rodeado por um mar de cartão-postal, não conseguem usufruir desse suposto paraíso.

Para muitos faltam saneamento básico, acessibilidade, água potável, alimentação, educação, roupas e, obviamente, saúde. A mortalidade é de 10,15/1000 hab (dados 2008, do The World Fact Book, da Agência Central de Inteligência Norte-Americana). A expectativa de vida não chega aos 60 anos e a economia é calcada na agricultura.

Hoje, com certeza, a preocupação é salvar vidas sob os escombros das edificações destruídas. Cada segundo é indispensável, mas o planejamento a longo prazo, requer, sim, ações efetivas de apoio do Banco Mundial (BIRD), do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), das Organizações das Nações Unidas (ONU), dos países da América. Os países insulares são incontestavelmente os que mais sofrem e sofrerão com as mudanças climáticas.

Veja mais no Blog Cidadãos do Mundo:
13/01/10 - Pensata: Haiti - O sentido da universalidade (2)
11/01/10 - Pensata: o sentido da universalidade
10/12/09 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu
Sucena Shkrada Resk |




13/01/2010 19:52
Pensata: Haiti - O sentido da universalidade (2), por Sucena Shkrada Resk
A situação pela qual passa o Haiti, que fica localizado na Ilha Hispaniola, no Caribe, é a prova incontestável de que somos seres únicos e ao mesmo tempo universais. A comoção e dor, quase física, que causam as cenas de destruição de vidas e vítimas feridas à espera do socorro emergem o ímpeto de solidariedade. O papel da Cruz Vermelha e da organização dos Médicos sem Fronteiras, que são quase 800 no país, é admirável. O esforço dos mais de 1,2 mil militares brasileiros, que integram a Força de Paz da Organização das Nações Unidas, também enriquece esse exercício de fraternidade.

A morte da médica sanitarista Zilda Arns se soma ao infortúnio de muitos cidadãos que morreram em decorrência da tragédia. Com certeza, foi uma perda significativa. É incontestável a importância dessa profissional, que criou a Pastoral da Criança, no Brasil. Não me esqueço até hoje de matérias que fiz no Diário do Grande ABC, vendo o trabalho de uma corrente de voluntários acompanhando o crescimento das crianças, orientando gestantes, ... Uma mobilização social digna, em que as pessoas das próprias comunidades fazem literalmente as ações com amor.

Confesso que ainda estou muito emocionada. Ainda não se sabe quantas milhares de pessoas estão sob os escombros. Vi em uma reportagem na TV, um colega jornalista suplicando ajuda pela Internet-Skype, já que os meios de comunicação e de abastecimento de energia e água foram gravemente afetados. Era visível sua aflição e, talvez, um misto de fé e desespero. É difícil não lembrar da tragédia do Tsunami, na Ásia, que teve proporções devastadoras, como esse terremoto de 7 graus. Estima-se que possam ter sido afetadas cerca de 3 mi de uma população de 8 mi pessoas. Mas mais que emoção, nós que integramos o universo da mídia livre, também podemos ajudar pela Web.

Já foram divulgadas as conta-correntes da Cruz Vermelha e da Embaixada do Haiti, que estão recebendo doações, além do telefone disponibilizado pelo Itamaraty:

Nome: Comitê Internacional da Cruz Vermelha
Banco: HSBC
Agência: 1276
CC: 14526-84
CNPJ: 04359688/0001-51

E da Embaixada do Haiti, no Brasil:

Nome: Embaixada da República do Haiti
Banco: Banco do Brasil
Agência: 1606-3
CC: 91000-7
CNPJ: 04170237/0001-71 Mais informações podem ser encontradas no site:

Cruz Vermelha no Brasil -
www.cvbb.org.br

Informações referentes a cidadãos brasileiros no Haiti poderão ser obtidas junto ao Núcleo de Assistência a Brasileiros do Itamaraty, nos telefones: (061) 3411.8803/ 8805 / 8808 / 8817 / 9718 ou 8197.2284.

Veja mais: 11/1/2010- Título:Pensata: O sentido da universalidade
Sucena Shkrada Resk |




13/01/2010 09:56
Propostas da 1ª Conf. Nac. de Comunicação virarão lei?, por Sucena Shkrada Resk

Pouco se falou na mídia, sobre os resultados da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (CONFECOM), que ocorreu em Brasília, em dezembro passado, que resultou em 665 propostas aprovadas - http://www.confecom.com.br/propostas_plenaria -, com a participação de 1.684 delegados representantes da sociedade civil, empresarial e do poder público. Apesar de não ter um caráter deliberativo, é importante que a sociedade, de uma maneira geral, acompanhe o que poderá ser objeto de projetos de lei. Enfim, saber o que foi discutido por lá e verificar se há sentido prático quanto à realização de um evento deste porte.

No campo da educomunicação, o que me chamou a atenção são os seguintes itens aprovados:

"Através de um diálogo com o Ministério da Educação, criar mecanismos para implantar a educomunicação em todos os segmentos formais e informais de educação como prática metodológica que favoreça a compreensão da comunicação como direito humano e o aprendizado da leitura crítica dos meios, desde os primeiros anos escolares".

"Desenvolver políticas para a criação de núcleos comunitários de comunicação com a perspectiva de fornecer os aparatos técnicos e instrumentais, permitindo que a sociedade construa, socialize e discuta suas próprias pautas e produções".

É importante ressaltar, que já houve, por exemplo, investimento público em um CDRom produzido em 2008, pelo Ministério do Meio Ambiente, e divulgado no VI Simpósio de Educomunicação - Meio Ambiente, Jornalismo & Educomunicação, em São Paulo, no mesmo ano, sobre o tema educomunicação ambiental. Como também, que a Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA/USP) também deverá implementar em 2011, a primeira licenciatura em Educomunicação no Brasil, segundo o professor Ismar Soares.

Na lista de propostas aprovadas, ainda destaco a de elaboração de planos de comunicação participativos...com a difusão dos temas relacionados à educação ambiental...

...da criação de cursos de capacitação para formar agente de de multiplicação em comunicação e mídia...

...Integração de telecentros, rádios comunitárias, estruturas de produção nas escolas, pontos de cultura ... para produção cidadã...

São apontamentos que já existem em pequena escala no país, e que precisam realmente de maior difusão.

Com relação à mídia livre, há várias recomendações sobre a internet livre, como ao fim da criminalização das rádios comunitárias sem outorgas e anistia aos processados e condenados, além de criação de mecanismo de reparação de emissoras penalizadas. Isso me fez recordar as principais pautas discutidas, durante o Fórum Mundial de Mídia Livre, que participei em Belém, no ano passado.

Mais uma informação que considero relevante para ser verificada, com atenção, a partir de agora, é a proposta da criação de conselhos nos âmbitos federal, estaduais e municipais, de caráter paritário, para acompanhar a execução de políticas públicas, que garantam o exercício pleno do direito humano à comunicação. Entre as atribuições do grupo, estaria a regulação de conteúdo e políticas de concessões.

E outra é a proibição de políticos de exercer a função de comunicador em qualquer concessão pública de comunicação, durante exercício de mandato e em fase eleitoral...

Para completar, como jornalista (diplomada), estou atenta também se realmente vai ser garantida a regulamentação da profissão, como defendida na Confecom, já que houve a decisão por parte do Supremo, no ano passado, de não mais exigir o diploma; além da criação de 'um novo' código de ética da profissão - em que patamares...

Sucena Shkrada Resk |




12/01/2010 10:07
Mudanças climáticas: Uma política nacional a ser lapidada, por Sucena Shkrada Resk
O movimento no cenário político nacional no final de 2009 registrou algumas decisões, que passaram despercebidas para a maioria da população, como a sanção da PNMC - Política Nacional sobre Mudança do Clima (Lei nº 12.187/09, de 29/12). Depois da aprovação do Fundo Nacional, o governo 'ratificou' seu discurso durante a COP 15 - 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas, em dezembro, realizada em Copenhague. Mas é preciso ter ciência que o texto resume diretrizes genericamente, que devem ser esmiuçadas no Plano Nacional sobre a Mudança do Clima, criado em 2008, a ser revisado neste semestre. Por outro lado, depende dos resultados que serão apontados no inventário das emissões de gases de efeito estufa ainda a ser divulgado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT).

Ao fazer a leitura da recente legislação, já é possível verificar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou três itens no texto (sobre a proibição de contingenciamento de recursos para o combate às mudanças climáticas, o artigo que prevê o paulatino abandono do uso de fontes energéticas que utilizem combustíveis fósseis, e a limitação dos estímulos governamentais às usinas hidrelétricas de pequeno porte).

Isso quer dizer que as adoções do governo, dentro desse raciocínio, compatibilizarão os combustíveis fósseis (vide Pré-Sal) e construção de grandes hidrelétricas com fontes de energia limpa. O que é importante a ser colocado de forma transparente à sociedade é o quanto isso compromete ou não as metas de redução de GEES e a qualidade de vida.

O documento destaca, por várias vezes, as palavras desenvolvimento sustentável, mitigação e adaptação, termos que se tornaram usuais na área ambiental. O grande desafio é tornar tudo isso factível no plano de ações. Não é possível deixarmos de associar os planos diretores e o crescimento desordenado de nossas cidades em consonância com esses propósitos. Quantas encostas, como as de Angra dos Reis e Ilha Grande estão ocupadas por esse país? Quantas casas são construídas em fundos de várzea? Quanto produzimos de lixo que assoreia nossos rios?

As mudanças no clima acontecem gradativamente. O aumento de temperatura e da intensidade pluviométrica são fatos incontestáveis. O aspecto preventivo é praticamente nulo. Só há ações mais incisivas, quando os desastres já ocorreram. Brigas de 'competência' também entre as três esferas de poder são prejudiciais neste processo de gestão.

O que mais causa apreensão é que nesse caminhar ainda há um inimigo poderoso para a edificação das políticas - a especulação. Vide o aumento do álcool nas bombas dos postos de gasolina. Quer dizer que agora o açúcar rende mais no mercado ou há outros interesses para que se reduza a produção do combustível? Enfim, é preciso refletir...

A PNMC, no entanto, destaca entre seus itens, as medidas de divulgação, educação e conscientização. Então, é importante cobrar e exercer esse direito, para que a sociedade seja pró-ativa nessa construção.

Sucena Shkrada Resk |




11/01/2010 17:33
Pensata: O sentido da universalidade, por Sucena Shkrada Resk
O recesso das festas de Natal e de Ano Novo de 2009/2010 tiveram literalmente um 'efeito terapêutico' para mim, pois me possibilitou refletir sobre o que é dar o sentido de 'universalidade' a nossas vidas. Fiz uma releitura de anos passados e me dei conta de que vamos deixando os mapas de nossas histórias fragmentados em esquecimentos, mágoas e fragilidades da psiquê humana conectados a um materialismo enraízado na gênese social ocidental.

Ao olhar as prateleiras do supermercado, vi os tenders, os perus, os panettones e as bebidas, além de outros produtos da época, e vi os rótulos superando a casa dos R$ 20 e pessoas encantadas em colocar nos carrinhos as mercadorias, e diálogos como - o que falta na lista para a ceia?...Então, me recordei, que não há muito tempo atrás, também mantinha essa preocupação. Mas alguma coisa mudou - sinceramente comecei a observar esses produtos com questionamentos, que vão muito além da questão ambiental. Trocando em miúdos - por que comemos tanto nesses períodos, já que o sentido - em tese - é de renovação e purificação?

Nas ruas, pedintes com roupas surradas e catadores de sucata sob o sol, humildemente perguntam se temos um prato de comida ou água. Eu, particularmente me deparei com um jovem catador que suava muito, e me disse, quase sem voz - 'a senhora tem um pedaço de pão? eu não comi nada até agora...' Naquele momento, não tive condições de ajudá-lo, pois não tinha sequer um trocado para ir à padaria, mas eu me senti triste, pois lembrei de quantas vezes a gente desperdiça ou exagera em nossos hábitos.

Essa alusão à recuperação dos caminhos da espiritualidade é importante - independente de credos - porque estamos cansados de saber que o nosso corpo deve ser mantido com qualidade, mas nos deixamos levar por sabores, sentidos sinestéticos e nos enebriamos em sensações transitórias, que depois nos deixam, na maioria das vezes, com aquele tradicional peso sobre as pernas e na consciência, é claro. Muitas pessoas acabam com o décimo terceiro salário, se afundam em dívidas em cheque especial e em cartões de crédito, para manter esse prazer efêmero. Muitas vezes, um prazer de puro status do 'ter'. Outros colocam dinheiro nas cuecas e meias e ficam impunes...Aumentam seus salários em causa própria, onerando a sociedade...

Eu ainda me dei conta sinceramente, que família vai além do strictu sensu sanguíneo, que as convenções seculares nos estabelecem. Família é a reunião de semelhantes por afinidades, que muitas vezes, não têm os laços parentais. Com essa analogia, estamos falando de todos os seres humanos e, inclusive, animais. E me vi no meio deste desafio, de perceber que somos universais ao mesmo tempo que nos configuramos como centelhas nesse espaço infinito. Sendo assim, devemos nos dar o valor e encontrar e reencontrar essa essência, que deixamos adormecida.

Somos parte das famílias que sofreram em Angra dos Reis, em Ilha Grande, na baixada fluminense, que tiveram de sair das encostas da Serra do Mar, que foram vítimas de bombas em países em conflito, ou que estão morrendo, sob temperaturas abaixo de 50 graus. Somos parte das famílias, que se amam e dividem o pouco que têm com aqueles que não têm. É o sentido do pertencimento, do conceito fraterno.

Uma das cenas mais significativas e emocionantes, que me incentivaram a querer a cada dia me melhorar, foi a de um senhor que havia separado suas poucas roupas e alguns mantimentos para auxiliar os desabrigados e os levou com sua bicicleta ao local de entrega de donativos. Desprovido de qualquer apego, doou e se doou. Não há redundância nisso, pois ele exemplificou o que é ser universal; e quem sabe, um dia cheguemos a essa plenitude...
Sucena Shkrada Resk |

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