Blog Cidadãos do Mundo - Sucena Shkrada Resk - Jornalismo socioambiental


Artigos-2009-Sucena Shkrada Resk - BLOG CIDADÃOS DO MUNDO
22/12/2009 10:59
Especial COP15: Agora é a vez do panettone, por Sucena Shkrada Resk
A COP 15 - 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas foi encerrada, no último dia 19, sem chegar ao mérito de acordos, e as manchetes, agora, são as ruas lotadas para as compras de Natal. E, num piscar de olhos, é a vez do panettone...Não serei hipócrita de dizer que não gosto do sabor, mas a rapidez com que as páginas são viradas nas pautas midiáticas é que me assusta. Isso faz com que assuntos sérios sejam, de certa forma, banalizados. E o apelo da sociedade de consumo é a bola da vez.

Voltando à terra brasilis, depois do fiasco de Copenhague, o que temos para acompanhar em 2010, são algumas decisões legais que tiveram curso em dezembro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, no último dia 9, a lei que cria o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima. Essa fonte utilizará recursos do lucro da atividade petroleira para ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, vide o Pré-Sal, que obviamente o governo não mencionou em seu discurso na Dinamarca. Já no dia 18, a Câmara aprovou o projeto de lei do Executivo, que cria a Petro-Sal, que gerenciará os contratos de exploração e produção da Camada do Pré-Sal.

O Plano Nacional sobre a Mudança do Clima, aprovado em dezembro de 2008, deverá sofrer revisão no primeiro semestre do ano que vem. Já a Política Nacional, que ganhou texto substitutivo e novas emendas, ainda precisa sair do prelo da área legislativa.

Enfim, a vida real está aí para a gente poder se integrar, para que tudo não acabe em gélidas pautas, que ajudam a reduzir nossa consciência...

Veja mais, no Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:
19/12 - Especial COP15 - O desacordo sela encontro
13/12 - Especial COP15 - O balanço dos antagonismos
10/12 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu
06/12 - Copenhague vira o centro do planeta
Sucena Shkrada Resk |




19/12/2009 22:11
Especial COP15: O desacordo sela encontro, por Sucena Shkrada Resk
E tudo acabou em desacordo...Hoje, foi selado o fracasso das negociações climáticas no mundo, com o encerramento da COP15 - 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Nada tem força de lei. Metas de redução de emissões de gases de efeito estufa para 2020 serão iniciativas isoladas...O que se sabe é que a temperatura média do planeta não pode ultrapassar dois graus até o fim do século, mas nos bastidores, ao fazerem uma conta aqui, acolá, sobre os dados apresentados pelos 192 países presentes no evento, esse número subirá para três graus, pelo o menos...Em resumo, pudemos observar o cenário do 'sem consenso', que conseguiu ser pior do que a falta de proatividade, que se apresenta o rumo do Procolo de Kyoto (97), que passou a valer, de fato, a partir de 2005. E quem ganha com isso?

Ao fazer matérias e notas sobre a Cúpula do Clima, principalmente, nestas duas últimas semanas, para o Planeta Sustentável, da Abril, pude acompanhar as discussões que prevaleciam no encontro e percebi o quanto há uma longa distância entre o discurso e a prática. Do dia 7 a hoje, 19 (um dia a mais do previsto para o encerramento) se desenhou a situação geopolítica do mundo em que vivemos - algo completamente dissociado do conceito de harmonia planetária.

Sabe aquela sensação de estar órfã...pois é, bateu muito forte, e ainda bate, como a muitos cidadãos por esse mundo. Agora, o que espero é que, independente dos resultados em Copenhague, os municípios, estados e o governo federal, de países, como o Brasil, honrem seus compromissos assumidos. E que, nós como cidadãos, façamos nossa parte, por meio do consumo responsável...

EUA, China, Canadá, Austrália tiveram um forte peso nesta derrocada da COP15. Não avançaram em nada nas negociações. A fala do presidente Barack Obama, no dia 18, realmente consolidou o 'balde de água fria' juntamente com o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao. Pode-se dizer que a União Européia teve um papel aparentemente mais articulado, no entanto, sem conseguir exercer peso no desfecho. Nem pronunciamentos de Nicolas Sarcozy conseguiram reverter o quadro previamente anunciado.

Mais de 100 países pobres e em desenvolvimento saíram de lá, com certeza, mais oprimidos do que já são. Foram vozes abafadas pelo o peso dos hegemonas, tão avassalador. É difícil conseguir manifestar algo a mais do que indignação...A sensação é de que nada aconteceu, como se a COP15 fosse mais uma sigla perdida na memória, dos sem-memórias...

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13/12 - Especial COP15 - O balanço dos antagonismos
10/12 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu
06/12 - Copenhague vira o centro do planeta
Sucena Shkrada Resk |




13/12/2009 17:02
Especial COP15: O balanço dos antagonismos, por Sucena Shkrada Resk
Uma semana de COP15 - 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (www.en.cop15.dk), e podemos dizer, que estamos presenciando os bastidores de um perfeito laboratório dos antagonismos, que formam nosso planeta. Os países insulares, que estão prestes a desaparecer, reivindicam que o mundo não exceda a temperatura média a 1,5 graus. Os países desenvolvidos e em desenvolvimento desconsideram totalmente esta possibilidade. Nas entrelinhas, podemos entender que mais de 2 graus serão inevitáveis, no padrão de crescimento mundial, até 2050. A reboque, virão possíveis cenários catastróficos previstos pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Nesse contexto da urgência de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEEs), os percentuais já antecipados pelos grandes países poluidores são realmente vergonhosos. Nações, como China, EUA, Austrália, Canadá e Índia apresentam propostas ínfimas, se confrontadas a praticamente 50% de redução com base a 1990, adoções necessárias, segundo os cientistas do IPCC. É como se passassem uma borracha no ‘atraso de posturas’, durante a implementação do Protocolo de Kyoto, ainda em vigor até 2012. Não gosto de rótulos – como ser cético ou crente – mas me questiono se haverá avanço, neste sentido?

Ouvir colocações, como a do Japão, que não irá reduzir suas emissões, se não houver um posicionamento de China e dos EUA, é ainda mais surreal. Outra nação, que está causando mal-estar em Copenhague, é o Canadá, que não está fazendo nenhum esforço em melhorar seu desempenho nas negociações, como noticiado por dias seguidos...

Por outro lado, para esquentar ainda mais as discussões, declarações do porta-voz da UE - União Européia, quanto ao bloco considerar que países emergentes devem contribuir para o Fundo, é mais um ponto que causa embate. Outro item que mexe com os ânimos em Copenhague, é que os países industrializados estão colocando mais uma exigência à mesa - que os emergentes também tenham metas obrigatórias. Em todas essas pautas, as posições do Brasil, China e Índia, entre outros países, ficam mais complexas.

O tema Fundo do Clima global, então, aparece nesse contexto, como uma loteria de números. É óbvio, que tem de ser criterioso, entretanto, este não é um assunto novo, de última hora. A questão é - os países consideram a iniciativa, como gasto ou investimento? Será que ainda é difícil entender que a segunda opção é a correta?

Nações pobres precisam de ajuda para a adaptação e mitigação. Tuvalu, Bangladesh, Myanmar,...Migrações, fomes, doenças e mortes. Esses são alguns dos reflexos das mudanças climáticas em andamento. Onde foi parar a cidadania planetária? Onde está o discurso de compartilhamento de tecnologias limpas? E por aí vai. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que será necessário o repasse de cerca de US 150 bi anualmente. Até agora, o que parece acordado, é que somente a UE se compromete com US$ 10,6 bi, entre 2010 e 2012. Até 2020, ainda está longe do consenso entre os países participantes.

A sociedade diante de todos esses paradoxos tem reagido com manifestações nas ruas, com movimentos instituídos, como o KlimaForum09 – www.klimaforum09.org/, que entregará um documento com propostas e reivindicações aos líderes da negociação. O Movimento Dia do Fóssil www.fossil-of-the-day.org também é mais um instrumento de pressão sobre as performances dos países consideradas negativas, durante o encontro. É interessante conferir o conteúdo.

Nesta última semana, que será encerrada no dia 18, 192 países (número atualizado) presentes no encontro, que correspondem a mais de 15 mil pessoas discutindo o tema, deverão entrar hipoteticamente em um consenso. Está prevista a participação de 110 líderes de nações ou Estados, o que infere um peso ainda maior nas negociações.

Há a possibilidade de saírem até dois textos, sendo que o primeiro ainda estaria vinculado ao Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. A questão é que tudo isso não tem tempo e hora para acabar. Na sequência, deve haver as ratificações e implementações dos compromissos firmados, o que é o mais importante. O que não pode ocorrer é empurrar acordos concretos, para outras COPs, que acontecem anualmente. A próxima será no México e a seqüente está prevista para ser realizada na África.

Seja como for, o que mais me entristece, como cidadã, é saber que nós, que integramos os quase 7 bilhões de pessoas no planeta, dependemos, muitas vezes, de lideranças insensíveis e de regimes que entendem crescimento como cifras polpudas, sem enxergar as desigualdades atrás desses números; que acreditam, que uma economia saudável é sinônimo de produtos obsoletos, que levam à compra de mais produtos obsoletos, a mais lixo, mais extração de petróleo, carvão, de minerais, além de desmatamento...Que não se afligem com a existência hoje de mais de 1 bilhão de pessoas desnutridas, número que tende a crescer cada vez mais...

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10/12 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu
06/12 - Copenhague vira o centro do planeta
Sucena Shkrada Resk |




10/12/2009 07:59
Especial COP15 - Lembrem bem deste nome - Tuvalu, por Sucena Shkrada Resk
Em três dias de negociações da 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, nada foi mais representativo para mim, do que a manifestação do pequeno estado insular do Pacífico - Tuvalu. O seu representante praticamente implorou aos países em desenvolvimento, que as metas a serem implementadas, tenham como objetivo não ultrapassar 1,5 graus na temperatura média do planeta. Não é preciso dizer, que um sonoro não ressoou no encontro. Países, como Índia, China e África do Sul não aceitaram a reivindicação, que na verdade, já havia sido feita na COP14, mas só agora, havia sido colocada para a apreciação das partes.

Acredito, que nem os professores de Geografia sabem onde fica Tuvalu. E é importante marcar bem esse nome, porque literalmente o arquipélago está desaparecendo com o aumento das águas no Pacífico. É um exemplo das mudanças climáticas em ação, entre outras centenas de situações semelhantes no mundo.

Será que é tão difícil compreender que o processo dos refugiados climáticos está aí, bem à nossa frente? A situação é tão crítica, que este arquipélago, a poucos metros acima do nível do mar, onde havia 11 mil pessoas, está sumindo e sofrendo o exôdo de milhares de pessoas. Desde 2002, há um acordo com a Nova Zelândia, para que receba anualmente 75 pessoas de lá, segundo o artigo Sustentabilidade do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, de pós-graduação de Ana Cristina Casa, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) - 2007.

Para dar sustentação à prioridade dos países em prol da adaptação - como ilustra a situação de Tuvalu - durante esses dias, também foram lançados dois estudos importantes. Um deles é a 5ª edição do Global Climate Risk Índex 2010, da organização não-governamental(ONG) Germanwatch - http://www.germanwatch.org/klima/cri2010.pdf. Entre os dados mais impactantes, revela que houve cerca de 600 mil mortes no mundo, entre 1990 e 2008, em decorrência de eventos climáticos extremos. Os países com maior vulnerabilidade, nesse histórico, são Bangladesh, Myanmar e Honduras.

O outro é o estudo Migração, Desenvolvimento e Mudança Climática - Acessando a Evidência, da OIM – Organização Internacional para as Migrações. O levantamento chega à constatação da possibilidade de que 25 milhões a 1 bilhão de pessoas podem ser expulsas das terras onde vivem nas próximas quatro décadas; algo que já ocorre, como o exemplo de Tuvalu... http://publications.iom.int/bookstore/free/migration_and_environment.pdf.

Sucena Shkrada Resk |




06/12/2009 21:00
Copenhague vira o centro do planeta, por Sucena Shkrada Resk
A capital da Dinamarca – Copenhague – a partir de amanhã (7) até o dia 18, se transforma no centro do mundo, com a realização da 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15). O encontro deverá reunir representantes de 191 países, na busca de uma negociação para construir um Protocolo Pós-Kyoto. Para sair algo concreto, é preciso haver a aprovação consensual dos participantes. É aí que está o desafio de países desenvolvidos e em desenvolvimento buscarem o caminho do meio para a redução das emissões dos gases de efeito estufa (GEEs), financiamentos para tecnologias limpas e, acima de tudo, estruturar ações concretas de mitigação (redução de danos) e adaptação, além da introdução da Redução de Emissões para o Desmatamento e Degradação (REDD) .

Nem quando ocorreu a Rio 92 – que é considerado o maior evento ambiental mundial até hoje -, os holofotes da mídia foram tão intensos. A mobilização da sociedade também é considerável, o que revela hipoteticamente, que há esperança. Numa análise superficial, aos poucos, há o empoderamento por parte dos cidadãos. Isso pode ser um importante instrumento de pressão sobre os governantes. Agora, é acompanhar com atenção todos os passos durante e após Copenhague. Não é possível ficarmos pró-ativos somente no ‘frenesi’ do evento.

De nada adiantará a presença esperada de mais de 65 chefes-de-estado, de 1,5 mil jornalistas, de uma comitiva brasileira, por exemplo, com mais de 600 pessoas – algo inédito – se não houver ações de cunho planetário.

Já é sabido que os principais poluidores mundiais – China e EUA – são peças estratégicas nesse quebra-cabeça. O presidente Barack Obama enfrenta resistência poderosa do Senado norte-americano, mas divulgou que o país poderia diminuir em 17% as emissões em 2020, com relação a 2005. Entretanto, é importante lembrar que vários estados norte-americanos já estão tomando atitudes quanto à redução, independente da decisão federal.

Já os chineses anunciaram 40%, com um desafio considerável que está baseado em sua matriz energética no carvão. A União Européia fala em 20%. O Brasil, que se encontra na quarta colocação (mas por causa do desmatamento), mencionou também quase 40%, estipulando uma meta de 80% de redução do desmatamento. A Índia chegou a divulgar 25%. Essa ciranda de percentuais ainda deve ser estudada com mais cuidado, pois não pode ser entendida ao pé da letra, por nós, que somos leigos.

O certo é que todos os posicionamentos têm como meta atenuar a possibilidade de a temperatura média do planeta aumentar acima de 2 graus, segundo projeções do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

A grande questão é – isso será suficiente, se de fato for praticado? Muitos especialistas consideram esses anúncios aquém do necessário, visto que poucos países (desenvolvidos) cumpriram a meta de redução na faixa de 5% com relação aos níveis de 90.

Mais um item que não pode ser menosprezado à mesa de negociação é a questão da adaptação, pois as mudanças climáticas já estão acontecendo, e o que está sendo feito a respeito? No Brasil, temos exemplos clássicos, como Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Os países estão se preparando para catástrofes como tsunamis, furacões etc? Quem está olhando, de fato, para os países africanos e mais pobres da América Latina e da Ásia? Se nem quando se trata da fome – como a recente conferência da Organização para a Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO), há empenho, o que dirá das mudanças climáticas, que infere a mesma problemática, com a projeção dos refugiados climáticos.

Enfim, é preciso, acima de tudo, comprometimento. E no caso do Brasil, mais ainda, já que o ano que vem é um período eleitoral, em que geralmente há a dança de cadeiras e a desaceleração de implementações de projetos. Por isso, há necessidade de um acompanhamento contínuo sobre a Política Nacional sobre a Mudança do Clima, que tramita no Congresso (substitutivo), e na aplicação do Fundo, aprovado recentemente para sanção, que será a sustentação financeira das ações, além da revisão do Plano Nacional sobre a Mudança do Clima (dez/2008), que deverá ocorrer no primeiro semestre do ano que vem.

E mais do que o foco na Amazônia, é preciso lembrar que há o Cerrado, tão comprometido, e que deve estar calculado no inventário de emissão de gases de efeito estufa brasileiro, que só será anunciado também, no ano que vem, pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Para fechar o ciclo, está o investimento em tecnologias limpas e a mudança do padrão de consumo capitalista, o que envolve a educação desde a infância. Metaforicamente, podemos dizer que também nos encontramos na infância quanto ao amadurecimento em relação a essa temática, mas precisamos evoluir e crescer holisticamente.

Sucena Shkrada Resk |




06/12/2009 19:11
20 anos de reconstrução, por Sucena Shkrada Resk
Duas décadas marcam a queda do Muro de Berlim, na Alemanha, que simbolicamente representou o fim da Guerra Fria (EUA x ex-URSS). O dia 9 de novembro de 1989 ganhou as manchetes dos noticiários mundiais, como a constatação da crise do sistema socialista no leste Europeu. O processo de reunificação das duas Alemanhas, que prossegue até hoje, desenhou um novo cenário da geopolítica mundial e culminou no fim da Guerra Fria. No lugar do concreto, que dividiu duas ideologias, hoje resta uma linha no asfalto, que registra essa passagem. Próximo ao Portão de Brandemburgo – um dos ícones arquitetônicos alemães - artistas fazem a leitura sobre esse período histórico mundial em um muro estilizado para as comemorações da reunificação.

“A modernização acontece aos poucos. É muito difícil unir as diferenças culturais nesses 20 anos. Alguns alemães estão nostálgicos, perdidos no universo frio do Capitalismo. Outros dizem que o ‘muro na cabeça’ ainda existe”, diz Wolfgang Bader, diretor de São Paulo e Regional para a América do Sul do Goethe-Institut.

Para o historiador Eric Hobsbawm, serão necessárias diversas décadas antes de que as sociedades pós-comunistas encontrem uma estabilidade no seu “modus vivendi” na nova era. Segundo ele, algumas consequências dessa desagregação social, da corrupção e da criminalidade institucionalizadas poderiam exigir ainda muito mais tempo para serem combatidas (LA REPUBLICA, 2009). O autor da Era dos Extremos, que mapeia o mundo entre 1914 e o fim da URSS, em 1991, analisa que a atual crise econômica mundial é o fim de mais um ciclo, só que dessa vez, do Capitalismo.

O professor de História Contemporânea da USP, Osvaldo Coggiola, considera que a Alemanha caminhou para o Capitalismo, apesar do ônus econômico que desferiu internamente na ex-Alemanha Oriental. “Hoje muitos alemães conhecem o desemprego e os preços altos nas prateleiras. Antigamente não havia democracia, mas hoje há muitas pessoas que não têm o que comer”, diz. A região também continua menos moderna com relação à ocidental.

O mérito da instituição da democracia, nesse marco histórico, não pode ser desprezado, na opinião do professor de História Contemporânea da USP. “No antigo regime, havia 500 mil espiões da República Democrática Alemã (RDA). A delação era instituída como forma de governo. O fim da divisão, nesse ponto, foi visto com grande alívio pelas as duas Alemanhas”, explica.

Recentemente foi divulgado, que cerca de 17 mil funcionários públicos alemães pertenceu à antiga política secreta da Alemanha Oriental – a Stasi (Staatsicherheit), que significa segurança do Estado. Apesar de o número ser objeto de controvérsias já causou um mal-estar, por haver informações de que muitos hoje ocupam quadros dentro da própria polícia.
De acordo com notícias publicadas, em julho deste ano, no jornal alemão Der Spiegel, a Stasi, no auge de suas ações nos anos 80, teria um contingente de aproximadamente 91 mil pessoas. Pesquisadores afirmam que provavelmente mais 2 milhões de civis espionavam desde a família a colegas. Tudo isso gerava registros – arquivos da repressão – que podiam interferir em direitos básicos dos cidadãos, como educação e empregabilidade. Os arquivos desse período começaram a ser abertos a partir de 1991. São mais de 140 km de papel, 1,3 milhões de imagens, cerca de 5 mil filmes e vídeos, além de 164 mil fitas cassetes e 20 mil disquetes e fitas de áudio.

Segundo Dina Lida Kinoshita, do conselho da Cátedra UNESCO de Educação para a Paz, Direitos Humanos, Democracia e Tolerância, no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), incontestavelmente as duas Alemanhas significaram as fronteiras de dois mundos. “Na Alemanha Oriental, era como se estivessem presas em campos de concentração. A reunificação simboliza que não existe mais a espada de uma guerra nuclear, mas por outro lado, não houve grande avanço social nesses 20 anos”, considera Dina, que era dirigente estadual do Partido Comunista Brasileiro, à época.

Mikhail Gorbachev em 1987 havia iniciado a Perestroika (reconstrução em russo), que abria o regime socialista a uma reforma econômica e a Glasnost (política), que tinha como um dos princípios desacelerar o foco armamentista da Guerra Fria. O intuito, entretanto, não era acabar com o modelo do regime.

Mas essa situação foi deflagrada em 1991, quando em 8 de dezembro, os presidentes da Ucrânia, Rússia e Bielorrússia deram início ao processo que originou a Comunidade de Estados Independentes (CEI), no mesmo mês, que teve apoio das demais repúblicas soviéticas, culminando em 25 de dezembro daquele ano, na renúncia do presidente soviético.

Raízes na Segunda Guerra

Para se compreender, a atmosfera que deflagrou a construção do Muro a partir de 1961, é preciso retroceder até o período pós Segunda Guerra Mundial, quando a capital alemã – Berlim – foi dividida em quatro áreas subordinadas respectivamente aos EUA, Grã-Bretanha, França e ex-URSS. O desgaste provocado anteriormente pelo Nazismo, liderado por Adolf Hitler, ainda marcava a trajetória do país.

Esse cenário começou a sofrer modificações em 1949, ano em que a cidade sofreu uma divisão administrativa em que se configurava as disputas da Guerra Fria, nas quais os EUA e a ex-URSS disputariam a hegemonia mundial até 1989. O lado capitalista ocidental passou a representar a República Federal da Alemanha. O oriental, por sua vez, ficou sob a gestão do sistema socialista liderado pelos soviéticos, denominado de República Democrática da Alemanha (RDA).

Ao se analisar o contexto mundial, o mundo fica também dividido em blocos, que se aliam militarmente aos norte-americanos, por meio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e aos soviéticos, com a instituição do Pacto de Varsóvia. Essa divisão político-ideológica foi identificada mundialmente como a fase da ‘Cortina de Ferro’ e da corrida nuclear e espacial.

No ano de 1961, quando se configurava o auge da Guerra Fria, começou a ser construído pelo governo da Alemanha Oriental, o muro de Berlim, como representação da cisão entre os dois regimes políticos, que totalizou cerca de 155 km de extensão. Instalou-se no país, à época, uma legislação que cerceava o direito de passagem dos cidadãos ao lado Ocidental. Quem ousasse ultrapassar, corria risco de morte, o que resultou em várias baixas com o passar dos anos. O reforço da vigilância, quase três décadas depois, era estruturado por meio de soldados, cerca de 300 torres de vigilância, além de cercas elétricas e valas com campo minado. Um aparato que intimidava e demonstrava o radicalismo que marcava o período.


Dias de comoção


A atmosfera nos países do leste europeu também antecipava mudanças de paradigmas. O partido comunista húngaro, a partir de maio de 89, deu início ao processo, ao tomar a decisão de colocar abaixo 246 km de cerca entre o país e a Áustria, o que foi apoiado também por este país. Em outubro, o Partido Comunista Húngaro se desarticulava, sendo o primeiro do bloco da ex-URSS a iniciar o desmonte. Cidadãos da Alemanha Oriental às centenas começavam a transpor as fronteiras.
A professora de Literatura alemã e História, a alemã Claudia Blumtritt, 51 anos, da cidade de Chemnitz, na ex-Alemanha Oriental, se recorda como se fosse hoje, as semanas que antecederam à queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989. “Nos meses de setembro e outubro, além das manifestações que aconteciam na capital, havia uma mobilização que crescia dia a dia, principalmente às segundas-feiras, na cidade de Leipzig”, conta. Uma massa de cidadãos em passeatas pacíficas se dirigia à Igreja de São Nicolau, para pedir o fim da divisão. A manifestação concentrava a população, que reivindicava ‘liberdade’ no direito de ir e vir.

As cenas que se presenciavam com a queda do Muro de Berlim eram de comoção. Todas as pessoas se abraçavam. Os alemães receberam uma quantia para poder ‘gastar’ no antigo lado ocidental. “Eu comprei uma bota de couro”, fala Claudia. Segundo ela, as dificuldades de consumo no lado oriental, devido à filosofia do regime, era uma marca insuperável.

Processo de reunificação
Em 12 de setembro de 1990, com a assinatura do tratado Dois-mais-Quatro, a Alemanha unificada consegue obter a soberania plena, após a aprovação dos EUA, França, Grã-Bretanha e URSS. E o primeiro chanceler federal a assumir o poder foi Heltmut Kohl (CDU) e em 2005, foi a vez de uma mulher ocupa o posto – a democrata-cristã Ângela Merkel, que foi reeleita em 2009, e agora parte para a coalizão com os liberais.

No artigo monográfico de pós-graduação - O Pensamento Ideológico da Esquerda Brasileira Pós-Queda do Muro de Berlim -, a historiadora Márcia Rossetto Nunhofer, afirma que a Alemanha Ocidental exerceu grande influência no desfecho dos fatos. Um dos principais articuladores, em sua análise, foi Kohl, nas eleições da RDA e na campanha em prol da unificação.

“...Ocorre que as forças ocidentais e soviéticas, que impulsionavam a ruína destes regimes, afastavam os dirigentes comunistas do poder com a aprovação de Gorbachev, encorajando as oposições dos demais regimes socialistas do Leste europeu e seus aliados externos a passarem à ofensiva. Então a pressão soviética e ocidental voltou-se aos países que ainda resistiam às reformas, dentre estes, a Alemanha Oriental” , diz a historiadora.

Com isso, segundo Márcia Nunhofer, é possível fazer a leitura de que com a queda do Muro de Berlim, a esquerda brasileira também se fragilizou quanto à prática social e revolucionária, desarticulando suas bases. “...Mesmo que o desenvolvimento dos países socialistas, em termos globais, tenha sido significativo por algum tempo, nenhuma alternativa ou programa socialista mais articulado foi desenvolvido, o que tornou o modelo extremamente vulnerável e marginalizado, sem, no nosso caso, haver a projeção de um programa com especificidades brasileiras...”, afirma. (2005)

O processo de reunificação continua até hoje. Derrubar as barreiras construídas por décadas ainda é um desafio a superar. “Meu primeiro telefone só consegui comprar em 1997. O salário de professora era baixo. Vivi por cinco anos em um apto localizado em um porão, em que no verão, havia muitos mosquitos, e no inverno ficava muito frio. Havia dificuldade de encontrar novas moradias, porque não havia construção de prédios novos”, explica a professora de História, a alemã Claudia Blumtritt.

Após a queda do muro, a professora teve oportunidade de lecionar em outras escolas e veio para o Brasil em 2000 para ser docente em um colégio particular, onde deve permanecer até o fim de 2009, quando retornará à Alemanha.

A revisão do fim da História
O término da polarização entre os EUA e URSS, que estava implícito, na queda do muro de Berlim, resultou em uma terminologia, que causou polêmica nos meios acadêmicos norte-americanos e ocidentais. O filósofo Francis Fukuyama escreveu um artigo, em que afirmava que ocorria "o fim da História ", com a vitória capitalista e o encerramento dos conflitos armados mundiais e de lutas ideológicas. A realidade, entretanto, demonstrou que o mundo ainda está longe dessa paz.

O próprio Fukuyama revê essa posição, na obra Construção de Estados: governo e organização no século XXI, de 2004. O norte-americano analisa o contexto mundial, após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que atingiram os EUA e abalaram a comunidade internacional. O filósofo defende a ideia de que o fortalecimento do que intitula de Estados falidos, por várias formas de construção de nações, é uma tarefa que se tornou vital para a segurança internacional.

Cinematografia faz imersão sobre a bipolaridade


A queda do Muro de Berlim resultou em uma produção cinematográfica diversificada sobre as fases antes, durante e pós a bipolaridade dos blocos ocidental e oriental. Entre os filmes mais exibidos na última década, está o premiado longa-metragem, de 2003, o Good Bye, Lenin!, dirigido por Wolfganger Becker. O roteiro retrata a queda do Muro e o impasse de um jovem a contar para sua mãe debilitada, da antiga Alemanha Oriental, que o regime mudou.

Em A vida dos Outros, de 2006, é retratado a atmosfera que presente com a Stasi, quando um ministro da Alemanha Oriental ordena que o maior dramaturgo do país seja vigiado pelo serviço secreto, sem que haja alguma acusação, de fato, contra o intelectual. A direção é do alemão Florian Henckel von Donnersmarck.


Referências:

FUKUYAMA, Francis. Construção de Estados: governo e organização no século XXI. Rio de Janeiro: Rocco, 2004

FUKUYAMA, . Artigo O fim da História. Revista National Interest. 1989. Livro O Fim da História e o Último Homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

HOBSBAWM, Eric. Uma nova igualdade depois da crise. Trecho de conferência publicada no jornal La Repubblica, 09/10/2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto/in IHU on Line.

NUNHOFER, Márcia Rossetto. Monografia O Pensamento Ideológico da Esquerda Brasileira Pós-Queda do Muro de Berlim, apresentado na Faculdade Porto-Alegrense (FAPA). 2005. Disponível em: http://www4.fapa.com.br/monographia/artigos/2edicao/artigo06mg2.pdf. Acesso em: 14/10/09.

Arquivos da Stasi revelam a “realidade suja da Alemanha Oriental, por Der Spiegel, com tradução de Deborah Weinberg, no site UOL. 17/07/09. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2009/07/11/ult2682u1233.jhtm. Acesso em: 14/10/09.


Sucena Shkrada Resk |




02/12/2009 08:30
As empresas no corpus de uma cidade sustentável, por Sucena Shkrada Resk
O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social lançou no dia 1º, a publicação Cidades sustentáveis: como as empresas podem contribuir, que está disponível gratuitamente por meio de download, no link:
http://www1.ethos.org.br/EthosWeb/arquivo/0-A-a9931-2585%20Cidades%20Sustent%c3%a1veis%20Ethos%20-%20FINALIZADO.pdf. Participei da produção do conteúdo, ao integrar a equipe de pesquisa e reportagem da obra com Laura Folgueira e Lélio Vieira Júnior, à convite das redatoras Fabiana Pereira e Solange Barreira, da P&B Comunicação, sob coordenação editorial de Benjamim Gonçalves. O que mais foi construtivo no trabalho, no meu ponto de vista, foi poder levantar o histórico de ações dos Movimentos Sociais, que se instalam no país, reunindo convergências entre a sociedade civil e o empresariado em causas públicas, além de cases em que as organizações internalizam iniciativas, que extrapolam barreiras corporativas.

O material reúne as trajetórias dos Movimentos Nossa São Paulo, Nossa Ilha Mais Bela, Nossa Teresópolis, Rio Como Vamos, Nossa BH, Nossa Santos-Sempre Ética, Movimento Nossa São Luís e Observatório do Recife, que constituem a Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis. A proposta é que essas iniciativas cresçam, de forma duradoura, por todo o país. Os exemplos das empresas citadas mostram também como é possível a parceria público-privada, que parte do princípio de que só há mudanças, quando mexemos nas bases dos problemas socioeconômicos e ambientais. Isso exige alterações na cultura organizacional.

A execução do projeto Bogotá Cómo Vamos, a partir de 1997, na capital da Colômbia, é considerado um importante incentivador desse processo brasileiro, que em resumo é uma resposta contra desmandos, inércias, corrupções e ausência do que é mais crucial - exercitar a cidadania, de forma integral e articulada, prática em que todos lutam pelos mesmos objetivos, pois querem qualidade de vida.


Sucena Shkrada Resk |




29/11/2009 13:00
O caminho da economia verde, por Sucena Shkrada Resk
A chamada Economia Verde começa a ganhar projeções mundiais. A representante do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Isabel Martínez, enfatiza que essa é uma das prioridades do Acordo Global para 2010. Atualmente há 2,3 milhões de trabalhadores empregados em energias renováveis, e em 2030, podem ser 20 milhões de postos de trabalho, de acordo com a estimativa da organização.

Durante o 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável, em Foz do Iguaçu, PR, na semana passada, a especialista afirmou que são necessárias ações efetivas, neste sentido, fazendo um paralelo com os números decorrentes da degradação ambiental. “Só no ano de 2009, houve perdas econômicas mundiais decorrentes da degradação ambiental, na ordem de trilhões de dólares. Nossa demanda sobre o planeta tem duplicado nos últimos 40 anos, e com isso, aumenta o número de refugiados ambientais no planeta”, alertou.

O exemplo do empreendedor orgânico, Arthur Oscar Passos, 74, que conheci em um estande do 6º Encontro Cultivando Água Boa, que incorporou outros eventos paralelos ao EIMA-7, ilustra uma das experiências possíves de economia verde, além de todo o leque de utilização da biomassa, que está dando certo. Como ele próprio se definiu, se considera hoje, o ‘garoto-propaganda’ de sua empresa familiar, que conta com mais seis pessoas, entre esposa e filhos. O advogado paranaense se divide entre o escritório de advocacia e a propriedade rural, que mantém há 15 anos, em Campina Grande do Sul, há 35 km de Curitiba.

“Nós começamos como caquicultores e nos tornamos produtores orgânicos a agregar valor a novos cultivos, como uva, amora preta. O próximo passo foi produzir geléias e pastas dessas variedades, porque há 4 anos a produção do caqui foi reduzida, por causa de secas, geadas e, depois, devido a fungos”, contou.

Isso demonstra que as “mudanças climáticas” acabaram dando novos rumos ao empreendimento, ou seja, exigiram adaptação. A família, com isso, montou uma pequena fábrica, que revende para hipermercados e recentemente para hotéis. “A atividade gera renda para a minha família, mas acima disso, está o prazer em fazer um produto diferenciado, porque trabalhamos desde o cultivo à produção”, disse.

Passos estava em um espaço, onde outros empreendedores na área de ervas medicinais e adereços confeccionados com sementes exibiam seus produtos para o público do evento.

*Viajei a Foz do Iguaçu, para participar do EIMA7, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, realizado no dia 20. O evento integrou o 6º Encontro Cultivando Água Boa, sob promoção da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e da Itaipu Binacional, entre outros parceiros.
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27/11/2009 09:01
Sustentabilidade com pé no chão, por Sucena Shkrada Resk
Ter o pé no chão. Expressão curta e objetiva, que cabe na medida certa, quando se trata do tema sustentabilidade, visto que, a realidade sempre nos chama a observar e compartilhar histórias de vida, a fim do aprimoramento. Faço esse comentário, para narrar a experiência, que tive, durante o encerramento do 6º Encontro Cultivando Água Boa, em Foz do Iguaçu, PR, no último dia 20, ao conhecer a catadora e recicladora de sucata paranaense, Lindomir, 46.

“Dona” Lindomir me contou que há oito anos é catadora de sucata. Essa é a sua fonte de sustento para a família composta por três filhos, com as idades de 9, 10 e 13 anos. Quando perguntei a ela, quanto é o seu rendimento mensal, me respondeu – “Ganho R$ 210,00, trabalhando três horas por dia, para poder ter tempo de cuidar (sozinha) dos filhos”. Diante da afirmação, fiz mais uma pergunta – Mas a senhora não tem outra fonte de renda fixa? – Não.

Com o grau de escolaridade, que não ultrapassou a primeira série do ensino fundamental, essa senhora citou as dificuldades de conseguir outras alternativas de trabalho, e ainda afirmou que a ‘crise econômica’ diminuiu o rendimento dela e de outros participantes da cooperativa a que pertence. “Antes da crise, ganhava mais ou menos, R$ 320”. Numa rápida pesquisa, verifiquei que a cesta básica em Curitiba é de R$ 216,59, e obviamente, refleti que a situação dessa trabalhadora é semelhante a de muitos brasileiros em todos os estados brasileiros.

O mais surpreendente, no entanto, é que toda a sua fala não era calcada em lamentação. De certa forma, os olhos brilhavam, porque estava junto com centenas de outros catadores no evento, o que confere a importância e aconchego do coletivo, em busca de mais conhecimento e oportunidades, e obviamente, solidariedade, no dia a dia. “A gente não pode parar de lutar. Aprendi, nesses dias, a fazer vassoura com PET, flor e telha. Meu plano é ganhar mais dinheiro com a reciclagem”, disse. Ainda expressava esperança de aumentar sua renda de R$ 210, com a possibilidade de um emprego temporário na área de jardinagem.

Falar com essa senhora me possibilitou compreender, que o investimento em infra-estrutura básica e em educação é fundamental em qualquer modelo de desenvolvimento. Dona Lindomir ganha por mês praticamente uma diária do hotel onde o encontro estava acontecendo e corresponde ao valor de roupas, que estavam expostas nas vitrines das boutiques próximas. Tantos paradoxos de padrões de vida e de consumo.

Só que os R$ 210 para ela representam assegurar um teto, alimento, roupas e um futuro aos seus filhos. Onde quero chegar? Em nosso padrão de consumo – quanto à alimentação, água, energia, geração de resíduos, veículos, ... Confesso que caí literalmente na realidade.

Durante todos os dias, as discussões que ouvi e pude mediar foram muito saudáveis, mas como o primeiro-ministro do Butão falou, há um sentido de urgência. “Dona” Lindomir não é um gráfico ou somente um número da estatística da pobreza. Ela é uma pessoa com sentimento, expectativas e potenciais represados, que deseja que seus filhos tenham melhores oportunidades nesse mundo – as futuras gerações, que são a base do conceito de sustentabilidade.

*Viajei a Foz do Iguaçu, para participar do EIMA7, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, realizado no dia 20. O evento integrou o 6º Encontro Cultivando Água Boa, sob promoção da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e da Itaipu Binacional, entre outros parceiros.

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23/11/2009 23:21
A felicidade construída pelo Butão, por Sucena Shkrada Resk
Ouvir as palavras do primeiro-ministro butanês, Lyongpo Jigme Thinley, no último dia 20, durante o encerramento do 6º Encontro Cultivando Água Boa, em Foz do Iguaçu, PR, me incentivou a seguir cada vez mais ideais planetários. Com a humildade, de quem quer compartilhar, e não, segregar, ele começou sua fala, com as seguintes palavras - "Somos felizes e tudo dará certo...". Ele transmitiu em seu discurso, quase 40 anos do ideário de Felicidade Interna Bruta (FIB), lançado na pequena nação asiática, nos anos 70, pelo rei Jigme Singye Wangchuck. Proposta amadurecida pelo país, a partir dos anos 80, que já é disseminada desde o ano passado, no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU).

O cálculo do FIB reúne quesitos como, bem-estar psicológico, saúde, expectativa de vida e longevidade, equilíbrio ambiental, padrão de vida econômica, educação de qualidade, acesso à cultura, bons critérios de governança e gerenciamento equilibrado.

O diplomata veio ao país, acompanhado por sua comitiva, para narrar a experiência de estabelecer um contraponto aos parâmetros do Produto Interno Bruto (PIB), na 5ª Conferência Internacional sobre FIB, que foi encerrada hoje. Uma proposta que ultrapassa as fronteiras e é uma luta diária, no Butão, que tenta reverter décadas anteriores de isolamento. Ao mesmo tempo, Thinley demonstrou a clareza do sentido de urgência da mudança dos padrões de desenvolvimento mundiais.

"Os desafios são sérios. O mundo está em perigo. O problema da escassez da água é presente também na Ásia, oriundo do Himalaia. Mais de 1,2 bi de pessoas dependem dessas águas. Se juntarmos essa população com os indianos e outros povos, representam 50% da população terrestre", diz.

Thinley explica, que hoje, o Himalaia é considerado o terceiro pólo, com 33 mil km2 de geleiras. "Estão derretendo a uma velocidade acelerada. Caso a escalada do Aquecimento Global continue dessa forma, em 25 anos, tudo estará derretido. A mensagem ao ser humano é que saber conviver com a natureza é prioridade", fala o primeiro ministro butanês.

*Viajei a Foz do Iguaçu, para participar do EIMA7, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, realizado no dia 20. O evento integrou o 6º Encontro Cultivando Água Boa, sob promoção da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e da Itaipu Binacional, entre outros parceiros.
Sucena Shkrada Resk |




22/11/2009 19:16
EIMA7:Carta pela sustentabilidade e coop técnica marcam encerramento, por Sucena S. Resk
O encerramento do 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA7), em Foz do Iguaçu, PR, no último dia 20, ocorreu durante a solenidade final do 6º Encontro Cultivando Água Boa. O evento foi marcado pela a divulgação de uma carta aberta dos organizadores do EIMA-7, lida pelo presidente da Fundação CONAMA, Gonzalo Echagüe Méndez de Vigo. O documento, em linhas gerais, reinvindica ações cooperativas efetivas de governos, empresariado e sociedade na busca dos princípios da combinação de ações financeiramente viáveis, socialmente justas e ambientalmente responsáveis, com a preocupação com as futuras gerações. Valores disseminados principalmente com o relatório Nosso Futuro Comum, da Comissão Brundtland (1987), e pelo economista John Elkington (1994).

No dia 20, ainda foi celebrado um convênio de cooperação técnica, entre a Fundação CONAMA, da Espanha, e o Parque Tecnológico de Itaipu (PTI).

Segundo o diretor-superintendente do PTI, Juan Carlos Sotuyo, essa parceria será importante para integrar as duas organizações em projetos sustentáveis. “Isso significa um intercâmbio técnico-científico e entre empresas clientes e fornecedores. O objetivo é trocar experiências principalmente sobre energias renováveis, com foco na biomassa, além de outras fontes, como a solar e da ‘chamada quinta onda’, proveniente das algas”, diz. Com isso, o executivo acredita que as ações poderão ainda transformar lixões em locais produtivos.

O EIMA-7 é uma iniciativa da Fundação CONAMA, em parceria com a Fundação MAPFRE, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Paraná, a Itaipu Binacional, entre outros parceiros, com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e do Governo Federal brasileiro.

Sucena Shkrada Resk |




22/11/2009 15:50
EIMA7: Saberes e pró-atividade regem o desenvolvimento sustentável, por Sucena Shkrada Resk
A oportunidade de mediar o debate Cooperação para o Desenvolvimento, no último dia 20, que integrou o último dia do 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA-7), realizado em Foz do Iguaçu, PR, me proporcionou a possibilidade de refletir mais sobre a necessidade da quebra de todos os tipos de fronteiras nos processos de desenvolvimento. Um amadurecimento que todos nós, como cidadãos, precisamos vislumbrar, como atores nesse mundo. Não basta pensarmos, precisamos agir. Com essa experiência, que podemos chamar de ecossistêmica, é que o mundo pode ser transformado. Somente palavras bonitas não bastam. A retórica chama a atenção, mas a realidade clama por atitudes cooperativas. Uma cooperação numa América Latina, que se une à África, à Europa, que transpõe as fronteiras territoriais. Essa fusão resgata o sentido da cidadania planetária.

Durante o evento, representei o Núcleo Ciência e Vida da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, que integraram a organização do evento com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e a Itaipu Binacional, entre outros parceiros. Um aspecto significativo para o país, já que pela primeira vez, uma edição foi realizada no Brasil.

O EIMA7 integrou o 6º Encontro Cultivando Água Boa, que desenvolveu outras pautas de extrema importância, como o Encontro Anual do Centro de Saberes e Cuidados Socioambientais da Bacia do Prata, a V Conferência Internacional Felicidade Interna Bruta e o 1º Encontro de Organismo de Bacias da América Latina e Caribe. Nessa convergência de propósitos socioambientais, participaram mais de cinco mil pessoas, desde catadores de sucata a executivos, o que conferiu um diálogo, que tentou quebrar as barreiras socioeconômicas vigentes. Algo marcante, que não pode ser mascarado, já que é a realidade do dia a dia, dentro e além das paredes dos auditórios.

Durante o debate que mediei – Cooperação para o Desenvolvimento, o que mais me chamou a atenção, nas falas dos convidados, é que as pautas mais prementes nos países em desenvolvimento continuam fundamentalmente calcadas na infra-estrutura. Séculos de colonização, pós-colonização, que refletem que os problemas mais básicos são uma marca difícil de apagar. Nesse aspecto, todos os stakeholders (partes interessadas) têm o papel como agentes e, não só, como vítimas de um sistema opressor.

A ajuda mútua, que não pode ser confundida com assistencialismo, infere a necessidade de programas efetivos de saneamento básico, transferência de tecnologia, comércio justo, igualdade de gênero, respeito aos saberes tradicionais nesse processo de crescimento, diagnósticos e imersões em cada realidade dos países envolvidos, sem cometer o erro de trazer modelos prontos, como se bastasse esse tipo de posicionamento, para a solução dos problemas.

Os debatedores expuseram iniciativas de cooperação em andamento e ainda destacaram a importância de não se dissociar meio ambiente de desenvolvimento, visto que, um dos debates mais importantes mundiais está para acontecer, em dezembro, na 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), em Copenhague, na Dinamarca. E que acima de tudo, que o antigo e o novo não são conflitantes, mas complementares no caminho do desenvolvimento.

A discussão sobre esses temas foi feita pelos seguintes convidados:
- Agustín Espinosa, representante da Secretaria Geral Iberoamericana no Brasil, entidade que apóia a Conferência Iberoamericana e a Cúpula de Chefes de Estado e de Governo integrada por 22 países distribuídos na América Latina e na Península Ibérica;
- Ana Leiva, diretora da Fundação Biodiversidade e ex-secretária de Estado de Cooperação Territorial do Ministério de Administração Pública, da comunidade autônoma de Rioja;
- Carola Reintjes, presidenta européia da Organização Mundial de Comércio Justo, que reúne cerca de 400 organizações de 76 países; também coordenadora para a Estratégia Institucional e Política de Alianças da organização Comércio para o Desenvolvimento (COPADE) e delegada do conselho do Fórum Social Mundial;
- José Maria de Juan Alonso, vice-presidente da entidade Aliança Européia para o Turismo Responsável e Hospitabilidade, com sede em Bruxelas, que reúne 30 instituições, de 7 países; também diretor da Koan – Consultores em Tursimo e Cooperação para o Desenvolvimento;
- Lúcia Helena de Oliveira Cunha – doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), da Universidade de Paris 7 e Universidade de Bourdeaux2 – da Cátedra da UNESCO;
- Mariane Crevels, especialista em Cooperação Internacional da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério das Relações Exteriores, que atua na América Latina;
- Rodrigo Tarté – diretor acadêmico da Fundação Cidade do Saber, no Panamá, e presidente do Conselho Diretivo do Centro Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (CIDES), no país e:
- Santiago Porto, consultor da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID).

A introdução do tema coube ao consultor brasileiro especializado em implementação de estratégias de gestão e sustentabilidade e cultura organizativa, Marcos Egydio.

A intervenção no encerramento do debate, feita por participantes da plateia, consolidou uma ânsia que não se pode calar – que quando se fala em integração e cooperação, não se pode esquecer do fundamental: o acesso à educação de qualidade, a programas de cooperação efetivos e não, sazonais, que incorporem a sustentabilidade, sem a proposta subliminar de mais um artifício publicitário e mercadológico.

Sucena Shkrada Resk |




22/11/2009 13:49
EIMA7: Como sair na contramão dos rumos das mudanças climáticas?, por Sucena Shkrada Resk
Quanto mais presenciamos as discussões sobre os possíveis cenários do futuro do planeta, tendo em vista, o modelo de desenvolvimento, percebemos que falta justamente a visão holística e, ao mesmo tempo local, com visões de longo prazo. É um quebra-cabeças difícil de montar. Para ressoar essa indagação em diferentes fontes, o BLOG CIDADÃOS DO MUNDO ouviu LUÍS JIMÉNEZ HERRERO, diretor-executivo do Observatório da Sustentabilidade na Espanha (OSE) e o diretor-geral do Instituto de Prevenção, Saúde e Meio Ambiente, da Fundação MAPFRE, ANTONIO GUZMÁN CÓRDOBA. Ambos integraram a organização e debates promovidos no 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA 7), realizado em Foz do Iguaçu, PR, entre os dias 18 e 20 deste mês.

Segundo Herrero, por mais complexa que seja a situação que permeia a 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), as decisões a serem tomadas daqui por diante têm um peso histórico decisivo. “No Protocolo de Kyoto, a média de redução de 5% até 2012 sobre padrões de 1990, teve respostas bem diferenciadas das nações. A União Européia propôs 20%, no entanto, se os EUA (que não ratificaram o protocolo) tivessem assumido um compromisso semelhante, os países desenvolvidos se comprometeriam com 30%”, analisa o diretor da OSE.

Nesse quadro, ainda é preciso priorizar o respaldo científico, baseado no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), quanto aos cenários nas próximas décadas, que levam ao aumento acima de 2 graus, da temperatura média da Terra, o que pode acarretar grandes catástrofes socioambientais. “Seria necessário que a média mundial de redução fosse de 50% nos países em desenvolvimento e de 80 a 95% nos países desenvolvidos”, afirma.

Como chegar a esses índices, se uma grande parte não cumpriu sequer os 5%? “Alguns países ricos (industrializados) estão diminuindo as suas emissões dos gases de efeito estufa (GEEs), no entanto, grandes nações em desenvolvimento, como China, Índia, Brasil e Indonésia estão aumentando. Há um outro ponto a discutir - as suas metas, até agora, são voluntárias”, analisa Herrero.

Segundo ele, a mudança desses critérios terá de ser reavaliada prioritariamente, no Pós-Quioto. “O mais importante é que na COP-15 se negocie transferência de tecnologia de países ricos para os pobres, como também financiamentos, de forma regular, para que haja, de fato, alterações nesse quadro, o que não ocorre atualmente”, considera. O caminho consensual está nas energias limpas e renováveis. “A China tem sua matriz baseada no carvão, mas com esses apoios, pode ir transformando suas fontes”, cita como exemplo.

Antonio Guzmán Córdoba, diretor-geral de Prevenção, Saúde e Meio Ambiente, da Fundação MAPFRE, analisa que todos os setores devem agir localmente, sem esperar somente as decisões das políticas globais, para manter posturas pró-ativas. “Em Copenhague, discutirão essas ações macro”, diz. Segundo o executivo, o investimento na educação socioambiental, com o objetivo de prevenção e de mudanças de padrões de consumo, é um ponto importante a ser explorado.

Uma das ações da Fundação MAPFRE realizada em países em desenvolvimento, ocorre na Argentina. “Por meio de um espetáculo teatral, que percorre várias cidades do país, são passadas noções de consumo responsável quanto à energia, água e resíduos, entre outros”, diz. O espetáculo gratuito se chama Deshollinadores (limpadores de chaminés), uma murga necesaria, de autoria de Manuel González Gil, é destinada a um público, na faixa dos 5 aos 10 anos, que acaba sendo assistida por toda a família. No final das apresentações, os docentes levem um livro e CD, com os quais podem trabalhar com os alunos em sala de aula. Nessa mesma linha de atividade, também já foi apresentado Payasos em Peligro, do mesmo autor.

No Brasil, as ações ambientais, intituladas de Eco MAPFRE, são voltadas à ecoeficiência nos processos do grupo, no apoio à Rede Ecoblogs, que reúne produções de diversos autores da área ambiental no país, como também, a um dos projetos mais recentes, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, com a criação do Programa Villa Ambiental, no Parque Villa Lobos, na capital.

O 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA 7), foi uma realização das Fundações CONAMA e MAPFRE em parceria com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e da Itaipu Binacional, entre outras instituições.

*Viajei a Foz do Iguaçu, para participar do EIMA7, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, realizado no dia 20.
Sucena Shkrada Resk |




22/11/2009 11:00
EIMA7: Entrevista: Giovanni Barontini sobre a COP-15, por Sucena Shkrada Resk
A 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), a ser realizada em dezembro, em Copenhague, se tornou o foco das rodas de conversa, do empresariado ao terceiro setor. Será que o Pós-Quioto sai desse encontro? Quais são as arestas a se aparar? Para falar sobre esse tema, o BLOG CIDADÃOS DO MUNDO entrevistou, no último dia 19, o advogado GIOVANNI BARONTINI, sócio da Fátrica Ethica e membro dos Estudos do Futuro da Pontifícia Universidade Católica (PUC). Barontini analisa a discussão, com o olhar de quem já teve a oportunidade de participar de cinco COPs. O especialista participou do 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável, realizado em Foz do Iguaçu, PR, sob organização das Fundações CONAMA, MAPFRE e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e da Itaipu Binacional, entre outros.

Por Sucena Shkrada Resk

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é a sua análise sobre a participação do empresariado brasileiro na discussão da COP-15?

Giovanni Barontini – Nos últimos três meses, a gente tem assistido diferentes posicionamentos corporativos. Houve a Carta das 22 empresas (Instituto Ethos), manifestações, pela primeira vez, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), como também da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em minha opinião, o que está acontecendo é que o setor empresarial quer firmar espaço, apesar de não ter consolidado visões políticas. Vislumbraram posições mais calcadas em ‘um assunto da moda’, sem posições de longo prazo. Critico que muitas áreas do empresariado não fizeram nada até pouco tempo atrás, para falar que estão exercitando ações pró-ativas. Mas há exemplos, de quem já toma uma postura há mais tempo, como empresas da área de papel e celulose, dos cosméticos, por causa de fatores específicos de seus segmentos. Afinal, nem todo mundo está no estágio inicial.

Blog Cidadãos do Mundo – A COP-15 terá condições de pautar ações concretas para o Pós-Quioto?

Barontini – A COP-15 vai ser um circo. Nada será decidido para o Pós-Quioto. Não se chegou ao nível de amadurecimento necessário. Tive a oportunidade de participar ao longo dos anos, de cinco dessas conferências, desde 1999. Depois, deixei de ir, porque para mim, se tornou uma feira com grandes estandes, como pessoas indo para um shopping, no happy hour. É preciso compreender que a COP-15 é um momento em que se ratifica decisões que aconteceram antes. Para consolidar o que já foi discutido em ações multilaterais etc.

Blog Cidadãos do Mundo – Mas, então, pode se dizer que é um fracasso anunciado?

Barontini – Para não decepcionar a opinião pública, talvez saia do encontro, uma carta de comprometimento. Algo mais simbólico, para satisfazer a sociedade, do que um passo pós-diplomático. Existem questões complexas, com relação à China e EUA. No congresso norte-americano é preciso aperfeiçoar as tomadas de decisões. Na COP-6, em Haia, no final de 2000, por exemplo, houve uma frustração geral, e teve de ser convocada uma nova conferência, em seis meses, em Bohn, na Alemanha. Isso pode se repetir, em Copenhague.

Blog Cidadãos do Mundo – E quanto à posição do Brasil?

Barontini – O Brasil firmou uma posição voluntária. Não coloco fé em posições baseadas na macroeconomia como sustentação, como é o caso do país, que está relacionando as ações ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Há necessidade de se encontrar novas métricas, que se pautem na qualidade de vida e bem-estar. O PIB pode crescer, por exemplo, com fatores adversos, como uma guerra. Há um movimento da Organização das Nações Unidas (ONU), iniciado em 2008, que estuda ações que caminhem além desse paradigma de crescimento. Mas depende da vontade dos países. É difícil fazer com que o conceito de Felicidade Interna Bruta, proposto pelo país asiático do Butão, seja rapidamente assimilado pelo modelo ocidental.

*Viajei a Foz do Iguaçu, para participar do EIMA7, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, realizado no dia 20.

Sucena Shkrada Resk |




21/11/2009 22:00
EIMA-7: A desafiadora prática do comércio justo, por Sucena Shkrada Resk
Hoje estão em funcionamento cerca de 400 empreendimentos identificados como praticantes do ‘comércio justo’, distribuídos em 76 países, segundo a Organização Mundial de Comércio Justo (OMCJ) e a Fundação Comércio para o Desenvolvimento (COPADE)– http://www.copade.org. Nesse universo, existem cerca de 5 mi pessoas beneficiadas divididas em associações, cooperativas e empresas. Isso demonstra que há um longo caminho a percorrer, para que produtores rurais e artesãos, entre outros profissionais de países em desenvolvimento, não sejam penalizados por uma relação predatória de negócios.

Cada vez mais se constata que está na contramão dos princípios éticos, o velho lema de que levar vantagem a qualquer custo é sinal de bom negócio. Tornar esse objetivo uma prática, com certeza não é fácil, pois esbarra com necessidades prementes de uma sociedade, como a formação educacional, que carece de maior investimento, entre outros aspectos.

Em entrevista ao BLOG CIDADÃOS DO MUNDO, no último dia 19, CAROLA REINTJES, presidente européia da OMCJ e coordenadora de Estratégia Institucional e Política de Alianças, da Fundação Comércio para o Desenvolvimento (COPADE), afirmou que o maior desafio para a implementação do comércio justo é a dificuldade de acesso ao mercado e de capacitação. “Pois têm de ser medidas permanentes, que requerem emprego de tempo e fomento de recursos”, explica.

Segundo Carola, que também integra a delegação do Fórum Social Mundial, o sentido de justiça aplicado às comunidades, incorpora as finanças e atividades relacionadas à saúde e ao meio ambiente. “Essas ações contribuem para a formação permanente das pessoas, nas organizações. Não é algo imposto, têm autonomia para a gestão. Mas para que sejam reconhecidas nesse papel, não é aprovada a exploração de trabalho infantil, como também, a ausência do canal de participação dos funcionários na organização, de respeito ao meio ambiente e à igualdade de gênero”, diz.

“Em um diagnóstico mundial, pode-se dizer que praticamente não existe comércio justo local nos continentes africanos e Ásia. Mas na exportação, já há bons resultados, como no Quênia e na Índia, com produtos artesanais”, afirma. No Brasil, um dos exemplos citados por ela, são com associações de seringueiros no Acre. “Cultivam e comercializam castanha do Pará, e o café para exportação é o destaque no Nordeste”, fala.

O coordenador de Projetos da COPADE, JAIME MANTECA AGÜEROS, explica que o
comércio justo se baseia na relação dos países desenvolvidos em apoio aos em desenvolvimento. “Auxiliamos pequenos produtores com menos recursos, para que possam vender seus produtos em mercados, como EUA e Europa. Geralmente o que acontece é que vendem a intermediários, sendo prejudicados nas margens de lucro”, diz. Uma das estratégias é voltada à capacitação e outra ao apoio à criação de linhas de microcréditos.

As organizações que praticam o conceito do comércio justo adquirem diretamente destes produtores. Para estabelecer critérios, hoje existem duas certificações internacionais, segundo ele. “Uma é concedida pela Organização Mundial de Comércio Justo, que deverá criar um novo selo, com mais exigências, para o ano que vem.

Segundo Agüeros, para se promover a qualificação, a COPADE se pauta em selos aos produtos, concedidos pela Fairtrade Labelling Organization (FLO). “Já para as organizações é do âmbito do Fairtrade Organization (FTO). Para 2010 deverá ser lançado o Sustanaible Fairtrade Management System, que é mais exigente”, informa.

“Para a aquisição com preço justo, se calcula custo de produção e margem de benefício, e se tenta reverter injusticas. O café, por exemplo, foi vendido por um preço injusto na América Central, por muitos anos até começar a se reverter esse quadro”, explica.

Com essa filosofia, os produtores devem ter condições de trabalho dignas, respeitando o salário mínimo profissional de cada país, condições de higiênicas e medidas trabalhistas adequadas. “Ainda há a importância da transparência na gestão, com a contabilidade. Parte dos benefícios sociais da cooperativa tem de ser destinado a projetos sociais da própria comunidade. Tudo isso passa por auditoria”, diz.


Madeira Justa
Agüeros explica que um dos principais projetos da COPADE é voltado à iniciativa Madeira Justa. Os espanhóis atuam nesta área de madeira florestal, especificamente em Honduras, há 10 anos, e na Bolívia, há 4. O trabalho atende a cerca de 2 mil pessoas. “Toda madeira que os produtores com os quais trabalhamos utilizam, deve ser certificada. A dificuldade é garantir a qualidade da madeira (Caoba e Teca) até chegar aos compradores na Espanha, onde serão transformadas em móveis. Nesse caso, o problema é quanto a condições climáticas”, afirma.

No caso da madeira (produto), o Forest Stewardship Council, é a organização independente que promove a gestão ambiental florestal ambientalmente responsável em bosques de todo o mundo. A certificação, por sua vez, se chama FSC. Mais informações podem ser obtidas no site http://www.fsc-info.org.

A meta é expandir mercado. “Estudamos a possibilidade de trabalhar no Brasil, com a Secretaria Estadual do Paraná, ao fomentar a certificação florestal e capacitação de carpinteiros, para que os produtos sejam exportados à Espanha”, diz Agüeros.

As entrevistas foram concedidas, durante o 7º Encontro Iberoamericano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA-7), realizado em Foz do Iguaçu, PR, de 18 a 20 de novembro. O evento foi organizado pelas Fundações CONAMA e MAPFRE em parceria com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e a Itaipu Binacional, entre outros.

*Viajei a Foz do Iguaçu, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, realizado no dia 20.

Notícias relacionadas à certificação de madeira no blog:
19/03/2009 11:16 - Madeira (estado de São Paulo): protocolo pela certificação, por Sucena Shkrada Resk

Sucena Shkrada Resk |




18/11/2009 19:24
Entrevista especial- Enrique Leff, da sabedoria tradicional à COP-15, por Sucena Shkrada Resk

"O conceito de territorialidade é uma coisa que rompe o planejamento estritamente urbano e regional. O território é um território de vida, uma reapropriação da cultura. Passa a uma dimensão mais política, de espaço vital. Como espaços étnicos, que nos processos políticos foram delimitados como territórios, parte dessa vida cultural são práticas produtivas...A única sustentabilidade possível é no espaço rural. O espaço urbano por si é insustentável...Não estamos em nenhum absolutismo conservacionista". (Enrique Leff, 18/11/09, Foz do Iguaçu, PR)

ENRIQUE LEFF, doutor em Economia do Desenvolvimento e professor de Ecologia Política e Políticas Ambientais da Universidade Autônoma de México (UNAM) concedeu, hoje, entrevista especial ao BLOG CIDADÃOS DO MUNDO, durante lançamento da reedição modificada do livro Ecologia, Capital e Cultura, com a incorporação do tema: a Territorialização da Racionalidade Ambiental. A primeira versão da obra foi escrita em 86 e depois, em 2000. O bate-papo ocorreu, em intervalo do primeiro dia do 7º Encontro Ibero-Americano de Desenvolvimento Sustentável (EIMA-7), realizado em Foz do Iguaçu, PR. O evento é uma promoção das Fundações CONAMA e MAPFRE, em parceria com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná e a Itaipu Binacional, entre outros. Do saber tradicional à 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorrerá em dezembro, o escritor traçou seu pensamento sobre alguns caminhos contemporâneos socioambientais e da sustentabilidade.

Por Sucena Shkrada Resk
Blog Cidadãos do Mundo - Qual é a sua leitura sobre saber tradicional?
Enrique Leff - É sempre um saber local, que vem da tradição de um caminho que nos constitue no mundo, como pessoas. Cada saber vem de acordo com o contexto cultural. Equivocadamente há a desvalorização da forma de ser no mundo, por causa da falsa supremacia dos saberes dominantes acadêmicos, baseada na racionalização e supervalorização da ciência, ao favorecer certos interesses. Com isso, há subjulgação de vínculos com outras práticas culturais produtivas que são contempladas nesse processo.

Blog Cidadãos do Mundo - Mas, então, podemos dizer que os saberes tradicionais 'morrem'?
Leff - Alguns saberes "morrem" ou deixam de ser praticados. Mas existe certa capacidade de recuperação, por meio do 'hibridismo' com saberes atuais. Pode-se dizer que é um mito dizer que todos os saberes são puros. Na verdade, há diálogos de saberes, com as mestiçagem cultural. Em alguns casos, se conservam por meio de manifestações religiosas, por rituais e cerimoniais. O que é híbrido também tem uma identidade. Faz parte da categoria de novos saberes.

Cidadãos do Mundo - Como o senhor interpreta o papel da mídia na contemporaneidade com relação à pauta socioambiental?

Leff - Há a difusão de muitas mensagens curtas, que dificultam que o leitor chegue a uma consciência crítica incisiva. Os teores são, muitas vezes, sensacionalistas, simplistas e oportunistas, com o apelo comercial. Esse é um percurso na contramão de uma nova cultura. Por outro lado, há meios de comunicação que são bem-sucedidos nesse papel, como quando tratam de temas preventivos e de orientação, como a redução do consumo da água. Entretanto, poderiam ir mais longe. É difícil ver informações sobre a escassez quanto ao ciclo ecológico da produção, que são temas mais complexos, implicando a biodiversidade. Falta uma direção mais pontual da mídia, que evitar problematizar, por causa do predomínio das questões econômicas.

Cidadãos do Mundo - Qual análise o senhor faz sobre o contexto que envolve a COP15?
Leff - As principais potências não chegaram a definições. A questão não está sendo problematizada, ou seja, traduzindo debates mais complexos para os países. A vinculação do processo do Aquecimento Global com a Globalização demonstra que, o critério da Economia, baseado na produtividade impera. A leitura que se faz da crise financeira atual, que envolveu as grandes potências, é como se estivesse dissociada da agenda ambiental, o que erroneamente dá a entender que é possível esperar mais para ter posições pró-ativas. Até mesmo o investimento em tecnologia limpa, da economia de baixo carbono, está enquadrada no modelo economicista.

Cidadãos do Mundo - Sendo assim, qual é a sua análise sobre a efetividade da sustentabilidade?
Leff A sustentabilidade, na prática, é bastante fraca e restrita à capacidade do sistema econômico absorver essas questões. Mas a minha esperança é grande, quando se trata do sentido de mudanças em novas formas de produção.

*Viajei a Foz do Iguaçu, para participar do EIMA7, representando o Núcleo Ciência e Vida, da Editora Escala, a convite das Fundações CONAMA e MAPFRE, para mediar o painel Cooperação para o Desenvolvimento, a ser realizado no próximo dia 20.
Sucena Shkrada Resk |




17/11/2009 00:23
Especial Educomunicação Ambiental (4)-Entrevista:Maria del Carmen Chude, por Sucena Shkrada Resk
A quarta entrevistada do Especial Educomunicação Ambiental, do Blog Cidadãos do Mundo, é a psicopedagoga argentina, radicada no Brasil, Maria del Carmen Guadalupe Chude. A especialista em Tecnologia da Educação, há 10 anos, é diretora pedagógica do Programa Ciência Hoje de Apoio à Educação (PCHAE), desenvolvido no ciclo 1 de escolas públicas municipais. O Programa é do Instituto Ciência Hoje e vinculado à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Blog Cidadãos do Mundo - Como a educomunicação pode ser exercida na prática?

Maria del Carmen Guadalupe Chude- Ao contextualizarmos a questão para o âmbito escolar, poderíamos dizer que, na prática, a educomunicação passa a ser um caminho, uma ponte ou até uma chave de compreensão para intervir na dimensão multicultural dos ambientes educativos de hoje. A diversidade cultural está presente hoje na escola (daqui e de outros lugares do mundo) e numa das dimensões em que se manifesta, vimos muito bem retratada no recente filme documentário “Entre os muros da escola”. A escola vive hoje imersa num desafio cultural. Busca resolvê-lo, aproximando-se das mídias e das TIC’s (Tecnologias da Informação e Comunicação) , desenvolvendo currículos de perspectiva cultural e apresentando-se para o debate. Eu diria que a escola já está a caminho. Hoje se permite repensar-se já não mais como “o locus privilegiado do conhecimento”. Mas a escola precisa superar um desafio bem profundo: a relação professor-aluno e o ambiente de aprendizagem. No dizer de Martín-Barbero, a mídia e as tecnologias da informação deixam visíveis e cada vez maiores, as brechas entre a cultura, a partir da qual os professores ensinam; e aquela outra, a partir da qual os alunos aprendem.

Cidadãos do Mundo - Conte, por favor, a experiência do Projeto Ciência Hoje de Apoio à Educação (PCHAE):

Maria del Carmen - A experiência do Projeto Ciência Hoje de Apoio à Educação, desenvolvido pelo Instituto Ciência Hoje, vinculado à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, foi iniciado em 2001. Preocupados com os resultados dos jovens em matéria científica, nós, como educadores e pesquisadores, desenhamos um programa para intervir nas séries iniciais de formação escolar, que estimule a leitura, a alfabetização científica e a postura investigativa de professores e alunos.
O ICH já tinha uma revista de divulgação científica especialmente desenvolvida por pesquisadores para crianças entre 8 e 13 anos. A “Ciência Hoje das Crianças” tem mais de 20 anos ininterruptos de circulação, premiada internacionalmente. É uma das poucas com estas características no mundo. O PCHAE é um programa que alia a revista nas mãos das crianças e uma formação para o seu professor, de maneira que a criança seja o espelho da mudança do professor, pois seu entusiasmo ao receber mensalmente sua revista e levá-la para casa, compartilhar com os seus irmãos e familiares o torna o principal vetor de mudança deste Programa. A criança é o grande elo da comunidade leitora de ciência e tecnologia.
O PCHAE coloca nas mãos dos professores uma mídia impressa para provocar discussões com seus alunos, transformando o papel do professor, que pela prática tradicional, era um mero transmissor de informação, para o de um mediador; alguém que problematiza, instiga e abre portas para outras fontes de informação.
No PCHAE valorizamos como ponto alto da avaliação dos projetos, a pesquisa em diversas fontes conversacionais. Tem tanto valor quanto a presença de livros especializados, enciclopédias ou mapas. Um exemplo interessante foi a ampla pesquisa realizada por alunos de uma escola pública de Embu das Artes, que para descobrir uma praga, que atacava a horta da escola, convocaram ambientalistas, jardineiro, avô de uma das crianças que tinha plantação, botânico e engenheiro agrônomo. Pesquisaram em internet, documentários e livros. A solução para conseguir chegar a um recurso, que não agrida o ecossistema da horta, gerou uma cartilha para a comunidade, disseminando diferentes técnicas e conhecimentos aprendidos. Isso resultou em “aulas práticas” nas reuniões para pais e professores.

Cidadãos do Mundo - Quais são os principais desafios para que haja, de fato, o empoderamento? Por quê? Como é possível superá-los?

Maria del Carmen - No contexto escolar, eu diria que o principal desafio é dar voz à criança e ter um “time”, uma equipe (de professores e alunos) na sala de aula, que busque o conhecimento. Criar projetos é uma manifestação da inteligência criadora, que inventa finalidades às informações. Por isso, podemos superar os desafios, se os professores organizam ambientes e situações de aprendizagem desafiadoras e se permitem estar no papel de mediador. O pedagogo Lauro de Oliveira Lima dizia que a Inteligência só se ativa diante de uma situação-problema. “Passar conhecimento” é uma expressão que reflete uma prática docente, que não reconhece o aluno como sujeito. Na escola, empoderamos crianças e professores, quando lhes damos a liberdade de inventar projetos, que eles próprios tornam interessantes.

Cidadãos do Mundo - De acordo com sua experiência, o que é indispensável na formação dos multiplicadores da educomunicação ambiental?

Maria del Carmen - Na área ambiental, educomunicadores são muito importantes, diria que essenciais, para ajudar na maturação deste movimento de cidadania planetária e sustentabilidade. Na formação destes multiplicadores, consideraria como importantes, dois aspectos: um relativo ao respeito da cultura do outro, ao entender de que lugar o seu interlocutor ou o seu “público-alvo” está falando; e outro relativo à sua formação. “Quem educa o educador?”. Esta pergunta nos convoca a ler mais e entender melhor Paulo Freire e ainda, lembrar sempre que não deve desistir de transformar, antes que o próprio mundo, a si próprio.

Sucena Shkrada Resk |




08/11/2009 23:13
Amazonas - Anamã ainda sob efeito das cheias, por Sucena Shkrada Resk
As cheias que atingiram o estado do Amazonas, neste ano, deixaram marcas ainda presentes às populações ribeirinhas. O município de Anamã, que fica a cerca de 180 km de Manaus, é um dos que mais sofreram, e não se recuperou do estado de calamidade pública, segundo a secretária-executiva de Assistência Social do Estado do Amazonas, Maria das Graças Soares Prola. A cidade, à beira do rio Solimões, busca superar o maior aumento do nível da água, na série histórica, ocorrida na região. Poucas informações da imprensa sobre a situação pós-cheias demonstra o quanto a mídia brasileira se detém aos temas de pico. Poucos se lembram das questões de infraestrutura e doenças de fundo hídrico, que se acentuam depois dessas catástrofes climáticas, que também atingem outras cidades no Brasil. E nós, com essa ignorância, perpetuamos o ciclo de 'esquecimento'.

No mês de maio, o único hospital da cidade e unidade de saúde foram inundados, inviabilizando o atendimento. A situação se agravou até o mês de julho principalmente. As aulas foram suspensas. A vida da população local foi totalmente afetada. Houve ainda o aumento de casos de diarréia e picadas de animais peçonhentos.

A dificuldade de acesso ao município é mais um fator que compromete a assistência mais eficiente, já que a logística até lá é por meio fluvial, o que ocorre em várias cidades na região Norte do país. A Defesa Civil, a Marinha e organizações não-governamentais foram ao socorro das famílias. O auxílio é necessário até hoje.

Ao recuperar as poucas notícias sobre o município à disposição na Internet, é possível verificar que a localidade sofre com os antagonismos climáticos. Em 2005, cerca de 4,5 mil pessoas, dos 6,6 mil habitantes do município à época, vivenciaram o drama da maior seca dos últimos 40 anos (Jornal A Crítica, 13/10/2005).

Hoje o que chega a ser contrastante é o fato de Anamã ser um local estratégico na construção do Gasoduto Coari -Manaus, e que recebeu por conta disso, R$ 14 mi em seu orçamento, oriundo da arrecadação do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS), referente ao período 2006-2009, segundo informações do Portal do Governo, divulgada no Portal Amazonas, em outubro deste ano. A obra realizada pela Petrobras, tem um total de 383 quilômetros de tubos, que deverão ligar a reserva localizada em Urucum até a capital, passa pela localidade. Resta saber como a verba será aplicada.

E as perguntas a serem respondidas são: Como está a situação da qualidade de vida dos moradores deste município? As ações de adaptação e mitigação estão sendo realizadas com vistas a novos períodos de intempéries climáticas?


Sucena Shkrada Resk |




08/11/2009 11:21
Amazonas-Manaus: o desafio dos resíduos, por Sucena Shkrada Resk
Há pelo o menos 10 anos, uma discussão que envolve o Distrito Industrial de Manaus é quanto à destinação dos resíduos. Isso implica o que fazer com os rejeitos industrial, urbano, hospitalar, do setor da construção e radiológico, em um parque com mais de 500 empresas - o maior na região norte do país. Esse cenário pode ser modificado com um projeto em discussão, desde o final do ano passado, que prevê até 2011, o início da implementação do Centro de Pólo de Tratamento de Resíduos.

A situação socioambiental da capital do Amazonas exige ações efetivas, visto que, a cidade apresenta outros problemas. Tem apenas a cobertura de esgoto em 11% de sua área urbana, o que propicia a geração de doenças, como destaca Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), Trata Brasil, que tem um trabalho específico voltado ao saneamento. Com a proliferação de vetores, há incidências de hepatites e malárias, entre outras.

Para o tratamento de resíduos do pólo, foi firmado um acordo internacional de cooperação técnica entre a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), a Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA) e a Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), em 2008. "Participamos do primeiro workshop, em setembro deste ano, para discutir o processo", explica Josué Campos, gerente de Gestão e Responsabilidade Social da Moto Honda, que integra a comissão, que discute o projeto.

A questão é urgente já que hoje somente 16 empresas - incluindo a Honda - realizam um trabalho sistematizado quanto ao ciclo dos resíduos e 80 são certificadas pela ISO 14001, de acordo com Campos. Do ponto de vista ambiental, exige um olhar sistêmico. O levantamento realizado pela Jica aponta que o tratamento de grande parte dos resíduos gerados pelas indústrias locais, é realizado em Manaus, por meio da terceirização, pelas fábricas geradoras, dos serviços de coleta, transporte e a destinação final a empresas credenciadas pelos órgãos ambientais no Amazonas. Quando se trata de resíduos perigosos, o tratamento de parte deles é feito em outros Estados. Isso infere logística, poluição gerada pelo transporte etc. Mais detalhamentos podem ser consultados no link: http://www.suframa.gov.br/download/publicacoes/jica/newsletter_nr003_pt.pdf.

O que chama atenção nessas apurações, por exemplo, é que o levantamento executado em um universo de 123 fábricas do distrito, referente ao período de junho de 2008 a maio deste ano, detectou que foram produzidos 36,97 ton/dia de resíduos da construção, sendo a maioria reutilizáveis. A maior parte desse total, entretanto, seguiu misturada a outros rejeitos, para o Aterro Municipal de Manaus. Esses dados preliminares destacam a necessidade de reavaliação da gestão em todo o processo.

O projeto prevê a criação de um Plano Diretor, com duração de cinco anos (2011-2015). Um estudo está sendo promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), pelo Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), com a participação da Câmara de Comércio e Indústria Nipo-Brasileira do Amazonas. . A Suframa, segundo o técnico, já cedeu um terreno para a construção do Centro do Pólo de Tratamento de Resíduos, no Distrito Industrial 2.

A discussão envolve ainda um Subcomitê Técnico Consultivo, com a participação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (Ipaam), as Secretarias Municipais de Limpeza Urbana e de Desenvolvimento e Meio Ambiente, além da Unidade de Gestão do Programa Igarapé (UGPI).

De acordo com a representação da Jica, no Brasil, a instituição deve apoiar a iniciativa com um aporte de cerca de 2 milhões para a execução do projeto, extra a contrapartida brasileira.

Soluções individuais
No caso da Moto Honda, o gerente de Gestão e Responsabilidade Social explica que são geradas mensalmente 1,8 mil t de resíduos, sendo 400 t perigosos, pela planta da empresa. "Cerca de 1,1 mil são aparas de aço da estamparia, que vendemos para a Gerdau. Isso resultou, de janeiro a setembro, em cerca de R$ 6 mi. O papel e papelão destinamos a outras empresas. O que arrecadamos com essa comercialização, utilizamos para ao cumprimento da destinação dos nossos resíduos perigosos", diz.

Outra política adotada pela empresa foi de fazer parcerias, que facilitaram a vinda de fornecedores para para o parque industrial. "A distância dos produtores de alumínio, por exemplo, era um problema complexo. Agora, já estão instalados no distrito. Com isso, reaproveitam parte de nossos rejeitos. O mesmo acontece com a areia de fundição e plástico. Essas mudanças diminuiram o custo de fretes e impostos", afirma Josué Campos. A exposição do gerente demonstra que a gestão dos resíduos, dessa forma, pode se tornar rentável financeiramente e ambientalmente.

*Viajei para Manaus, representando o Blog Cidadãos do Mundo, entre 27 e 29 de outubro, integrando um fan tour jornalístico, a convite da Honda South América, em companhia de cerca de 20 colegas da área ambiental no Brasil.

Sucena Shkrada Resk |




07/11/2009 01:39
Amazonas: o difícil resgate da infância e da juventude, por Sucena Shkrada Resk

Uma pequena jovem se debruça sobre um caixão, enquanto outras dançam e exibem uma coreografia marcada por expressões de sacrifícios e de tristeza. A cena em questão, que inspira reflexão, é interpretada por alunas da Casa Mamãe Margarida, em Manaus, AM, que é a única referência no Estado para meninas em situação de risco social e pessoal. Com o tema ‘Ensaio sobre a Morte da Infância’ descrevem, na verdade, histórias reais de infâncias e juventudes, que sofrem rupturas em busca de reestruturação. Um difícil resgate que é ignorado por boa parte da mídia, das autoridades, do empresariado e pela própria sociedade.

A entidade atua como lar-abrigo e escola. De acordo com a coordenadora, a irmã salesiana Liliana Maria Daou Lindoso, atualmente são atendidas cerca de 350 crianças e jovens, dos 6 aos 18 anos, (sendo 30 no abrigo), não só de Manaus, como também de Parintins e de São Gabriel, entre outras cidades. “Temos muitas dificuldades para a manutenção, porque dependemos principalmente de doações. Para o abrigo, temos uma fila de espera de aproximadamente 30 crianças”, diz.

A parceria com a iniciativa privada é um dos recursos que auxilia a entidade, a exemplo da Honda, localizada no Distrito Industrial. A empresa doa frutas oriundas do projeto agrícola, que mantém em Rio Preto da Eva, desde 1999, que é a contrapartida de compensação ambiental, para a pista de testes de motos localizada na área. Lá são cultivados limões, mamões, cocos, entre outros.

“Do Estado, recebemos mensalmente R$ 22 mil, mas as remessas não são regulares. No entanto, só nossas despesas chegam a cerca de R$ 45 mil, sendo R$ 38 mil, da folha de pagamento”, conta. A necessidade de reforma das instalações elétricas requerem mais cerca de R$ 40 mil.

Ao ser perguntada, a secretária-executiva (adjunta) de Assistência Social do Estado do Amazonas, Maria das Graças Soares Prola, afirmou, no último dia 28, que os atrasos ocorrem porque a entidade deve prestar contas antes de receber a quantia. “Tem capacidade para abrigar 28 meninas, mas recebe mais”, diz.

Ela afirma que há retaguarda ao atendimento relacionado à violência sexual, que é a principal demanda dos casos, em 23 dos 62 municípios do estado. Mas a questão, que fica em aberto, é por que essas instituições não assistem a meninas e jovens de suas cidades?

A construção de novos abrigos, de acordo com Maria das Graças, também não é a proposta mais adequada, de acordo com o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária. “Nos estados, precisamos implementar o desabrigamento e criar alternativas para as famílias acolhedoras”, diz. A secretária afirma que em 2010, o Amazonas dará andamento a um plano estadual, com esse objetivo, em parceria com as prefeituras.

Uma série de desafios
Enquanto tramitam esses processos de mudanças de ‘políticas’, o que não pode ser esquecido é que as crianças precisam receber ‘em tempo real’ um atendimento digno, para que consigam superar as agressões pelas quais passam. Esse não é um processo fácil, como destaca a psicóloga da Casa Mamãe Margarida, Maria Auxiliadora Ribeiro. “O principal desafio da entidade é que as meninas percebam que é possível ‘reescrever’ a vida delas. “Como têm a experiência de viver em famílias desestruturadas, pensam que não podem seguir novos caminhos”, diz.

A dificuldade de encontrar parcerias para promover o primeiro emprego das jovens é mais um fator que pesa nesse processo. “Do que adianta prepará-las, se o mercado não está preparado para elas. Nós ainda esbarramos na disfunção série/idade. Muitas têm 18 e ainda estão na terceira série”, explica.

Resgatar a auto-estima exige um trabalho redobrado dos profissionais que trabalham diariamente com as meninas e adolescentes atendidas na Casa Mamãe Margarida. “Quando são feridas em um alto grau de agressão, isso afeta a educação. Têm dificuldade de aprender a ler e quanto à apreensão do conhecimento. A progressão continuada acaba acentuando esse problema.

Por outro lado, a inconstância do voluntariado é mais uma barreira a superar. “Quando essas pessoas deixam de vir, a carência afetiva dessas crianças aumenta”, conta a irmã Liliana Maria.

Comemorar os aniversários de 15 anos de muitas dessas jovens requer um trabalho cooperativo. “Vinte e uma meninas estão completando essa idade e fizemos campanhas para adquirir vestidos e apadrinhamento. Utilizamos, inclusive, a rádio, como mídia”, conta a irmã. Nessa maratona, mães e familiares de algumas jovens também ajudam na confecção dos adereços.

A capacidade de resiliência
Para a jovem Marce Moraes da Silva, 23 anos, se dedicar ao trabalho de arte-educação, ao auxiliar na coreografia do grupo de dança de meninas atendidas pela Casa Mamãe Margarida, é como recobrasse a sua própria história de vida. A funcionária conta que um dia foi atendida pela instituição. Nessa trajetória, encontrou no esporte uma vocação.

“Joguei vôlei, basquete, handball, participei da seleção infanto e juvenil da Universidade Nilton Lins do Amazonas. Fui descoberta pelo ex-jogador da seleção de vôlei, Xandó, que me indicou ao treinador”, se recorda.

Marce cursou dois anos da Faculdade de Dança, na Universidade do Estado do Amazonas e agora parte para um novo desafio – prestar vestibular para Educação Física.

“Acima de tudo, o que resgatei foi minha auto-estima. A partir do momento, em que estamos bem conosco, corremos atrás do que queremos”, afirma. E diz – “Agora tenho cabelo grande pela primeira vez em minha vida. Meu pai (já falecido) sempre cortava...”, conta, como se reconstruísse a sua auto-imagem.

*Viajei para Manaus, representando o Blog Cidadãos do Mundo, entre 27 e 29 de outubro, integrando um fan tour jornalístico, a convite da Honda South América, em companhia de cerca de 20 colegas da área ambiental no Brasil.



Sucena Shkrada Resk |




05/11/2009 16:20
Lévi-Strauss: um intelectual que vivenciou a brasilidade, por Sucena Shkrada Resk
Aos 100 anos, o antropólogo e etnólogo belga, Claude Lévi-Strauss, deixa um legado importante à humanidade e, especialmente ao Brasil, com seu falecimento, no último dia 31. O fato de reconhecer a importância dos povos tradicionais - pode-se dizer no papel de guardiães - é de suma importância, quando há a tentativa de se desenvolver o conceito de humanização. O autor de Tristes Trópicos (1955) e de Raça e Cultura, entre outras obras, traduziu em seus escritos, o sabor das raízes e o desenvolvimento do conceito de que não existe "povos sem história", mas sim, povos dos quais desconhecemos o passado. Pode-se dizer que essa 'ignorância' consciente ou inconsciente revela os valores do desenvolvimento de uma civilização.

A sua imersão no centro-oeste e norte do Brasil (década de 30), quando manteve contato com bororos, cadiuéus e nambiquaras, entre outros povos, serviu de laboratório para conceituar o estruturalismo, teoria pela qual tece as relações dos processos cognitivos. Como observador do comportamento humano, se aprofundou na importância nas redes ou teias, ao fazer o cruzamento entre o comportamento da família com mitologia e preparação de alimentos, entre outras ações.


Sucena Shkrada Resk |




02/11/2009 20:52
Especial Educomunicação Ambiental (3)-Entrevista: Vilmar Berna, por Sucena Shkrada Resk
Em continuidade ao Especial EDUCOMUNICAÇÃO AMBIENTAL, do BLOG CIDADÃOS DO MUNDO, o terceiro entrevistado é o jornalista gaúcho VILMAR BERNA. Com uma biografia permeada pela militância no movimento socioambiental, optou por mudar de ‘vida’ e morar com a família, em uma colônia de pescadores em Niterói, RJ. Em 1999, recebeu o Prêmio Global 500 para o Meio Ambiente, concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em reconhecimento a suas ações em prol da cidadania planetária. É um dos fundadores da Rede Brasileira de Informação Ambiental (REBIA) e edita voluntariamente a Revista do Meio Ambiente e o Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br). Na carreira literária, se dedica principalmente ao tema de ecologia e educação ambiental, com mais de 10 títulos publicados.

Por Sucena Shkrada Resk

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é a sua leitura sobre a história da comunicação ambiental brasileira?

Vilmar Berna – A partir da década de 70, o inconsciente coletivo aceitava a ideia do progresso com a poluição, como um preço a pagar. Neste período, poluir chegava a ser sinônimo de crescimento. A terra desmatada era tratada como beneficiada. Três décadas depois, houve uma mudança radical dessa visão. Não se aceita mais aqueles modelos. Apesar de sermos consumidores, para mantermos a sobrevivência, não aceitamos mais a poluição como um preço por nossa paz. Essa mudança não se deu por acaso. As pessoas mudaram, porque começaram a receber informações por meio dos profissionais da comunicação, que têm o papel de mediadores. Embora os jornalistas, em geral, se recusem ao compromisso de engajamento, os comunicadores (categoria da qual faz parte) são a alavanca de conhecimento para a sociedade.

Blog Cidadãos do Mundo – Mas como esse processo acontece?

Berna – É falsa a ideia de que a informação sozinha gera mudança, precisa estar acompanhada por valores fraternos, para que não seja manipulada. A mudança não acontece ao mesmo tempo em todo mundo. Cada pessoa percebe em um momento distinto. Há setores que são mais atrasados nessa reflexão. Mas o importante a destacar é que os profissionais de comunicação fizeram avançar o inconsciente coletivo. Alguns avançaram pela dor ou pelo amor. Como exemplo, cito a cobertura de casos clássicos, como o vazamento de petróleo do Exxon Valdez (1989); o acidente em Bhopal, Índia, em que milhares de pessoas morreram por causa da nuvem tóxica provocada por um vazamento na planta da Union Carbide (1984); o acidente na Usina Nuclear Chernobyl, na Ucrânia (1986), que foi considerado o mais grave da história. Ao ter conhecimento desses casos, a sociedade começou a ver que havia algo errado com o modelo de desenvolvimento. Como também, que os representantes políticos, ao incorporarem a legislação ambiental, assumiam avanços. Outras pautas, como o trabalho escravo (caso Nike), fizeram com que as pessoas reagissem com o descaso nas relações trabalhistas/humanas.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o papel da educomunicação nesse trajeto da comunicação ambiental?

Berna – Embora os profissionais de comunicação e os educadores ambientais não percebam que são lados diferentes da mesma moeda, eles são e podem ser a mesma pessoa. A noção de educomunicação tem um conteúdo filosófico, em que a educação mais a comunicação são consideradas ferramentas capazes de levar informações com valores. Há ainda uma segunda visão prática, de que a EA utiliza os meios de comunicação para atingir a massa. A proposta é sintetizar grandes saberes, por meio da informação e construir esses valores. Tudo isso vem, desde o Clube de Roma e com a Organização das Nações Unidas (ONU). Paulo Freire é um caudatário deste movimento. Ele falava que o grande desafio da educação é libertar o ser humano da escravidão do consumismo. Toda mudança exige movimentos de cima para baixo e vice-versa, principalmente das comunidades atingidas, reagindo e denunciando. Por outro lado, governos criando normas (mesmo que não cumpram). A luta continua hoje, porque os agentes que produzem mudanças permanecem ativos. A Internet possibilita essa globalização, com redes trabalhando em processos semelhantes. O desafio é aumentar a velocidade desses processos, porque se continuarmos com esse modelo predatório, o ser humano não terá mais tempo. O problema não é crescer, mas o tipo de crescimento. É preciso desconstruir mitos.

Blog Cidadãos do Mundo – Mas as redes trabalham com um propósito comum?

Berna – Segundo o mestre em Sociologia e doutor em Ciência Política, Eduardo Viola, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), existem os fundamentalistas, que chamamos de naturebas, que vivem no campo, ligados à raiz e que se integram à natureza e aos rituais. Outra vertente é dos ecossocialistas, que consideram que o problema é a falta de políticas públicas e que o meio ambiente não pode ser commodity. Uma terceira modalidade é a dos chamados ecocapitalistas, que defendem que a iniciativa privada tem o papel importante para a captação de recursos e com isso as grandes corporações não querem destruir isso. Nesse contexto, há as ISOS, os selos ambientais, os prêmios. A figura do Estado se restringe ao papel regulatório das regras do jogo. Por fim, estão os pragmáticos, que evitam se sobrepor a essas posições. São aqueles que articulam os abaixo-assinados, sentam com os governantes para discutir... É uma linha mais prática. O grande desafio é que todas essas correntes falem umas com as outras e que os jornalistas ambientais se afastem um pouco dessas tendências (para ter um olhar mais isento), a não ser que seja corporativo.

Blog Cidadãos do Mundo – Como a ética está inserida na educomunicação?

Berna – Existem várias éticas, que mudam de acordo com o tempo e lugar. Não são imutáveis. Em função da informação que as pessoas recebem, elas fazem escolhas, constroem valores. O que permite mudar é estar consciente dessas escolhas. Não acredito que somos somente resultado de genes e história. Escolhemos os valores e suas relações em função da informação. Mas com certeza é falta de ética eleger determinada informação em detrimento de outra. Mentira não é ética em lugar algum. Acho inadmissível que a pretexto de divulgar uma informação considerada valorosa, por exemplo, só do lado de um movimento social, não seja ouvido o contraponto etc. Também não há nada de errado que uma empresa patrocine um veículo de comunicação. O errado é que esse patrocínio signifique cercear as informações.

*O jornalista Vilmar Berna concedeu a entrevista ao Especial Educomunicação Ambiental do Blog Cidadãos do Mundo (www.cidadaodomundo.blogse.com.br), no dia 29 de outubro deste ano, durante fantour jornalístico, do qual participamos com outros profissionais da área de comunicação ambiental, promovido em Manaus, AM, pela Honda South America. A singularidade da ocasião, que considero oportuna de mencionar, é que estávamos em uma embarcação sobre o Rio Negro, quase nas confluências com o Amazonas e Solimões. Um rico cenário educomunicativo, em que há os povos da floresta e, ao mesmo tempo, os trabalhadores do Distrito Industrial de Manaus. Pessoas que, por muitas vezes, ficam anônimas e não conseguem se expressar, porque não se dá a oportunidade a elas para esse empoderamento.

Sucena Shkrada Resk |




01/11/2009 22:30
Mudanças Climáticas - Muito ainda a se fazer (parte 2), por Sucena Shkrada Resk
A Câmara dos Deputados aprovou em 27 de outubro, a Política Nacional sobre a Mudança do Clima e no dia 28, o projeto de lei nº 2223/07, que institui o Fundo Nacional, que será o braço orçamentário. No caso da Política, o texto que foi votado é o "substitutivo da comissão especial, de autoria do deputado Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP). A base é o projeto de lei nº 18/2007, do deputado federal Sarney Filho, como também o projeto do executivo nº 3.535/2008.

Agora, os documentos tramitam no Senado, para que o ciclo legislativo seja consumado. A pauta, entretanto, ainda requer muito mais discussão e sintonia na agenda política nacional e internacional, já que será a referência brasileira na 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da Organização das Nações Unidas (COP-15). O governo brasileiro ainda não definiu as metas de redução oficiais que apresentará no encontro.

Com relação ao Fundo, o projeto prevê que parte dos recursos provenha da cota que cabe ao Ministério do Meio Ambiente no rateio da participação especial das empresas petrolíferas. Deverá ficar sob gestão de um comitê a ser criado e a operação ficará por conta do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O que ainda causa apreensão é a cobertura da imprensa. Tive oportunidade de ler algumas matérias a respeito da pauta, para poder acompanhar melhor o processo. Boa parte dos textos é confusa principalmente para um leitor, que pela primeira vez, se deparar com o tema. O que falta é o histórico, algo imprescindível para se contextualizar a aprovação desses projetos. Parece que todo mundo foi pego de calças curtas.

* Parte 1 (post 23/08/2009 22:46)


Sucena Shkrada Resk |




01/11/2009 19:11
Especial Educomunicação Ambiental (2)-Entrevista: André Trigueiro, por Sucena Shkrada Resk

O segundo entrevistado do ESPECIAL EDUCOMUNICAÇÃO AMBIENTAL, do BLOG CIDADÃOS DO MUNDO, é o jornalista ANDRÉ TRIGUEIRO. Além de comunicador, é pós-graduado em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ e professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Atua como apresentador do Jornal das Dez, da Globo News, e como comentarista do programa Mundo Sustentável da Rádio CBN. Recentemente lançou o livro Espiritismo e Ecologia, pela FEB. Também é coordenador editorial e um dos autores da obra Meio Ambiente no século XXI, pela Sextante (2003).

Por Sucena Shkrada Resk

Blog Cidadãos do Mundo - Qual é a importância da comunicação ambiental hoje com relação a ações práticas?

André Trigueiro – O papel da comunicação ambiental é reportar uma crise sem precedentes na história da humanidade e dar a devida compreensão e diagnóstico do que emerge das comunidades acadêmicas e científicas. Dessa forma, desperta um senso de urgência para uma nova atitude, um novo modelo de desenvolvimento, uma revisão estrutural de hábitos, de comportamento, de padrões de consumo e de modelagem de gestão pública e de gestão privada. Com isso, é possível sinalizar rumos e perspectivas e quais são os caminhos, ou seja, se a situação do jeito que está não é boa, o que é preciso fazer e de que jeito? Esse também é papel da mídia e de quem produz informação, em geral, mas acima de tudo, da educação e da comunicação.

Blog Cidadãos do Mundo - Como você analisa o papel da mídia atualmente quando trata do tema ambiental?

Trigueiro – A mídia se detém no factual, neste sentido, a grande mídia, em particular, e a maioria das segmentadas vive de notícias. A mídia pode informalmente educar ou deseducar, mas o papel do jornalista é informar. Acho que hoje, na área ambiental, estamos muito melhor do que no passado recente. Há um cuidado maior na confecção das pautas e em relação à cobertura de determinados assuntos, mas aquém do que achamos que seja um nível ótimo. Há muito o que fazer no sentido de qualificar o profissional de imprensa quanto a descobrir pautas que não sejam tão óbvias. Como também a descobrir o jeito certo de tratar a crise climática, sem fazer com que as pessoas se desmobilizem e digam que não tem jeito, já que os piores cenários estão colocados como perspectiva concreta. A calibragem desses assuntos requer certo cuidado, até porque há muito o que aprimorar e melhorar.

Blog Cidadãos do Mundo – Mas a quem cabe melhorar todo esse contexto da crise?

Trigueiro – A capilaridade da crise não distingue setores que devem agir em detrimento de outros. Eu particularmente considero que devem ser todos que têm consciência da dimensão dessa crise, que é principalmente climática, mas há outros nichos de risco de esgotamento e de colapso da capacidade dos ecossistemas suprirem, os níveis de consumo de energia absurdos, a necessidade de educação para o consumo e de uma nova maneira de enxergar e medir desenvolvimento. São demandas civilizatórias que dizem respeito a todo mundo que está vivo. Certamente, o gestor público e os dirigentes políticos do país têm uma responsabilidade maior, mas não é só deles. Sozinhos não irão resolver.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o seu parecer sobre a educomunicação, já que tem um papel que não se restringe ao jornalista?

Trigueiro – Eu acho válido e pertinente. Toda a possibilidade que você tem de utilizar as ferramentas midiáticas é uma tendência inexorável. Antes de a educomunicação existir, já existia a internet e a possibilidade de qualquer pessoa ser mídia e de se comunicar. Na educomunicação, há também uma missão de identificar as pautas de interesse em sinergia com o seu público-alvo, validando o que e quem é eventualmente desprezado pela grande mídia, emprestando o microfone a essas pessoas, transformando a realidade local em área de interesse e atuação dessa ‘mídia’ para o bem. Há o empoderamento da pessoa física. Então, o mundo caminha para a possibilidade de cada um comunicar o que deseja, do jeito que bem entender, e de se fazer ouvir por meio do nível de interesse que desperte, e pela competência de comunicar o que julga importante. Dentro da educomunicação, se abre a perspectiva concreta de qualificar essa comunicação, e da responsabilidade pelo uso ético desta ferramenta.

* a entrevista de André Trigueiro sobre Educomunicação Ambiental foi concedida ao Blog Cidadãos do Mundo, durante o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, realizado no Rio de Janeiro, em julho de 2009.

Sucena Shkrada Resk |




26/10/2009 09:17
Especial Educomunicação Ambiental - Entrevista: Heitor Queiroz de Medeiros, por Sucena Shkrada Resk
ESPECIAL EDUCOMUNICAÇÃO AMBIENTAL


Por Sucena Shkrada Resk

Em entrevista concedida ao BLOG CIDADÃOS DO MUNDO, HEITOR QUEIROZ DE MEDEIROS fala sobre os caminhos da EDUCOMUNICAÇÃO AMBIENTAL no Brasil. O historiador e Doutor em Ecologia e Recursos Naturais é um dos fundadores da Revista Brasileira de Educação Ambiental. Também atua como professor-visitante na Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), na área de Mestrado em Ciências Ambientais, Departamento de Ciências Biológicas e Departamento de Agronomia.

Confira os principais trechos:

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o papel da Educomunicação e a sua importância no processo de empoderamento da sociedade?

Heitor - ...A educomunicação é importante pela capacidade de poder potencializar as informações em educação ambiental, principalmente com relação ao eixo não-escolarizado. É evidente, que dentro das escolas, também esse tipo de comunicação tem valor, mas é um locus específico de trabalho de professores e alunos.

Um dos grandes desafios da educação ambiental é no campo difuso e não-formal. É a capacidade de aprender a utilizar com eficiência veículos de comunicação, das mais diversas formas, sabendo que hoje no Brasil, existe um esforço muito grande na área de EA em trabalhar com o conceito Educomunicação.

Uma coisa é trabalhar a educação dentro dos veículos de comunicação de massa e utilizar a capacidade de capilaridade que eles têm. Outra coisa é você ter a capacidade de fazer com que as pessoas possam produzir os seus próprios materiais educacionais e que isso se transforme em um projeto pedagógico, desde os sinais de fumaça ou rufar de tambores aos potenciais da Internet.

O objetivo é que as pessoas conquistem autonomia, para não ficarem dependentes dos veículos de massa, que são importantes, mas também têm suas dificuldades com as linhas editoriais. Muitas vezes, estão compromissadas com o Capital e com os capitalistas, mais do que com a transformação necessária para um novo modelo de sociedade. Mas isso não significa que a gente não possa usar esse instrumento, por causa disso.

Blog Cidadãos do Mundo – Quem são os principais atores no processo de Educomunicação e como acontece a capacitação?

Heitor - A Educomunicação, na verdade, é a capacidade que você tem de utilizar as informações. Isso quer dizer utilizar a comunicação no processo do fazer pedagógico, de trabalhar na formação das pessoas, para que tenham autonomia. Daí você passa pela discussão da democratização, inclusive, dos veículos de comunicação, o que é fundamental.

Eu considero que cresce hoje no Brasil uma demanda de jovens e educadores ambientais pela melhoria da condição de trabalhar, a partir dessa proposta. É um desafio muito grande entender o que é, e como a gente faz isso.

Quanto ao aspecto de capacitação, quando se fala de política pública, não está só se tratando do Governo, mas do controle social por parte da sociedade civil. Existe uma proposta metodológica de trabalhar isso, e que o órgão gestor da Política Nacional de Educação Ambiental vem trabalhando há algum tempo. Eu acredito que isso está razoavelmente consolidado no espaço das educadoras e educadores ambientais, o que possibilita a autonomia da sociedade.


Blog Cidadãos do Mundo – Empoderar os cidadãos significa substituir o papel do poder público na EA?

Heitor - Empoderar os cidadãos não significa que o poder público não deva liderar o processo de EA. O que quero dizer é que quando o governo não tiver condições, interesse, política, vontade e dinheiro, a gente tem de ter capacidade de fazer, enquanto sociedade. Esse é o grande ‘barato’ da Educomunicação. Não pode se atrelar a uma dependência institucional do poder público, do Ministério do Meio Ambiente (MMA), que lançou a proposta conceitual para ser adotada no Brasil no ano passado (o conceito proposto hoje pela educomunicação vem amadurecendo, pelo o menos há três décadas, na América Latina, com educadores como Paulo Freire e se estruturando com mais ênfase, a partir da Rio 92). Não podemos esquecer que a pasta tem o menor orçamento da Esplanada dos Ministérios, o que implica um contexto complexo.

Existe recurso para destruir a natureza, para a agricultura, para fazer (péssima) política na área da saúde, que são áreas que dão visibilidade aos políticos, mas no segmento ambiental, os recursos são muito poucos. Acredito que hoje, no MMA, teremos muita dificuldade para potencializar as políticas anteriores. Em contrapartida, acho que temos um conceito estabelecido e experiências no país, que mostram que isso é possível a sociedade se apropriar disso, e dar continuidade no processo.

Blog Cidadãos do Mundo – Pode citar algum exemplo?

Heitor - Os Coletivos Jovens (CJs) do Meio Ambiente, articulados pelo órgão gestor e principalmente pelo Ministério da Educação (MEC), hoje têm capilaridade no Brasil inteiro. Eu venho da velha militância do Movimento Ecológico e sempre faço uma autocrítica, dizendo que um dos maiores erros nossos foi não investir intencionalmente em novas lideranças.

Os CJs são essas novas lideranças...trabalhando com uma lógica muito bacana, pois não querem tutela para agir. O repertório e práticas de Educomunicação estão no repertório deles. Isso é um dos exemplos concretos. A proposta desses jovens é “meio anárquica”, pois se já se envelhece e vira burocrata, quando é jovem, não há salvação para o planeta.

Blog Cidadãos do Mundo – Fale sobre a proposta da Revista Brasileira da Educação Ambiental.

Heitor - Em 2004, eu e a professora Michelle Sato (bióloga, mestre em Filosofia e pós-doutora em Educação), por meio da Rede Matogrossense de Educação Ambiental, chegamos à conclusão, que uma das contribuições que poderíamos dar à REBEA, seria editar uma revista específica de EA, que não tivesse proposta de ser só acadêmica, porque diversas universidades já mantêm esse trabalho. Assim, surgiu a Revista Brasileira de Educação Ambiental, da REBEA, com proposta de publicar experiências de EA no Brasil inteiro, para dar visibilidade a essas publicações, sem excluir trabalhos científicos. Temos cinco exemplares até agora, sendo que o quinto foi lançado no VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental.

A ideia é que a revista não tenha ‘dono’, pois queremos trabalhar com a cultura de rede e horizontalidade. Achamos por bem, que a cada ano do Fórum se mude a coordenação editorial, que agora passará a dois professores-doutores - José Vicente de Freitas e Maria do Carmo Galiazzi- ambos da Universidade do Rio Grande (FURG), que tem mestrado em EA. Com isso, eu e Michelle passamos para o Conselho Editorial. Essa proposta de alterações na coordenação editorial deve prosseguir a cada Fórum, como forma de democratizar o processo de construção da publicação.


* a entrevista de Heitor Queiróz de Medeiros sobre Educomunicação Ambiental foi concedida ao Blog Cidadãos do Mundo, durante o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, realizado no Rio de Janeiro, em julho de 2009.


Sucena Shkrada Resk |




24/10/2009 23:15
A fome não tem fronteiras, por Sucena Shkrada Resk
Mais de um sexto da população mundial, ou seja, um número superior a 1 bilhão de pessoas são subnutridas, segundo dados recentes divulgados pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Em 2007, eram 800 milhões. Houve um acréscimo acima de 200 mi homens, mulheres e crianças pelo planeta. No Brasil, a estimativa é que hoje cerca de 15 milhões de cidadãos estão em condições de insegurança alimentar. A afirmação é do diretor do IBASE, Chico Menezes, em entrevista concedida ao Informe Ensp, da Escola de Saúde Pública da Fiocruz, neste mês. Esses dados escondem histórias de vida, valores e ideais submersos no modelo de desenvolvimento impiedoso em que vivemos, que não tem fronteiras.

Isso tudo quer dizer que seres humanos definham em todos os continentes pela escassez de quantidade e qualidade dos alimentos. Cerca de 25 mil pessoas morrem todos os dias de fome. É extremamente angustiante ver crianças privadas do crescimento, magérrimas, com o olhar perdido e as energias se esvaindo. Adultos sem sentidos, esqualidos ao chão, muitas vezes, esquecidos pela sociedade, pelos governos...na verdade, por todos nós.
Enquanto esse panorama só se acentua, com o passar dos anos, vemos em contrapartida, países que se armam cada vez mais e gastos homéricos em obras faraônicas a título da ganância. De acordo com o relatório anual do Instituto Internacional de Pesquisas de Paz de Estocolmo, os gastos militares no mundo, no ano passado, chegaram a US$ 1.464 bilhão. Ainda soma-se políticas agrícolas e de geração de renda desastrosas, desperdícios que chegam até a 30% da produção mundial, crise econômica e mudanças climáticas.

Com a estimativa de que em 2050, a população planetária passará a 9,1 bi de pessoas, não há tempo a perder. Segundo a FAO, países pobres precisam de ajuda de pelo o menos US$ 44 bi. Hoje o valor é de cerca de US$ 7,6 bi.

Com todas essas discrepâncias, fica difícil vislumbrar o cumprimento de uma das metas dos Objetivos do Milênio, da Organização das Nações Unidas, que é: erradicar a extrema pobreza e a fome. Segundo a instituição, o total de pessoas em países em desenvolvimento que vivem com menos de um dólar ao dia caiu para 980 milhões em 2004, contra 1,25 bilhão em 1990. As desigualdades regionais, por sua vez, continuam latentes.

América Latina, Caribe e África Subsaariana são as regiões que mais pendem negativamente nesta balança, com dois pesos e medidas. O prognóstico da ONU é que se este modelo de progresso permanecer, em 2015 ainda haverá 30 milhões de crianças abaixo do peso no sul da Ásia e na África.

Quando se trata de personificar a pobreza, daí o mundo lembra do continente africano, que agrupa os países com menor índice de desenvolvimento humano (IDH) mundial. As economias mais ricas, no entanto, pouco se importam com as pessoas que padecem no Níger, Afeganistão ou em Serra Leoa, entre outras dezenas de países, como nações-irmãs brasileiras de Língua Portuguesa. Aliás, vale destacar que houve um Acordo Ortográfico, mas que, no entanto, não incorpora um sentido mais amplo de cooperação socioeconômica e cultural.

Tantos senões e poréns, que esgotam vidas. Quem sabe, o mundo queira se mudar para a Noruega ou para Austrália, que estão no topo da qualidade de vida? Como é possível, historicamente se passar séculos, e a situação geopolítica pouco avançar?

Quando voltamos nossos olhos para o Brasil, observamos que os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD 2008), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que houve a diminuição dos extremamentes pobres no país, do percentual de 22,1% em 1980 para 8,8% em 2008, em gráficos analisados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Do ponto de vista matemático é positivo, mas no aspecto humano lamentável.

O abismo entre ricos e pobres ainda é enorme. Em 2008, a parcela 10% mais rica da população concentrava 42,7% dos rendimentos do trabalho. Já os 10% mais pobres com 1,2%. Os direitos mais básicos como saneamento são vergonhosos. Um em cada quatro lares brasileiros não possui rede de esgoto.

Esse é o retrato da fome humanitária, de humanidade, de alimentos e de ética planetária, ao qual não podemos nos habituar, somente porque não bateu à nossa porta.
Sucena Shkrada Resk |




19/10/2009 11:54
Economia da biomassa x combustíveis fósseis, por Sucena Shkrada Resk
Um dia acaba. Essa máxima provada cientificamente sobre a finitude dos combustíveis fósseis ainda é uma informação trabalhada com 'pouco' rigor nos planos de longo prazo no modelo capitalista mundial. Fala-se muito em tecnologias limpas, energia renovável, mas as ações neste sentido, não acompanham a velocidade das necessidades e alertas da pegada ecológica. Consumimos, na verdade, a energia vital, ao manter o atual modelo civilizatório. Com isso, a 'economia da biomassa' tem o papel de reverter esse paradigma, segundo o doutor em Física, José Goldemberg.

A biomassa se trata de todo recurso renovável oriundo de matéria orgânica (de origem animal ou vegetal) que pode ser utilizada na produção de energia. Assim como a energia hidráulica e outras fontes renováveis, é uma forma indireta de energia solar, que se converte em energia química, por meio da fotossíntese, base dos processos biológicos de todos os seres vivos (Fonte: ANEEL).

Mas para que o conhecimento seja de acesso à toda sociedade, o ex-secretário de estado do Meio Ambiente de São Paulo e atual co-Presidente do Global Energy Assessment defende que as informações da área enérgica sejam esclarecidas, de forma didática à população.

Segundo o pesquisador, atualmente o quadro de toda energia produzida mundialmente é o seguinte:
33% (petróleo)
27% (carvão)
20% (gás natural)
O restante se divide em 7,9% (biomassa tradicional), 6% (energia nuclear), 2,96% (novas renováveis) e 1,83% (biomassa moderna -a madeira na forma de briquetes, como carvão e licor negro.).

"Os combustíveis fósseis não durarão para sempre. Estima-se que a duração média das reservas de petróleo seja de 41 anos, e do gás natural, de 63 anos. O problema não é esse período, mas a perturbação causada no mercado suprido por esses combustíveis. O Pré-Sal pode ajudar, mas só por alguns anos", analisa Goldemberg. Diante desse contexto, está a importância do estímulo à produção de biomassa.

Como argumento, o especialista cita o etanol ou o bioetanol, proveniente da cana-de-açúcar, que é o caso brasileiro. "É mais atraente, porque a energia solar é liquefeita pelo processo de fotossíntese. Já na experiência norte-americana, com o milho, há o processo de sacarização", diz.

Goldemberg explica que essa afirmação significa o seguinte. Para se entender o benefício, se deve fazer o cálculo do balanço energético, que é a divisão da energia contida em 1l de álcool pela energia fóssil para produzi-la.

"Para o etanol de cana-de-açúcar, são utilizados 20% de fóssil, diferentemente do milho, em que há a predominância do uso do combustível fóssil", afirma.

Quanto ao biodiesel, segundo o físico, o melhor desempenho se dá com a matriz oriunda do óleo de palma. "Já os piores, são provenientes da soja e da colza", fala.

Goldemberg também tece críticas a afirmações de que o aumento de áreas de cultivo de cana-de-açúcar, pode prejudicar a alimentação. No âmbito do Estado de São Paulo, ele afirma que a maior parte se encontra em antigos pastos degradados. "Os dados sobre que o aumento do etanol pode aumentar a fome no mundo é uma informação intelectual estranha e infundada", defende. São Paulo, de acordo com o Sistema de Acompanhamento da Produção Canavieira, do Governo Federal, responde por 61,1% da produção etanol nacional.

Segundo o físico, o Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (Biota), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), iniciado em 1999, mapeou as áreas críticas quanto à biodiversidade, e as incorporou ao zoneamento agroambiental para o setor sucroalcooleiro do estado, lançado neste ano. "Há 6,7 mi hectares inadequados e 5,5 mil adequados, com limitações", explica. Isso quer dizer que são áreas nas quais não deve haver o cultivo.

Humanização não pode ser esquecida


Mais um aspecto que envolve o tema é quanto à substituição gradativa do corte manual da cana pelo motorizado, a partir de 2003. "Os canavieiros tinham condições de vida difíceis, além do problema das queimadas. Hoje metade da colheita é realizada com máquinas. A geração de bioeletricidade com bagaço da cana se tornou uma atividade importante para a redução das emissões de carbono", diz.

Goldemberg desenvolveu a palestra sobre a Economia da Biomassa, durante o evento Diálogos Capitais, realizado no último dia 13, pela Revista Carta Capital e o site Envolverde, em São Paulo.

No âmbito nacional, é preciso destacar que recentemente foi aprovado o Compromisso Nacional - Aperfeiçoar as condições de trabalho da cana-de-açúcar. Os atores envolvidos nesses processo são: Fórum Nacional Sucroenergético, União da Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo (UNICA), Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) e Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (FERAESP).
Na esfera ministerial: Casa Civil; Agricul tura, Pecuária e Abastecimento (MAPA); Trabalho e Emprego (MTE); Educação (MEC); Desenvolvimento Agrário (MDA); Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS); Turismo e Secretaria-Geral da Presidência da República.

O interessante é ainda observar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em declaração divulgada pela Agência Brasil, em 1º de junho deste ano, disse - "O Brasil há 35 anos produz etanol, que é um combustível que emite 90% menos gases do efeito estufa do que os combustíveis fósseis. Só por essa razão, já era preciso a gente mudar a nossa matriz energética para os biocombustíveis". (reportagem Lula destaca o etanol como combustível limpo, de Daniel Mello, editada por Aécio Amado).

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, por meio da Secretaria de Produção e Agroenergia, também produziu o Plano Nacional de Agroenergia 2006-2011 (http://www.agricultura.gov.br/pls/portal/docs/PAGE/MAPA/PLANOS/PNA_2006_2011/PLANO%20NACIONAL%20DE%20AGROENERGIA%202006%20-%202011-%20PORTUGUES.PDF).
Sucena Shkrada Resk |




18/10/2009 19:40
Os muros ambientais brasileiros, por Sucena Shkrada Resk
A cada dia, os muros simbólicos ambientais estabelecem a dicotomia da pauta das mudanças climáticas. Ao se fazer o cruzamento de dados sobre o Pré-Sal com o Plano Decenal de Expansão de Energia Brasileira 2008/2017 e com o Plano Nacional sobre a Mudança do Clima, do final do ano passado, se gera, no mínimo, rupturas de propostas quanto à política de adoção de energia limpa, em vigor no Brasil.

Para aumentar a polêmica quanto aos rumos da redução de gases de efeito estufa (GEEs) nacional - que incorporam prioritariamente a questão do desmatamento - surge o conflito quanto aos percentuais discutidos atualmente entre o Ministério do Meio Ambiente e demais ministérios estratégicos do governo, capitaneados pela Casa Civil: 40% x 20% até 2020 com relação aos níveis atuais. O pivô da discórdia, em tese, se pauta no percentual de crescimento do país e no desafio do cumprimento x credibilidade brasileira no cenário internacional.

Segundo Sérgio Serra, embaixador extraordinário do Brasil para a mudança do clima do Ministério das Relações Exteriores (MRE), o Brasil não discutirá o Pré-Sal em Copenhague. "É um desafio para 2020, que será um problema a ser resolvido por futuros governantes", diz. A afirmação foi feita, ao ser perguntado sobre o tema pelo Blog Cidadãos do Mundo, durante o intervalo do evento Diálogos Capitais, realizado no último dia 13, em São Paulo. O encontro foi promovido pela Revista Carta Capital com correalização da Envolverde.

Serra analisa que o desafio hoje é 'não se cair na tentação de reverter os avanços em energia limpa e sucatear programas, como ocorreu com o Pró-Alcool. "E de não haver investimento no potencial eólico e solar", diz.

Segundo o Ministério de Minas e Energia, hoje 85% de nossa matriz energética são limpas, oriundas das hidrelétricas, e 15% são provenientes de térmicas de carvão, gás, diesel, em períodos de pico de consumo. O parque eólico do país ainda é 'tímido', mas o governo já anunciou, que a política no setor será de investir mais nesse potencial, por meio dos leilões, que foram reiterados na Carta dos Ventos aprovada, em junho deste ano, após o I Fórum Nacional Eólico. Por outro lado, os projetos do governo com relação a grandes hidrelétricas e termelétricas causam polêmica.

No campo da redução das GEEs, o fato de o desmatamento da Amazônia brasileira contribuir para 2,5% das emissões globais, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), requer uma posição mais enfática do país no cenário geopolítico. O presidente Lula já descartou a possibilidade de se assumir o desmatamento zero. O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, propôs redução de 80%. Até agora, no entanto, não se sabe o que será levado à mesa de discussão, na Dinamarca.

O que emperra consensos, pelo o visto, gira em torno do Produto Interno Bruto (PIB). A ministra Dilma Rousseff pediu estudo de novos cenários de redução de emissões gerais do país, que estabeleçam a possibilidade de crescimento de até 6% até 2020. Os dados apresentados pelo ministro do Meio Ambiente Carlos Minc, se pautam em 4%, tendo como premissa os 80% de redução de desmatamento e o restante, com relação aos demais biomas, além da ampliação da matriz energética limpa. Agora, o governo tem como grande desafio estabelecer uma meta, antes da COP-15, que quebre esses 'muros'.

Bater o martelo para parâmetros também esbarra na atualização do inventário de emissão de GEE, que está sendo produzido pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), com dados estimados até 2005. O anterior correspondeu ao período de 90-94. "A COP-15 não exige a apresentação do inventário, que deverá ser concluído no primeiro semestre do ano que vem", argumentou Serra, ao ser questionado pelo Blog Cidadãos do Mundo.

Quanto a intervenções de adaptação e, inclusive de mitigação, o embaixador afirma que o principal documento, que deverá ser concluído a tempo, para a COP-15, é o Estudo Econômico das Mudanças Climáticas no Brasil, sob conselho consultivo da Academia Brasileira de Ciências (http://www.economiadoclima.org.br). "O que já é certo são cenários relativos ao aumento do nível do mar que algumas culturas da agricultura terão de migrar até 2050 e o fim do século, por causa da falta de água". Entre elas, Serra cita a soja.
Sucena Shkrada Resk |




12/10/2009 11:38
Brasil: Estamos preparados para envelhecer?, por Sucena Shkrada Resk
A partir de 2030, o Brasil deve ter um decréscimo no número absoluto de cidadãos. Segundo dados divulgados recentemente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), há uma tendência da aceleração do perfil de envelhecimento da população ao analisar as informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD-2008/IBGE). Atualmente a média de filhos por uma mulher é de 1,8, abaixo da estabelecida para a reposição populacional, que seria de 2,8. Com esse prognóstico, o importante é interpretar o que tudo isso significa no aspecto da gestão pública e de implicações na qualidade de vida.

A média de vida do brasileiro prevista para 2010 é de 73,4 anos. Será que a expectativa também aumentará tal qual o Japão, que já registra mais de 40 mil idosos com idade superior a 100 anos? Acho um pouco improvável, se o modelo econômico continuar priorizando a insustentabilidade. Um questionamento que começa a se difundir é se, por outro lado, a Previdência Social também não será uma bolha prestes a explodir. Afinal, quem pagará a conta?

Hoje o salário mínimo é aquém do custo de vida e representa o provento da maioria dos idosos do país, cerca de 18 mi benefícios, ou seja, 66,80% do total, segundo a Previdência Social. Aproximadamente 1% vive em abrigos públicos e privados, com condições dignas a desejar, conforme relatado na 2ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDPI), que foi realizada neste ano. Isso infere desde condições sanitárias à violência.

Com R$ 465,00, para garantir a sobrevivência mensal, os malabarismos são quase pirotécnicos. Milhares de idosos não têm imóvel próprio, tomam medicamentos de uso contínuo, que por muitas vezes, não estão à disposição nas farmácias das unidades básicas de saúde (UBS), têm de pagar contas de água, de luz e, quando dá, de telefone. E obviamente, não podemos esquecer, precisam se alimentar dignamente e ter o mínimo de lazer.

Quando observamos que o valor da cesta básica no município de São Paulo (em 8 de outubro), é de R$ 281,70, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e de Estudos Socioeconômicos (Dieese) e da Fundação Procon SP, o quadro se torna mais alarmante. Diante disso, não é preciso ser matemático, para verificar que sobreviver é difícil.

Outro aspecto a salientar é que, apesar da aposentadoria, muitos idosos se veem obrigados a continuar a trabalhar, para complementar o orçamento. Nem sempre podem contar com a ajuda da família. E em inúmeros casos, são o arrimo de família.

Há mercado de trabalho para absorver essa clientela cada vez mais numerosa? O que é possível detectar hoje são os empregos informais, que vão desde serviços domésticos e de limpeza em geral, de empacotamento em hipermercados a atendimento ao público. Enfim, precisamos exercitar esse olhar holístico para o presente e futuro em andamento. E indagarmos se estamos preparados para envelhecer e o que podemos fazer para que nós, nossos filhos e netos tenhamos qualidade de vida.
Sucena Shkrada Resk |




11/10/2009 18:16
Experiência mexicana x mudanças climáticas, por Sucena Shkrada Resk
O México hoje mantém uma Estratégia Nacional de Mudança Climática, que estabelece reduções da emissão de Gases de Efeito Estufa (GEEs) até 2015, entre outros cenários. Segundo Marco Antonio Herrera García, da Rede Estatal de Monitoramento Atmosférico, um dos eixos está sendo trabalhado de forma articulada, com as indústrias automobilísticas. Vale lembrar que o país tem uma população estimada superior a 106 mi habitantes e é um dos maiores produtores de petróleo no mundo, de onde provém uma parte significativa da receita do país. Isso faz com que suas iniciativas requeiram principalmente mudanças de modelo econômico, o que não é uma tarefa fácil.

"O grande gargalo, aqui no México, entretanto, é a fuga de especialistas", afirma. Por isso, segundo ele, uma das propostas que ganha mais fôlego no país é a construção de um Sistema de Inteligência da Informação da Mudança Climática, que envolva outras nações latino-americanas. "Assim será possível constituir um modelo de inovação, com linguagem acessível ao técnico, ao gestor e à população. Se quem toma a decisão não entende o dado científico, não há sentido para tudo que fazemos", analisa.

Para isso, começou a implementação um portal de informação na WEB, que é uma das primeiras plataformas orientadas de mudanças climáticas em andamento, de acordo com García. "A meta é que seja um meio de comparação entre os países e que produza informações em tempo real, com rede de cadeiras produtivas sustentáveis", diz.

"O conteúdo da plataforma é um meio de se traduzir inventários de GEE, por exemplo, para que gestores tomem decisões corretas por meio de georreferência", diz o mexicano. As comunidades de rede podem quebrar dificuldades do universo do tecnólogo. É interessante criar um 'climapedia' multimídia", como se fosse um orkut", diz.

Panorama de Puebla


Combustíveis fósseis, vulnerabilidade a novos tipos de furacões e desmatamento. Aí estão alguns eixos monitorados pelo estado de Puebla, no México, segundo García, que é um dos mais importantes do país. São feitas triagens por setor, desde o agrícola até o energético, com a construção de cenários até 2030.

Estabelecer a mitigação é um ponto prioritário do plano desenvolvido pelo Estado. "Envolve ações de reflorestamento, utilização de biodigestores, implementações de fornos que funcionam com infra-vermelho para a fabricação de tijolos e estufas próprias rurais, entre outros", explica. No campo da adaptação, de acordo com García, são seguidos os mesmos princípios.

Cárpio concorda com a importância estratégica da transversalidade na política, também destacada pelo o equatoriano Paúl Carrasco Carpio, presidente da Organização Latinoamericana de Governos Regionais (OLAGI). "Se não forem incorporadas as diferenças socioeconômicas, será difícil incorporar mudanças. Aqui, foi elaborado um programa de gestão de qualidade, com 39 linhas, Entre eles, se destaca o aspecto da educação (cultura local/informação educacional formal e não-formal) multissetorial", diz.

Com essa proposta, é planejada a construção de um Planetário de Mudanças Climáticas e da 24ª estação de monitoramento climático global, próximo a um vulcão de 4,5 mil, que é considerado um dos pontos mais altos do mundo.


García foi um dos convidados do Seminário Internacional sobre Mudanças Climáticas nos Estados e Regiões, promovido pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) com colaboração da OLAGI.
Sucena Shkrada Resk |




11/10/2009 14:26
A América Latina e as Mudanças Climáticas, por Sucena Shkrada Resk
Muito se fala em Mudanças Climáticas, mas pouco se expõe sobre as discussões que ocorrem na América Latina. Ao ouvir, em setembro, a exposição do governador da Província equatoriana de Azuay, o engenheiro agropecuário, Pául Carrasco Carpio, atual presidente da Organização Latinoamericana de Governos Regionais (OLAGI), comecei a refletir como a cobertura da mídia segrega as fontes. Isso, na verdade, é um problema crônico cultural, que envolve a pirâmide do status de desenvolvimento no modelo Capitalista. O gestor se apresentou, durante o Seminário Internacional sobre Mudanças Climáticas nos Estados e Regiões, promovido pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e pela instituição regional.

"Defendemos a ideia de se formar uma rede latinoamericana, para que tenhamos propostas conjuntas e uma só posição para poder apresentar na 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da Organização das Nações Unidas em Mudanças Climáticas (COP-15)", diz Carpio. Segundo ele, uma das principais dificuldades é justamente tecer a articulação com a Globalização.

Em sua análise, os produtores de alta tecnologia serão os mais afetados pelas Mudanças Climáticas, na AL. "Segundo o Banco Mundial (BIRD), a economia da América do Sul também deverá sofrer uma queda de 12 a 50%. Doenças antigas, como malária e dengue já começam a migrar para outros locais", contextualiza.

As calamidade enfrentadas pela AL, Caribe e América do sul são responsáveis, hoje, por 12% das emissões de carbono. "Mas quando se fala do tema, só se menciona, por exemplo, o Brasil, México e Chile. Uruguai, Bolívia e Peru ficam de fora. Ninguém toca na situação desses países", critica.

Para que não haja essa fragmentação, o presidente da OLAGI acredita que a saída está na gestão integrada, por meio de importantes redes sociais, acordos públicos e políticos. "É fundamental que os cidadãos tenham controle social sobre as propostas na área ambiental", considera.

Mais ações necessárias, segundo Carpio, são a adaptação do marco jurídico nacional para um adequado manejo ambiental e a implementação do sistema territorial de gestão ambiental, que permita as alianças público-privadas. "Mas na grande maioria dos países, os modelos são centralizados", afirma. Isso, na visão do presidente da OLAGI, enfraquece a mobilização. "Sem haver o envolvimento de todos os atores, é impossível se reconhecer as realidades locais", diz.


Sucena Shkrada Resk |




09/10/2009 18:40
Transversalidade é aspecto indispensável à discussão das mudanças climáticas, por Sucena S.Resk
Nem oito, nem oitenta. A transversalidade é o caminho do meio para a discussão do tema mudanças climáticas. Com essa tônica, a secretária-executiva do Fórum Paranaense de Mudanças Climáticas Globais, Manyu Chang, explica a importância de se estabelecer a plataforma de discussão, que reúne sociedade civil, academia e terceiro setor, além do governo. O grupo hoje se soma a mais 13 em atividade no país.

"O nosso fórum foi o segundo no Brasil, formado em 2005. Até 2008, podemos dizer que a composição era 'chapa branca'. Daí houve a reestruturação, chegando a 64 instituições. Agora, nunca fica fechada a entrada de novos membros. Basta encaminhar o ofício à Secretaria de Estado do Meio Ambiente", explica.

Para conseguir contemplar o máximo de pautas da agenda climática, Manyu explica que foram criadas câmaras temáticas similares ao Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Entre os assuntos, estão: adaptação, mitigação, educação ambiental e comunicação social, neutralização de CO2 e pesquisa. O principal objetivo hoje é subsidiar o projeto de elaboração da Política Estadual de Mudanças Climáticas. A expectativa é que até o final do ano seja aprovada.

Não perder de vista os desafios é algo importante, segundo Manyu. "Como há interesses diversos, temos de constituir grupos com afinidades", diz. Atualmente o trabalho de ampliação do alcance do fórum é um dos principais enfoques do grupo paranaense. "Estamos saindo do âmbito de Curitiba, ao capacitar outros municípios", diz. Em outra ponta, a atenção está voltada à confecção do inventário do setor de resíduos, que teve como parâmetro, os dados disponibilizados pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), com a Rede Nacional de Inventários do Setor de Resíduos. O mais complexo, entretanto, é fazer o mapeamento das vulnerabilidades do estado, de acordo com a secretária-executiva do Fórum.

Segundo ela, a desmotivação não pode predominar, por isso, se estrutura a governança com a participação da população. A comunicação tem um papel importante neste processo, em sua opinião. "Criamos um folder com 101 dicas para reduzir as mudanças climáticas, como também um boletim sobre possibilidade de ações municipais, que estão sendo distribuídos nas cidades do Estado".

No município de Lapa, começou a ser realizado um projeto-piloto em escolas, com o objetivo de que façam seus inventários e multipliquem a discussão sobre consumo consciente. "Também estão sendo construídos aquecedores solares nas unidades escolares e em creches", diz.

O Fórum acompanha ainda o Projeto Carbono Florestal, que tem como meta incentivar pequenas propriedades a recuperar o passivo ambiental. "Com isso, também incentivamos que as empresas façam seus inventários corporativos", afirma.

"Transversalidade é trabalhar em conjunto para o mesmo fim", define a secretária-executiva do Fórum Paranaense de Mudanças Climáticas Globais. A estrutura da organização ganhou mais força, pois legalmente foi instituído por lei. "Independente de gestão não pode ser interrompido", afirma.

Manyu foi uma das participantes do Seminário Internacional sobre Mudanças Climáticas nos Estados e Regiões, promovido pela CETESB, em São Paulo, no mês de setembro, com a cooperação da Organização Latinoamericana de Governos Regionais (OLAGI).
Sucena Shkrada Resk |




06/10/2009 19:20
Lixo como fonte de energia e investimento em mitigação, por Sucena Shkrada Resk
No mês passado, tive a oportunidade de conhecer a Usina Termelétrica Biogás, em funcionamento desde 2003, no antigo Aterro (público) Sanitário Bandeirantes, na região de Perus, em São Paulo - unidade desativada pela Prefeitura em 2007. A tecnologia, que é adotada como uma forma de 'mitigar' a emissão dos gases de Efeito Estufa na atmosfera (GEE) - em especial, o metano (CH4)- também representa uma importante fonte de entrada de recursos para a Prefeitura de São Paulo, que o cidadão tem o direito e dever de acompanhar a destinação. A aplicação deve ser feita na recuperação da área e do em torno, que vai além de construção de praças (http://www.prefeitura.sp.gov.br/portal/a_cidade/noticias/index.php?p=28461). O interessante seria haver um canal de comunicação com a sociedade, com informações atualizadas sobre esses investimentos e discussão em audiências sobre ações de benfeitorias na comunidade.

Com a implementação do mercado de carbono, metade dos créditos fica com a empresa Biogás, que detém a concessão da geração de energia, e a outra metade com o poder público. A implementação do projeto ocorre por meio do dispositivo de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), aprovado pelo Protocolo de Kyoto, sob a fiscalização da Organização das Nações Unidas (ONU). De acordo com o engenheiro Antônio Carlos Delbin, diretor técnico da Biogás, a instalação da empresa teve um custo aproximado de US$ 200 mil. Esse custo foi recuperado em pouco tempo, o que demonstra que é um mercado rentável, tanto ambientalmente como financeiramente.

"Junto com a outra usina mantida pela empresa no Aterro Público Sanitário São João, desde 2005, já houve a arrecadação de cerca de R$ 71 mi em créditos de carbono (para a Biogás, e mais R$ 71 mi para a Prefeitura) em leilões na bolsa de valores, a partir de 2007", explicou Delbin. A informação foi prestada a um grupo, no qual eu estava, integrante do Seminário Internacional Sobre Mudanças Climáticas nos Estados e Regiões, promovido pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). A visita monitorada à usina ocorreu, no último dia 24.

Cada tonelada de metano que deixa de ser jogada na atmosfera vale um “crédito de carbono”, que pode ser comprado por países desenvolvidos para atingir suas metas de redução de emissões. Apesar de ser uma 'lógica' ainda polêmica, a ser revisada durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-15), é hoje um dos caminhos efetivos adotados para reduzir os danos da poluição em países em desenvolvimento. Em São Paulo, as negociações ocorrem na BM&F Bovespa.

No caso das duas usinas, a energia gerada segue para a Estação da AES Eletropaulo. Com isso, uma instituição financeira, cliente da Biogás, abate a remessa na conta de energia de suas agências, contraída com a concessionária.

"A expectativa é que a usina no Aterro Bandeirantes permaneça durante quinze anos por aqui, que é o período estimado de vida útil para a extração dos gases, apesar de a concessão ser de 30", diz Delbin. Atualmente a unidade capta 6,5 mil m3 de gás diariamente, abaixo de sua capacidade de 12 mil m3, e passa por manutenção de suas redes de captação de drenagem, para aumentar novamente o volume de produção.

Com esse desempenho, 780 ton de CO2e deixam de ir para a atmosfera, mas esse número já chegou a ser superior a 1 mil ton de CO2e, segundo o engenheiro. Somente quando há excesso de produção, há a queima dos gases, e segue para a atmosfera, somente o CO2.


Sucena Shkrada Resk |




04/10/2009 11:12
Poluição: a importância da pesquisa, por Sucena Shkrada Resk
Inferir externalidades é algo crucial para a constituição das políticas públicas. A análise é do patologista Paulo Saldiva, coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) . "Com essa concepção, atualmente está sendo realizada uma pesquisa que envolve cerca de 90 pesquisadores, nos estados de MG, MS, MT, PA, PE, PR, RN, RJ, RS e SP, que tem como tema - "Qual é o risco de adoecimento face à nova política energética?". A iniciativa tem apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), entre outras instituições.

O aspecto interessante do trabalho, de acordo com Saldiva, é que respeita as características regionais. "Em São Paulo, por exemplo, estamos verificando o dia a dia de pessoas que passam muito tempo na rua e no tráfego, como motoristas de táxi e gestantes. Em Ribeirão Preto, a situação do trabalhador dos canaviais, durante e fora da colheita. No RN, são avaliados trabalhadores envolvidos na produção do caju. Já no Pará, no município de Barcarena, o impacto da exposição ao carvão", explica. A ação integra os projetos do Instituto Nacional de Análise Integrada do Risco Ambiental (www.inaira.org).

O patologista analisa que quando se trata de regiões metropolitanas, principalmente no caso da Grande São Paulo, a utilização do combustível fóssil (gasolina e diesel) é um fator comprometedor, que não pode ser 'banalizado'.

"Quanto à gasolina, os motores permitem um pós-tratamento com o catalisador. Mesmo assim, a quantidade de componentes cancerígenos, que não é retida, está numa proporção de menos de 1/3 comparado ao diesel, o que não pode ser desprezado. Essa proporção ao ser multiplicada por cerca de 16 mi pessoas (Grande São Paulo) se torna um caso de saúde pública", diz.

Mais uma questão relevante, em sua opinião, é o fato de modelos antigos de caminhões com vida média útil de 15 anos circularem ainda com quantidade de enxofre signicativa no diesel. "Somente o modelo de motor Euro-5 adianta (adotado já na Europa e que deve ser implementado no país a partir de 2013), que permitirá a adoção de 10 partes por milhão (ppm) de enxofre na composição do diesel. Mas os modelos antigos poderão circular até 2020. Com isso, o coeficiente de mortalidade crônica aumenta. Em São Paulo, a estimativa é que 14 mil pessoas a mais terão sua vida encurtada em pelo o menos um ano", afirma.


Sucena Shkrada Resk |




27/09/2009 11:52
Quem está disposto a mudar hábitos?, por Sucena Shkrada Resk
A Semana do Dia Mundial Sem Carro (22 de setembro) refletiu o quanto ainda a sociedade de consumo e nossos gestores públicos engatinham no quesito do consumo consciente. Ao me deslocar de São Caetano do Sul a São Paulo, para participar de eventos, que tratavam do tema, observei o que intitulo de 'esquizofrenia urbana', na Grande São Paulo. Eu me sinto à vontade para falar do tema, porque sou usuária diária do transporte público, seja ele, ônibus, trem ou metrô. Não possuo carro, e não pretendo adquirir um.

Enquanto integrantes do Movimento Tic Tac Tic Tac chamavam a atenção dos pedestres na avenida Paulista, para a questão das Mudanças Climáticas e sobre o encontro da COP-15 (Copenhague, dezembro); os faróis estavam abarrotados de veículos somente com a presença do motorista. Será que alguém pensava em carona solidária? A mesma situação contrastante ao frenético movimento de nossas ruas se configurava no auditório da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com evento coordenado pelo Movimento Nossa São Paulo. Especialistas discutiam "O Impacto da poluição sobre a saúde pública" e a fumaça dos veículos penetravam nos nossos poros, na avenida Doutor Arnaldo e imediações.

Percebi o quanto a política de transporte equivocada por décadas compromete nossa qualidade de vida. A extensão do metrô em São Paulo chega a ser pífia, quando comparada a grandes metrópoles. Tem 61,3 km e 20 km em construção. O metrô de Nova York, por exemplo, tem mais de mil km, com 468 estações distribuídas em 26 linhas e está crescendo, porque já não comporta a população.

Planejamento urbano, políticas públicas, planos diretores conscientes do crescimento populacional a longo prazo...São discussões tão prementes, mas tão ausentes na pauta fixa de nossas cidades. Não me restrinjo a São Paulo, mas amplio o escopo ao Brasil. E ainda estou em uma situação cômoda como usuária frente a pessoas que moram em bairros nos extremos da Zona Leste e Zona Sul paulistanas, que padecem horas em ônibus lotados, e se veem humilhadas todo dia, quando chegam em casa literalmente amassadas, suadas e desgastadas por essa sequência de empurra-empurra, constrangimento, atrasos...Não é a mesma coisa de você estar próximo ao centro, em que apesar de também adensado, oferece mais alternativas.

Sinceramente gostaria de ver todos os nossos políticos, gestores, cabeças pensantes, catedráticos exercitarem o que a grande parte da população vive. Não apenas fazerem lindos discursos. Sentir medo de ser empurrado na hora de entrar ou sair de um trem ou então, nem conseguir sair na estação que deveria, devido ao paredão de pessoas que impedem a locomoção. Isso é trabalho de campo, sensibilização. Uma das cenas mais tristes é ver uma pessoa com os olhos arregalados, dando cotoveladas, xingando, porque quer sair ou entrar de um meio de transporte. A que ponto chegamos...Se fosse feito um estudo, com certeza, a psicologia social e a saúde ambiental teriam muito a se aprofundar nesse contexto.

Quando vejo cidades, como São Caetano do Sul, que tem o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, circunscrita a 15 km 2 se verticalizando de forma assustadora, minha reflexão segue para os anos 2020, 2030...Hoje são cerca de 300 edifícios sendo erguidos. Será que há um planejamento, que infira o impacto desse acréscimo de população, veículos, tráfego, rotas de desvio...e vou mais longe, da sobrecarga na rede de esgoto, lixo...Alguém pensa que tudo isso pode contribuir para o volume de cheias?

Para onde as nossas cidades caminham? O Rodoanel foi propagado como a grande cartada para o desafogamento da Grande São Paulo. Hoje - fora as polêmicas em torno do projeto - já é considerado insuficiente para tanto. Agora, a tônica é ampliar marginais e...o que tudo isso significa? Subestimamos os cenários? Falta preparo técnico e humanístico, quando se trata também da questão da densidade demográfica? Mais solos impermeáveis contribuirão para a situação sistêmica da melhoria de nossas cidades?

A Semana do Dia Mundial Sem Carro é apenas um aquecimento para expandir nossas reflexões de que somos agentes e vítimas desse processo esquizofrênico. Com certeza, é importante haver mobilizações, mas ainda são insuficientes para o universo que temos de sensibilizar. E acima de tudo, não é possível que nossos governantes propaguem um discurso a cada momento, como no caso da matriz energética e do modelo de desenvolvimento. Essas informações de que a 'gasolina' praticamente não polui chega a ser uma aberração contra o cidadão, e propagada pela mídia, sem aprofundamento de contextos. Se descuidarmos, o discurso se tornará uma 'verdade' conveniente. Resta saber para quem?

A mudança de hábitos está relacionada a que tipo de vida queremos para nós e para as futuras gerações, como está implícito no conceito de sustentabilidade:
Podemos falar que não andamos de transporte público, por causa do conforto e eficiência. Mas o que fazemos como cidadãos para exigir tudo isso?
Olhamos para o nosso próximo e compartilhamos nosso veículo, ao adotar a carona solidária? O que nos impede tal prática? É tão difícil compartilhar o banco do carona e os bancos traseiros, dividir despesas...?
É impossível deixar de uma a duas vezes o carro na garagem?
É difícil se manifestar contra a emissão de gases poluentes, que tornam a nossa saúde refém de doenças invasivas e letais?
Que tipo de modelo de consumo queremos adotar - o do carro do ano, com combustíveis fósseis ou com fontes limpas? Ou do transporte coletivo eficiente?

Enfim, essa tempestade de ideias se faz urgente e não pode acabar como um modelo da moda do ambientalmente correto.


Sucena Shkrada Resk |




26/09/2009 22:48
A ótica refratária sobre o risco, por Sucena Shkrada Resk
A "Psicologia do Risco" é uma expressão que ganha projeção nos dias de hoje. Paul Slovic, professor de Psicologia da Universidade do Oregon e da Sociedade para Análise de Riscos, nos EUA, explica que o aspecto controvertido permeia o sentido da interpretação do termo, pelo o fato de provocar visões polarizadas. "Inventamos o conceito para tentar entender as incertezas da vida", analisa o especialista. Entretanto, a busca de respostas é uma constante no mundo moderno.

"O terrorismo, os vírus emergentes, a proliferação de armas e resíduos nucleares, as medicações perigosas, a obesidade, o seguro-saúde e a contaminação dos alimentos são os temas que mais preocupam os norte-americanos", diz. Paradoxalmente, segundo ele, o Aquecimento Global e outras pautas que envolvem o meio ambiente, como o Tsunami e os furacões, ficam em segundo plano. "Só nos preocupamos, depois que acontece", constata. A memória posterior fica fragmentada, diante outras prioridades da sociedade de consumo. Isso infere, que o princípio da precaução é colocado de lado em muitas situações, que sofrem ou não intervenções antrópicas.

Slovic cita que a História revela que os conflitos do pensamento humano se reproduzem há décadas e não podem ser vistos como algo inusitado. "Uma manifestação em 1970, por exemplo, reuniu nos EUA, 2,5 mil pessoas contra o depósito de lixo nuclear. Aí paramos de construir reatores, porque não temos onde colocar os resíduos", diz.

Diante da exposição do psicólogo, é possível fazer uma analogia, ao nos remeter à realidade brasileira. Assim é possível identificar que o poder público e a mídia, de uma forma geral, têm um papel relevante para a construção da psicologia do risco. Basta observarmos como se dá a estrutura de políticas públicas, além da cobertura e a contextualização das informações veiculadas sobre assuntos planetários, como Mudanças Climáticas, argumentos para o exercício do consumo consciente x injeção de recursos para manter o padrão da economia industrial, para a adoção do Pré-Sal, construção de Angra III, destinação de resíduos, e por aí vai. Com isso, não é difícil compreender como a sociedade moderna sofre com a sua dicotomia e apresenta uma leitura distorcida de mundo.

Paul Slovic esteve em São Paulo, no último dia 21, e apresentou sua conferência, durante seminário promovido pelo Instituto de Estudos Avançados e a Faculdade de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (USP).
Sucena Shkrada Resk |




23/09/2009 02:33
IMAGENS DO DIA - 21/09 - Eventos discutem poluição e mudanças climáticas, por Sucena Shkrada Resk

Confira na Rede Social - posts 21/09: Cidadãos do Mundo - Sustentabilidade Sem Fronteiras
http://cidadaosdomundo.ning.com/profiles/blogs/imagens-do-dia-2109-eventos

http://www.peabirus.com.br/redes/form/post?topico_id=19970

Sucena Shkrada Resk |




18/09/2009 18:16
Uma corrente de mobilizações, por Sucena Shkrada Resk
A próxima semana reserva uma quantidade expressiva de manifestações e lançamentos relacionados ao Dia Mundial Sem Carro (22) e à pauta ambiental, de uma maneira geral. O que mais chama a atenção é que são ações, em sua maioria, fruto da mobilização da sociedade. Isso revela que a alienação não toma conta do nosso cotidiano.

obs: Confira mais atividades do Dia Mundial Sem Carro, no site: http://diamundialsemcarro.ning.com/

Seguem algumas programações da agenda ambiental:

21/09 - Movimento Tic Tac Tic Tac - na contagem regressiva para a COP-15: manifestação Hora de Acordar Global- entre 12 e 14h, nas proximidades do MASP, Conjunto Nacional /Center 3 e prédio da Gazeta.
Mais informações da programação completa: www.tictactictac.org.br
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21/09, a partir das 9h Debate: O impacto da poluição sobre a saúde pública (Movimento Nossa São Paulo)

Conferência Psicologia do Risco/percepções e teorias sociais do risco no contexto da saúde ambiental (FSP-USP)

(a primeira na Faculdade de Medicina e a segunda, na Faculdade de Saúde Pública da USP). obs: atualização do local do debate em 21-09, feito pelo Mov. Nossa São Paulo. Altura do Metrô Clínicas

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21/09, das 19h30 às 21h30
Encontro: “Mobilidade urbana - A importância de um Plano Municipal de Transportes em São Paulo”
Local:Tucarena (PUC/SP), Rua Monte Alegre, 1.024, Perdizes (entrada pela Rua Bartira, s/nº)
Mais informações: www.nossasaopaulo.org.br

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21/09 - Lançamento da a publicação "Contribuição dos Estados Brasileiros para a Conservação da Biodiversidade: diagnóstico financeiro das Unidades de Conservação Estaduais". Organizado por Analuce Freitas, coordenadora de Áreas Protegidas da TNC, e por Ana Lucia Camphora, especialista em Economia da Conservação. Segundo as organizadoras, o relatório apresenta os resultados alcançados ao longo do processo iniciado em 2008 da parceria com os estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul para fornecer apoio técnico, logístico e financeiro para o fortalecimento e aprimoramento institucional e administrativo da gestão financeira das Unidades de Conservação.

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22/09, a partir das 13h; 23/09, a partir das 14h e 24/09 (visita ao Aterro Bandeirantes)
Seminário Internacional sobre Mudanças Climáticas nos Estados e Regiões - na Cetesb.
Local: Anfiteatro Augusto Ruschi - Av. Professor Frederico Hermann Junior, 345
Alto de Pinheiros - São Paulo – SP. Inscrições: www.cetesb.sp.gov.br/eventos

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30/09, a partir das 9h
4º Congresso Mercosul de Sustentabilidade (Câmara Brasil-Alemanha)
Local: Club Transatlântico - Rua José Guerra, 130 – Chácara Sto. Antonio – São Paulo - SP
Mais informações: http://www.ahkbrasil.com
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Sucena Shkrada Resk |




15/09/2009 20:44
Um pensador além de seu tempo, por Sucena Shkrada Resk
O geógrafo e presidente de Honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, professor Aziz Ab`Saber, aos 85 anos, revela a mesma sagacidade de décadas passadas, sem titubear em expor suas opiniões - "Temos de gostar das pessoas, mas criticá-las naquilo que estão erradas", diz. Permanece um contestador convicto das desigualdades regionais.

Define Ciência como a capacidade de fazer observar o que nos rodeia, o que parte da natureza, da vida urbana e rural e dos setores de circulação (transporte). "O que o homem faz é sob a herança da natureza...Em alguns setores do mundo, a humanidade é 'pequena, devido às desigualdades regionais", reflete.

Ontem, dia 14, durante palestra, que ministrou sobre o tema Darwin no contexto científico e social, no evento Leituras de Darwin, uma parceria entre a Universidade Municipal de São Caetano do Sul, SP (USCS) e o SESC SP, levou o público a viajar com ele em sua profusão de conhecimentos. O bem-humorado cidadão da região de São Luís de Paraitinga reiterou que é um acadêmico que 'abole" o confinamento na sala de aula, e que tem clareza de que o 'saber' vai além das letras e dos livros.

Aliás, uma convicção que é sua marca atemporal. "Devemos tratar do nacional, do regional e do setorial, que significa tratar das áreas da saúde, educação, indústria, comércio e artesanato..."

Ab`Saber ainda nos convidou a viajar com Darwin em Cambridge, no Beagle e a colocar os pés no chão, e nos sujar de barro, se for preciso, e ir de encontro às raízes. E fez um apelo, para que a educação universitária tenha outro paradigma, se dirigindo aos estudantes... "Não fiquem entre quatro paredes. Durante meio ano, estudem nas salas de aula e na outra metade, partam para excursões por esse imenso país". Afinal, essa foi uma prática constante em sua vida.

Narrou os primórdios de suas expedições, pelo Brasil e de sua 'indignação' com os coronéis e políticas no sertão, que dificultavam a vida das comunidades..."Quando era quase doutor em Geografia, ainda tive dificuldade para ir à Amazônia. Surgiu a oportunidade de viajar para Manaus, em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Fui em companhia de um professor russo, num avião recebido pelo país após a Segunda Guerra...Em Salvador, quebrou todo o sistema elétrico...Também segui sobre caminhão de sal e feijão, em Minas Gerais, até voltar a São Paulo, por Uberlândia e Rio de Janeiro...".

Nessa hora, o público já estava rindo com as peripécias de Ab` Saber, e ele prosseguiu - "Essas viagens do passado (no entanto) não podem mais ocorrer (precisam de incentivo)...Dividi a Amazônia em 29 áreas. Algumas equipes de alunos deveriam ir a algumas dessas localidades...Ainda há coisas horríveis em pequenas cidades da Amazônia com relação ao saneamento básico", disse.

Sobre Darwin, o geógrafo falou de algumas das passagens do naturalista, em especial, em Galápagos. "Ele percebeu por meio das tartarugas, que cada uma tinha uma estrutura biológica diferente, em determinada ilha - descoberta de grande valor quanto à origem das espécies...Mas a indagação era como poderiam ter essas características, já que há 10 mil anos era uma única espécie?

Em uma colônia humilde, o naturalista ouviu de um morador o seguinte - 'Professor, se o senhor me disser como é a tartaruga que encontrou, nós dizemos qual é o nome da ilha de onde ela veio..." A moral da história, na análise de Ab`Saber, é que devemos ter a capacidade de diálogo com todas as pessoas, por mais simples que sejam, pois nessa experiência está a riqueza das descobertas da Ciência.

Segundo o geógrafo, houve flutuações do nível do mar até 100m e as transformações geológicas glaciais, que fizeram esse nível baixar, na região de Galápagos. Com isso, as regiões costeiras ficaram mais prolongadas..."Agora temos o dever de continuar as pesquisas que Darwin não conseguiu fazer", diz.

Numa fala praticamente metafórica, disse que no retorno de Darwin, após quatro anos e 9 meses de viagem no Beagle, o cientista estava enfermo e resolveu se isolar com a esposa no litoral inglês. Em sua casa, fez a biblioteca pessoal crescer...Assim, derrubou paredes..."Deixou todos os entulhos da quebra do muro e conseguiu ainda que o vizinho cedesse parte de seu terreno. Darwin observava que as formigas colocavam a terra sobre esses entulhos..."

"...E isso tem ligação com o Brasil...Aqui encontramos linhas de pedras quebradas contínuas acima do solo vermelho poroso. Primeiramente, no século XIX, o franco-suiço Luiz de Agassiz pensou que eram fruto da glaciação...Há anos atrás, eu acompanhei uma equipe de cientistas franceses à mesma região...Da análise, a descoberta foi de que as herbáceas conseguem retirar a água nos vãos da caatinga e que pequenos animais fazem também esse processo. A floresta atlântica está se expandido sobre os remanescentes da caatinga... E Ab`Saber fez a seguinte analogia - "Darwin observou o entulho, enquanto nós, a paisagem..."
Sucena Shkrada Resk |




13/09/2009 21:07
Qual 'casa' podemos construir para nós?, por Sucena Shkrada Resk
Ver as imagens de destruição de cidades brasileiras, como Guaraciaba, em Santa Catarina, por onde passou um tornado capaz de colocar casas abaixo, fazer voar tudo que estava por terra, e abreviar vidas, choca, mas ao mesmo tempo, demonstra que o ser humano é capaz de reverter muitas situações, quando observamos a capacidade de solidariedade dos vizinhos dos camponeses, que perderam tudo. Essas pessoas dividiram o teto, o alimento, transmitiram palavras de incentivo, além de força nos braços para reconstruir os lares dos desabrigados. Tudo isso me fez recordar de duas situações recentes, que me fizeram rever a leitura de mundo.

Uma delas foi assistir à coletânea das imagens e ouvir a narração do filme Home - Nosso Planeta, Nossa Casa (http://www.home-2009.com), que estreou mundialmente, neste ano. O documentário francês, produzido por Luc-Besson e dirigido Yann Arthus-Bertrand, flagra a situação de flagelo e mudanças climáticas em cerca de 60 localidades no mundo, mas ao mesmo tempo, aponta que há esperança. Uma frase que me levou à reflexão, durante a exibição, é - "Nós moldamos a Terra à nossa imagem..."

Ao mesmo tempo, me lembrei do relato recente da mineira Marineide, de 28 anos, que vive na cidade de Osasco. Ela narrou sua experiência em uma cooperativa de catadores. O que mais me chamou a atenção, em seu depoimento, é que as iniciativas ocorrem, quando nos abrimos ao diálogo e ao aprendizado em todos os sentidos. No caso do grupo de catadores, por exemplo, criou uma horta comunitária, que é dividida entre as famílias dos cooperados. Transformou pneus em vasos, além de agregar valor ao material reciclável, ao buscar em artesãos locais, o aprendizado da transformação da sucata em produto vendável, capaz de gerar renda...

Essas experiências de vida me permitem analisar que o relógio do tempo nos remete ao sinal amarelo a todo momento, mas como uma dica de que podemos mudar nossos traçados de vida. Quando em Home, ouvimos informações de que a falta de água potável pode atingir cerca de 2 bi de pessoas até 2025 e o processo já começou, será que isso é algo irremediável? Porque nos sentíriamos bem em constatar que a populosa Índia, país onde nos últimos 50 anos, já foram construídos mais de 20 mi poços e que hoje estão secando... ou que 1 bi de pessoas passam fome no mundo, 5 mil pessoas morrem por dia, por causa da água poluída...

Ou, então, ficarmos acomodados ao saber que 20% da população mundial consome 80% dos recursos do planeta? E que aceitemos, de forma 'cordial', que possa haver cerca de 20 mi refugiados climáticos em 2050?

O que devemos valorizar? Basta olharmos com atenção para a Nigéria, por exemplo, em que o contraste gritante se acentua. Do que adianta o país ser um dos maiores exportadores de petróleo e registrar 60% de sua população abaixo da linha da pobreza?...

Quando se trata de recursos naturais, a mensagem de Home nos leva à situações-limite... Todos os anos 13 mi hectares de florestas desaparecem; como se encontram os pantanais, que representam 6% da superfície do planeta, ou de uma Amazônia reduzida a 20%...

Aí os prognósticos decorrentes da ação antrópica ficam cada vez mais desoladores. Como o de que a camada polar perdeu 50% de sua espessura em 4 décadas ou que algumas localidades praticamente estão extintas, como a Floresta de Bornéu, no Sudeste Asiático, destruída por causa da produção de óleo de dendê.

...Em 50 anos, o consumo de papel no planeta aumentou 5 vezes, e com isso se ampliou as florestas de eucalipto. E o desflorestamento das matas nativas cresce de maneira exponencial, o que retrata uma situação gritante, de quase 2 bi de habitantes dependendentes do carvão vegetal.

Talvez falte fôlego para muitos de nós em achar que ainda há jeito. Mas, em contrapartida, o homem é capaz de mudar a rota, como sugere o documentário. Entre os exemplos, está a iniciativa em Bangladesh, onde um banco foi criado para ajudar as pessoas de baixa renda ou sobre a decisão de Costa Rica de não manter mais exército, enquanto o mundo gasta 12 vezes mais em despesas militares do que para a ajuda a países em desenvolvimento.

...No Gabão, há derrubada seletiva das florestas e em Friburgo, na Alemanha, foi criado o primeiro distrito Eco-amigável, em que vivem 5 mil pessoas...Ou que na Dinamarca, há fazendas de vento, que produzem 20% da energia...

...Agora, relembro novamente de Guaraciaba. Então, ainda há esperança.
Sucena Shkrada Resk |




08/09/2009 09:54
Como interagem o Pré-Sal e as fontes de energia limpa?, por Sucena Shkrada Resk
Em horário nobre, no último domingo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um pronunciamento em rede nacional sobre o Pré-Sal e sua importância para o avanço do país e frisou a prioridade de ser resguardado, devido ao aspecto de segurança nacional. Convocou a população a acompanhar os projetos de lei do Executivo, que tramitam no Congresso Nacional, para a instituição da Petro-Sal, a fim de que haja a 'soberania' brasileira sobre essa riqueza. Citou ainda a proposta do governo sobre a criação de um fundo para a educação e a pobreza, resultante da exploração das reservas. Em nenhum momento, entretanto, mencionou em que ponto a adoção dessa política converge com o Plano e a Política Nacional sobre a Mudança do Clima (PNMC), plataforma de medidas que serão apresentadas pelo país na 15ª edição da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), em dezembro.

Por um lado, o PNMC evoca a redução da emissão dos gases de efeito estufa (GEE) e a predominância de fontes de energia limpa. Já o Pré-Sal representa a extração e uso de combustível fóssil. O seu valor estratégico, segundo o governo federal, é motivado por sua extensão em mar territorial brasileiro. A faixa se estende por cerca de 800 quilômetros entre os Estados do Espírito Santo e Santa Catarina, abaixo do leito do mar. Ao todo, são três bacias sedimentares (Espírito Santo, Campos e Santos). O petróleo está em águas profundas, que vai além de 7 mil metros da superíficie do mar, abaixo de cerca de 2 km da camada de sal.

O que não se ignora é que independente de onde o petróleo e gás natural extraídos dessas bacias sejam usados no planeta, interferirão nas mudanças climáticas e no Aquecimento Global, apesar de poder colocar hipoteticamente o Brasil 'economicamente' entre os países mais ricos do mundo, que também são os mais poluidores.

Ao seguir essa linha de raciocínio, mais uma pergunta pode ser levantada. Como o Brasil fará com que o Pré-Sal não contribua ainda mais com a desestabilização climática? O 'pacote' Pré-Sal estabelece algum avanço científico, que modifique os padrões de emissões dos combustíveis e derivados, de uma forma significativa e eficaz? O Ministério do Meio Ambiente defende que os royalties venham para o setor, ou seja, mitigar os efeitos danosos que serão ampliados. Sendo assim, qual será o discurso do pais em Copenhague, que tem como ponto central a redução em 70% do desmatamento na Amazônia até 2017, sem entrar em maior detalhamento em outras fontes de emissões, que até então, não eram a preocupação nacional (com exceção das grandes metrópoles)?

É preciso destacar ainda que o investimento a longo prazo no Pré-Sal é de ordem bilionária. Segundo a Agência Brasil, estimativas da Petrobras indicam que a estatal investirá cerca de US$ 111,4 bilhões até 2020, pois promover a tecnologia de extração é de longo prazo. Isso deverá corresponder à produção de 1,8 milhão de barris diários de petróleo e gás natural.

Além desse investimento, há outros tão significativos. Em pronunciamento, nas comemorações de 7 de Setembro, em Brasília, o presidente Lula ao lado do líder francês, Nicolas Sarkozy, divulgou que o país adquirirá 5 submarinos (sendo um nuclear), helicópteros e aeronaves de combate da França, que deverá selar um acordo militar. Em contrapartida, o país europeu deverá comprar 'pelo o menos' 10 aviões da Embraer... O mote deste acordo comercial, na fala do presidente, visa a segurança do país, para resguardar o Pré-Sal.

O montante também é bilionário (neste caso, em euros) e deverá ser pago pelo Brasil em até 20 anos. No caso dos submarinos, ainda infere transferência de tecnologia ao Brasil. A expectativa é que as unidades sejam concluídas até 2021, conforme notícia veiculada também pela Agência Brasil, em 6 de setembro (http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2009/09/06/materia.2009-09-06.8185255962/view). O que se pode indagar é quanto será investido para a produção de energia limpa e renovável no país, neste mesmo período, e em que proporção? Uma política consegue ter sintonia com a outra? As indústrias automotivas construirão modelos a partir de qual matriz energética?

Afinal, o status do Brasil neste segmento é de 'lider mundial'. De acordo com o relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o país é o maior mercado mundial de energias renováveis. Cerca de 46% de toda a energia consumida no país são provenientes de fontes limpas. E 90% dos carros produzidos hoje no Brasil são flex, podendo rodar com gasolina ou álcool. A informação foi veiculada pela Rádio ONU, em junho deste ano. Mas até quando?(http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/detail/164989.html).
Sucena Shkrada Resk |




04/09/2009 09:43
Mídia Ambiental - Os desafios de ser diferente, por Sucena Shkrada Resk
Os desafios da mídia ambiental são inúmeros, e não se restringem ao aspecto financeiro, apesar de ter um peso significativo na sobrevida das publicações. É difícil quebrar o estereótipo de que jornalista ambiental é voluntário. Aí as questões se ampliam no aspecto qualitativo, que pressupõe manter o diferencial com a grande imprensa, ao aprofundar as pautas.

A pergunta que não pode se perder de vista é - O que é relevante ao leitor? Afinal, as máscaras verdes proliferam de forma descontrolada, já que o ambientalmente correto rende créditos. Então, como não cair nas armadilhas do chamado 'green wash" e do marketing verde apelativo. É aí que o exercício da profissão se torna uma grande maratona, porque entra a importância do jornalismo investigativo. Esses assuntos permeiam as discussões levantadas, durante o encontro Diálogos EcoMídias - Jornalismo e Publicidade Sustentável, realizado nesta quinta-feira, 3, em São Paulo, uma realização do Instituto Envolverde e da Ruschel & Associados.

A mesa Um debate sobre o papel dos jornalista e da mídia socioambiental avalia que a qualificação contínua é indispensável para a manutenção do segmento. Na opinião de Adalberto Marcondes, da Envolverde, é necessário haver uma visão mais sistêmica dos problemas ambientais no mundo, para que não se tornem temas de pico, como nas principais mídias.

'A exigência de ética é feroz pelo público da Ecomídia, sem paralelo em outra", avalia. "Qualquer um de nós que for acusado de fazer green wash - uma vez - ficará marcado como não ser de uma publicação séria. E como não virar vidraça, quando noticiar ações de empresas (que têm histórico de degradação)?", diz. Para isso, em sua análise, cada vez mais, os jornalistas ambientais devem ter conhecimentos múltiplos. Enfim, não comprar 'gato por lebre'. Vilmar Berna, editor da Revista do Meio Ambiente, defende a criação de um Código de Ética da EcoMídia.

Luciano Martins, editor do Observatório da Imprensa, reforça a constatação de que a EcoMídia também ajuda na construção e dinâmica da agenda pública. "A grande imprensa carece de transversalidade. Nossos editores de Economia, por exemplo, continuam a utilizar o Produto Interno Bruto (PIB), como padrão de crescimento", argumenta. O jornalista se recorda da experiência que teve com outros colaboradores, na publicação O Estado de Alerta, nos anos 80, que teve um papel fundamental para levantar e apurar casos como, o de Cubatão, da Vila Socó.

Para Carlos Fioravanti, editor da Revista Pesquisa Fapesp, a imersão da EcoMídia, no que tange ao meio ambiente e à ciência, pode ter como pressuposto a Teoria Ator-Rede, uma vertente da Sociologia sobre a Ciência, que começou há 20 anos, na França. "Valoriza a interação e movimento, além da produção do conhecimento como processo coletivo...É preciso fazer conexões, para que não fique na linearidade", diz. De acordo com o editor, os jornalistas (de uma forma geral) ainda não dão a devida atenção a quem pensa diferente.

Para Ricardo Voltolini, editor da Ideia Socioambiental, a saída para o jornalismo ambiental é pensar como rede. "O desafio é ocupar o espaço fora do 'm2' a que fomos designados", analisa. A visão é compartilhada por Vilmar Berna, editor da Revista do Meio Ambiente. Segundo ele, mais que concorrentes por fatias de anúncios, as mídias ambientais agregam forças, que podem ser somadas.

"Hoje a Ecomídia não sobrevive se não tiver um segundo negócio de sustentação", diz Peter Milko, editor da Horizonte Geográfico. Segundo ele, também é preciso que haja uma reeducação corporativa quanto ao tema socioambiental. "Nos últimos quatro anos, recebemos releases de todos os tipos por parte de assessorias de imprensa das empresas, como uma forma de pressão. O questionamento é até onde colocar ou não tais informações, tendo em vista o que é relevante ao leitor", considera.

Todos os pontos destacados no encontro só demonstram o quanto é essencial enxergar, no sentido mais amplo da palavra, o público-alvo ao qual nos dirigimos. Afinal, ao produzirmos matérias, construímos e possibilitamos novos significados. Interferimos, de alguma forma, em reflexões e ações. Não há espaço para leviandade ou 'um mesmismo' acomodado, ou competições predatórias de mercado. É praticamente um exercício de renovação diária a que nos impomos, para que metaforicamente, consigamos aplicar os 3Rs em nós mesmos. Ao reduzir as arestas desagregadoras, ao reutilizarmos sempre os bons princípios morais e ao reciclarmos nossas ideias, com o propósito de contribuirmos de forma consistente ao nosso leitor.
Sucena Shkrada Resk |




31/08/2009 10:46
O momento de repensar, por Sucena Shkrada Resk
Nada melhor do que a experiência de ouvir os discursos de muitas de nossas autoridades, empresariado, líderes religiosos, sindicais - enfim, pessoas públicas - , por esse Brasil, em dezenas de eventos, por anos a fio, para que tenhamos a noção do que falava Platão sobre os sofistas. Quando chega o momento pré-eleitoral, nossos ouvidos e raciocínio têm de estar mais atentos, visto que a técnica do 'pão e circo' começa a ter proporções inimagináveis, com banda, música eletrônica, algodão doce, cesta básica, bolsa de estudo e muito mais. É um tal de conchavo para cá, para lá, conversinhas de canto. As inaugurações se tornam palanques e os adjetivos ganham proporções superlativas. Em algumas ocasiões, não se poupa, sequer, a figura de Deus nessa história, como se endossasse todos os feitos da administração pública, do legislativo, e assim por diante.

Autores consagrados, como Euclides da Cunha, também devem se contorcer na tumba, quando é feita a apologia com seus pensamentos. É o invólucro do sujeito culto...Quanta verborragia, que nos obriga engolir goela abaixo um discurso vazio, e que desvia nossa atenção do que realmente tem de ser percebido, criticado, repensado...

E quando o discurso é o mesmo em todos os lugares, sem mudar uma vírgula!!! Parece um replay. Muitos políticos e homens públicos, em geral, sequer têm o trabalho de alterar uma palavra ou um episódio. Será que estou sendo tão exigente ou impaciente?

Aí vem aquele prólogo - bom dia a todos e a todas - para ser politicamente correto - , e o cumprimento ao ilustríssimo presidente, deputado, governador, juiz, secretário, doutor. O status quo vai se repetindo nesses cerimoniais, o que parece um 'mar sem fim'. E os cumprimentos, risadinhas de canto e o bater nas costas. Quer algo mais peculiar? Um repete, dois repetem...Lá se vão minutos e horas preciosas. E ninguém se dá conta de que as pessoas estão em um determinado cargo e não são o cargo...Por isso, têm um compromisso de honrar a 'tarja bonita' que o nome da função ou formação acadêmica lhes concedem no universo social.

Nossas publicações de mídia também, em muitas situações, são tão superficiais e contraditórias, repetitivas ou ausentes, que desgastam qualquer leitor. Quando vejo uma manchete de primeira página com "Desemprego caiu...", sendo que há milhares de pessoas abaixo da linha da pobreza, ou "Bolsa despenca..." e "Fulano ficou em primeiro lugar na Fórmula I...", "Parceria melhora vida de..." etc, dá até desgosto. O mais decepcionante é quando os veículos ostentam seriedade, tradição, se intitulam 'cult' e emplacam o nariz de cera no lead, no sublead, como se tivéssemos a obrigação de ler o calhau. Pior - em um dia dizem uma coisa e no outro, refutam, como se não houvesse banco de dados, história, satisfação à sociedade...

O desabafo se deve a alguns anos de experiência como repórter "que cobre rua e gosta", pois não vejo nenhum desmerecimento nisso, e não fica só sentada em frente ao computador, dentro de um aquário, que literalmente é algo desgastante. E obviamente, como cidadã, que tenta participar da vida em sociedade, na medida do possível. Até hoje não consigo entender como muitos jornalistas em cargos de chefia não conseguem sequer ter um diálogo com o leitor, telespectador, ou que nunca pisaram em uma favela, em uma unidade básica de saúde... Esqueceram que as pessoas existem e não são meras personagens para preencher as páginas, horários e atender ao apelo do fechamento.

Nunca me esqueço de matérias que fiz sobre falta de leitos hospitalares públicos e de crianças que não tinham ainda certidão de nascimento... Para conseguir emplacar as pautas, parecia que estava falando o esperanto ou fábulas. A sensação é de que a gente é um ET, porque não compra os discursos redondos ou que interessam a determinada corrente. Daí é taxado de 'chato' ou inconveniente - melhor - não é amigo de fulano ou ciclano.

Diante de todas essas experiências, que envolvem as diversas facetas dos discursos explícitos e implícitos em nossas vidas, chega uma hora em que é necessário repensar a que viemos e com quem convivemos ou nos subordinamos, para que não nos desestimulemos em nossas jornadas.

Já tive a triste experiência de trabalhar com pessoas que diziam - gente feia ou pobre não sai na capa, ou você ouviu fulano X - é preciso, porque é anunciante; ou não pode falar de tal coisa, porque a chefia é de dada religião. Certamente não deixei de incluir o cidadão carente no texto ou nas entrelinhas, deixar claro que existem dados discursos. Caso contrário, estaria me violentando. E olhe, como é difícil defender essas convicções. Inclusive, pesa no bolso.

É claro que essas escolhas, às vezes, não são bem-vistas por quem defende o discurso calcado na ideia de mercadoria rentável. E claro, que volta e meia, me sinto aquele ET, que comentei acima. Não me vejo poliana por acreditar ainda em algumas coisas...Por isso, ao fazer um balanço, não me arrependo de minhas escolhas profissionais, que não me garantem status, riqueza material, mas com certeza, respeito. E faço a seguinte pergunta - Gostaria de saber como anda a consciência dos profissionais, que na hora de escrever, aprovar a pauta ou editar a notícia, ou fazer um discurso político etc deixa sobressair interesses mil acima do que é importante para o cidadão?


Sucena Shkrada Resk |




27/08/2009 20:26
Tic Tac Tic Tac na contagem regressiva para a COP-15, por Sucena Shkrada Resk
Hoje a coordenação da campanha mundial Tic Tac Tic Tac, no Brasil (www.tictactictac.org.br), divulgou à imprensa as principais diretrizes do movimento, que pretende mobilizar a sociedade na cobrança de uma postura mais incisiva dos governantes, quanto a metas e ações de mitigação e adaptação, com relação às mudanças climáticas no planeta. O lançamento oficial ocorre, no próximo dia 29 de agosto, que corresponde aos 100 dias que antecedem à 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorrerá em Copenhague. Os documentos produzidos estarão disponíveis para download, na página na WEB.

Segundo Rubens Born, diretor-adjunto do Vitae Civilis Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz, e representante do Brasil na articulação mundial da Campanha, um aspecto importante dessa iniciativa é que vem 'debaixo para cima'. "Está sendo discutida, desde 2006, antes de Bali e Poznan, passou sob consultas no Fórum Social Mundial, e apresenta o esforço de muitos voluntários e apoio financeiro. A campanha começou com cerca de US$ 150 mil, principalmente oriundos de uma fundação canadense, além de apoios pro bono", afirma. Independente dos resultados da COP-15, Born diz que a mobilização continuará.

Durante a coletiva, o Blog Cidadãos do Mundo perguntou a Born qual é a articulação do movimento com relação à esferal federal, no que diz respeito ao Plano Nacional sobre a Mudança do Clima e a tramitação da Política Nacional, no Congresso. Segundo ele, são várias frentes. "Há canais individuais (de interlocução) das entidades participantes. Os representantes da Campanha mantiveram reunião no Itamaraty, e as plataformas mínimas da campanha já foram passadas para Luiz Pinguelli Rosa, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas", disse. Ainda está em aberto um agendamento no Congresso Nacional, que foi adiado pela Casa.

"Agora, se o governo vai assumir os compromissos é outra questão. Também estamos fazendo a tentativa de marcar uma audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com os ministros 'linha dura do governo', que detêm a coordenação da maior fatia do orçamento (Dilma Rousseff e Celso Amorim...), além do representante do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Programação de sábado

No Brasil, a programação inaugural, neste sábado, ocorrerá em 10 cidades (Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Teresina).

Especialmente, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, por volta do horário do almoço; em Manaus, Porto Alegre e em Salvador, deverão ser colocados em funcionamento relógios solares de 3m de altura, criados com o apoio do Greenpeace, que contabilizarão os dias que faltam para a conferência.

A versão nacional do Tic Tac Tic Tac está representada por vários segmentos da sociedade. Há entidades do terceiro setor, sindicais, religiosas, como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entre outras.

Segundo dom Pedro Luiz Stringhini, que representou a entidade na coletiva, um dos principais desafios é que a campanha atinja as periferias. Para isso, de acordo com o religioso, a linguagem deve ser acessível e a interlocução se estender a outras religiões e doutrinas, de forma ecumênica. A Igreja Católica criou a Pastoral da Ecologia, que neste mês realizou pela quarta vez um seminário, em São Paulo, para discutir a pauta ambiental.

Um abaixo-assinado virtual, na página da campanha, que também pode ser impresso convoca os cidadãos a apoiarem uma plataforma mínima das nações, com base em dados disponibilizados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Entre as reivindicações, estão:
-A garantia de que o aquecimento global fique abaixo de 2º C em relação à média histórica, para que antes de 2020, possa começar a redução das emissões globais de gases do efeito estufa;
-Reduzir as emissões dos países desenvolvidos em pelo o menos 45% até 2020, com relação a 1990;
-...Promover a sustentabilidade e dignidade do desenvolvimento humano e a integridade dos processos ecológicos, mediante a transformação da economia e o fortalecimento da democracia.

"A meta é que em todo o mundo, esse documento consiga atingir 6 mi assinaturas", diz Aron Belinky, coordenador-executivo da campanha no Brasil. Segundo ele, a pauta é uma emergência, mas não é um motivo de desespero. "Não se trata só da natureza, mas de gente. É hora de agir pelo clima e promover a justiça climática".

No calendário do Tic Tac Tic Tac brasileiro, ainda é previsto um evento em Brasília, no próximo dia 14 de setembro, que deverá contar com a participação de representantes do MCT, de Copenhague, da UE e dos EUA, de acordo com Born. No dia 21, haverá a manifestação "A Hora de Acordar Global", um dia antes do Dia Mundial Sem Carro. Já em 24 de outubro, o mote da campanha será Pensar bem e agir rápido.
Sucena Shkrada Resk |




23/08/2009 22:46
Mudanças Climáticas - Muito ainda a se fazer, por Sucena Shkrada Resk
O Plano Nacional sobre a Mudança do Clima deverá ser revisado no primeiro semestre do ano que vem, com a participação do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, e ainda tem muitos itens a se aprofundar. Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, no último dia 13, a bióloga Andrea Souza Santos, coordenadora de Mudança do Clima e Sustentabilidade da Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA), esclareceu alguns dos pontos do documento, que deverão ser reforçados.

O Brasil necessita de um empenho redobrado, pois está na contagem regressiva para sua participação na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-15), em Copenhague, em dezembro. As explicações foram prestadas, no intervalo, de um dos painéis do I Congresso da Associação Brasileira de Entidades Estaduais do Meio Ambiente (ABEMA), em São Paulo, que reuniu várias autoridades e técnicos do setor.

Segundo Andrea, para que haja um diagnóstico mais atualizado, o Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) está preparando um inventário sobre a emissão dos gases de efeito estufa no país, que substituirá o anterior com dados sobre 1990/1994. A conclusão do documento está prevista para o final deste ano. Os dados deverão ser referentes até o período de 2005.

"O esforço por parte do MMA é identificar o perfil das emissões nos municípios e estados brasileiros, para se trabalhar a mitigação e adaptação, além de verificar quais ações já estão em andamento. Para isso, é preciso haver um esforço conjunto de comunicação para se conhecer as iniciativas de políticas públicas pelo Brasil, e haver a padronização dos inventários municipais e estaduais com o nacional e com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)", explica.

De acordo com a coordenadora, já foi detectado também que há poucas menções no plano sobre áreas importantes, como as zonas costeiras (cidades litorâneas). "É necessário ainda haver mais detalhamento de emissões com relação ao setor de transporte, além de determinar quais são as ações e atividades econômicas, que são fontes dos GEEs", diz.

Enquanto isso, tramita na Câmara dos Deputados, o projeto de lei da Política Nacional sobre a Mudança do Clima, nº 3.535/08. Um dos principais dispositivos da legislação é a criação do Fundo Nacional sobre a Mudança do Clima, que deverá ser o mecanismo econômico para sua implementação no país.

Sucena Shkrada Resk |




23/08/2009 20:32
Esp-VI Fórum EA-Colocar em prática a justiça ambiental requer mais do que intenções,por Sucena Resk
O conceito de justiça ambiental começou a ser lapidado, desde os anos 60. “Naquela época, se debatia o modelo fordista de produção e consumo. Ao mesmo tempo, em 1968, o Clube de Roma tratava de novos paradigmas, que resultou no relatório Limites para o Crescimento”, diz o especialista em Economia e em Planejamento Urbano e Regional, Henri Acselrad, da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, criada em 2001. Segundo ele, o grupo de notáveis desencadeou uma discussão sobre as primeiras noções de sustentabilidade, que se destacaram na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972.

Mas é nos anos 80, que o conceito começa a ganhar forma. Os movimentos ambientalistas nos EUA introduziram as comunidades negras nas discussões, aprofundando a crítica ao Capitalismo. “Aos sociólogos, dados sociodemográficos demonstravam que havia fortes riscos com lixos tóxicos e perigosos relacionados a populações negras de baixa renda. A noção de justiça ambiental nasce na lógica dessa denúncia”, explica Acselrad. Dessa forma, o governo norte-americano cria um departamento de Justiça Ambiental para averiguar essa situação.

O alcance do sentido de justiça socioambiental é ampliado com denúncias por parte dos movimentos sociais, que apontavam a discriminação existente nas políticas de mercado interno. “No ano de 1991, um memorando do Banco Mundial (BIRD) acaba impulsionando, que indústrias poluidoras se instalem em países subdesenvolvidos”, considera o especialista.

A Rede Brasileira de Justiça Ambiental nasce em 2001, com a crítica ao modelo de gestão brasileiro baseado na produção de divisas a qualquer custo. “Como objetivo, combatemos a grilagem o desmatamento e a poluição, em apoio a vítimas da contaminação por grandes empreendimentos, da atividade interna industrial e agrícola e das expansões das atividades mercantis, que expropriam populações tradicionais”, afirma Acselrad.

A noção de justiça ambiental, na opinião do especialista em Economia e em Planejamento Urbano e Regional, ajuda a politizar o tema. “A ideia de proteção ambiental é de direito de todos. Hoje a modernização ecológica apresenta uma versão sofisticada de venda de serviços populares comunitários aos grandes empreendimentos”, diz.

Para Alcselrad, existem tecnologias sociais de desmobilização da sociedade, que apresentam promessa de investimento de emprego e renda, em substituição do Estado, sob forma de favor empresarial. “Mina a capacidade crítica da população. Assim, a desigualdade social se reproduz no país. A educação ambiental começa na diferenciação do poder e da responsabilidade”, considera.

O professor de Direito Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e procurador do Estado, Fernando Walcacer, da PUC-RJ, há necessidade de uma repaginação dos direitos e justiça. “Um exemplo é a questão do saneamento, em relação à taxa de mortalidade de crianças com diarréia na periferia. O provedor investe muito menos do que precisa, porque é um tema que não tem ‘charme’, que aparece politicamente”, fala.

O procurador defende que as informações devem ser popularizadas. “É preciso tirar as leis ambientais do papel, as tornando acessíveis, para que a população não se sinta distante da administração pública”, diz. Segundo eles, os órgãos públicos não podem reter dados que são de interesse coletivo. “Para isso, é preciso participação a fim de se construir um novo paradigma. Mas não adiantará nada, se não houver o entendimento da importância, que é construída pela educação”, analisa.

A justiça social está atrelada à educação ambiental, na opinião de Walcacer. “Mas só há sentido em falar em educação ambiental, se nosso horizonte for mais amplo, com a proposta de ajudar na formação de cidadãos. O desafio é que ninguém segue a questão da mudança climática (com mais ênfase”, diz.

Para Walcacer é preciso se quebrar o paradigma de que as soluções são externas. “Não vai ser da Europa, da índia ou da China que elas chegarão. Ao Brasil cabe um papel de liderança nesse processo”, considera.

Segundo o procurador, o direito ambiental brasileiro tem como único compromisso a manutenção da vida no planeta. “Agora, é visto como um ramo do Direito como os outros, em que processos não andam por causa da burocracia”, constata.

Walcacer afirma que é importante que haja uma leitura mais holística e se verifique que iniciativas de países do Cone Sul, como o Equador e Bolívia, vão de encontro à justiça social. “Assinaram Constituições comprometidas com as gerações futuras”, afirma. De acordo com o procurador, há um discurso implícito na agenda política dessas nações, de se atender a uma população “pobre” explorada.

A discussão sobre Justiça Ambiental integrou o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, realizado em julho, no campus Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob organização da Rede Brasileira de Educação Ambiental (REBEA).

E mais Especial VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, no Blog Cidadãos do Mundo:
05/08 – O foco nas mudanças climáticas
05/08 – Ecologias cognitivas
04/08 - Muito mais do que 10 anos
04/08 - A importância do empoderamento
31/07 - Questionamentos e propostas
31/07 - Uma política compartilhada
31/07 - Um diagnóstico para o PNEA
31/07 - Nem tudo é dinheiro
30/07 - O combate à inércia
29/07 - Personagens do Brasil: O povo da floresta

Sucena Shkrada Resk |




19/08/2009 10:03
Pensata-Quando a gente se deixa levar pelos sons, por Sucena Shkrada Resk
Buzinaço, gritos e os sons mais turbulentos já fazem parte do cotidiano de nossas metrópoles, e às vezes, não nos damos conta que o universo ainda conspira a nosso favor, com os cantos dos pássaros. Nesta semana, ao ir a UMAPAZ, no Parque do Ibirapuera, eu me detive em algumas publicações da biblioteca local, e uma, em especial, me chamou a atenção - o "Guia das Aves do Parque", produzido pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. Aí agucei os meus ouvidos ao folhear a obra e me deixei levar pelos sons dos bem-te-vis, rolinhas, quero-queros...

Fui ao lado externo e observei a copa das árvores, que são o refúgio de muitas espécies. Já são 135 catalogadas!!! Eu me dei o direito de integrar a minha mente a essa natureza, que ainda resiste no meio da poluição em São Paulo.

Com a leitura mais atenta do guia, descobri que algumas espécies em extinção sobrevivem no parque, como o Maracanã-nobre e o Mocho-Diabo. Até tirei a foto da ilustração dessas aves, para colocar na rede social que mantenho no www.cidadaosdomundo.ning, onde replico o blog. Afinal, é um apelo para que próximas gerações possam compartilhar a presença delas.

Outra curiosidade, na qual me detive, foi que há reprodução no próprio parque, como do Socozinho , do Caracará e do Quero-quero. Daí fiquei imaginando, o quanto podemos contribuir para que essa harmonia orquestrada em nosso meio ambiente ganhe asas, numa bonita metáfora. Basta conservarmos o verde de nossas praças, parques, jardins residenciais e andarmos menos de carro, evitando que nosso ar fique insustentável para toda a vida no planeta...
Sucena Shkrada Resk |




18/08/2009 18:21
Literatura - Um olhar além do senso comum, por Sucena Shkrada Resk
Há algumas pessoas que têm a capacidade de nos fazer renovar a esperança no ser humano. O mais empolgante é saber que estão na fase do apogeu da maturidade irradiando a energia de uma mente aberta para o mundo. Assim eu me senti ontem, ao participar do evento na UMAPAZ, no Ibirapuera, SP, em homenagem à escritora de literatura infanto-juvenil, Tatiana Belinky, 90 anos.

Com seus olhos curiosos e ouvidos atentos, como se estivesse prestes a registrar mais material para a sua extensa produção literária - entre contos, adaptações, traduções -, que passa de 120 títulos, ela ouvia contadores de história, cantores e poetas a narrar as histórias de seus livros. À sua frente, uma plateia formada por educadores e simpatizantes de todas as idades, além de pequenos estudantes da região (que são seus leitores mais jovens), também se contagiavam nessa atmosfera.

Em dado momento, a emoção pairou no ar. David José e Edy Cerri, os primeiros atores, que interpretaram os personagens Pedrinho e Narizinho, na TV, com roteiro do Sítio do Picapau Amarelo (Monteiro Lobato), adaptado por Tatiana, nas décadas de 50 e 60, estavam à sua frente, para homenageá-la. Esses senhores que, hoje, são avós, pareciam voltar no tempo. Um saudosismo gostoso de presenciar...

De repente, um peão (pião) gigante, que fazia parte do cenário montado para o evento, chamou a atenção de Tatiana, e ela disse - "Quando tinha 70 anos, entrei em uma loja de brinquedo, que qualquer criança gosta...Vi um peão, então me lembrei de 60 anos atrás e pensei - Será que sou capaz de soltá-lo? Enrolei-o e sai num zummmmmm. - Consegui, eu disse...Precisavam ver as expressões dos rostos dos rapazes da loja..."

A risada gostosa ecoou no salão e, lá estava Tatiana encantando com mais um lance de suas memórias. Diga-se de passagem, memória prodigiosa, capaz de trazer do seu dia a dia no Brasil e da Rússia, seu país de origem, e de todos os cantos do mundo, muitas obras que encantam gerações até hoje, por meio de traduções para o português.

Quando consegui uma brechinha para entrevistá-la para uma matéria, fui arrebatada por mais uma frase...Enquanto atendia seus leitores mirins, que com seus minúsculos papeis a procuravam, para conseguir um autógrafo, ouvi de sua boca o seguinte: "Quero que sorriam com os olhos, porque só com a boca, é como se estivessem fazendo X...". Diante desse pensamento, fiquei literalmente encantada. Essa bisavó das Letras, com cabelos brancos, e um olhar atento, me transmitiu como é possível fluir além do senso comum.
Sucena Shkrada Resk |




16/08/2009 09:30
H1N1 - A importância da orientação, por Sucena Shkrada Resk
Há algumas semanas, uma situação começou a me causar indagações. Ao passar sob consulta médica e quando fui viajar, vi várias pessoas com o protetor (máscara) andarem pelos corredores das unidades básicas de saúde, como também nos aeroportos de Congonhas e Guarulhos (além dos funcionários). Pensei - Será que isso protege, de fato, contra a transmissão dos vírus, e quanto tempo se deve usar uma mesma unidade? Bem, não tive dúvidas de perguntar a um especialista, na primeira oportunidade. O diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FSM/USP), o infectologista Marcos Boulos, concedeu as informações ao Blog Cidadãos do Mundo, ao ser entrevistado, no intervalo do Fórum de Discussão sobre as Doenças Cardiovasculares e o Meio Ambiente, realizado no dia 14.

Segundo Boulos, essas máscaras, que a gente compra nas farmácias, geralmente têm um período de proteção curto, em torno de duas horas. "Só é útil (nesse tempo de validade), se a pessoa está em contato com pessoas doentes, ou se usada por profissional de saúde", esclarece. Mas orienta - "Pode se transformar em um ambiente propício para disseminar vírus, dependendo da umidade que tiver, ao se tossir ou quando a pessoa fala demais em contato com o material", diz.

O infectologista explica, entretanto, que simplesmente aspirar o vírus não significa que a pessoa ficará doente, pois o agravamento do quadro depende de outros fatores agregados. Ao se apresentar os sintomas (já esclarecidos por campanhas do Ministério da Saúde), a pessoa deve recorrer ao atendimento médico. "Como só se tem divulgado mortes, as pessoas ficam apavoradas", avalia.

Outra explicação do infectologista se refere à via de transmissão. "A principal via é aérea, e em menor proporção pelas mãos". Obviamente a importância da higienização cotidiana, de lavá-las, independe do H1N1. Deve ser uma prática normal e indispensável do dia a dia.

De acordo com Boulos, há registros de incidência de casos mais graves em vítimas jovens, primeiramente, porque essa versão do 'vírus H1N1" ainda é nova no mundo, o que infere que as pessoas não adquiriram imunidade. "Geralmente o organismo dos mais jovens 'saudáveis' (chamados de imunocompetentes) ao entrar em contato com esses vírus, inicia uma guerra, como instrumento de defesa. Esse combate, em alguns casos, pode matar", afirma. No caso de gestantes e obesos, um dos fatores que também é agravante, é a compressão sobre a área pulmonar.
Sucena Shkrada Resk |




16/08/2009 08:15
Saúde Ambiental: A poluição que nos consome, por Sucena Shkrada Resk
O senso comum já estabelece que a poluição de São Paulo não faz bem a ninguém, entretanto, pouco avanço há no sentido de mitigação da emissão dos gases de efeito estufa na cidade e, na região metropolitana, no recorte da saúde ambiental. E quando a gente ouve os esclarecimentos por parte do patologista e coordenador do Laboratório de Poluição Ambiental Experimental da Universidade de São Paulo (FSM/USP), Paulo Saldiva, é sempre um 'chacoalhão' naquela acomodação que persiste em se fixar em nossa sociedade.

De forma coloquial, fala tanto à dona de casa como ao PH.D, os argumentos científicos, para que o conhecimento seja inteligível, e é coerente em seus argumentos, ao utilizar a bicicleta como meio de locomoção, o que não acontece com muitos propagadores ambientais, que andam com seus veículos altamente poluidores pelas vias da cidade. É justamente essa coerência no discurso, que falta em nossas escolas e, inclusive, nas políticas públicas. Há tantos ruídos nas informações e práticas, que chega uma hora, que a palavra poluição se torna banal.

No último dia 14, Saldiva ministrou uma palestra, no Fórum de Discussão sobre as Doenças Cardiovasculares e o Meio Ambiente, promovido pela Sociedade Brasileira de Cargiologia (SBC), em São Paulo. Por meio da 'dissecação" de nossos vasos sanguíneos e pulmões, mostrou o quanto as nossas vidas são comprometidas com a incidência massiva das partículas finas poluentes. Só para se ter uma ideia, o recomendável pela Organização Mundial de Saúde (OMS), é o parâmetro de 25 microgramas de emissões por m3 (24h). "No corredor 9 de Julho, esse número sobe para 140", exemplifica Saldiva.

Segundo ele, a sua própria experiência do cotidiano revela o quanto a poluição é invasiva. Esclarece que se ficar 24h, dentro de sua sala, na FSMUSP, o efeito é como tivesse fumado 2 cigarros. "Quando aumenta o nível de poluente na avenida Dr. Arnaldo, aumenta também no HC (complexo do Hospital das Clínicas)", diz.

A época do inverno se torna mais complexa, porque há a presença dos chamados veranicos, que funcionam como um tampa de poluição sobre a cidade. "Os corredores de ônibus acabam sendo um laboratório toxicológico, enquanto não melhorar as medidas em nossos combustíveis (teor de enxofre)".

O enxofre é um dos componentes mais prejudiciais à saúde. A definição do fornecimento do diesel menos poluente para as frotas de ônibusdo Rio e de São Paulo foi definido em acordo com o Ministério Público Federal (MPF), no dia 30 de outubro de 2008. Mas só começou a ser fornecido a partir de abril deste ano, em SP, pela Petrobras. Passou do S-500 para o S-50, que significa 50 partes por milhão (ppm) de enxofre. Demais regiões metropolitanas do país, estão recebendo gradativamente o novo combustível. Entretanto, até 2013, a empresa deverá produzir o diesel S-10, com 10 ppm de enxofre, que segue o que hoje já é adotado internacionalmente. É importante destacar, que ainda não está se tratando do abastecimento dos milhares de caminhões que rodam pela Grande São Paulo e por todo o país.

O patologista desenvolve a tese de que isso provoca a desigualdade ambiental. "Quem mora a menos de 100m desses corredores, sofre mais impactos dos poluentes", explica.

Os primeiros estudos promovidos pelo Laboratório de Poluição Ambiental datam do início da década de 90. "Levantamos que há 32 mortes, por dia, nos meses frios, sendo 60% cardiovasculares e o restante de fundo respiratório. "Quando o Mirante de Santana acusa temperatura abaixo de 8 graus, mais oito pessoas morrem...", diz.

O fator socioeconômico é mais um complicador para a causa da mortalidade. "Quando um ônibus velho não anda, por exemplo, na 9 de Julho, vai para a periferia. A isso eu chamo de racismo ambiental", afirma Saldiva.

De acordo com o especialista, quando nós inalamos os poluentes, há uma descompensação que impacta os brônquios, que pode levar a morte. Já nos casos cardiovasculares, o processo é mais rápido.

Em pesquisas feitas com animais no laboratório, Saldiva também esclarece que os que são expostos à poluição nascem com peso menor e sofrem mais oxidação. "Os pulmões são menores e as artérias mais finas".

A situação é tão 'surreal', que inclusive o laboratório de exposição móvel da USP, que é um sistema de análise em parceria com a Univesidade Harvard, teve de sofrer uma adaptação aqui, para que o equipamento não entupisse com o excesso dos poluentes.

"Há o problema do ufanismo com o petróleo. As regras têm de incorporar a saúde humana (seres vivos em geral). Não se percebe que existe a poluição da pobreza, com o custo-efetividade. Ninguém se impressiona com os quilos de corpos mortos, se não inferir um valor", critica Saldiva. O Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da USP com a colaboração de universidades federais das regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife e Rio de Janeiro já promovem pesquisas nessas localidades. Um dos resultados divulgados, no primeiro semestre deste ano, é que a poluição do ar mata 11 mil pessoas de mais de 40 anos, por ano, nas seis maiores capitais do País.

Sucena Shkrada Resk |




09/08/2009 17:50
Mudanças climáticas: revisão do transporte em SP, sem visões isoladas, por Sucena Shkrada Resk
São Paulo instituiu há dois meses, a Política Municipal de Mudanças Climáticas - PMMC (Lei nº 14.933, de 05/06/2009), e assim, deu a largada no Brasil em uma proposta municipal, que tem como um dos principais desafios, reestruturar o sistema de transporte, que é o maior causador das emissões dos gases de efeito estufa na cidade e região, e componente importante para doenças cardiovasculares. No entanto, as metas estabelecidas no documento precisam ser implementadas ou ampliadas, por meio de regulamentação de cada dispositivo, sendo que alguns incorporam os âmbitos estadual e federal.

É presumível que as possíveis conquistas serão efêmeras ou não sairão do campo das intenções, se não houver uma política que englobe a região metropolitana, o interior, o litoral e outros estados... Não existe mitigação e adaptação, sem visão sistêmica. O enfrentamento das mudanças climáticas exige que as ações quebrem o isolamento, porque não há fronteiras quando se trata deste tema.

Segundo o sociólogo Volf Steinbaum, responsável pela condução do Programa de Mudanças Climáticas da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA), os desafios são inúmeros. "Muitos cidadãos saem da Cidade Tiradentes, às 5h, para conseguir chegar ao Parque Dom Pedro, às 8h. São filas enormes, porque os transportes estão lotados...", exemplifica. As ruas ficam engarrafadas na cidade, que já ultrapassou há muito a marca dos 6 mi veículos. A proposta na Política para reverter esse quadro caótico de São Paulo, infere educação socioambiental e incentivo à mudança de hábitos de consumo.

"Em São Paulo o crescimento do número de carros ocorre de forma irracional", diz Steinbaum. O sociólogo explica que 127 carros são capazes de transportar 190 pessoas, o mesmo número de passageiros que um ônibus tri-articulado ou dois ônibus comuns. "Por isso, é necessário a ampliação do transporte público, com prioridade aos trólebus e com outros combustíveis alternativos, além da rede metroviária e ferroviária", afirma.

Mais um ponto, segundo o especialista, é estimular o transporte alternativo não-motorizado, como as bicicletas. "Hoje 29,5 km de ciclovias estão concluídos, 18,1 km em obras e 70 km sendo projetadas, o que totaliza a extensão de 120 km", diz.

Por outro lado, incentivar com campanhas, a carona solidária em escolas, empresas etc, como também a importância de caminhar. Nesse caso, é necessário fazer um parênteses, já que ao andarmos pelas ruas e avenidas da cidade, inalamos os materiais particulados e CO2 justamente por causa desse excesso de veículos.

Então, o que fazer? O sociólogo da SVMA explica que a nova política propõe a racionalização do espaço viário. "Uma das ideias é implantar faixa exclusiva para veículos ocupados por mais de dois passageiros, mais faixas exclusivas para trólebus e estimular a criação de espaços terminais multimodais de carga no em torno da região metropolitana". Já no caso de veículos com um passageiro, se estuda a proposta de sistema de tráfego tarifado. "Na Grande Londres, por exemplo, não entra, se não pagar pedágio", compara. Steinbaum expôs os objetivos da PMMC, durante um encontro realizado na Biblioteca Temática de Meio Ambiente Raul Bopp, em São Paulo, no dia 8 de agosto.

Diante dessa gama de diretrizes, o que cabe ao cidadão paulista e paulistano é acompanhar as discussões dessa política, a efetivação de suas metas, sem perder o foco de que uma parte substancial depende de cada um de nós, ao abolirmos o consumo desenfreado e repensarmos as prioridades em nosso modo de vida.
Sucena Shkrada Resk |




09/08/2009 10:26
Literatura ambiental ao acesso de todos, por Sucena Shkrada Resk
Mais um espaço de literatura ambiental está à disposição pública na capital, o que é importante para a acessibilidade gratuita a produções mais atualizadas e de qualidade, o que ainda é uma carência no setor. É a Biblioteca Temática Municipal de Meio Ambiente Raul Bopp, instalada no Parque da Aclimação, em São Paulo. O acervo tem um total de 1.000 itens e 500 títulos, com obras sobre biomas, ciências ambientais, ecologia e sustentabilidade, entre outros, que vão de autores, como Marx a títulos do Ministério do Meio Ambiente.

A unidade, inaugurada em maio deste ano, é a única neste segmento, pertencente à rede da Secretaria de Cultura e se soma à biblioteca da UMAPAZ, da Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA), localizada no Parque do Ibirapuera. A escolha das obras teve a consultoria do ambientalista Fábio Feldman.

Apesar de ser um espaço pequeno, a qualidade das publicações na Raul Bopp é o que chama a atenção. Pude conhecê-la, neste sábado, quando fui assistir à palestra do sociólogo Volf Steinbaum, responsável pela condução do Programa de Mudanças Climáticas da SVMA. Os encontros e exposições também são mais um atrativo na unidade, e as programações podem ser acompanhadas pela internet. E o que é importante destacar - com entrada franca.

As publicações podem ser retiradas para leitura, com tempo de permanência de 14 dias. É permitido no máximo 4 títulos por vez. Para se associar, é necessário levar um documento de identificação oficial e comprovante de residência atual. A filiação é aberta a usuários de outros municípios. O cartão tem validade de um ano.

Biblioteca Temática de Meio Ambiente Raul Bopp: Rua Muniz de Souza, 1.155, Parque da Aclimação, São Paulo, SP. Mais informações no tel: 011 - 3208-1895 e no site www.bibliotecas.sp.gov.br.

Sucena Shkrada Resk |




07/08/2009 15:19
Reforma em casa: direito de consumidor é para ser exercido, por Sucena Shkrada Resk
Há momentos em que a paciência chega ao limite. Uma das áreas mais difíceis de se lidar é a de serviços de construção civil, principalmente quando chega o momento da reforma em casa. É aí que os problemas começam. Ainda hoje há dificuldade de se encontrar bons profissionais no mercado, que cumpram prazos, orçamentos, trabalhos de qualidade etc. Depois de alguns episódios domésticos, em que me deparo ainda com problemas de infiltração na laje, rachaduras no estuque, e excesso de tinta e falhas na porta, devido a pinturas mal feitas..., descobri que o correto é fazer contrato, que estabeleça compromisso entre as partes, independente do porte da obra. Aí a gente exerce o direito do consumidor e de cidadão. A pior coisa é se sentir lesado ou feito literalmente de bobo.

Compilei a síntese de dicas do Procon (são orientações de várias unidades pelo Brasil, que podem ser úteis a todos):
- Referências são imprescindíveis para a contratação de profissionais para pequenas reformas. Mas nem sempre são suficientes para garantir um trabalho impecável;
- Contratos têm de ser escritos, com descrição dos serviços que serão prestados, material a ser usado e prazos para início e término da obra. Só assim é possível cobrar do profissional, no Procon ou na Justiça, em caso de serviço malfeito. O Código de Defesa do Consumidor prevê que o profissional contratado é responsável por falhas em seu próprio trabalho. Isso significa que o cliente que ficar insatisfeito pode pedir que refaça o serviço, sem custos; a restituição do valor pago ou desconto no preço total, com abatimento proporcional ao problema causado (Procon- Santos Dumont-MG).
-O fornecedor de serviços está obrigado a entregar ao consumidor orçamento prévio, com prazo de validade de dez dias, salvo estipulação em contrário, contendo informações sobre o valor da mão de obra, dos materiais e equipamentos a serem empregados, condições de pagamento e data de início e término dos serviços a serem realizados. Uma vez aprovado, obriga os contraentes e somente poderá ser alterado mediante livre negociação entre as partes. O orçamento poderá ser cobrado, mas o consumidor precisa ser informado com antecedência. (Procon-SP)
-A garantia legal é de noventa dias, mas esse prazo poderá ser ampliado mediante negociação das partes, desde que o novo prazo conste, por escrito, no contrato ou orçamento. (Procon-SP)
-O Código de Defesa do Consumidor estabelece como sendo direito do consumidor:
exigir cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta, apresentação ou publicidade;
aceitar prestação de serviço equivalente;
rescindir o contrato, com direito à restituição de quantia eventualmente antecipada, monetariamente atualizada, e a perdas e danos.
O consumidor deverá protocolar, por escrito, a solicitação do cumprimento do contrato ou o seu cancelamento. Se o pedido formulado não for suficiente para resolver a questão, essa poderá ser encaminhada para apreciação dos órgãos de defesa do consumidor de sua cidade, Juizados Especiais Cíveis ou Justiça Comum.
Se houver índicios de prática delituosa é recomendável procurar a Delegacia de Polícia do bairro para elaboração de um boletim de ocorrência, visando preservação de direitos.
O simples fato de sustar os cheques emitidos para o pagamento do serviço não isenta das obrigações assumidas, podendo inclusive ocorrer o protesto. (Procon-SP).

Enfim, devemos entender a reforma como uma prestação de serviço igual a qualquer outra, com todas as disposições legais. E mais, seguem algumas dicas empíricas, resultantes de experiências do dia a dia:
-Desconfiem, quando o profissional começar a falar mal de outro;
-Se vangloriar que faz melhor o serviço do que qualquer um;
-Fala uma coisa em uma hora e em outra dá outro argumento para ausência na empreitada;
-Não apresenta recibos de compra dos materiais utilizados para o serviço;
-Não confunda amizade com a qualificação profissional;
-Preste atenção no acabamento, ele diz muito do que pode ser o resto da obra;
-Desconfie, se o profissional começar a fazer várias exceções quanto ao cumprimento das tarefas, sendo que foi acordado e selado em contrato. -E nunca pague o total do serviço, mesmo que falte um item ínfimo a ser cumprido.

Exerça seus direitos e evite dor de cabeça!

Sucena Shkrada Resk |




05/08/2009 13:54
Especial-VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental-O foco nas mudanças climáticas, por Sucena S.Resk
O discurso de consenso na área de educação ambiental brasileira hoje é estabelecer como prioridade a pauta das mudanças climáticas. A tônica da política do Ministério do Meio Ambiente (MMA) é afinar o conteúdo ao Plano Nacional para a Mudança do Clima e, consequentemente, à futura participação do país na 15ª edição da Conferência das Partes das Nações Unidas sobre o Clima (COP-15). O encontro está programado para dezembro, em Copenhagen.

Segundo o ministro Minc, os principais pontos serão o combate ao desmatamento, a difusão da energia eólica, a recuperação das matas ciliares no país, o monitoramento de todos os biomas até 2010, reciclagem e a difusão de prédios inteligentes, entre outros aspectos.

Para a Rede Brasileira de Educadores Ambientais (REBEA), ainda é preciso colocar na agenda da EA a educação continuada e o questionamento ao modelo de desenvolvimento brasileiro frente às mudanças climáticas.

Agora, nos resta acompanhar o processo e nos engajar individualmente e coletivamente para adquirir conhecimento, difundi-lo e, acima de tudo, atualizá-lo, de forma contextualizada, para que não se torne uma simples reprodução de informações. Não podemos também nos esquecer de que a linguagem precisa ser adaptada ao público-alvo, o que obviamente, dá trabalho, mas configura uma experiência de troca.

A minha reflexão sobre tudo isso é que não é mais possível se difundir dados tão destoantes, que num dia tratam da diminuição do desmatamento da Amazônia, e no outro, do aumento de hectares de terras desmatadas. Ou se falar do arroto do gado, do metano e não aprofundar os argumentos e as ações efetivas, neste sentido. Mais do que isso, é necessário restabelecer a coerência da EA, por meio da importância da saúde ambiental, que fica relegada a segundo plano. E dissecar o que é mitigação e adaptação, em práticas de nosso dia a dia, fazer com que enxerguemos os refugiados climáticos do hoje e do amanhã e tenhamos a sensibilidade do socioambientalismo, que estão intrinsicamente ligados às mudanças climáticas.

O que percebo é que há uma fragmentação que compromete o entendimento holístico do tema, tanto no ensino formal, como no não-formal. Qualquer cidadão precisa compreender que é um ator nesse processo, ao tomar iniciativas básicas como a redução do consumo. Enquanto não houver essas conexões, o ciclo vicioso "do problema é do outro" não será alterado.
Sucena Shkrada Resk |




05/08/2009 13:15
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental-Ecologias cognitivas, por Sucena Shkrada Resk
O campo da educação ambiental formal não precisa ficar circunscrito à redoma de dogmas e conceitos. "É no chão e nos corredores da escola que as coisas estão acontecendo, é o espaço onde ocorrem as ecologias cognitivas", diz a bióloga e doutora em Educação, Marta Tristão, da Rede Capixaba de Educação Ambiental (RECEA). Esse contexto, segundo ela, justifica o motivo de não ser possível padronizar as unidades de ensino. "É preciso se respeitar as diferenças individuais", afirma.

A educadora constata que hoje se sabe muito pouco sobre a educação ambiental no cotidiano, de uma forma roteirizada. "Existem educações ambientais, além das propostas oficiais. Há aquela desenvolvida em escolas de baixa renda e outra para a elite". Martha tece uma crítica a conteúdos extra-curriculares. "Atualmente boa parte é confundida com recreação e passeio...São necessárias aplicações direcionadas às realidades locais e o diálogo dos saberes populares com os científicos", considera.
Sucena Shkrada Resk |




04/08/2009 16:36
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental-Muito mais do que 10 anos, por Sucena Shkrada Resk
"Ações cotidianas realizadas por educadores em todo o país, há mais de 30 anos, antecederam a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), de 2003", afirma o coordenador do Laboratório de Educação e Política Ambiental (Oca), da Esalq/USP, biólogo e doutor em Educação, Marcos Sorrentino. Segundo ele, que também dirigiu a EA, no Ministério do Meio Ambiente (2003-2008), essa historicidade demonstra que o programa de EA deve ser entendido como algo em constante construção. A afirmação foi feita, durante o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, realizado no Rio de Janeiro, no mês de julho.

Segundo Sorrentino, nessa leitura, é necessário não se perder de vista a importância da manutenção da ligação com as bases. "Isso significa ouvir a juventude, os coletivos educadores, os profissionais que atuam nas salas verdes, os educadores ambientais populares e as Comissões de Meio Ambiente e Qualidade de Vida na Escola (Com-Vidas) versus ações pulverizadas", diz.

Em sua opinião, o movimento de educação ambiental também precisa de bandeiras. "Os fóruns devem ocorrer (se possível), de dois em dois anos. A peridiocidade é importante para que 'vejam' que não estamos sozinhos". O anterior, em GO, ocorreu em 2004. A falta de verba foi um dos principais entraves, segundo a Rede Brasileira de Educação Ambiental (Rebea), organizadora do evento.

De acordo com o educador, a Rebea teve seu início durante a Rio-92. "Naquela época, se formaram a rede paulista, baiana e capixaba...Sofreram muitas resistências, porque muitos falavam que era coisa de anarquista. Até hoje não conseguiram formar a Federação. A militância é uma profissão de fé", afirma.

Para Sorrentino, o contexto da EA no país, exige ainda que se estabeleça uma política unificada 'pública' incentivada pela Rebea, em que o Estado contribua com a politização, além do aprimoramento pedagógico. "É preciso ainda se trabalhar a articulação internacional, com nações da América Latina e de Língua Portuguesa. Queremos a governança na Organização das Nações Unidas (ONU)...", diz.

Sucena Shkrada Resk |




04/08/2009 15:37
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental-A importância do empoderamento, por Sucena S.Resk
Um total de 20 jovens, entre 13 e 22 anos, da EE Doutor Telêmaco Paioli Melges, de Campinas, SP, se destacou entre os participantes do VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, realizado no Rio de Janeiro, no mês passado, ao ser o único grupo escolar a exercitar o trabalho de Educomunicação (Coletivo Educador Ambiental de Campinas - coeducanasemeia.blogspot.com), durante o evento. Cobriram o encontro, se pautaram, redigiram textos, desenvolveram análise crítica, participaram de oficinas de Educom coordenadas pela jornalista Debora Menezes. Enfim, demonstraram que tudo é possível, quando há harmonia de objetivos e quebra de resistências nas coordenações pedagógicas de nossas escolas.

Não pensem que foi fácil fazer com que muitos, pela primeira vez, conseguissem participar dessa viagem de integração. Isso mobilizou a participação de pais, da escola, de inúmeros pedidos de parcerias...

Para Matheus, 14 anos, a experiência de ser um integrante importante no grupo, ao postar e debater todas as informações de seus colegas, permitiu que aguçasse o seu senso de responsabilidade. "Já gosto de EA, há um bom tempo. Em 2003, ajudei a criar uma história de combate ao vilão do lixo, em um projeto. Devo também o incentivo, ao meu primo, Alexander, que é educador ambiental, e sempre me levou aos eventos da área", diz.

Uma das coordenadoras do projeto na escola, a pedagoga e professora Rosenilze Aparecida Degrossole, conta que a iniciativa de implementar a Educomunicação na unidade (http://ea-telemaco.blogspot.com/), começou, com mais ênfase, neste ano, em oficinas realizadas nas aulas de Matemática, Português e Ciências, Geografia...com o objetivo de explicar o processo de compostagem e a questão do consumismo, entre outras pautas da agenda ambiental. A garotada tomou gosto e começou a compartilhar mais conhecimentos. Aí ocorreu o empoderamento por parte dos alunos, que se mobilizaram para participar do fórum. "Por muitos anos, fui educadora popular, isso me motivou a desenvolver o projeto com a professora Cassiana Domingos, entre outros colegas".

Para a diretora da unidade, Mara Silvia Nigro Esteves, a experiência está sendo importante e desafiadora, porque ainda demonstra qual a potencialidade de promover a educação ambiental no ambiente escolar, e fazer com que transcenda aos muros da escola. Agora, o que se espera, é que esses estudantes compartilhem seus aprendizados com seus colegas, suas famílias e multipliquem essa rede por Campinas, São Paulo...tornando o blog um instrumento de difusão dessas experiências...

Sucena Shkrada Resk |




31/07/2009 17:45
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental - Questionamentos e propostas, por Sucena Shkrada Resk
Ideologias à parte, o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, que ocorreu de 22 a 25 de julho, no Rio de Janeiro, foi um celeiro de questionamentos, reflexões e propostas. Seguem algumas frases, que destaquei durante as apresentações:

"...O que estamos dispostos a abrir mão?..." - Antônio Fernando Guerra, secretário-executivo da Rede Sul-Brasileira de Educação Ambiental

"...A nova consciência planetária está emergindo, apesar de estar fragmentada..." - Thaís Corral, coordenadora-executiva da Rede de Desenvolvimento Humano (REDEH)

"...O ser humano é capaz de lidar com políticas públicas, gestões, para praticar a fé na mudança..." - Rubens Born, diretor-adjunto do Instituto Vitae Civilis

"...Enquanto políticas públicas não mudarem, não adianta tecnologias vazias..." - engenheiro Adacto Ottoni, do CREA-RJ

"...A substituição do Estado, sob forma de favor empresarial, mina a capacidade crítica da população..." - Henry Acselrad, da Rede de Justiça Ambiental

"...Com relação à questão de saneamento, em que há a mortalidade de crianças com diarréia na periferia brasileira, o provedor investe menos, porque é um tema que não tem o charme que aparece politicamente..." - Fernando Walaccer, professor de Direito Ambiental da PUC-RJ

"...O desafio é a formação em casa quanto à construção de valores...", David Barros, presidente do Conselho Nacional da Juventude

"...As redes surgiram da questão de como reconhecer o outro, mas senão se pensar no crescer coletivo, não vai para frente..." - Aluísio Oliveira, do RMEA

"...Na escola ocorrem ecologias cognitivas...Não é possível padronizá-las..." - Martha Tristão, da RECEA/UFES

"...Educação ambiental não é só decoreba no quadro negro..." - ministro Carlos Minc

"...Não é admissível que o MMA fique fora da Política de Saneamento. Hoje coordena com o Ministério das Cidades a preparação do plano decenal...que levanta os problemas de saúde causados pela poluição..." - ministro Carlos Minc
Sucena Shkrada Resk |




31/07/2009 17:18
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental -Uma política compartilhada, por Sucena Shkrada Resk
O ponto de consenso no VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental foi de que a política nacional do setor deve ter sintonia entre os Ministérios da Educação (MEC) e do Meio Ambiente.

A cientista social Samyra Crespo, secretária de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do MMA, afirmou, que a educação ambiental está sendo inserida dentro da própria estrutura do governo, entre os agentes públicos e privados.

"Já mantemos o programa de eficiência energética, da coleta seletiva solidária e iniciamos reformas nos prédios, para coletar as águas da chuva", diz.

Segundo a secretária, a agenda ambiental dos três poderes conta com cerca de 400 organizações na rede, além da Câmara dos Deputados e ministérios. "Até para os licenciamentos ambientais analisados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), há exigência do quesito de educação ambiental", afirmou.

"Cada conselho gestor das unidades de conservação (UCs) será também gestor de educação ambiental. A meta é de que até dezembro, haja um total de 50", disse. Outra proposta é que as atuais 399 salas verdes possam chegar até 1000, com parcerias que estão sendo firmadas com o Rotary Club e o Senac, por meio de recursos compartilhados.

Na área tecnológica, o objetivo é instalar 200 telecentros nas UCs, com apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e parceria com o terceiro setor, principalmente na Amazônia. E a permanência do programa dos Coletivos Educadores, que foi um projeto gestado em parceria com a Unesco, agora está em fase de avaliação.

De acordo com Samyra Crespo, hoje a educomunicação é um dos principais instrumentos de EA incentivado pelo MMA. "A comunicação e a educação à distância, a internet, o rádio (entre outras mídias), são fundamentais não só para ampliar, mas para formar massas de jovens que tenham oportunidade no mercado de trabalho", disse.

A antropóloga Rachel Trajber, coordenadora geral de Educação Ambiental do MEC, informou que cerca de 12 mil professores participam de formação à distância semi-presencial, como capacitação. Segundo ela, um dos principais mecanismos para introduzir, de fato, a EA na transversalidade, são as Comissões de Meio Ambiente e Qualidade de Vida na Escola (Com-Vidas), que fazem o elo da Agenda 21 com a comunidade.

Neste ano, o foco da EA no MEC, está concentrado na pauta das mudanças climáticas, com temas como mitigação e adaptação.
Sucena Shkrada Resk |




31/07/2009 16:40
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental-Um diagnóstico para o PNEA, por Sucena Shkrada Resk
Uma das participações mais reflexivas no VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, na semana passada, foi do biólogo e doutor em Ciências Sociais, Philippe Pomier Layrargues, da Universidade de Brasília (UNB). Ele propôs que seja elaborado um "um índice de institucionalização de educação ambiental no Brasil", que tenha como um dos principais objetivos responder à questão do porquê de o Programa Nacional de Educação Ambiental (PNEA), que completa 10 anos, não estar sendo aplicado.

"O PNEA traz direitos e acesso à educação ambiental. O questionamento é se está presente, de fato, no país. A proposta é levantar o que existe e verificar novos rumos e ações", diz. Com o índice de mensuração, que exemplificou durante sua exposição, é possível se estabelecer metas. Dessa forma, levantar dados regionais, dos Estados e da situação de todas as ações da política, para que possam caminhar por conta própria. A ideia é estabelecer como parâmetros, instrumentos legais, instâncias de coordenação executiva, mecanismos de fomento, estruturas coletivas ou colegiadas e de redes educadoras. "Poderia ser um trabalho conjunto com as câmaras técnicas do Conama", afirma.

Segundo Layrargues, hoje não se sabe qual é o número real de educadores ambientais no país. "No Sistema Brasileiro de Informação em Educação Ambiental (Sibea), há uma pequena fração de educadores. (Nesse recorte), o que se observa é que a menor proporção fica no Maranhão, o que reflete o conjunto de desigualdades", explica.
Sucena Shkrada Resk |




31/07/2009 12:58
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental-Nem tudo é dinheiro, por Sucena Shkrada Resk
Quando o tema é educação ambiental, um dos discursos mais presentes na esfera governamental é o da falta de verbas para o setor. Há um híato na gestão pública, quanto à prioridade da área na agenda. Durante o VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, o ministro Carlos Minc chegou a anunciar o descontingenciamento de R$ 2 mi para a área, mas sem precisar a aplicação. Enquanto isso, o Departamento de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (DEA/MMA), por meio de seu recente coordenador, Claudison Vasconcelos, informou que o apoio possível é o 'institucional".

A tecnologia, a ajuda de custo para transporte, a alimentação e pagamento pelos serviços são necessários e um direito do educador ambiental. Afinal, é um trabalhador que atua diretamente com a população e enfrenta ainda o desafio de ser gestor. Com certeza, recursos financeiros são necessários para suprir a retaguarda de infra-estrutura dos projetos de EA no país, e cabe a mobilização para pressionar o poder público quanto à importância deste trabalho. Há muitos instrumentos: abaixo-assinados, conselhos, redes, o portfólio de projetos bem-sucedidos, parcerias que envolvam o terceiro setor e a iniciativa privada...

Mas a questão não é só essa. Eu me recordo da expressão utilizada por um colega, o dentista Dácio. Ele contou que em uma unidade básica de saúde, na periferia de São Paulo, consegue orientar preventivamente sobre saúde bucal, no velho e simples conceito do "cuspe e giz", já que não tem outro tipo de retaguarda. Isso quer dizer que a falta de verba não o impede de exercer todo o seu potencial como educador popular, e atingir a comunidade com uma linguagem acessível.
Posso dizer, com certeza, que sua estratégia tem sentido. Ao dar uma "aula" na disciplina de didática de ensino superior, na Pós de Meio Ambiente e Sociedade, na FESPSP, como se estivesse entre os usuários do posto, eu e meus colegas nos sentimos contemplados. A sua exposição gerou indagações, troca, compartilhamento. As palavras ganharam significado. Não precisou de nada, além de sua voz, experiência, pesquisa e de escrever no quadro negro.

É neste ponto que eu quero chegar. O que não pode ocorrer é a paralisação e o desestímulo dos educadores ambientais, no que é mais precioso, o poder de transmitir conhecimento e possibilitar escolhas conscientes por parte dos cidadãos. Isso ninguém pode tirar deles. É algo que está ligado ao livre arbítrio, à garra e, porque não, ao que podemos chamar de solidariedade.

Um papel-rascunho, uma cartolina, uma lousa e giz ou apenas um bate-papo aliados a uma atividade prática podem ser suficientes para desenvolver um projeto com qualidade. Não podemos esperar que os computadores e os data-shows cheguem, como se fossem a única forma de se exercitar a educomunicação. Enfim, nem tudo é dinheiro.


Sucena Shkrada Resk |




30/07/2009 15:08
Especial-VI Fórum Educ.Ambiental - O combate à inércia, por Sucena Shkrada Resk
As soluções estão aqui. Essa frase me soou coerente, quando a ouvi, durante a fala do professor de Direito Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Fernando Walcacer. Ele discutiu a importância do papel pró-ativo do Brasil, na mesa "Educação Ambiental, Governança Mundial e Justiça Ambiental", realizada no VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental. O encontro ocorreu entre 22 e 25 de julho, no Rio de Janeiro, sob coordenação da Rebea, e reuniu cerca de 3 mil pessoas de todo o Brasil.

A construção do raciocínio transcendeu o escopo acadêmico e partiu para o exercício de reflexão sobre o mundo real, com o princípio de que não podemos esperar que os países mais desenvolvidos, os mais populosos e que ostentam ao mesmo tempo, os primeiros lugares no ranking da emissão dos gases do Efeito Estufa no planeta, sejam os únicos atores a promover o trabalho de conscientização e mitigação ambiental. Nenhuma nação pode se dar ao luxo de ficar sob o discurso da alienação ou de que "esse papel não é meu". Muito menos o Brasil.

A educação ambiental é, acima de tudo, participação e compromisso. Não é uma tábua rasa de informações, e se for, deixará de ter significado para sua permanência. Por isso, nada é mais legítimo, de que as soluções comecem dentro de nossas casas, com os pequenos atos do cotidiano, na nossa vizinhança, no ambiente escolar e se projetem no município, no estado, no país e no mundo. Aí está o sentido da cidadania planetária, que não se pauta no egoísmo. Como também, a gênese do conceito da Agenda 21, em minha opinião.

O princípio básico nessa proposta ganha sentido somente com a redução do consumo. E isso não é um discurso de uma nota só. Enquanto não mudarmos nosso padrão, nenhum projeto poderá ser alavancado e, consequentemente, não haverá justiça socioambiental.

As cartas já foram colocadas à mesa, agora é a hora de assumirmos as responsabilidades aqui, porque no futuro, com certeza, as tentativas de remediação serão cada vez mais difíceis de serem concretizadas.
Sucena Shkrada Resk |




29/07/2009 18:38
Personagens do Brasil - O povo da floresta, por Sucena Shkrada Resk
O VI Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, realizado no Rio de Janeiro, de 22 a 25 de julho, contou com as representações indígena e quilombola, que levaram ao campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um pouco dos traços culturais e das tradições dessas comunidades, para serem compartilhados pelas cerca de 3 mil pessoas que participaram do encontro. A manifestação do líder indígena, Davi Kopenawa Yanomami, presidente da Hutukara Associação Yanomami-HAY, foi um dos destaques no encerramento do evento. Simples na fala, mas objetivo no conteúdo, reinvindicou respeito aos povos indígenas e ao meio ambiente por parte do governo e da sociedade.

"Os novos não podem deixar que aconteça o desmatamento. Agora estão vendo que os igarapés estão sujos, mas tinham de pensar nisso antes. Os peixes estão sumindo. Antes (nossas terras) eram cheias de araras, papagaios, mas os brancos fizeram as grandes cidades, os estados e o país foi destruído...O que vai ficar para nossos netos?...", disse.

"...Estou aqui para defender nossos direitos. Não adianta que só vejam os mapas (das reservas), é preciso conhecer a realidade dos índios. O Governo Federal tem de ir a nossas terras, para nos escutar. A autoridade 'vai e volta', mas tem de preservar realmente, porque nós que temos de enfrentar os garimpeiros desmatando...", afirmou.

Em sua fala, com a voz entrecortada, Davi fez um desabafo - "...O índio não é isolado, não. Está na floresta, que é sua casa. Já o branco mora na cidade de pedra, escondido e parece um rato. Se acabarem com o índio, não vai mais ter a floresta. Vou deixar as minhas palavras em seu coração e em seu pensamento. Vamos lutar juntos. Não vamos deixar nosso povo morrer de doenças. Índio é gente, sabe falar, lutar..."

Ao ser indagado se o fato de vestirem roupas não fazia com que perdessem os laços com suas raízes, respondeu - "...Vestimos roupa para virar caboclo e para que não falem mal da gente. Vocês brancos tiram ouro da natureza, para enfeitar a mulher e os dentes, e nós usamos a roupa do branco para respeitar vocês. Se o índio andar nu, vocês não vão gostar. Nós, indígenas, sabemos respeitar, quando entramos em sua casa. Queremos também aprender a ler e escrever para falar com a autoridade. O costume de vocês é como a gripe suína, mata nossos costumes. A gente fica com vergonha..."

Durante toda sua exposição, o líder indígena demonstrou que a sensação de uma luta solitária é presente na vida de seu povo, e fez com que pudéssemos refletir o quanto é importante construirmos discursos de sustentabilidade, que ganhem corpo e não se percam em lindas palavras carentes de ação.

Os Yanomami vivem no Amazonas, em Roraima e em um trecho da Venezuela, em uma área homologada em 1992, de 96,6 mil km2. Segundo o site Povos Indígenas do Brasil, do Instituto Socioambiental (ISA), há estimativa que sejam mais de 15 mil, de acordo com levantamento da Fundação Nacional da Saúde (Funasa). É um dos povos indígenas mais combativos no país.
Sucena Shkrada Resk |




16/07/2009 14:28
Personagens do Brasil - Os guardiães do Pico da Pedra Selada, por Sucena Shkrada Resk
Visconde de Mauá, no RJ, é uma daquelas localidades brasileiras, que reservam o melhor da topografia de nossas serras, com a Área de Preservação Ambiental da Serra da Mantiqueira e o Parque Nacional de Itatiaia. No meio dessa paisagem, está o Pico da Pedra Selada, a cerca de 1,7 mil m de altitude, que mais parece um dedo apontado em direção ao céu, de onde se avista o Vale do Paraíba e do rio Preto. Para chegar lá, é necessário passar pelas terras do sitiante Alcebíades Moreira Diniz, 75 anos, um personagem de nossa terra, que como um bom proseador, conta um pouco da história daquela região.

Falante, o caboclo revela que a sua família, descendente de ingleses e portugueses, é pioneira e está lá, há muitas décadas. Foi nesse pedaço do Brasil, que ele nasceu e fincou sua morada e compartilha seu dia a dia, com seu cavalo Mineiro, apreciando o convívio com jacus, entre outras espécies, que chegam tão próximo, como se fossem vizinhos.

Com um jeito próprio de conceber o que é preservação ambiental, senhor Diniz fala que decidiu há mais de 40 anos, plantar árvores frutíferas, como ameixeiras, no caminho ao Pico, pois estava desmatado. As ameixeiras cresceram e hoje estão robustas. Alimentam pacas, porcos do mato e várias aves, que antes não migravam para aquela localidade. "Não posso parar de cuidar dessas árvores, porque senão os pássaros ficarão sem comida e irão embora", diz preocupado. Para isso, ele faz caminhadas íngrimes, para cuidar de seu imenso jardim, o que dá uma pontinha de inveja a sedentários, como eu.

O sitiante afirma que, por conta de determinações de órgãos ambientais, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (IBAMA), às vezes, leva multa, por fazer um roçado ou plantar espécies inadequadas. Mas com seu jeito simples de interpretar a vida, diz que tem amor pela terra, da qual cuida 'de seu jeito" todos os dias. .

Para a geração de renda e auxílio na conservação local, Diniz investe no ecoturismo, de uma forma "caseira". Turistas desfrutam da paisagem pagando (hoje) R$ 5,00 de estacionamento e R$ 3,00 para fazer a trilha, e se quiserem sua monitoria, desembolsam mais R$ 10,00. Segundo ele, rotineiramente verifica se alguém deixou lixo na trilha, para que possa conservar o trecho limpo.

Numa pequena lanchonete, que construiu na entrada da propriedade, aos finais de semana, mais uma personagem surge. É a dona de casa Rosângela, que faz uns quitutes, farofa com pinhão e salgadinhos saborosos ao tradicional estilo caseiro, que ajudam na renda familiar. Utiliza moenda e até forno a lenha, se necessário, apesar de ter um fogão de quatro bocas à disposição. Para chegar lá, leva pelo o menos um hora a pé, nas sinuosas estradas de terra, mas um percurso, que já faz parte de sua rotina. Sua filha Mayara, 10 anos, a acompanha e diz que não troca aquela paisagem por nada. A menina já sabe fazer horta, plantar flores e reconhece os pássaros, pelos sons. Algo difícil de se ver na cidade grande.

Ao encontrar Diniz, Rosângela e Mayara, a simplicidade do atendimento é o que mais encanta. A região onde vivem é tão representativa ambientalmente, que desde o ano passado, a comunidade local e órgãos municipais já discutem transformá-la em um Parque Municipal. Entretanto, é bom frisar, que eles são os guardiões de hoje desse pedaço do Brasil, e devem ser valorizados no processo de modernização das legislações ambientais.

Sucena Shkrada Resk |




16/07/2009 11:59
Trabalho não é favor, por Sucena Shkrada Resk
A mentalidade do mercado de trabalho nos moldes capitalistas corrói cada vez mais a auto-estima, de nós, trabalhadores e, lógico, cidadãos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no mês de abril, já havia o número de 2 milhões de desempregados no país. O diretor de Política Econômica do Banco Central, Mario Mesquita, informou que o mês de julho sinaliza o maior pico de desemprego no Brasil, no percentual de 9,8%. No cenário global, a Organização das Nações Unidas (ONU) anuncia que 17% dos 6,8 bi habitantes do planeta estão em condições de extrema pobreza. Só em 2009, cerca de 90 mi se somam a esse contingente de famintos, desnutridos.

Estar em condições de extrema pobreza significa receber ou não menos de US$ 1,25, segundo a ONU. Explicações para esse quadro desestruturador da sociedade passam por argumentos, como a crise econômica, o avanço das mudanças climáticas, o aumento dos preços dos alimentos X desemprego e o subemprego. Como é possível levantar bandeiras pela qualidade de vida, se não vamos a fundo nas principais causas do desequilíbrio socioeconômico e ambiental neste planeta?

Não importa hoje ter um diploma na mão ou não. A impressão é que ter um emprego, seja ele, no formato de subemprego, carteira, autônomo ou por meio da pessoa jurídica é como receber um favor. As pessoas se sentem oprimidas e receosas, de no dia seguinte, não terem mais nada, se não se submeterem ao jogo do mercado e a humilhações na entrelinhas.

Para quem não está classificado na hipótese anterior e sobrevive de restos e da caridade alheia, quando é possível, submerge no caos mais cruel do sistema capitalista. Não há mais nada destrutivo para um ser vivo. Não ter alimento, teto, roupa, opção de empregabilidade. A dignidade é destroçada sob todos esses pesos. O corpo e a mente padecem. E as pessoas literalmente morrem em todos os sentidos. De acordo com a FAO, organização da ONU para a Agricultura e Alimentação, a cada minuto, 12 crianças morrem de fome no mundo. Isso não é literatura ficcional, é realidade.

A pergunta é a seguinte: o que falta mais para se mudar o sistema de trabalho no país e no planeta? Não sei se a via do cooperativismo, associativismo é a única, mas com certeza, representa um caminho. Transformar pessoas físicas em pessoas jurídicas - como eu me enquadro - é um processo desagregador, porque a carga tributária que incide sobre nós, profissionais liberais, é extremamente alta. Chega o momento, em que pagamos literalmente para trabalhar. Em outras situações, as pessoas se submetem a salários mais baixos, porque não há outra escolha.

E aí vou mais fundo. É preciso desconstruir o novo paradigma que surgiu pós Revolução Industrial, que trabalho é praticamente favor. Quem diz que a escravidão e a servidão acabou não consegue fazer a leitura das entrelinhas das novas formas de empregabilidade. Trabalho é força, empenho, preparo e troca. Mas para que tudo isso se agregue, é preciso que empregado, profissional, empregador, governos tenham consciência dessa relação de parceria e respeito.

Não é possível mais se viver na sociedade do lucro desenfreado. O raciocínio é o seguinte: quanto mais pessoas desempregadas, menos consumo, e menos lucro. Afinal, todas as partes têm de sair ganhando. E o ganho não se traduz somente em moedas. O ganho é a dignidade, a soma de metas, esforços, o equilíbrio, a racionalidade que não destroce nossa saúde mental e física, nos levando à fome holística.

Governos, empresários, profissionais liberais e a sociedade como um todo precisam repensar os valores nesse mercado. Do que adianta, pequenas parcelas ganharem muito e a grande parcela da população padecer. E incluo aí - a grande parcela da classe média do século XXI.

Nessa reflexão, acabam tarjas de países desenvolvidos, em desenvolvimento e subdesenvolvidos. Quando todos nós percebermos que vivemos numa relação simbiótica, talvez haja mudanças significativas no trajeto da humanidade.
Sucena Shkrada Resk |




29/06/2009 18:46
A quem interessa?, por Sucena Shkrada Resk
Na minha trajetória profissional, eu já me deparei com muita demagogia dentro e fora das redações, mas o que mais me aborrece até hoje é detectar que o jornalismo está carente de repaginação. Não é possível suportar a excessiva cobertura sobre a morte do cantor Michael Jackson, desde o anúncio feito por seus familiares, na última quinta-feira. Uma hora é o ídolo, a aberração, o maior cantor pop de todos os tempos, o suspeito disso, daquilo, ... As notícias chegam ao requinte de tratar da paternidade de seus filhos. A quem interessa com quem vai ficar sua fortuna, ou quem são seus herdeiros? Afinal, enquanto horas de matérias tratam destes temas, pessoas morrem de fome, de AIDS, os ribeirinhos padecem sob as cheias, o cenário político brasileiro está em franca deterioração...

Quando estava vivo, Michael Jackson viveu quase no ostracismo nos últimos doze anos em que esteve fora do circuito dos shows, exceto quando foi manchete sobre "escândalos" e denúncias que envolviam seu nome. Agora, seus CDs estão até esgotados. Fãs se dizem órfãos.

A mídia apaga qualquer outra pauta em favor de horas a fio de um tema "rentável". Não é possível se calcar no argumento de que é um personagem público. A dissecação da vida privada superou, nos últimos dias, qualquer limite.

Essa febre por ibope a qualquer custo acaba empobrecendo o jornalismo e deixa a escanteio milhares de personagens anônimos por esse planeta, que têm muito a dizer e expressar nas páginas da Internet, dos jornais, das revistas e nas TVs e rádios. Algo que nos acrescente repertório à trajetória de seres humanos.
Sucena Shkrada Resk |




21/06/2009 11:23
Por quê?, por Sucena Shkrada Resk
A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) pela não-obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercer a profissão, nesta semana, me deixou literalmente perplexa. A única indagação que vem à minha mente é - Por quê? E não se trata de um questionamento corporativista, pelo o fato de ter cursado uma faculdade de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, há 17 anos. Mas de compreender o argumento para tal decisão e quais serão as verdadeiras repercussões dessa mudança...Afinal, com isso, também terá de haver mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho, no que tange à profissão. E para quem cursa uma faculdade da área atualmente? E a sobrevida dos cursos de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo? Quais são as efetivas respostas?

De acordo com matérias divulgadas na mídia, o presidente do STF, Gilmar Mendes, e os demais ministros que foram a favor da decisão, alegaram a inconstitucionalidade. Mendes teria dito - "A exigência do diploma do curso superior para a prática de jornalismo não está autorizada pela ordem constitucional, pois constitui uma restrição a efetivo exercício da liberdade jornalística. O Estado não está legitimado a estabelecer condicionamento e restrição ao acesso à profissão e ao respectivo exercício profissional". (trecho extraído da matéria STF acaba com obrigatoriedade do diploma para jornalismo - OAB-Rio de Janeiro-18/06/2009 - O Globo)

Mas afinal o que é o jornalismo? Ao consultarmos nossos dicionários, segue a definição - a imprensa periódica, profissão de jornalista, conhecimentos relativos ao jornalismo. Já jornalista - pessoa, que por profissão, escreve em jornal; pessoa que dirige um jornal.

O decreto-lei nº 972, de 1969, que instituiu a obrigatoriedade da formação acadêmica em Jornalismo, foi forjada na época da Ditadura Militar, entretanto, de alguma forma 'antagonicamente' aos princípios do regime, disciplinou o que desde a descoberta do Brasil era traduzido pela tônica dos interesses políticos e das grandes famílias. Um interessante material de consulta está disponível no site da Associação Nacional de Jornais (ANJ) - http://www.anj.org.br/a-industria-jornalistica/historianobrasil/arquivos-em-pdf/Cronologia.pdf. Outra fonte de consulta é o livro História do Jornalismo no Brasil, de Richard Romancini e Cláudia Lago, de 2007.

Eu, particularmente, cursei Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), durante quatro anos de minha vida, e acredito que absorvi tanto conhecimentos teóricos e éticos, como os técnicos. Entretanto, a base humanista do papel profissional a que me deveria dedicar pesou mais em minha formação.

Posso me questionar que se tivesse cursado História, Sociologia, Biologia, talvez a minha liberdade de expressão tivesse sido diferente. Será? Afinal, em todos os tablóides, revistas, mídia televisiva e radiofônica, além da mídia on line, principalmente após o período da Ditadura, há espaço de expressão. O leitor mais humilde também tem direito de se expressar. Por isso, há as figuras de colunistas, articuladores, comentaristas e, obviamente, fontes das matérias.

Questionar a qualidade das escolas de Comunicação Social e a necessidade de revisão em seu conteúdo curricular é plausível e é importante, sem dúvida alguma. Uma questão que também é avaliada em outros cursos no Brasil.

Também é racional questionar, no meu ponto de vista, as linhas editoriais. Entretanto, é importante lembrar que o jornalista é o profissional com embasamento técnico e humanista e, não, simplesmente o tecnicista. É o profissional, que pauta, reporta e traduz em várias linguagens a informação, para que a mesma chegue ao público-alvo. Creio que esse preparo não foi colocado como premissa, na decisão tomada nesta semana. Enfim, foi constituída a Ciência da Comunicação ou tudo isso não vale de nada?

Enfim, ainda me falta uma compreensão maior de entender o porquê. Afinal, isso poderá ter implicações futuras, que eventualmente facilitarão o ingresso de pessoas oportunistas (como já existem) para utilizar o instrumento da mídia, agora com respaldo legal. Espero que todo esse processo seja acompanhado de perto pelo STF, que se verificar a necessidade de uma nova tomada de decisões, não tenha o acanhamento de também defender por sete votos a um ou a oito, uma nova postura.
Sucena Shkrada Resk |




21/06/2009 10:45
A capacidade de indignar-se, por Sucena Shkrada Resk
Os pensamentos retilíneos e complacentes ainda me causam desconforto, pois refletem alienação e até comodismo diante das controvérsias que a humanidade é responsável e, ao mesmo tempo, vítima. E essa certeza ganha mais argumentos, com a leitura da obra "Pedagogia da Indignação", de 2000, pela UNESP, que reúne cartas do educador Paulo Freire, escritas pouco antes de sua morte em 1997.

A sua maneira de expressar o quanto é importante refletir e não ser passivo é direta, simples e objetiva. E comovente...São sentimentos que extravasam e conseguem ser conciliados com a racionalidade. Ao ler cada frase é como se pudéssemos ouvir sua voz calma e persuasiva, que ouvia e transmitia confiança a milhares de jovens e adultos por esse Brasil, que buscavam o saber das primeiras letras...

Separei algumas reflexões do educador, que considero atemporais e, que independente de sua linha político-ideológica, permitem a qualquer um de nós parar e repensar valores e caminhos em nossas trajetórias.

"...É preciso testemunhar a nossos filhos que é possível ser coerente, mais ainda, que ser coerente é um final de inteireza de nosso ser. Afinal, a coerência não é um favor que fazemos aos outros, mas uma forma ética de nos comportar. Por isso, não sou coerente para ser compensado, elogiado, aplaudido..." (Paulo Freire)

"...Não creio na amorosidade entre mulheres e homens, entre os seres humanos, se não nos tornamos capazes de amar o mundo. A ecologia ganha uma importância fundamental neste fim de século. Ela tem de estar presente em qualquer prática educativa de caráter radical, crítico ou libertador..." (Paulo Freire)

"...Uma educação progressista jamais pode em casa ou na escola, em nome da ordem e da disciplina, castrar a altivez do educando, sua capacidade de opor-se e impor-lhe um quietismo negador do seu ser. É por isso, que devo trabalhar a unidade entre meu discurso, minha ação e a utopia que me move..." (Paulo Freire)

"...A necessária formação técnico-científica dos educandos porque se bate a pedagogia crítica não tem nada que ver com a estreiteza tecnicista e cientificista, que caracteriza o mero treinamento..." (Paulo Freire)

"...Na visão pragmático-tecnicista, contida em discursos reacionariamente pós-modernos, o que vale é a transferência de saberes técnicos, instrumentais, com que se assegure boa produtividade ao processo produtivo..." (Paulo Freire)

Todas as ideias acima expostas pelo educador Paulo Freire nos permitem rever posturas mecanicistas e perceber que não somos robôs. Creio que ainda é tempo de fazer imersões na releitura de nossas posições e mudar os rumos da educação em nosso país, incentivando cidadãos participativos, que tenham sua auto-estima construída em alicerces sólidos. Afinal, a capacidade de nos indignar, nada mais é, do que uma prova latente que estamos vivos, pulsando...

Sucena Shkrada Resk |




14/06/2009 11:50
Quantas Estamiras há por este Brasil?, por Sucena Shkrada Resk
Nunca é tarde para se ouvir o relato da cidadã Estamira, no filme-documentário dirigido e produzido por Marcos Prado (2006), que oscila entre seus devaneios e revolta, e a impecável lucidez, sobre o que é direito e dever, e a salubridade do planeta numa sociedade democrática. Há momentos em que a gente prende a respiração, porque as palavras tão 'sinceras' dessa senhora, que passou mais de 20 anos no 'chamado' Aterro Sanitário de Gramacho, no Rio de Janeiro, revela a angústia de milhares de brasileiros por esse Brasil, vítimas do descaso, esquecidas sob os números de tão imensa população.

Na verdade, se trata de um grande lixão, em que homens e mulheres disputam espaço com os urubus, em busca de alimentação, roupas, ou seja, da sobrevivência em meio ao quadro da miserabilidade. Ao odor fétido estão praticamente imunes 'mentalmente', mas seus corpos já traduzem os efeitos pérfidos desse contato.

Por que estão lá? Esta pode ser uma pergunta inocente. Estão nesse caos proveniente do excesso de nosso consumo e de nosso 'desperdício', e por outras inúmeras razões. Desilusão da vida, falta de oportunidade de emprego, baixa escolaridade - ou melhor - falta de justiça social, renda e um meio ambiente ecologicamente correto...Bem, aí surge a palavra mágica: sustentabilidade.

É difícil dizer se o lixão provoca os distúrbios mentais ou esses levam, em muitos casos, para essa situação deprimente. O certo é que ninguém merece viver desta forma, pegando produtos vencidos, no meio do lixo, para fazer uma bela macarronada. Andar sobre o chorume, que penetra na pele, e no organismo, como um veneno que mata aos poucos...Ninguém merece carregar pesos excedentes nas costas, para ter como sobreviver mais um dia, como se fosse o último. E ter que a cada momento, tirar das entranhas, uma fórmula, quase mágica, para reconstruir a dignidade.

São homens, mulheres e crianças que têm suas existências afetadas para sempre. Sequelas que seguem por gerações. Como não se sentir humilhado? Ninguém sai o mesmo, após viver nesse mundo underground e literalmente triste.

Tristeza, revolta e uma imensa vontade de transformar... Eis os sentimentos que emergem, ao assistir Estamira. Quase profética, em sua aparente insanidade, diz muitas verdades, que nós, por muitas vezes, não queremos ouvir. Essa linguagem, que beira a espiritualidade, traduz a perturbação e a clareza, que é preciso mudar posturas no planeta Terra.
Trata de valores morais, de respeito ao próximo.

Sem dúvida, é um alerta direto ao modelo capitalista. Em algumas partes do filme de 116 minutos, a emoção toma conta de forma avassaladora. Realidade...Temos plena convicção que ainda existe essa situação aterradora, nas cidades grandes, nas pequenas...É o choque do desenvolvimento reverso de nossa civilização.

Como contribuir para que isso um dia mude? Ao mudar a forma de consumo, as relações humanas, compartilhando conhecimentos, afeto... Quem sabe, chegar em um nível de existência, com as melhores qualidades da humanização. Talvez, assim, as Estamiras e a versão masculina delas ainda permaneçam, mas com uma diferença gritante, felizes por terem lutado e conseguido transformar o mundo de seus filhos, netos, bisnetos...

Uma expressão maravilhosa, que traduz a sabedoria por trás da simplicidade dessa mulher, diz muito - "...Trabalhar não é sacrifício...".
Sucena Shkrada Resk |




08/06/2009 16:40
A sutileza das metáforas, por Sucena Shkrada Resk
O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini, é um daqueles raros romances que consegue, por meio de metáforas, fazer a gente refletir sobre perdão e superação. Nesta semana, resolvi assistir ao filme, dirigido por Marc Forster, apesar de ainda estar imersa nas páginas do livro. Tive a sensação de ser convidada a entrar no enredo da obra. A produção não exagera em afetações e trata dos momentos de 'violência', de uma forma subliminar.

Durante o making off, Hosseini conta, que um dos momentos mais comoventes do filme, na verdade, é uma metáfora do "estupro", pelo qual passa o povo afegão. Uma cena, que apesar do revestimento de crueldade, consegue expressar sensibilidade. O pequeno ator Ahmad Khan Mahmidzada, que interpreta Hassan, externaliza em sua interpretação, a doçura e resignação, que antagoniza, com o então jovem Amir (Ahmad Khan Mahmidzada), interpretado na fase adulta, por Khalid Abdalla.

As pipas nos ares de Cabul ganham sentido de liberdade, uma liberdade que sofreu grande impacto com a chegada dos soviéticos, em 1979, que permaneceram por lá, durante nove anos. E nos ares...dos EUA, transmite o quanto é possível se rever posições e remediar atitudes mesquinhas, por meio da revolução interna, que podemos realizar a cada momento de nossas vidas...


Sucena Shkrada Resk |




29/05/2009 16:27
Empresas têm chance de mostrar responsabilidade social, por Sucena S.Resk
A Cruz Vermelha, em São Paulo, está recebendo donativos (alimentos não-perecíveis, itens de higiene e roupas) para os atingidos pelas cheias, principalmente no Norte e Nordeste do país. O grande desafio, entretanto, é a logística deste material para os municípios atingidos. O transporte depende prioritariamente da cooperação da Força Aérea Brasileira (FAB), de transportadoras e de empresas aéreas comerciais, devido às distâncias e condições irregulares das vias terrestres, em muitas regiões.

Não há melhor momento para que os setores de responsabilidade social mostrem a que vieram. E cada um de nós pode contribuir com o desprendimento e solidariedade. São toneladas de donativos que precisam ser remetidos às unidades da Cruz Vermelha Regionais, para serem entregues a quem, de fato, precisa. Esse esforço também pode ser aplicado ao trabalho desenvolvido pelas Defesas Civis e por entidades de terceiro setor idôneas, que participam das campanhas...

As mais recentes vítimas, que necessitam de apoio, são moradores do município de Cocal e região, no PI. Quarta-feira marcou um episódio triste e lamentável, do ponto de vista social e ambiental, com o rompimento da barragem de Algodões I, no rio Pirangi - que tinha apenas 10 anos de funcionamento.

Até as 16h deste sábado, 30 (atualizado), havia sido contabilizado o número de sete mortos, três desaparecidos, mais de 80 pessoas feridas e de 3 mil moradores desabrigados e desalojados, que integram uma população estimada de 26,2 mil pessoas. Com o passar dos dias, esses dados, com certeza, deverão ser modificados, podendo revelar um quadro ainda mais complexo, visto que afetou o abastecimento de água, energia, logística, enfim, toda a condição de infra-estrutura.

Para ampliar o contexto crítico que envolve Cocal, a maioria dos moradores vive da agricultura de subsistência. A cidade, que ocupa uma área de 918,6 km, apresenta um período seco, que dura praticamente metade do ano, e uma vegetação de caatinga . Além das vidas humanas comprometidas, é necessário lembrar que a fauna e flora local também foram afetadas. Entre as espécies catalogadas por lá, estão desde répteis a veados.

As apurações de responsabilidade civil e criminal já foram iniciadas - o que é fundamental -, mas antes disso ainda há muito a fazer, pois é um verdadeiro caso de calamidade pública. Afinal, muitos desses cidadãos ribeirinhos ainda estão isolados e houve o isolamento do litoral do Estado, devido a comprometimentos na BR-343, o que multiplica os efeitos da tragédia.

Serviços: Cruz Vermelha (SP) - avenida Moreira Guimarães, 699, bairro Indianópolis, próximo ao Aeroporto de Congonhas. O atendimento é de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, e aos sábados, das 8h às 14h. Informações pelos telefones: (11) 5056-8667/8665/8664.

Sucena Shkrada Resk |




22/05/2009 13:54
Florestas tropicais em Copenhagen, por Sucena Shkrada Resk
Prever quais serão os resultados da Convenção das Partes Sobre o Clima (COP 15) de Copenhagen, a ser realizada, no final deste ano, é um exercício literalmente futurístico. O que já é presumível, segundo o ex-diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro e atual assessor especial para Clima e Floresta do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Tasso Rezende de Azevedo, é que o Redução de Emissões para o Desmatamento e Degradação (REDD) funcionará somente nas florestas tropicais. Com isso, a responsabilidade do Brasil é cada vez maior neste cenário. "Mas é fundamental que haja o reconhecimento de ações preliminares contra o desmatamento, para que isso estimule os países a tomarem medidas efetivas", diz. Da totalidade de florestas no planeta, 25% são tropicais, onde ficam concentrados 50% do estoque de carbono.

Segundo Azevedo, a COP hoje ainda não reconhece as ações antecedentes de mitigação. "No caso do Brasil, temos como exemplo o álcool. Quanto ao desmatamento, o estoque continua, e talvez a Convenção comece a estabelecer como parâmetro medidas a partir de 2005", analisa.

Uma das posições brasileiras mais recentes é a proposta de que seja estipulada como meta no 'protocolo pós-Kyoto', o trabalho conjunto para a manutenção do aumento médio de temperatura no planeta, abaixo de 2º C. E que seja feito o monitoramento de 0,2 º C por década. "Quanto ao desmatamento, o nosso objetivo de reduções das emissões de desmatamento é de 80% até 2020. Inclui, além da Amazônia, os demais biomas, que até janeiro de 2011, começam a fazer parte do cálculo de emissões do país", afirma.

O Fundo Amazônia tem um papel fundamental nesse processo, de acordo com o assessor. O primeiro investidor foi a Noruega. "Agora, estamos discutindo o contrato com a Alemanha e a abertura para empresas privadas", explica.

A participação dos EUA, sob a batuta de Barack Obama, na COP 15 é uma das posições mais esperadas em todo o mundo. "O fato de o país não ter entrado no 'jogo' nos últimos anos, torna difícil que assuma metas de redução de até 40% com relação a 1990. Não conseguem fazer nada próximo a 25%, mas hoje a proposta mais aventada, é com base em 2000", diz Azevedo. Reduções de emissões significativas por parte dos EUA só devem acontecer por volta de 2050.

Um aspecto que não deve ser menosprezado, segundo ele, é que o presidente norte-americano depende estritamente do Congresso, para chegar com proposições significativas em Copenhagen. Tasso discutiu o tema, durante apresentação realizada na Editora Abril, nesta semana, a convite do site Planeta Sustentável.
Sucena Shkrada Resk |




19/05/2009 11:25
O questionamento nosso de cada dia, por Sucena Shkrada Resk
O filme francês "Entre os Muros da Escola", dirigido por Laurent Cantet, é uma das produções mais fiéis sobre os bastidores das escolas públicas, por conseguir a proeza de fundir a realidade de não-atores de uma instituição de ensino da periferia francesa à sétima arte, sem ficar com os ares carregados de documentário.

Ver a relação conflitante entre um professor de Francês, interpretado pelo próprio autor, François Bégaudeau, com seus alunos da 7ª série, é como se fundir no meio daquelas cenas. Poderia ser São Paulo, Rio de Janeiro ou qualquer cidade por esse mundo afora, na periferia ou não. Essa sensação de pertencimento é o que chama mais a atenção para a história, que nos faz repensar como é importante amadurecer como educador e aprendiz. O que seremos, afinal, até o resto de nossas vidas.

A sociedade está refletida entre as paredes das salas de aula e o concreto cinza, que apesar da aparência gélida, se confronta com a vida 'quente', que traduz futilidades, intrigas, complexidades, incertezas, diferenças culturais e raciais, violência, mágoa, superação, conflitos de gerações, amadurecimento, desrespeito, mas doçura, sabedoria e 'pedido de colo' no meio desse caos...

Pode-se dizer que nos transmite o recado de que, por muita vezes, colocamos uma redoma para aparentar 'força' diante daquilo que não entendemos. Isso se dá entre pais e filhos, irmãos, colegas, patrão e empregado, educadores e alunos, amigos, parceiros... E esse paredão não nos permite enxergar realidades que, na verdade, estão tão claras e latentes...

Menosprezamos a existência da sabedoria, por trás das palavras ásperas e atitudes secas de uma adolescência massacrada pela discriminação, que só espera um olhar de ternura e a quebra dessa parede, para desabrochar o que tem de mais rico, que por muitas vezes, desconhece. Até então, ninguém esteve lá para lhe dar essa chance. Por outro lado, esses adolescentes em ebulição não conseguem enxergar que o 'mestre' também é um poço de incertezas como eles, que quer encontrar um código de acesso para compartilhar seu mundo com esses jovens.

Alguns diálogos pesados em que a ofensa descarrega o que há de pior nessa relação, choca, mas traduz o que vemos no dia a dia no Brasil, por exemplo, não só em escolas de periferia, mas nas que estão em bairros de classe média e alta. Para muitos, o choque leva ao entorpecimento, mas para outros conduz à mudança. Tão necessária e urgente.

Mais um aspecto interessante de "Entre os Muros da Escola" é observar as reuniões de conselho de classe e dos professores com os pais de alunos. Aí, literalmente 'cai a ficha' de que o sistema hermético do ensino público precisa quebrar as barreiras comunicacionais. As informações não são decodificadas, porque seguem apenas regras, sem que se perceba que relações humanas transcendem exatamente os muros da escola.

Vale a pena ver esse filme. Recebi a sugestão de minha professora de didática de ensino, Marize Carvalho Vilela, da Pós Graduação de Meio e Ambiente e Sociedade, na FESPSP. O que mais me contagiou nos seus argumentos, foi justamente falar que repensou seu papel como educadora, apesar de mais de 40 anos na carreira, ao assistir essa história "real". A doutora em História da Educação, que lecionou também por muitos anos na escola pública, se colocou no lugar dos estudantes e viu o quanto é importante mantermos o respeito recíproco, para que a palavra educação ganhe um sentido holístico, seja no ensino fundamental, no universitário e na vida.

O roteiro é baseado no livro homônimo de Bégaudeau, lançado pela Martins Editora. O filme é vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2008, entre outras premiações.
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19/05/2009 10:00
Especial II FCS - 4 - Reconhecer as origens, por Sucena Shkrada Resk
Um dos relatos que mais me impressionou, durante o II Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, foi do índio André Fernando Baniwa, que é vice-prefeito de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. A sua autenticidade e perfeita noção do que é nesse planeta foi um exemplo e tanto para todos os presentes no evento, como também aos internautas, que acompanharam on line, o encontro realizado em São Paulo, nos últimos dias 6 e 7 de maio.

"Primeiro sou indígena baniwa, amazonense e brasileiro. Tem de ser assim. Valorizar o povo, estado e país", disse. Segundo André, a Ciência é de cada povo e os conhecimentos tradicionais devem ter o seu espaço reconhecido, sem fronteiras. Mas reflete - "Viver interculturalmente é difícil. Alguém precisa traduzir isso", afirma. Esse papel pertence a cada um de nós.

O vice- prefeito, que também compõe a diretoria da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, tem plena consciência da responsabilidade do papel da administração pública em comunhão com a sociedade, na promoção desse respeito entre os povos. "Em nossa região, vivem cerca de 90 mil pessoas, de 23 povos e quatro tronco linguísticos. E já existem mais de 500 comunidades, originadas em pequenas associações, para fortalecer essa política", conta.

A terra é o espaço da comunicação, segundo André. "Os povos indígenas respeitam essa natureza. Isso vem desde os desenhos milenares nas pedras, que ensinam a respeitar o outro", afirma.

Segundo ele, um exemplo de que conviver com a diferença é possível é a parceria de 10 anos, que o município mantém com a Aústria, a fim de manter a floresta em pé. "Lá transformaram as fábricas, em tecnologia limpa. Aqui, 90% da área está preservada", diz.

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18/05/2009 21:02
Especial II FCS - 3 - Um jornalismo mais comprometido, por Sucena Shkrada Resk
Os jornalistas André Trigueiro e Washington Novaes expuseram a necessidade de maior comprometimento dos jornalistas com relação às questões ambientais, durante o II Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade.

"A comunicação brasileira está moldada no modelo hollywoodiano, com dramas e tragédias. Passado isso, 'esquece' das notícias", disse Novaes. Segundo o supervisor geral do Repórter Eco, na TV Cultura, a mudança de paradigmas pode até ser considerada ameaçadora do ponto de vista financeiro. "Estabelece-se conflitos com a publicidade...mas os jornalistas têm de mudar a visão de mundo. Hoje é exigida uma nova ética...É preciso ter pressa", afirmou. Por trás de sua fala, deu o recado de que não dá para fazer marketing sobre o aquecimento global, os refugiados climáticos e tudo que envolve os desafios do século XXI.

Trigueiro alertou que as faculdades de jornalismo devem ficar atentas para não replicar o analfabetismo ambiental. O jornalista mencionou a importância de que profissionais de comunicação se mantenham informados, para poderem exercer uma postura responsável sobre os fatos, sem 'achismos'.

Como mediador da Mesa "Integridade Ecológica", ainda criticou as políticas governamentais de curto prazo. "Existe um movimento em curso no Congresso que tenta desmontar o Código Florestal Brasileiro. E Santa Catarina tomou a dianteira (mudando seu código estadual)", provocou.

O âncora na GloboNews também afirmou que a mídia e a sociedade não podem ficar alienadas quanto à realidade nacional, e ter uma visão reducionista. "Atualmente 650 mil brasileiros foram atingidos pelas chuvas no N e NE", disse. Isso quer dizer, não são apenas números, que lotam as manchetes.

E Novaes bombardeou - "É preciso parar a retórica indignada passiva da sociedade".

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13/05/2009 23:08
Especial II FCS - 2 - Sustentabilidade dos gabinetes aos bancos, por Sucena Shkrada Resk
O II Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, em São Paulo, foi palco de discussões sobre o que, de fato, é educar para a sustentabilidade. Algumas das tônicas do encontro foram a importância da ética nas ações do poder público, e a retomada de modelos de financiamento para a inovação.

Para Danilo Miranda, diretor Regional do SESC, no estado de São Paulo, é possível transformar a realidade urbana por meio de projetos que potencializem talentos. “A obrigação dos órgãos públicos e privados é de se vincular a propostas educativas. Ainda temos de melhorar muito nesse sentido para que haja o empoderamento da sociedade, evitando a segregação em partes isoladas das cidades”, afirmou. O sociólogo defende que para isso, uma das mudanças necessárias é no aparelho do Estado. “É preciso que tenha o interesse público e, não, partidário”.

Quanto ao tema Justiça Social e Econômica, o Prêmio Nobel de Economia, em 2006, e professor de política econômica norte-americano da Universidade de Columbia, Edmund Phelps, constata que sustentabilidade não é um assunto discutido nas salas de aula. Segundo ele, o modelo de economia atual não vai muito longe. “Sou a favor de que se recriem as propostas dos bancos antigos do século XIX, voltados a empréstimos para a inovação no setor privado, que poderá recuperar a alta do emprego. Hoje os governos subsidiam agricultura, casas próprias, e isso também leva à distorção das linhas de crédito”, afirma.

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12/05/2009 16:35
Especial II FCS - O homem não é o centro do mundo, por Sucena Shkrada Resk
As palavras da monja Coen, no II Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade, realizado, neste mês, em São Paulo, são simples, mas profundas em conteúdo. E com certeza, são de valia para qualquer um de nós, para o exercício de reflexão.

Seguem algumas frases que ela disse, ao tratar da Carta da Terra, que nada mais é, que um apelo pela sustentabilidade.

"O ser humano não é o centro do universo...".

"O que falamos e pensamos interfere na vida do outro..."

"No final da Carta da Terra, continuamos lutando pela paz e justiça..."

"Devemos praticar o princípio ético de mudança do modelo mental..."

"Responsabilidade é atuar para transformar..."

"Cuidamos e seremos ser cuidados..."

"O eu é feito do não-eu..."

"Somos planta, sistema de saúde, educacional..."

"Evitemos ficar ensimesmados..."

"A minha felicidade depende da felicidade de todos os seres".

Creio que não é preciso distender muito sobre esses pensamentos da Monja Coen, que não agridem credos ou outras doutrinas...Às vezes, ser sintético e objetivo vale muito mais que se expressar em textos prolixos, que nos desviam das verdadeiras reavaliações de nossas condutas nesse mundo tão diferente, mas ao mesmo tempo, tão igual...
Sucena Shkrada Resk |




29/04/2009 19:15
Pensata: Respeito virtual, por Sucena Shkrada Resk
Volta e meia reflito como o e-mail ou o msn se tornam cada vez mais indispensáveis no nosso dia-a-dia, como ferramenta de trabalho, de estudo e da vida social, que exigem um código muito simples - o respeito virtual. A complexidade para esse exercício começa por situações que fazem com que essas ferramentas sejam em diversas situações um dispositivo de uma rede insana de bombardeios de mensagens. Diante da gama de triagem que temos de fazer (para dispensar os spams que não nos interessam), antes de começar nossas atividades, lá se vão bons minutos preciosos de nossas vidas. No meu caso, são por volta de 40 mensagens por dia, extra os supostos vírus.

Por outro lado, no meio dessa artilharia, há informações importantes. Num pequeno desviar dos olhos, lá se vai uma boa oportunidade de pauta, encontro, bate-papo... Haja atenção!!!! E ainda temos de nos preocupar com mais um detalhe: não deixar o interlocutor de nossas relações sem respostas. Afinal, nada é mais descortês do que deixar "alguém escrevendo sozinho" com o alter ego. O correio eletrônico nada mais é do que uma versão tecnológica das conversas ao telefone, das cartas e até (uma versão mais simplificada) do contato ao vivo e a cores. Mas ainda estamos longe de explorar em 100% as potencialidades desse meio de comunicação.

Sucena Shkrada Resk |




27/04/2009 14:51
Cadê o transporte ferroviário de passageiros neste país?, por Sucena Shkrada Resk
A política de transporte ferroviário de passageiros no Brasil é inconsistente e chega a representar um escárnio aos cidadãos. Ao pesquisar o site das principais ferrovias brasileiras, no Ministério dos transportes (http://www.transportes.gov.br/bit/mapas/mapclick/ferro/mapferr.htm) , é possível verificar que são registradas duas estradas de ferro de âmbito federal/regional - a de Carajás, PA, e a de Vitória a Minas, operadas pela Vale. Na esfera estadual, existe a malha da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), em São Paulo, e no Rio de Janeiro, a Cia. Fluminense de Trens Urbanos. Já a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) gerencia linhas em João Pessoa, Maceió e Natal. O restante da malha ferroviária é destinada a transporte de cargas (28,5 mil km de extensão), e à modalidade turística.

Tendo em vista a dimensão continental do país, isso é infimamente pouco, quando se trata de pessoas desempregadas e assalariadas, que dependem estritamente de transporte coletivo. O 'vazio ferroviário' na região Norte chega até a causar um certo desconforto. Não estou entrando sequer ainda no mérito da qualidade.

O próprio ministro das Cidades, Márcio Fortes, em matéria veiculada pela Agência Estado, em 29/03/07, cita que, 35% da população brasileira anda a pé por não ter outro meio de transporte para se locomover. Segundo ele, dos que utilizam transporte público, somente 10% usam o sistema de trilhos como metrô e trens de superfície.

Dessa forma, o que vemos rotineiramente é que, nós, brasileiros, temos de nos defrontar com sistemas rodoviários inchados, em alguns locais, ausentes ou carentes de infra-estrutura, em outros. Além disso, com a adoção da modalidade rodoviária como forma predominante significa o estímulo ao aumento da frota de veículos automotores, o que gera mais adensamento principalmente nas regiões metropolitanas, e poluição. Nunca é demais lembrar que São Paulo, há muito tempo, já ultrapassou a frota de 6 mi veículos. E que a redução de enxofre no diesel em ônibus e em alguns tipos de trens ainda é uma adoção que demorará - sabe-se lá quantos anos ou décadas - a ser colocada 100% na prática, no Brasil.

E quando me deparo com notícias recentes da implementação do Trem Turístico da Luz a Jundiaí, e que em maio, vai ser retomado 'um trecho' do Trem do Pantanal, me surge a seguinte reflexão. Do ponto de vista turístico, são iniciativas interessantes (ainda a ser analisadas também quanto ao aspecto de retorno socioeconômico e ambiental . Entretanto, são passeios, que não saem barato, para quem precisa trabalhar todo dia e é descontado, se chega atrasado ou até não chega no serviço. Afinal, quanto tempo mais vai demorar para que nossos governantes e empresários percebam que é preciso mudar a mentalidade logística neste país, tirando a 'sustentabilidade' dos discursos e a colocando na prática administrativa?
Sucena Shkrada Resk |




20/04/2009 15:56
A mensagem socioambiental é atemporal, por Sucena Shkrada Resk
Pequenas ações do cotidiano são muito mais representativas do que possamos imaginar, quando se trata de iniciativa socioambiental. "Só a sociedade pode ajudar no descolamento da política com relação à ação administrativa. Aos professores cabe levar aos alunos, a mensagem para tentar mudar o mundo, como uma idéia que não se esgota em nosso tempo de vida...As crianças e jovens devem compreender que são a natureza. Portanto, tudo que acontecer com a natureza, acontecerá com o corpo deles", diz o jornalista Washington Novaes, 74 anos. A afirmação foi dirigida a uma platéia predominantemente formada por educadores do ensino público, no último dia 17, no Espaço Sabina, em Santo André, SP - oportunidade, em que o jornalista contou que é filho também de professor.

O especialista em Meio Ambiente transmitiu a mensagem de que os obstáculos têm de ser encarados de uma forma 'desafiadora' pela sociedade civil. "Sou uma pessoa experiente em derrotas. Mas não desista (m). Porque não há outra alternativa. A desistência é mais deprimente", disse em resposta a uma moradora da região, que narrou a dificuldade da mobilização social para se manter uma área verde na cidade.

Durante sua exposição, alertou que o Aquecimento Global já está acontecendo e não pode ser encarado como algo ligado a um futuro longínguo e descontextualizado de realidades contemporâneas, como o fato de 1 bilhão de pessoas passarem fome todos os dias. Ele citou que um argumento a ser levado em conta é o estudo do ex-economista-chefe do Banco Mundial (Bird), Nicholas Stern, feito em 2006. "Na época, ele disse que temos uma década para superar a questão do aquecimento global e isso custaria 1% do Produto Interno Bruto (PIB ao ano). E se não enfrentarmos isso, teremos a mais grave recessão da humanidade". E recentemente, Novaes afirmou que ao falar com o economista, recebeu a seguinte informação - "Ele me disse que foi muito otimista, e que o custo deverá ser até 3% do PIB".

Na contabilidade dos prejuízos ambientais já existentes, estão o processo de desertificação de 60 mil km de terra anualmente, a falta de acesso à água potável por mais de 1 bi de pessoas, o desaparecimento de 55% das espécies tropicais nas últimas décadas. "Os manguezais estão duas vezes mais degradados que as florestas, por causa principalmente da exportação de camarão, na América do Sul. E um quarto dos estoques pesqueiros no mundo desapareceram, e eles representam 40% das proteínas que a humanidade recebe principalmente nas zonas costeiras", disse.

O desmatamento na Amazônia e Cerrado - que são as principais causas da emissão do Brasil - não são atacados de forma incisiva pelo país. "Mesmo o Brasil sendo o 4º maior emissor, se recusa a assumir compromissos obrigatórios na Convenção do Clima".

Um ponto pouco discutido e de suma importância para a pauta das Mudanças Climáticas e Aquecimento Global, de acordo com Novaes, é das emissões de metano proveniente da pecuária brasileira. "É 23 mais agressivo que o gás carbônico, apesar de permanecer menos tempo na atmosfera. E é decorrente em sua maioria, do processo de ruminação do gado bovino", explicou.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de Jaguariúna, segundo o jornalista, fez a medição de que cada boi emite 58 kg de metano por ano. "O Brasil tem 205 mi bois. Isso dá 10 mi ton por ano, o que equivale a 250 mi de ton de CO2 equivalentes. Essa quantidade é o que toda a indústria e transporte produz por ano", disse.


Ele informou que outros países já se mobilizam para encontrar opções para reverter esse quadro. "A Nova Zelândia vai impor uma taxa sobre emissão de bois e ovelhas. Na Alemanha, conseguiram reduzir em 25% o metano na pecuária, adicionando óleo de peixe na ração. Tomara que essa solução se confirme, pois poderá ser um caminho", disse.

Segundo o jornalista, hoje vivemos a crise do padrão civilizatório. "Temos de mudar tudo nos modos de consumo. Senão só íremos nos deparar com guerras e mais guerras para a disputa de recursos". Nesse contexto, citou estudos científicos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) que apontam a possibilidade do aumento superior a 4º na temperatura Média do Planeta.

O jornalista teceu críticas à política econômica brasileira x as prioridades socioambientais. "Está voltada ao crescimento a qualquer preço". Segundo ele, o país tem possibilidade de ter uma matriz eficientemente renovável. "Hoje é predominantemente hidrelétrica. Não há necessidade de se construir mais usinas. Só a energia eólica seria capaz de abastercer o consumo, junto com outras fontes, como a solar, das marés, o etanol. Precisamos de eficiência energética", afirmou.

O tema desperdício de água foi também tratado de forma enfática pelo jornalista. "As maiores cidades brasileiras desperdiçam 45% de água", disse. "As grandes empreiteiras só querem fazer as grandes obras, em vez das pequenas manutenções necessárias", disse. Ainda sugeriu que seja elaborada uma legislação para que cada imóvel retenha água de chuva. "Teria utilidade para não agravar o problema das enchentes", argumenta. Outra medida simples e com resultados rápidos, segundo ele, seria a mudança efetiva de equipamentos de descarga sanitária no país. "Modelos novos gastam somente 3 l contra 20 l. O Japão, por exemplo, já usa tecnologia a vácuo", explicou.

Novaes ainda destacou que a questão do saneamento ambiental é grave. Segundo dados oficiais (de difentes fontes), 10% da população brasileira não tem acesso a saneamento e praticamente 50% está sem esgoto. E no contexto mundial, 23% da população defeca nas ruas - o que pode ser considerada uma das situações mais humilhantes a um ser humano.

Dentro dessa complexa rede de problemas, está a questão do lixo. "Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil são produzidas 230 mil toneladas de lixo (1 kg por pessoa/dia) e a maioria segue para lixões a céu aberto, produzindo chorume, que contamina o solo e os lençóis freáticos", diz. Por outro lado, todas as cidades que mantêm aterros, estão com o período de utilização praticamente esgotado. E a tendência está sendo levar cada vez mais o lixo para mais longe, de uma forma global, de acordo com o jornalista. Ele citou que Nova York manda 12 mil toneladas/dia de lixo a 500 km de distância.

"Já Toronto, no Canadá, chegou a criar um expresso ferroviário para encaminhar sua produção a 800 km, em uma antiga mina de ferro", explica. No Brasil, um exemplo é da cidade de Curitiba, que apesar de ser considerada modelo, abriga 190 m de altura de lixo em seu aterro, com perigo iminente de desmoronar.

Novaes acredita que uma das soluções para o lixo é gerar um custo para o gerador. "Na Alemanha é assim", explicou.
Sucena Shkrada Resk |




20/04/2009 10:57
Especial - Amazonas-Tapajós/PA 4 - A sensação de pertencimento, por Sucena Shkrada Resk
Vivenciar o encontro dos rios Amazonas e Tapajós, na altura de Santarém, PA, foi uma experiência única para mim. Pude observar que, com seu tom ocre barrento, o maior rio do mundo não se mistura às águas do lindo Tapajós esverdeado. Cada um segue seu rumo, solitário, pela Amazônia. Assim demarcam a presença geográfica e ficam guardados nas retinas e nas objetivas de máquinas de visitantes, que chegam às dezenas, nos navios de linha e embarcações fluviais que percorrem o trecho. Essa sensação me marcou, no último dia 25 de janeiro, quando cheguei lá, no navio Nélio Corrêa, em uma viagem que durou cerca de 61 horas, a partir de Belém.

Estava ao lado de índios mundurukus e boraris, que haviam participado do Fórum Social Mundial, de parteiras de Alenquer, de ribeirinhos do Tapajós, de migrantes que estavam tentando a sorte em Manaus, de amazônidas de Parintins, de Rondônia, que aindam teriam mais boas horas de viagem até seus destinos. Nesse caldeirão, ainda havia espaço para turistas alemães, espanhóis, paulistas...Descobri que fronteiras inexistem quando queremos, e me envolvi em uma atmosfera de 'pertencimento'. Pois no meio de quase 300 pessoas, colocaram a minha rede (que comprei no Ver-o Peso), no segundo piso da embarcação, onde tinha como companheiros de conversa e sono, essas pessoas provenientes dos mais variados locais.

Nessa hora, a gente perde qualquer frescura. Pois as malas se amontoam sobre os estrados abaixo das redes, numa bagunça - diríamos - organizada. Mas cada um sabe o seu limite e respeita essa falta completa de espaço. Formam-se filas para a hora da refeição feita no navio - uma comida simples e caseira, ao custo do tradicional prato feito. Na hora do banho, aprendi que é preciso saber a hora estratégica de conseguir a vez, sempre afastado das paradas, porque a água vem do rio. Assim, se evita contato com água contaminada.

Entre um bate-papo cá e acolá, uma entrevista jornalística e a êxtase de observar o Amazonas e toda a paisagem que o circunda, que mescla florestas densas, pastagens, pequenos povoados e cidades, como Almeirin e Prainha, consegui me desligar totalmente de minhas 'preocupações urbanas'. E aí, minhas preocupações começaram a se expandir para o planeta.

Enxergar as margens desses rios, em certos momentos, foi quase impossível, pois por muitas vezes chegam a cerca de 20 km de largura. Nesse momento, percebi o quanto somos ínfimos diante à natureza. Com a grandeza de mar, se perdem de vista. Volta e meia, pequenas canoas ou barcos a motor passam com os povos da terra, gente humilde, que vive, em sua maioria, da roça e da pesca. Que sensação boa!!!! Brasileiros que se confundem com a floresta, pois estão lá, fincados em palafitas, ou pequenas casas cobertas de sapé, muitas vezes, sem janela...

Mas janela, para quê??? Afinal, quer paisagem mais linda do que ver a maior floresta tropical do mundo, em seus mais diferentes contextos. Ora com as águas ribeirinhas, ora com árvores frutíferas, como do açai, cajá, árvores centenárias com seus troncos robustos...Mas ao mesmo tempo, o excesso de simplicidade esconde problemas de saneamento básico, o fantasma das cheias e outras pecualiaridades, que também fazem parte da realidade das populações locais.

Até agora, não consigo me esquecer da cena que flagrei no rio Pará (afluente do Amazonas), no trecho do Estreito de Breves, em que várias canoas lotadas de crianças se aproximavam do navio, em busca de donativos - como roupas, calçados e até alimentos. Em um primeiro momento, fiquei chocada e emocionada, em ver aqueles pequenos cidadãos remando com uma força, que exige demais de seus corpos franzinos...Davam gritos uníssonos, como um código universal de contato com os turistas. Daí, sacos eram jogados da embarcação, e lá iam os amazônidas coletar os donativos do dia. Quando percebi, também já havia retirado algumas peças de minha mala e jogado na direção deles.

Da emoção, parti para a reflexão. O rio substituiu os faróis nas grandes cidades. Percebi que poucos adultos se aventuravam a fazer o pedido. Então, me veio à mente - Será que os pais ou responsáveis por essas crianças as colocam nesse contato, para sensibilizar...? Isso é justo e honesto? Esse pensamento até hoje me perturba e faz com que eu queira ter maior profundidade sobre esse "cotidiano" triste, que revela as carências que assolam esse pedaço do país. Será que o Conselho Tutelar atua nessa região? Mais um impacto...Madeireiras, fumaça e o som de motoserra...

De repente, outro impacto. Uma dessas canoas capitaneada pelo garoto José Cleberson, 11 anos, se atracou ao navio. Ele fez um esforço imenso para amarrá-la à embarcação em movimento. E nesse confronto, engoliu muita água. E seus produtos de venda (castanhas-do-pará abrigadas em pequenos saquinhos), cacau e pupunha estavam ensopados. Mesmo assim, a clientela começou a adquirir um e outro, a R$ 0,50 cada. Comprei dois saquinhos e puxei papo com ele, para saber um pouco de sua vida.

"Mamãe coloca para mim e eu venho vender nas férias. Eu estou, agora, na 4ª série", disse. E espontaneamente, completou - "Mas gosto mais de estudar". Isso calou fundo para mim. Não é preciso dizer mais nada, diante dessa afirmação. Daí, senti tristeza em ver como a situação de José é 'rotineira' para dezenas de crianças...

E foi assim que tive o choque dos diversos brasis em que vivemos, em que há a distância do Estado. O Estado que não supre as necessidades da retaguarda da saúde, da educação, de mecanismos sustentáveis de geração de renda, o Estado que não consegue ter uma ação fiscalizatória eficiente para coibir o desmatamento, a extração de minerais...O Estado que não tem uma política eficiente para facilitar os planos de manejo e de baratear o transporte dos ribeirinhos.

Isso não exime a iniciativa privada - tantas vezes predatória e 'quase escravista', que utiliza a mão-de-obra dessas pessoas, de forma desumana. E, nós, enquanto sociedade, somos omissos e 'alienados', preocupados somente com os problemas que aparentemente só nos circudam.

Afinal, depois de anos de embate, não há mais contestação de que os povos tradicionais têm o direito de viver nas unidades de conservação. Mas para isso, é preciso mais que legislação, mas a aplicação de uma nova cultura e política administrativa inclusiva.


Sucena Shkrada Resk |




20/04/2009 08:50
Especial - Tapajós/PA 3 - Dedicação ao próximo, por Sucena Shkrada Resk
Mais um personagem da região do Tapajós, PA, que conheci em fevereiro deste ano, é Rosivaldo Lopes Santos, 53 anos, que exerce a função de chefe de máquinas do navio-hospital Abaré, do PSA, desde 2006. Ele contou que por 35 anos atuou nesta área, entre AM e PA, sendo a maior parte do tempo com derivados de petróleo. "Agora, com a saúde, tenho mais cuidado e posso me dedicar ao próximo. É um peso maior de responsabilidade", disse.

Uma das boas recordações dessa nova fase de sua vida, segundo ele, se refere a um dia que foi transportar uma ribeirinha que ia dar a luz, e o bebê acabou nascendo na própria canoa. "Foi em 2007, na região de Caratinga. Nunca tinha feito antes um parto em minha vida. Nessa hora, esqueci o medo e nasceu uma menina robusta...", se recorda.

No dia-a-dia de trabalho, se deparar também com a possibilidade da morte é uma constante para o chefe de máquinas. "Levamos acidentados. São cenas que, muitas vezes, chocam, porque há casos de esfaqueados e pessoas que levaram tiros. Mas o fato de poder ajudar essa gente é uma diferença que nos faz sentir bem", contou.
Sucena Shkrada Resk |




16/04/2009 13:40
Especial - Tapajós/PA 2- Os valores das raízes, por Sucena Shkrada Resk

crédito: Sucena S.Resk
Dizem que não devemos viver de saudosismos, mas me permito a esses arroubos, quando me lembro dos ribeirinhos que tive oportunidade de conhecer, quando acompanhei o trabalho da equipe do navio-hospital do Projeto Saúde e Alegria, ao longo do rio Tapajós, durante uma semana, em fevereiro deste ano. Um dos personagens que mais me chamaram a atenção, foi Waimberg Braga, 81 anos, que há 30 anos vive na comunidade de Prainha.

Com seu cajado, subiu no navio Abaré, para ser assistido. Praticamente cego e com passos lentos, o aposentado, pai de 10 filhos, não se sente desanimado. De conversa fácil e amistosa, me contou que os filhos hoje o auxiliam na produção da farinha artesanal e no 'rancho'. "Aqui, a vida é saudável. Todo mundo tem conduta exemplar. Fico 'sentadinho' dentro de casa e meus filhos vão conversar comigo, para eu poder orientar o trabalho na lavoura", disse.

O "senhor" Braga afirma que se sente feliz em viver em sua casa de madeira, coberta por palha. "Os meus filhos também estão aclimatados por aqui, mas acho que os netos vão acabar indo para a cidade grande. Como eu sempre fui abelhudo, cheguei a conhecer também São Paulo e Rio de Janeiro", conta bem-humorado e reflexivo. Mas as metrópoles, segundo ele, não foram suficientemente atraentes, para que permanecesse por lá.

"No município de Portel, onde nasci, as casas de pedra que os índios caiapós e mundurukus moram são lindas. Dessa paisagem, eu nunca me esqueci", disse também o saudoso ribeirinho, que fez um pacto com suas raízes. E lá foi ele para sua consulta, tranquilo e com o sorriso de quem tem ainda muita história para contar.

05/03/2009 21:25 Início - Especial Tapajós/PA 1- Pensata - A distância do poder público com os povos da floresta, por Sucena Shkrada Resk

Ao acompanhar a viagem de trabalho do navio-hospital Abaré, do Projeto Saúde e Alegria (PSA), no mês de fevereiro, percebi o quanto a saúde pública precisa ter novos parâmetros neste país. Vi ribeirinhos do rio Tapajós, no Pará, aguardando ansiosos pelo atendimento, já que são desprovidos de efetiva assistência local em suas comunidades. A unidade fluvial coordenada pela organização não-governamental (ONG), em funcionamento desde 2006, mantém uma equipe própria, que divide o atendimento, com equipes do Programa Saúde da Família (PSF) dos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro. Na prática, entretanto, nem sempre o staff público está completo, o que mostra a carência de profissionais neste pedaço do país.

As poucas vilas, que têm "postos de saúde", enfrentam inimigos poderosos, que são a escassez de energia, já que a geração só ocorre à noite, geralmente, das 18h às 21h; a falta de material humano efetivo e, obviamente, condições dignas de trabalho.

A logística é mais um fator preponderante, que pode definir a vida ou morte desses cidadãos ribeirinhos. Afinal, praticamente o único meio de transporte na região, é fluvial. Em alguns casos, as pessoas perdem mais da metade de um dia para chegar a Santarém - maior município, onde há retaguarda hospitalar.

Diante desse estado de carência, em que o terceiro setor tem de agir, devido à ausência da ação permanente do Estado, me senti indignada ao ver as campanhas partidárias na TV; uma certa revolta diante de tanta verborragia - em que a retórica fala mais alto, sem profundidade em ações, já que sai governo e entra governo, e a reestruturação das políticas de saúde não avançam nos confins do Brasil.
Sucena Shkrada Resk |




26/03/2009 12:16
Os efeitos do crescimento desordenado, por Sucena Shkrada Resk
O mosaico da cidade de São Paulo se transforma diariamente e não nos damos conta desses movimentos, que em muitas situações acarretam em transformações bruscas em nossa qualidade de vida. Segundo a arquiteta Marta Dora Grostein, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), é preciso rever as opções de políticas públicas, para que erros não sejam repetidos, e um aspecto relevante está na importância do uso e parcelamento sustentável do solo. A especialista foi uma das participantes do Seminário "As relações entre psicologia ambiental, ecologia, antropologia e política", realizado pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP).

Apesar de o Plano Diretor de São Paulo de 2002 apresentar enfrentamentos da informalidade, com Zonas Especiais de Interesse Social, ainda enfrenta um inimigo perverso - os mecanismos do mercado imobiliário. "(Em tese), a legislação combate os loteamentos ilegais e propicia a facilidade para regularização fundiária e cria possibilidades de empreendimentos populares, mas isso depende também de facilidades de sistemas de financiamento", diz.

Marta destacou que é preciso se ter em mente que o mundo é mais urbano e que os países em desenvolvimento devem apresentar os maiores crescimentos das grandes metrópoles. A constatação é de um documento produzido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2006. "Por isso, é preciso a transdicisplinaridade, principalmente nas dimensões políticas, para se entender as ações públicas", disse. A arquiteta defende que a gestão pública seja pensada de forma a unir ações das principais regiões metropolitanas, que no caso de São Paulo, ainda agrega as de Campinas e da Baixada Santista.

Entretanto, crescimento não significa desenvolvimento. De acordo com a arquiteta, um exemplo significativo é da própria região metropolitana de São Paulo, onde vivem 17,9 mi pessoas, sendo 10,4 mi só na capital. "Desde os anos 40, há um crescimento desordenado que reflete em impactos no clima, nas condições de impermeabilização do solo e em desaparecimentos de coberturas vegetais, entre outros", afirmou.

Para a especialista, a gestão política regional é uma alternativa satisfatória para a região metropolitana, que não é efetivada. "Os subcomitês de Bacias Hidrográficas não 'funciona', quando se trata do parcelamento e ocupação dos solos (o que deveria ocorrer)", avalia.
Os reflexos são as enchentes, a dificuldade de abastecimento de água e produção de ilhas de calor. "Aspectos regionais têm de ser equacionados. A Região Metropolitana hoje recorre à Bacia do Piracicaba, a quilômetros de distância, que também atende à região de Campinas", exemplifica.

Há também os impactos nos ambientes construídos, segundo a professora da FAU, decorrentes do consumo indiscriminado e desperdício de solo urbano, atividades urbanas inadequadas. "As regiões da Sé, da República e Cambuci, por exemplo, sofreram um esvaziamento, a partir dos anos 80. O mesmo aconteceu no centro expandido, entre os rios Tietê e Pinheiros, em que áreas residenciais passaram a absorver o comércio e o crescimento do setor terciário".

Até os anos 30, houve a consolidação dos bairros centrais, se passou dos tempos dos trens e bondes. Nessa época, na gestão de Prestes Maia, foi elaborado o único plano viário estruturante da cidade de São Paulo. "Tinha forma concêntrica e se baseava na estratégia de canalizar córregos, colocando avenidas em cima (causando impermeabilização), o que foi implementado até os anos 70, quando começaram as construções das avenidas marginais", explica. As populações, que viviam às margens desses córregos, por muitas vezes se deslocaram para os mananciais.

Já na década de 40, houve a expansão da mancha urbana. "Das vilas operárias e cortiços, aconteceu um segundo momento, para a construção das periferias, que prosseguiu até os anos 80", disse.
"Só na Cidade Tiradentes vivem cerca de 200 mil pessoas em conjuntos habitacionais, sendo 500 mil na Zona Leste. Para a implementação, ocorreu um desmatamento indiscriminado à época, que não pode mais se repetir", diz.
Dos anos 80 em diante, ocorreu a diminuição do loteamento popular como moradia. "Resultou na crise do valor da terra e no crescimento das favelas, além da ocupação em áreas de proteção de mananciais, permitindo o descontrole dentro de nossa caixa d`água - a represa Billings (além da Guarapiranga e Cantareira), que afetam diretamente a nossa qualidade de vida", considera.

Nas áreas de mananciais, a precariedade de assentamentos resulta na desconexão dos moradores com o resto da cidade. As dificuldades de transporte, segundo ela, é um dos pontos nevrálgicos ainda.

"A construção de represas, como a Henry Borden, fez com que houvesse um maior volume de água da Billings. A reversão do Pinheiros foi necessária para garantir esse volume. Por um outro lado, a Lei de Proteção dos Mananciais, nos anos 70, propicioi que o preço das áreas baixassem e (de certa forma), facilitou a ilegalidade", analisa. Hoje, Marta considera que o Programa sobre os Mananciais desenvolvido entre o município e o Estado já é uma ação importante, mas não basta.

Hoje, dos 96 distritos da cidade, 53 deles estão perdendo população, enquanto os 43 periféricos estão tendo um acréscimo significativo de moradores. "Nos bairros da Liberdade, Mooca, Cambuci, entre outros, está ocorrendo um movimento imobiliário de grandes condomínios, sem retorno de área pública", alerta.

Com isso, está se criando uma cidade murada, onde a vida comunitária sofreu um impacto. "Na zona Sul de São Paulo, por exemplo, existe um condomínio que ocupa 98 mil m2 de área, onde antes havia uma indústria", diz. Em alguns casos, o perigo de contaminação do solo (de origem industrial) é mais um ponto preocupante a se destacar. "Vide casos, como o que ocorreu com o Condomínio Barão de Mauá, na cidade de Mauá", ilustra.
Sucena Shkrada Resk |




26/03/2009 11:12
Pensata - São Paulo: a caminho da insustentabilidade, por Sucena Shkrada Resk
O inchaço da região metropolitana de São Paulo é uma construção que se consolida através dos séculos, especialmente pós revolução industrial. A idéia de progresso trouxe nas entrelinhas a diretriz de ganhar a qualquer custo. O custo da qualidade de vida, do respeito ao homem e à natureza que nos circunda - enfim, ao meio ambiente. Então, questiono - viver na área urbana é sinal de modernidade? Se modernidade é viver sob a pressão da carga de poluição de mais de 6 mi veículos, produzir individualmente um kilo de lixo por dia, se deparar com enchentes porque o solo está impermeável e as redes não comportam o crescimento demográfico e de edificações, então não quero ser moderna. Quero desconstruir o que aprendi na escola, nos ditames da sociedade de consumo. Mas será que ainda há tempo, pelo o menos, para as próximas gerações?

Todas essas indagações me perseguem diariamente, quando ando a pé ou por qualquer meio de transporte, do Grande ABC a São Paulo - terra onde nasci e me criei. Olhar o Ribeirão dos Meninos, o rio Tamanduateí, o Tietê e o Pinheiros causa literalmente depressão. Ao me deparar com a quantidade considerável de entulho na calçada próxima à Estação de Tratamento de Esgoto do Grande ABC, na avenida Almirante Delamare é mais um paradoxo rotineiro. Um pequeno exemplo, que se repete exaustivamente, por toda a região.

Daí penso - será que os moradores de Heliópolis e de outras regiões que sofrem os mesmos problemas se acostumaram com isso? Em que carrinheiros e caminhões, sem cerimônias, despejam toneladas de resíduos da construção junto a resíduos orgânicos, atraindo todo tipo de animal e insetos? E a coisa não pára por aí. O mau exemplo se estende, agora, mais adiante, em outras esquinas. Um efeito multiplicador que é registrado em poucos meses. Imagine, daqui a alguns anos, se nada for feito...Cadê a bendita cidadania e as ações mais presentes do poder público?

Outro impacto dessa urbanidade é ver boa parte do bairro do Ipiranga, na parte baixa, Mooca, ou da Lapa, por exemplo, todo pichado. A região central, então, um mosaico do conflito do antigo com o moderno, em que a poluição visual, atmosférica agridem em paralelo com a degradação socioeconômica.

Paredes recém-pintadas já têm a marca preta das fuligens dos veículos que trafegam freneticamente por todas as vias. Essas mesmas fuligens e gases entram em nossos pulmões e olhos causando um mal-estar, que em muitos casos, se transformam em doenças.

Ser urbano é isso...Ver debaixo do Elevado Costa e Silva, moradores em situação de rua, sobre papelões e comendo restos de comida, ou então, perto do Mercado Municipal, lavando suas roupas na água, que sai de ligações clandestinas, que desembocam na rede pluvial.

Ser urbano é encontrar perto do Teatro Municipal e da Estação Julio Prestes jovens cheirando cola, cambaleantes, sem perspectivas de vida.

Ser urbano é ver centenas de favelas e pessoas desempregadas que perderam sua auto-estima, vivendo em casas de tapumes ou sobre o esgoto, convivendo com os ratos e baratas.

Ser urbano é ver jovens sairem com seus carros possantes, desrespeitando os pedestres e pessoas se matando, por motivos passionais.

Ser urbano é ver que um parque Ibirapuera, um Horto Florestal ou um Parque da Cantareira são pequenos pulmões ameaçados diariamente pelo crescimento desordenado da cidade e pela falta de educação, de nós, seres humanos.

Ser urbano é consumir, consumir, consumir e produzir lixo e mais lixo, achando que sua destinação é evaporar simplesmente, sem se dar conta sobre a questão de lixões e aterros que não aguentam mais toda essa produção descontrolada.

Ser urbano é ter medo de sair nas ruas e até ficar dentro de casa refém da insegurança. Olhar desconfiado para o outrém, sem saber o que poderá acontecer daqui a um segundo.

Enfim, que urbanidade é essa, que exala dialeticamente um pseudo quê de superioridade, com a riqueza de cultura, diversão, educação? ...Já que é um verniz de uma realidade bem diferente.
Sucena Shkrada Resk |




19/03/2009 11:16
Madeira: protocolo pela certificação, por Sucena Shkrada Resk
Alterar os padrões de consumo de madeira tropical no país, proveniente principalmente da Amazônia, é um dos desafios mais importantes que o Brasil começa a enfrentar. Nesse contexto, o estado de São Paulo tem um papel relevante na cadeia produtiva, já que consome cerca de 15% da produção dirigida ao mercado nacional (dados Imazon). E desse total, 70% são destinados à utilização somente na construção civil. Esses são argumentos fortes, que revelam que o combate ao aquecimento global, provocado pelo desmatamento, não pode ser visto como uma ação isolada no país.

Essas premissas nortearam o acordo de cooperação técnica, assinado ontem, dia 18, entre as secretarias municipal do Verde e Meio Ambiente e estadual do Meio Ambiente de São Paulo, a Prefeitura Municipal, o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) e a Associação dos Produtores Florestais Certificados na Amazônia (PFCA). O protocolo ainda conta com a parceria do WWF-Brasil e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), com a expertise de pesquisa, entre outras instituições.

Durante o evento, realizado no Centro Cultural São Paulo, houve o lançamento da 2ª edição do manual "Madeira - Uso Sustentável na Construção Civil", elaborado inicialmente em 2004, que está disponível em versão digital, nos sites (www.ipt.br, www.prefeitura.sp.gov.br/svma, www.sindusconsp.com.br), responsáveis pela produção do material. Já o WWF-Brasil lançou o manual "Seja Legal" - boas práticas para manter a madeira ilegal fora de seus negócios, também em versão para download no sítio www.wwf.org.br/sim.

Geraldo José Zenid, do IPT, explica que a madeira é classificada em ilegal (em torno de 80%), legal (quando tem procedência de manejo e desmate regularizadas pelos órgãos oficiais) e certificada. "Nesse último caso, hoje as certificações são expedidas por meio do Conselho de Manejo Florestal do Programa Brasileiro de Certificação (FSC), e pelo Inmetro, com o Cerflor", diz.

"As desvatangens neste mercado é a exploração irracional, o desconhecimento das características básicas das madeiras por parte dos consumidores e a deterioração biológica e a suscetibilidade ao fogo", explica Zenid. Segundo ele, o mercado concentra uma tradição (que pode ser mudada) em peróba-rosa para estruturas e coberturas, e pinho paraná para usos temporários e leves, por exemplo. "O manual aponta opções de madeiras em substituição de espécies nativas e tradicionais, de forma racional", afirma.

O engenheiro florestal do WWF-Brasil, Estevão Braga, esclarece que o manual da entidade tem o objetivo maior de apoiar o uso da madeira certificada. "Não basta ser legal. Para o mercado consumidor o desafio é saber se está comprando um produto de área reflorestadas ou de manejo sustentável (de fato). Nos últimos 20 anos, 1 mi hectares de florestas naturais foram perdidos na Amazônia, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)", fala.

Segundo o presidente do Sinduscon-SP, Sérgio Watanabe, é necessário se tornar uma prática constante que os departamentos comerciais de compras no setor da construção exijam os documentos de origem florestal. "Para isso, estão sendo promovidos processos de capacitação", disse. Ao mesmo tempo, a iniciativa da parceria visa que os consumidores possam conhecer as alternativas de aquisição de madeiras legalizadas e certificadas.

"É difícil ver inúmeros casos de ilegalidade de empresas do setor de madeira no N do país tomando a maior parte dos noticiários. Queremos mostrar que existe um setor produtivo sustentável, que tem um forte impacto social. Apesar de depender de políticas públicas, planos de manejo, temos a capacidade de trabalhar na legalidade", diz Leandro Guerra, presidente da PFCA.

O secretário municipal de Verde e Meio Ambiente, Eduardo Jorge, afirma, que a gestão municipal está contribuindo à iniciativa, desde 2005. "A Prefeitura assumiu a compra de madeira legalizada, por meio do decreto nº 46.380 e, agora estamos dando um salto, com a união com o Estado e demais entidades", diz.

Medidas mais recentes se referem ao bloqueio de gás metano nos dois grandes aterros, que atendem ao município - sendo o principal, o Aterro São João, cuja usina foi inaugurada no ano passado. "Com isso, neutralizamos 20% dos gases de efeito estufa da cidade".

Para o secretário, a partir de agora, o principal empenho da Prefeitura será o de viabilizar a aprovação no legislativo, do projeto do Executivo nº 530/08, que é o Plano Municipal de Combate Às Mudanças Climáticas. "O documento é semelhante ao de Londres, com 50 artigos, que trata de áreas verdes e compras sustentáveis, entre outros temas. A madeira certificada não consta no texto, mas podem ser apresentadas emendas", fala.

No âmbito estadual, o secretário Xico Graziano, garante que haverá um cerco maior na fiscalização dos caminhões que entram no Estado, transportando madeira. "São cerca de 150 por dia. Estamos parando muitos e começamos a observar que muitos podem estar com certificações "esquentadas" de origem. Estamos estudando formas de proibir a entrada de madeiras nativas em extinção, como jacarandá e massaranduba. Se os dados oficiais apontam que 90% da produção é ilegal na Amazônia, onde está este material?", diz. Para o secretário, é necessário o empenho na produção de florestas plantadas, como pinus, para suprir o mercado.

O projeto Municípios Verdes, em que o Estado incentiva as práticas sustentáveis, é mais um mecanismo para combater o desmatamento ilegal, segundo ele. "E uma das ações mais recentes da pasta é a implementação co CadMadeira. É um instrumento de cadastro voluntário (via internet) de comerciantes de produtos e subprodutos da flora nativa nos registros do Estado. Esses dados serão utilizados a partir de junho, para a seleção de fornecedores do governo de São Paulo.

Helena Carrascoza, coordenadora de Biodiversidade e Recursos Naturais (CBRN) da Secretaria, explica que as empresas deverão respeitar o processo de inscrição, em que há exigência de apresentação de documentações regulares. "Não pode ter nenhum auto de infração pendente. Ainda poderão pleitear o Selo Madeira Legal (emitido pela pasta), que tem como requisitos ainda a organização dos pátios, por tipo de madeira e espécie, que serão fiscalizados pelo Instituto Florestal (IF) e CBRN. "Semestralmente deverão apresentar relatórios de registros de controle de estoques desses pátios", explica. A iniciativa integra o projeto São Paulo Amigo da Amazônia, em parceria com o Greenpeace, entre outros.

Sucena Shkrada Resk |




18/03/2009 18:40
Ilhas urbanas, por Sucena Shkrada Resk
Impotência. Essa foi a sensação de milhares de pessoas (contexto no qual me incluo), nesta terça-feira, dia 17, quando uma chuva torrencial transformou a Grande São Paulo em um reduto de ilhas urbanas. As águas não deram trégua e tragaram carros, invadiram casas, impediram o direito de ir e vir dos habitantes e, em alguns casos, resultaram em mortes. Enfim, um caos da selva de pedra, que me lembrou o ano de 2002, um dos piores com relação às enchentes na região.

Quatro horas dentro de ônibus foi o tempo que levei dentro de São Caetano do Sul - uma cidade de apenas 15 km2, na tentativa de ir a São Paulo, e ao mesmo tempo, de retornar para casa, após perceber que era impossível seguir adiante por qualquer meio de locomoção terrestre. Carros, ônibus, trens - tudo parado. O trânsito na avenida Goiás e na Estrada das Lágrimas atingiu quilômetros, e os pontos visíveis de alagamento, na avenida Guido Aliberti e na avenida dos Estados foram algumas das amostras de uma tarde, em que foi possível detectar que não estamos preparados mais uma vez para a incidência de chuvas em março.

O Ribeirão dos Meninos, em São Caetano do Sul, que recebe as águas do Ribeirão dos Couros, em São Bernardo, não suportou a avalanche. Nessa altura, os piscinões construídos ao longo da Guido Aliberti, simplesmente foram inócuos.

Ao ouvir as informações sobre as condições do trânsito em São Paulo, enquanto lia um livro dentro do ônibus no Grande ABC, me dei conta que a situação era de perfeito caos. Nossas cidades tem suas vias impermeáveis, rede de águas pluviais aquém do crescimento da população, lixo que enche as bocas-de-lobo...Um ciclo vicioso em que há tanto a responsabilidade do poder público, como da sociedade. E não é possível mais "culparmos" a natureza pelos resultados das intempéries climáticas.
Sucena Shkrada Resk |




17/03/2009 11:37
O preço de uma Amazônia sustentável, por Sucena Shkrada Resk
Estudo da consultoria Mckinsey - Caminhos para uma Economia de Baixa Emissão de Carbono no Brasil, lançado neste mês, em parceria com o site Planeta Sustentável, da Editora Abril, mensura quanto é o custo para tornar a Amazônia Sustentável, num prognóstico até 2030, tendo em vista uma perspectiva de aumento médio global de temperatura de 2 graus Celsius. A conta é R$ 17 bi por ano, o que equivale ao gasto anual do Bolsa Família. Parte significativa desse valor pode ser custeado pelo mercado internacional de créditos de carbono, de acordo com a pesquisa. A avaliação foi feita em mais 19 países de 21 regiões do mundo.

O protagonismo do Brasil, nesse contexto, se deve ao fato de ser o quarto maior emissor dos gases de efeito estufa do planeta, em decorrência principalmente do desmatamento. De acordo com o levantamento, as queimadas na Amazônia representam mais da metade dos 2,1 bi toneladas de CO2, que o Brasil lança anualmente à atmosfera. No cálculo total, o país é responsável por 5% das emissões dos gases de efeito estufa (GEE) no mundo. Somente as implementações sugeridas nas florestas teriam o potencial de reduzir as emissões em 1,36 GtCO2e anuais em 2030. Já no setor agrícola, a redução seria de 262 MTCO2 anuais.

Dentre as duas centenas de propostas de ações em 10 grandes atividades econômicas constantes no documento, os focos principais são as regulações fundiárias, aumento de retaguarda de fiscalização e das ações do poder judiciário, monitoramento ambiental e garantia de origem. Nesse bojo, um aspecto considerado importante é a participação efetiva e incentivos aos povos da floresta para serem guardiões e terem condições de realizar o uso sustentável da floresta, além da recuperação das áreas degradadas. Há também propostas como a diminuição do ciclo de vida do gado e vacinas antimetano.

Os custos mais altos de investimento nos cálculos feitos pela McKinsey são na área de desenvolvimento econômico em regiões rurais e urbanas, com a finalidade de geração de emprego para pessoas que não estão envolvidas nas cadeias sustentáveis, além do desenvolvimento social (saúde e educação), seguidos da regularização fundiária e da contratação de efetivo de policiamento.

Ações que têm relação intrínseca com o consumidor final, como edificações e tratamento de resíduos, não ficam fora do cálculo, apesar de ser percentualmente menores, hoje, gerando 5% das emissões no Brasil.

A conta da dívida do Brasil com o planeta está nas queimadas, na utilização de fertilizantes nitrogenados, na pecuária extensiva - com cerca de 200 mi cabeças. O setor florestal supera o uso de combustíveis fósseis - que é a chaga dos países desenvolvidos. Nessa conjuntura, o grande desafio é eliminar o desmatamento até 2030, o que representaria 72% das oportunidades brasileiras de mitigação. A efetivação do Plano Nacional de Mudanças Climáticas é considerado um ponto importante para que haja a redução das emissões de carbono. Com isso, o Bioma Amazônia, que produz 55% das emissões, passaria a 43% em 2030.

O ministro do Meio Ambiente Carlos Minc, no último dia 16, foi conhecer o estudo e destacou quais são as medidas atuais, que o Governo está tomando, e os desafios de implementação de uma política mais efetiva.

Uma das ações já implementada é o corte de crédito aos desmatadores. "Isso obriga a que regularizem a situação, ponto de vista fundiário e ambiental", afirma. Outro, segundo o ministro, é o decreto sobre crimes ambientais, de julho do ano passado. "Com isso, há possibilidade do perdimento, que significa que antes do processo judicial, é possível confiscar os produtos de origem de crime ambiental para leilão, como já foi feito com bois e madeiras piratas", diz.

Com a medida provisória da Regularização Fundiária, aprovada há cerca de um mês, Minc considera que dois artigos são muito importantes para inibir o desmatamento. "Quem ganhar a terra e desmatar, perde o título. E se quiser vender a terra, só poderá se zerar o passivo ambiental", explica.

Mais um instrumento de pressão, de acordo com Minc, são as ações efetivas de embargos, inclusive, ocorridas com empreendimentos de assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), no MT. "A partir de agora, os novos assentamentos devem ter reserva legal com corredor contínuo, e os povos da floresta terão direito para uso sustentável da terra", afirma.

Entre os conjuntos de ações, o ministro citou ainda a medida tomada quanto ao pacto produtivo da moratória da soja, que prevê o comprometimento de que não se compre de área desmatada, desde 2006. Em contrapartida, o governo se compromete a melhorar mecanismos de licenciamentos, que já começaram a ser desburocratizados. O segundo pacto é quanto à exportação de madeira de Belém.

"Também fizemos pacto com a Vale, no setor de minério, com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com relação ao comprometimento de compra de madeira certificada. Já com os bancos públicos, de financiar somente empreendimentos sustentáveis", diz.

Os próximos até abril serão com a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), para intensificar as negociações, e com a associação de exportadores de carne. "Hoje há 15 mi cabeças fora das regras da vigilância sanitária", afirma.

Minc diz que os desafios são maiores, visto que, o ministério descobriu, inclusive, planos de manejo piratas na Amazônia. "Caminhões de carvões escondiam na proporção de 2/3, produto de mata nativa do cerrado do Espírito Santo, enquanto em cima estavam na conformidade", conta. A partir de abril, qualquer empreendimento que utilizar carvão, deverá compensar, como quesito de licenciamento.

Para dar conta da parte repressiva, o MMA irá contratar mais 1000 fiscais neste ano. "Também chamamos os 36 prefeitos dos municípios que mais desmatam na Amazônia para mostrar as imagens de satélite das áreas degradadas, para que haja uma ação conjunta", fala o ministro.

O Fundo Amazônia - que já tem como principais investidores a Noruega e Alemanha - deverá ser aplicado em empreendimentos sustentáveis a partir de maio. O montante chega a cerca de 18 mi euros. "O acompanhamento poderá ser feito em tempo real, por meio do site. Como é um fundo privado, dentro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), é isento de imposto", afirma.

A destinação das verbas deverá priorizar a implementação de unidades de conservação, melhoria dos produtos florestais, pagamento de serviços ambientais, regulação fundiária, Zoneamento Econômico e Ecológico da Amazônia (ZEE) - que deverá ser concluído até o fim deste ano - e apoio ao manejo florestal.

Minc esclarece que somente o Brasil tem assento na decisão da aplicação do dinheiro. "Esse ponto foi esclarecido, porque chegou a ser questionado antes da aprovação, se o Fundo poderia possibilitar a perda de soberania", diz.
Sucena Shkrada Resk |




17/03/2009 11:10
Bombaim é aqui, por Sucena Shkrada Resk
O filme norte-americano "Quem Quer Ser Um Milionário?", dirigido por Danny Boyle, baseado no livro do diplomata indiano Vikas Swarup, tem um roteiro digno de nota, que justifica os oito óscares recebidos, além de globos de ouro, entre outras premiações. Envolvente, emociona, pois mexe nas feridas dos países subdesenvolvidos e em "desenvolvimento", como o Brasil se define. Bombaim se torna São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador ou qualquer megalópole inchada pelo crescimento desordenado. O que chamamos de periferia bate de frente aos nossos olhos. Dá um norte para entender como é ser pobre socialmente falando em um mundo com medidas tão desiguais.

A favela com centenas de casebres, o lixo por todos os lados, esgoto a céu aberto, a violência pelo poder, num universo onde falta tudo, é como um choque sem tempo de recuperação. É um golpe na pretensão das camadas A, B e C de se julgar superior aos que vivem na miserabilidade. A viagem nas memórias do personagem central, o jovem Jamal Malik, interpretado por Dev Patel (na fase adolescente), é um primor. Afinal, é por esse caminho, que a personagem justifica a sua "verdade" ao ter um desempenho acima da média em um concurso televisivo, que vale milhares de rúpias.

O roteiro me fez lembrar de Paraisópolis, Heliópolis, em São Paulo, do extinto lixão do Alvarenga, no Grande ABC, do lixão de Salvador, dos bairros periféricos de Belém, PA. Enfim, recompôs cenas tristes e cruelmente reais, que estão todos os dias nos avisando que é preciso mudar os paradigmas da sociedade capitalista.

Mostra as desgastantes relações familiares de irmãos que se perdem no mundo, pois trilham caminhos diferentes, e de amores que superam as barreiras da humilhação e do medo.

O filme, ao mesmo tempo, revela um submundo em que a falta de respeito à infância é algo que aflige qualquer discurso. Há cenas, que machucam a gente, pelo requinte da maldade a que o ser humano chega. Ao mesmo tempo, mostra a delicadeza que um ser maltratado em sua tenra idade pode fluir.

Enfim, Quem Quer Ser Um Milionário? é uma produção sensível, que quebra qualquer barreira, pois cada um se sente personagem, querendo ganhar um game show, com o olhar ávido, pela resposta certa.


Sucena Shkrada Resk |




05/03/2009 21:25
Pensata - A distância do poder público com os povos da floresta, por Sucena Shkrada Resk
Ao acompanhar a viagem de trabalho do navio-hospital Abaré, do Projeto Saúde e Alegria (PSA), no mês de fevereiro, percebi o quanto a saúde pública precisa ter novos parâmetros neste país. Vi ribeirinhos do rio Tapajós, no Pará, aguardando ansiosos pelo atendimento, já que são desprovidos de efetiva assistência local em suas comunidades. A unidade fluvial coordenada pela organização não-governamental (ONG), em funcionamento desde 2006, mantém uma equipe própria, que divide o atendimento, com equipes do Programa Saúde da Família (PSF) dos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro. Na prática, entretanto, nem sempre o staff público está completo, o que mostra a carência de profissionais neste pedaço do país.

As poucas vilas, que têm "postos de saúde", enfrentam inimigos poderosos, que são a escassez de energia, já que a geração só ocorre à noite, geralmente, das 18h às 21h; a falta de material humano efetivo e, obviamente, condições dignas de trabalho.

A logística é mais um fator preponderante, que pode definir a vida ou morte desses cidadãos ribeirinhos. Afinal, praticamente o único meio de transporte na região, é fluvial. Em alguns casos, as pessoas perdem mais da metade de um dia para chegar a Santarém - maior município, onde há retaguarda hospitalar.

Diante desse estado de carência, em que o terceiro setor tem de agir, devido à ausência da ação permanente do Estado, me senti indignada ao ver as campanhas partidárias na TV; uma certa revolta diante de tanta verborragia - em que a retórica fala mais alto, sem profundidade em ações, já que sai governo e entra governo, e a reestruturação das políticas de saúde não avançam nos confins do Brasil.

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24/02/2009 13:19
Especial FSM 2009 - Encerramento leva à reflexão sobre a exclusão, por Sucena Shkrada Resk
O encerramento do Fórum Social Mundial (FSM) 2009, em 1º de fevereiro, levou o público à reflexão sobre a temática dos excluídos. Os sem-paz, teto, terra, emprego, saúde... E nesse hall, estão cidadãos em zonas de conflito, indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, refugiados ambientais, os sem-certidão de nascimento etc. Enfim, colocou à tona, um espelho da imagem contrária ao Fórum Econômico de Davos, que ocorreu no mesmo período e a preocupação cada vez maior sobre o destino da Amazônia. As deliberações que aconteceram durante a chamada Assembléia das Assembléias revelaram o quanto o mundo aponta um sinal vermelho com relação às ações do próprio ser humano.

Convocações mundiais foram realizadas, para o calendário 2009:
- 28-03 - Mobilização contra a crise mundial
- 30/03 - Dia da Terra Palestina - ação global contra o apartheid
- 04/04 - Mobilização Mundial pela Dissolução da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e desarmamento das bases militares em todo o mundo
-12/10 - Dia Mundial pela Mãe Natureza
-09/12 - Dia Mundial contra a corrupção

Durante a exposição das comissões organizadoras do evento, foi reivindicado o desaparecimento de todos os muros que impedem a locomoção das pessoas pelo mundo, e que o Tribunal Internacional atue no conflito Israel X Hamas (Palestina). Na pauta, também se manifestaram contra as políticas imigratórias repressivas, processos de xenofobia e pediram uma atenção maior aos refugiados ambientais e climáticos, além da suspensão das pesquisas com fins militares.

A Amazônia passou a ser vista como uma questão plurinacional, discutida no fórum pan-amazônico, que inclui, além do Brasil, os demais países que integram a região. A comissão formada para tratar do ecossistema tem como bandeira o estudo minucioso de implementações de hidrelétricas na região, o reforço das unidades de conservação, a fiscalização mais severa contra crimes ambientais que afetem ribeirinhos, o respeito aos saberes das populações tradicionais e o combate mais intensivo contra os processos de grilagem, da pecuária extensiva e da agricultura de grande escala.

À mídia livre foi proposto um papel relevante, neste processo, para que cada comunidade seja protagonista de denúncias e também trate do controle dos recursos naturais, discuta com o poder público os impactos ambientais nas políticas setoriais.

A tônica da crise financeira mundial permeou os seis dias do FSM. O consenso foi de que é preciso estabelecer o combate à cultura consumista e a necessidade do desmantelamento dos paraísos fiscais e da corrupção. Apontou-se ainda a necessidade de rever a hegemonia do G-20.

Para as próximas edições, os temas ambientais ganharão cada vez mais destaque, como a questão do lixo e da agricultura familiar, tendo como ponto central a importância da difusão da economia e finança solidárias.

O mote de que é possível um mundo melhor ganhou voz em decisões de se incentivar cada vez mais programas de educação ambiental com crianças e jovens e com a proposta da quebra de regimes nacionalistas, que impedem a globalização da cidadania planetária.

Em Belém, de 27 de janeiro a 1º de fevereiro, aproximadamente 133 mil pessoas, segundo a organização, participaram do evento. Pessoas que representaram 142 países e suas respectivas culturas e políticas. Foi um celeiro das mais variadas manifestações - desde cidadãos que jogavam lixo nas ruas a aqueles que recolhiam, como resposta à falta de consciência ambiental. Pessoas que se desdobravam para ouvir sobre os quilombolas e as questões amazônicas, ou que se detinham na programação sobre a questão da Faixa de Gaza e da história dos 50 Anos da Revolução Cubana.

Enfim, um cenário rico para expor e ouvir e, acima de tudo, propiciar ações posteriores, como efeito multiplicador. Uma experiência ímpar que é importante para qualquer cidadão, do gari ao intelectual. O maior atributo do FSM, na minha opinião, foi justamente a possibilidade de quebrar as fronteiras reais, mentais, discursivas e preconceituosas para se edificar mudanças de paradigmas em busca de um mundo inclusivo.
FSM Edição 2009 - Blog Cidadãos do Mundo, por Sucena Shkrada Resk 24/2 - Encerramento leva à reflexão sobre a exclusão
24/2 - Ministro declara que biomas serão monitorados
24/2 - O manifesto da Ciência na Amazônia
20/2 - A constituição dos Estados Plurinacionais
20/2 - A palavra quilombola
08/2 - Reflorestamento em pauta
08/2 - Experiências da Agenda 21
08/2 - Os caminhos da mídia livre
02/2 - Índios nas ondas digitais
01/2 - Mídia livre discute a necessidade de mais poder de articulação
31/1 - Protesto contra hidrelétricas marca dia 30
31/1 - Fitoterapia chega aos usuários da saúde pública
30/1 - A realidade a olho nu para refletir
30/1 - Pensata - Caldeirão de diversidades
28/1 - O clamor dos povos indígenas
27/1 - Pela ótica da simplicidade
22/1 - Contagem regressiva
Fonte: Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

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24/02/2009 12:18
Especial FSM 2009 - Ministro declara que biomas serão monitorados, por Sucena Shkrada Resk
O ministro Carlos Minc, durante o Fórum Social Mundial (FSM) 2009, em Belém, PA, declarou que será instituído um monitoramento federal da maioria dos biomas do Brasil. "O único que monitorávamos, até agora, era a Amazônia. Em fevereiro de 2010, incluíremos o Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica", afirmou. O perigo da desertificação na Caatinga foi sinalizada por ele. "O Nordeste, com isso, pode perder 40% da economia nacional", disse.

De acordo com Minc, um dos principais desafios da pasta é combater o plano de manejo pirata na Amazônia. Para isso, está sendo viabilizado o plano de manejo comunitário e familiar. E o zoneamento econômico ecológico da Amazônia deverá ser concluído neste ano.

O investimento em energia eólica foi mais um dos anúncios feitos pelo ministro. "Vamos ter pelo o menos um leilão por ano. Reduziremos impostos do setor, como forma de incentivo", afirmou.


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24/02/2009 12:06
Especial FSM 2009 - O manifesto da ciência na Amazônia, por Sucena Shkrada Resk
"Não adianta falar em soberania nacional, sem conhecer as riquezas...É preciso se obter informações sobre a Amazônia, os imensos segredos que a floresta encerra e as populações tradicionais, que guardam tesouros". Esse foi o manifesto do físico Ênio Candotti, presidente de Honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), durante o Seminário Amazônia - Soberania e Desenvolvimento Sustentável, no último dia 30 de janeiro, no FSM 2009, em Belém, PA. O cientista dividiu a mesa com o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, entre outros debatedores.

"Neste fórum, faltam ciência, fatos e conhecimento. A ciência é aliada ou inimiga. Com a legislação nacional de hoje, os brasileiros não conhecem a Amazônia, mas, sim, os estrangeiros", criticou. Segundo Candotti, o Ibama do PA havia autuado um museu local por ter levado alguns visitantes para observarem pássaros. "Isso é ditadura, obriga a se fechar os olhos, como se fosse expropriação estratégica da Amazônia", diz.

Segundo o cientista, os conhecimentos que a floresta esconde são um patrimônio. "Mas crianças e jovens devem poder estudar a natureza. Uma árvore em pé é muito mais importante que metros cúbicos de madeira. A nossa ignorância sobre botânica é imensa", afirma. Em sua opinião, é necessário ser convocada uma constituinte da legislação ambiental. "Não se pode conservar tudo, mas seletivamente e, para isso, se precisa estudar", justifica.
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20/02/2009 15:53
Especial -FSM 2009-Belém-PA - A constituição de estados plurinacionais, por Sucena Shkrada Resk
O coordenador Andino das Organizações Indígenas, Miguel Palacin, informa que no continente existem atualmente cerca de 30 milhões de indígenas. "O que reivindicamos é que sejam constituídos estados plurinacionais e, que os Estados não entreguem cada vez mais concessões às multinacionais. Muitas empresas contaminam o meio ambiente".

"Somos parte da natureza e, por isso, queremos promover o uso sustentável dos recursos, para podermos ter um modelo de desenvolvimento participativo", diz. O líder indígena peruano se manifestou, no último dia 28 de janeiro, durante o FSM 2009, em Belém, PA.
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20/02/2009 15:42
Especial -FSM 2009 -Belém-PA - A palavra quilombola, por Sucena Shkrada Resk
Estima-se que existam cerca de 8 mil quilombolas só no Baixo Amazonas. Ao todo são 320 comunidades paraenses, que representam na faixa de 100 mil pessoas. A afirmação foi feita pelo o coordenador das Associações das Comunidades Quilombolas do PA, Daniel de Sousa, durante o Fórum Social Mundial (FSM) 2009, em Belém, no dia 28 de janeiro. "Depois dos índios, somos os preservadores das florestas", disse.

Segundo ele, o desmatamento no noroeste do PA está aumentando, nos últimos 30 anos. "Queremos que o governo ajude a preservar, também nos auxiliando nas titulações de nossas terras. A maioria ainda está na clandestinidade, sofrendo, porque tem dificuldade de acessar recursos públicos, por causa da falta de conhecimento para compreender as determinações impostas pelos editais", afirmou.
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08/02/2009 19:33
08-02 - Nota sobre breve ausência
Pessoal, ainda estou em viagem pelo Pará, conforme narrei para vocês, o que me impede de estar plugada diariamente na Internet. Já estou em Santarém, e amanhã farei a viagem pelo Tapajós, para visitar as comunidades ribeirinhas, no navio do Saúde e Alegria. Portanto, ainda terei muita coisa para escrever no blog, desde o encerramento do Fórum Social Mundial e minhas impressões, além da viagem fluvial de três dias pelo Amazonas e afluentes, entre Belém e Santarém, uma das imagens mais inesquecíveis de minha vida, tanto, no aspecto ambiental, como social - e com direito a dormir em rede coladinha com os meus vizinhos rs - e, lógico, essa experiência que iniciarei amanhã.

Enfim, a sopinha de letras deverá preencher muitas páginas. Terei mais calma, para redigir esses relatos, a partir do dia 17, quando deverei estar retornando para casa e ao mundo insistentemente urbano, que cada vez me incomoda mais...
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08/02/2009 18:43
Especial-FSM 2009-Belém-PA-Reflorestamento em pauta, por Sucena Shkrada Resk
Os participantes do Fórum Social Mundial (FSM) 2009, realizado em Belém, PA, de 27 de janeiro a 1º de fevereiro deste ano, puderam passar pela experiência de colocar a mão-na-massa, num viveiro criado na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), dentro do Projeto Um Bilhão de Árvores, promovido pelo governo estadual. Uma equipe da Associação das Indústrias Exportadoras de Madeira do Estado do Pará (Aimex) foi responsável pela realização. Afinal, a iniciativa é, na verdade, praticamente uma obrigação, tendo em vista, que o Pará figura como um dos estados com maior desmatamento na Amazônia Legal. Vale ainda registrar, que mundialmente uma campanha com mesmo propósito foi capitaneada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em 2007.

A estimativa é que tenham sido semeadas 110 mil mudas, durante o encontro, de 10 espécies nativas, segundo o técnico agrícola da Aimex, Carlos Quaresma. São açaís, freijós, ipês, jatobás, mognos, orelhas-de-macacos, paricás, tamboris, entre outras. "A germinação de algumas espécies leva de 3 a 15 dias. Vão ser plantadas em áreas de reflorestamento determinadas pela secretaria estadual do meio ambiente", explicou.
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08/02/2009 18:06
Especial-FSM 2009-Belém-PA-Experiências de Agenda 21, por Sucena Shkrada Resk
O Seminário Internacional Mudança Climática - Agendas 21, que ocorreu durante o Fórum Social Mundial (FSM) 2009, em Belém, PA, no mês de janeiro, apresentou experiências francesas e norte-americanas, que segundo as palestrantes, dependem fundamentalmente do protagonismo cidadão.

A francesa Marie Stutz, representante da Agenda 21 no país, expôs que atualmente são desenvolvidas 350 ações nacionalmente, com temáticas quase que exclusivamente ambientais.

"As prioridades são controle de gastos energéticos, prioridade social, legalidade das comunidades e governança participativa", contou. A participação da sociedade civil é constante nesse processo, de acordo com Marie. "Mas ainda é preciso mais intercâmbios entre as Agendas 21, inclusive, internacionalmente", disse.

Kath Ryn Kintzele, do projeto Ética Biosfera, dos EUA, afirmou que a Rio 92 foi um impulso significativo. "Em 94, a entidade criou um código de ética para a conservação (com o mote da natureza viva), disse. Com isso, foram surgindo alianças, entre a cidade norte-americana de Chicago e cidades da África do Sul.

"Chicago é uma das 25 maiores áreas urbanas mundiais, e tem organizações governamentais e não-governamentais que recebem o apoio da Prefeitura para efetivar o projeto da cidade verde. Pautas sociais e de saúde são discutidas na mesma mesa (da agenda 21 local)", afirmou. E um dos aspectos importantes entre as metas é trazer a criança para o contato com a natureza. Já na África do Sul os esforços convergem para os parques que cobrem grandes áreas territoriais.

Kath explicou que para que haja o cumprimento da Agenda 21, é preciso o reconhecimento das espécies locais, ou seja, o estudo do ecossistema. Isso representa um processo vivo para a restauração, de fato, das espécies nativas. O alerta foi dado, tendo em vista, inúmeras ações antrópicas, que devastam cotidianamente o planeta.

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08/02/2009 17:38
Especial-FSM 2009-Belém-PA-Os caminhos da mídia livre, por Sucena Shkrada Resk
Mais uma destaque, durante o Fórum Mundial de Mídia Livre, no dia 26 de janeiro, em Belém, PA, foi a manifestação do Fórum de Defesa das Rádios Comunitárias, na fala de Júlio Araújo. Ele fez uma afirmação contudente, de que hoje os radialistas comunitários no Brasil sofrem um tratamento similar aos dos narcotraficantes. "Reivindicamos que haja a reabertura de processos arquivados, como também, o fim da criminalização, a anistia aos condenados e expedição de licenças provisórias, entre outras", disse.

Araújo narrou a história de um paraíbano, que passou pela situação de trabalho escravo, e ao ouvir em uma "rádio comunitária", uma campanha que vinha de encontro à experiência sofrida pela qual passava, resolveu fugir e denunciar o caso à Polícia Federal. "No final, o latifundiário não foi condenado e a rádio comunitária foi fechada...", contou. Essa história, segundo ele, se repete muitas vezes, pelo o Brasil, e exige reflexão da sociedade, dos órgãos públicos e de todas as esferas envolvidas, para que o país sofra uma repaginação.
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02/02/2009 15:58
Especial FSM 2009-Belém-PA -Índios nas ondas digitais, por Sucena Shkrada Resk
O Fórum Mundial de Mídia Livre, que antecedeu o Fórum Social Mundial (FSM) 2009, em Belém, PA, no último dia 26, apresentou um case interessante da globalização, com a narrativa do índio Alex Pankararu, 34 anos, da região de São Francisco, no sertão de Pernambuco, sobre o projeto Índios on Line (www.indiosonline.org), criado em 2004. O site na internet já possui um acervo com cerca de 4.000 histórias e 2.000 acessos, segundo ele.

Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, Alex contou que a iniciativa partiu de mais seis povos indígenas nordestinos – Kariri-xocó, Xucuru-Kariri, Kiriri, Tumbalala, Pataxó-hã-hã-hã e Tupinambá. “A idéia surgiu quando os índios perceberam que os livros onde escreviam suas histórias eram limitados e o portal na Web possibilitaria que houvesse maior participação. Queríamos também quebrar a visão exótica que as pessoas têm sobre nós”, diz.

Com o passar dos anos, a comunidade percebeu que não podia mais se restringir aos seus povos. “Hoje procuramos parentes de indígenas que querem participar da rede, de diferentes nações. O interessante é que no começo, havia um misticismo muito grande, de que isso seria uma loucura. Mas o conhecimento tecnológico faz com que o jovem pesquise sobre suas raízes. É mais uma fonte de aprendizagem”, considera.

Os índios mais velhos, segundo Alex, não colocam “a mão no computador”, mas gostam de ver sua imagem reproduzida. “Por meio desses relatos e imagens, queremos mostrar que o índio não é só o que a mídia tradicional mostra, que é a dança. Somos seres alegres, com uma cultura própria, e machuca a gente ver só notícias de índios assassinados ou que machucam alguém em confrontos”, diz.

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01/02/2009 10:52
Especial-FSM– Mídia livre discute a necessidade de mais poder de articulação, por Sucena S.Resk
Como aquecimento à programação do Fórum Mundial Social (FSM) 2009, em Belém, foi realizado o Fórum Mundial de Mídia Livre, que ocorreu, no último dia 26. O encontro reuniu jornalistas e comunicadores de diferentes partes do mundo, com o propósito de buscar respostas para mobilizar a autonomia dos meios de comunicação e comunicadores de blogs, sites de entidades do terceiro setor, jornais, rádios e TVs alternativas.

Durante a primeira etapa do evento, o professor Marcos Dantas, da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro (PUC-RJ) enfatizou que é preciso encarar a realidade de que a mídia alternativa também não se sustenta sem dinheiro, para que se quebrem paradigmas baseados somente em idealismo. “A fonte é da própria sociedade, pois recolhemos impostos. Precisamos de política pública para financiar espaços de vozes brasileiras no mundo midiático”, defende.

Joaquim Constâncio, da IPS do Uruguai, destaca a necessidade de maior investimento na profissionalização do meio. “Com isso, se usa as ferramentas com as propriedades necessárias para se criar uma agenda alternativa de conteúdo”, argumenta.

Na opinião de Altamiro Borges, do Vermelho, grandes corporações midiáticas contribuem hoje para o desmonte do Estado e à crise sobre os povos. “Por isso, o movimento de mídia livre precisa ser fortalecido, com as brechas oferecidas com a tecnologia, por meio de blogs, sites e de iniciativas de comunidades, que devem atingir cada vez mais audiências maiores”, afirma. Segundo o jornalista, o caminho é proporcionar sinergia, respeitando os pontos de vistas de uma forma pluralista.

O desafio na atualidade, segundo o jornalista Luiz Fernando Navarro, do La Jornada, é recuperar a desvalorização pela qual passa a profissão. “A questão é como contar, por exemplo, as dezenas de mortes ocorridas no Iraque”. Isso quer dizer – tratar a informação, como bem público – caracterizando que a mídia alternativa não é sinônimo de marginal. Ele propõe a formação de uma rede latino-americana que compartilhe conteúdos, experiências e ainda promova encontros e debates. “Pautas sobre crise econômica, energética e ambiental devem ser cobertas de forma concreta”, diz.

Mais informações sobre o Fórum Mundial de Mídia Livre podem ser encontradas no site www.ciranda.net.

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31/01/2009 12:12
FSM-2009 - Protesto contra hidrelétricas marca dia 30, por Sucena Shkrada Resk
Manifestantes ocuparam saguão do prédio de veterinária da Universidade Federal do Pará (UFPA), no último dia 30, durante o Fórum Social Mundial (FSM) 2009, para se manifestar contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Índios da região do Xingu, o bispo do Xingu, Dom Erwin Krautler e o procurador da República, Felício Ponta, compuseram o grupo, que pede revisão do projeto.

O procurador fez um discurso inflamado dirigido aos urbanitários da Eletronorte. "Há quatro anos, eles faziam parte do Fórum de Defesa de Moradia de Belém, quando não haviam conseguido pagar o saldo devedor do financiamento de suas casas com a Caixa. Nós interviemos e hoje todos são donos de suas casas. Como agora, querem dispensar os índios de suas casas e servir de massa de manobra para três empreiteiras do país", afirmou diante de uma platéia formada pelo público do fórum e jornalistas. Segundo o bispo, há necessidade de haver a sensibilização para que os povos indígenas sejam ouvidos.

Desde a década de 80, a discussão sobre o tema preocupa a comunidade xinguana. Veja mais no site do Instituto Socioambiental - http://www.socioambiental.org/esp/bm/index.asp.

Em contrapartida, os funcionários da empresa montaram uma grande maquete do projeto, em defesa da hidrelétrica, na Universidade Federal do Pará (UFPA). A pauta é uma das mais acaloradas do fórum.
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31/01/2009 11:49
FSM 2009- Fitoterapia chega aos usuários de saúde pública, por Sucena S.Resk
O Fórum Social Mundial (FSM) 2009 apresenta algumas iniciativas interessantes, como a do projeto Farmácia Nativa, da Prefeitura de Belém, que produz medicamentos e cosméticos fitoterápicos, desde 2006. Segundo o consultor Guilherme Araújo, programas similares já são desenvolvidos nos municípios paraenses de Altamira, Mãe do Rio e Porto de Moz. O objetivo, segundo ele, é aproveitar as qualidades das ervas amazônicas, de forma sustentável, ao mesmo tempo, que proporciona geração de renda a 40 famílias de produtores.

Ao todo, são produzidos 42 itens no laboratório do município, em Belém. “Realizamos também oficinas para capacitar a comunidade utilizar os benefícios das ervas para consumo próprio”, explica. Os produtos são comercializados na farmácia municipal, no bairro do Marco. “Também são distribuídos gratuitamente sob prescrição médica na unidade básica de saúde Paraíso. A meta é que atinja mais 10 em 2009”, explica Araújo. Para isso, alguns médicos e enfermeiros foram capacitados.

De acordo com o consultor, o custo total da implementação do projeto foi de R$ 356 mil, e está sob gestão do Fundo Ver o Sol, criado pela Prefeitura. Entre os itens que têm mais saída são o gel de centelha asiática, para ajudar no tratamento de gordura localizada, além do xarope contra verminose, à base de hortelã e o de guaco utilizado no combate à asma. Como base de produção, uma das bibliografias estudadas é o livro Plantas Medicinais do cultivo, manipulação e uso à recomendação popular, de Christian Lameira, gerente administrativo do projeto, at al.

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30/01/2009 13:32
Especial-FSM-Belém 2009(bastidores)– A realidade a olho nu para se refletir, por Sucena Shkrada Resk


Passeata reuniu mais de 70 mil pessoas créd.foto - Sucena S. Resk

Os primeiros dias do Fórum Social Mundial 2009, em Belém, PA, estão servindo como um interessante estudo de caso sobre os paradoxos entre o discurso e a realidade. Enquanto, o evento propõe a mudança de paradigmas e reflexões com o mote – “Um outro mundo possível” – o mundo em preto-e-branco nos remete a um cenário de extremos contrates. A capital paraense tem apenas 6% de seu esgoto tratado, e o bairro onde está sediado o encontro – Terra Firme – é um dos mais pobres do município, ao mesmo tempo, que abriga uma área importante de proteção de mananciais, no Parque Ambiental de Utinga, sob a coordenação da companhia de saneamento.

Ao seguir para a Universidade Federal do Pará (UFPA) e para Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), que são campi gigantescos às margens do rio Guamá, vemos casebres sobre palafitas e esgoto a céu aberto correndo nas marginais das vias. Uma imagem que entristece e causa indignação, pois habitação, saúde ambiental, segurança e planejamento urbano são temas intrinsecamente relacionados ao fórum e aos direitos mínimos de cidadania. A UFRA, por sua vez, é uma das áreas mais belíssimas da cidade, com uma densa vegetação, que abriga a rica biodiversidade amazônica.

Quando o assunto é comportamento humano, a atitude de alguns participantes, que, inclusive, percorreram quilômetros para chegar ao evento, demonstram o quanto há um confronto entre respeito com a falta de limites. Não é difícil encontrar nas ruas e calçadas, garrafas plásticas, latinhas de refrigerante e bebida alcoólica, além de sacos deixados como uma amostra de que os paradoxos existem. Entretanto, há pessoas que se incomodam com isso, volta e meia, e recolhem o lixo que encontram pelo caminho. Isso revela que tudo é uma questão de livre arbítrio e educação para a sustentabilidade.

A falta de diálogo em situações corriqueiras também é mais um aspecto a destacar, que deve ser avaliado, já que se trata de um evento voltado à paz. Hoje à noite, por exemplo, na saída da UFRA, houve um clima tenso entre participantes do fórum do lado de fora do portão, que queriam entrar na unidade, e guardas da instituição.

Começou um empurra-empurra, gritos, e quem queria sair teve de se dirigir para outro portão. No final, veio o reforço policial, para conter a possibilidade de situações mais graves, pois a grade foi quase arrebentada. Esse flagrante demonstrou como o ser humano tem dificuldade de se comunicar. Talvez, um diálogo mais aberto de ambas as partes tivesse dado outro rumo a esse choque. O que é um alento é o fato de que a maioria das pessoas demonstra um afã por um mundo melhor.

Esse incidente me fez lembrar que guerras e conflitos pelo o mundo também acontecem por motivos difíceis de entender, e, por muitas vezes, considerados banais. Ao se ater às devidas proporções, os pequenos exemplos urbanos não deixam de ser um alerta que não deve ser menosprezado.

Renda extra à comunidade
Mas é óbvio que os incidentes narrados não desconstroem as situações positivas dignas de nota flagradas durante o FSM. Por exemplo, com a presença de milhares de turistas, muitos moradores estão aumentando sua renda, ao vender água e refrigerante em isopores– que, por sinal, são disputados, devido às altas temperaturas e ao receio de não se ter acesso à água potável. E com um detalhe importante – essas pessoas não cobram preços extorsivos. Só para comparação – um vendedor ambulante cobra de R$ 1,00 a R$ 1,50 pela garrafa média. Em instalações dentro dos campi é possível encontrar o mesmo produto por R$ 2,50.

Nesse clima de economia solidária, mais um segmento beneficiado com o fórum são os barqueiros, que têm a permissão de fazer a travessia entre as duas unidades. Cobram R$ 2,00 dos passageiros (enquanto a passagem de ônibus é R$ 1,70). E na era do ambientalismo, quem tem bicicleta também está em alta. O vai-vem de ciclistas devidamente uniformizados, que fazem o transporte sobre a magrela dentro do campus, com a ”tarifa” de R$ 2 a R$ 3, dependendo da distância, já se tornou uma cena comum de se ver. E literalmente o que não falta são clientes, pois nem todo mundo, afinal, tem perna para andar quilômetros por dia nessas verdadeiras cidades universitárias, sob sol escaldante e chuvas intermitentes de verão comuns na Amazônia.

E para completar esse cenário do FSM, a diversidade de etnias, culturas é o que enriquece o encontro, justamente pela pluralidade. Encontrar índios, estrangeiros do cone Sul à África, flagrar no meio de uma tenda cubana homenagens ao Chico Mendes, e no outro lado, ver uma manifestação em favor dos palestinos, demonstra realmente que outro mundo é possível. Basta quebrarmos barreiras e paradigmas.

Sucena Shkrada Resk |




30/01/2009 13:25
Especial-FSM-Belém 2009 Pensata – Caldeirão de diversidades, por Sucena Shkrada Resk
Belém, PA, se tornou a capital do mundo. O caldeirão de diversidades étnicas, religiosas, culturais presentes no Fórum Social Mundial (FSM) 2009 proporciona um mosaico interessante de ser ver. Num mesmo local, é possível se deparar com mulheres quenianas, índios dos Andes, dos EUA, do Mato Grosso, do Pará, além de se ouvir sotaques regionais, do sulista, do nordestino e do estrangeiro dos países árabes aos do cone Sul. Os diferentes estilos e cores das vestimentas são mais uma característica que chama atenção. Uma experiência antropológica e tanto.

A passeata da abertura oficial do evento, no último dia 27, que saiu da altura do mercado tradicional do Ver-o-Peso para o de São Braz, foi um exemplo marcante desse cenário globalizado. Afinal, reuniu cerca de 70 mil pessoas dos mais variados lugares do planeta. Todo mundo literalmente misturado. No meu inglês mediano troquei, pouco antes, algumas palavras com duas representantes do Quênia, e, em questão de minutos lá estava Namunyak, 26, e Eunice, 28, passando seus e-mails para mantermos contato.

Com certeza, essa troca de repertórios está sendo enriquecedora em todos os sentidos, o que significa que o evento pode ser um bom momento para qualquer um de nós repensarmos nossas trajetórias de cidadãos planetários.


Sucena Shkrada Resk |




28/01/2009 21:00
Especial-FSM-Belém-PA - O clamor dos povos indígenas, por Sucena Shkrada Resk
O primeiro dia do lançamento oficial do Fórum Social Mundial (FSM), em Belém, PA, no último dia 27, reservou uma imagem inesquecível de centenas de índios de vários estados brasileiros e das Américas, que se manifestaram em defesa da Amazônia e da natureza. Na nona edição do evento, pela primeira vez, há uma representação tão significativa - 1,2 mil participantes - que revelam a multiplicidade de culturas dos povos índigenas no país.

Os representantes do Vale do Javari, que é uma região extremamente carente de recursos, vieram em uma delegação de 30 pessoas (Marubos, Mayrunas, Matis, Kolina e Kanamary) com a reivindicação de um olhar mais atento aos problemas locais principalmente na área de saúde, por causa da hepatite.

"Desde a década de 70, a Fundação Nacional do Índio (Funai) já registrava casos da doença. Hoje, a Funasa levantou que há 80% de casos; 3, 7 mil pessoas foram contaminadas e dezenas morrem por ano", disse o indígena Jorge Marubo.

Segundo ele, a estrutura é de assistência à saúde é precária na região. "É preciso uma ação preventiva com mais qualidade. Temos de capacitar agentes de saúde indígenas. Se não forem tomadas providências, em 30 anos, não haverá mais ninguém lá", alerta.

A região é a segunda maior área índigena brasileira, com 8,544 mi hectares, depois da reserva yanomani. "Nossa preocupação também é com os índios que estão isolados e ninguém sabe como estão. Eles vivem nas cabeceiras dos rios e igarapés. A nossa manifestação é para mostrar ao mundo que nós existimos e devemos ser valorizados", disse.

Marilza de Santos Santiago, 63 anos, da etnia Maytapu, da região de Aveio, no PA, com seu caderno em mãos, disse que estava no encontro para pedir mais atenção à saúde e educação. "Não temos professores indígenas e estamos lutando pelo ensino médio e praticamente está difícil que nossos descendentes falem nossa língua. Também l falta transporte para casos de emergência de saúde e o número de medicamentos é limitado", contou.

Para o xerente Levi Srê Zasu, as construções das grandes barragens e o desmatamento, principalmente com a soja prejudica a reserva, que fica no estado de Tocantins.

Da Guatemala, o índio Daniel Pascual apresentou a pauta da delegação da América Latina. "Viemos em defesa dos território, da natureza (rios, bosques...) e a nossa proposta é que haja uma mobilização mundial em 12 de outubro, pela mãe natureza. Feliciana Amado Chaves, do Peru, clamou pelo conceito dos povos plurinacionais, sem discriminação.

Tom Galdtooth, dos EUA, das nações Dakota e Dive (Canadá e EUA) falou que a luta de seu povo é contra o colonialismo. "Com o presidente Obama, temos um pouco de esperança. Na região de Montana, onde vive, os índios reconheceram o presidente como amigo", afirmou.
Sucena Shkrada Resk |




27/01/2009 14:41
Especial-FSM-Belém-PA – pela ótica da simplicidade, por Sucena Shkrada Resk
A iniciativa de ir ao Fórum Social Mundial, em Belém, PA, de ônibus, foi decisivamente uma opção que recompensou todos os sacrifícios de viajar por 58 horas, a partir de São Paulo, cortando o Brasil, pelos os estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Maranhão e Pará – principalmente pela BR 153 – onde pude observar uma das paisagens mais reveladoras da dicotomia do agronegócio com a “natureza intocada”, que é a marca do Brasil. E flagrar cenas inesquecíveis, como ver o rio Tocantins, com sua imponência devastadora.

Campos de soja, milho, cana-de-açúcar e pastagens dividiam espaço com cenários belíssimos do cerrado e da Amazônia, quebrados volta e meia pela marca de áreas desmatadas, devido principalmente à extração da madeira e pastagens. Pequenos arbustos, extensas planícies a perder de vista, grandes cupinzeiros, buritis, áreas de reflorestamento, aquela terra vermelha característica do planalto central e a pobreza exibida por pequenas choupanas no caminho, entre outros elementos, foram se sucedendo nesse travelling de cenas.

Ao mesmo tempo, me deparei com estradas em boas condições em boa parte do trecho. Entretanto, após a cidade de Anápolis, começou a apresentar problemas de conservação em alguns pontos, quando a rodovia não é duplicada. O tráfego intenso de caminhões nessa parte do Brasil, com certeza exige que o PAC seja mais incisivo para evitar acidentes graves, multiplicados pela imprudência das ultrapassagens. Chegamos a ver, pelo o menos dois caminhões tombados.

Bem, deixei até o relógio de lado, para exorcizar o meu biorritmo urbano. Apesar de um acréscimo de 7 horas às 51 previstas, porque por duas vezes o ônibus em que estava quebrou durante a viagem, não perdi o “prazer” de fazer uma imersão nessa viagem. Em uma das situações, ficamos 3h parados em Porangatu, sem saber se iriam conseguir a peça ou teríamos de mudar para um veículos convencional – que não é semi-leito e a “gente” come literalmente poeira.

Continuamos no executivo – depois de uma certa pressão de “direito do consumidor”, mas depois, no meio da madrugada, em um trecho isolado da rodovia, no Tocantins, novamente tivemos de esperar o reparo. Mas nem esse contratempo foi suficiente para encobrir a gostosa experiência de tecer relações com pessoas humildes e amistosas de diversas partes do Brasil e criar uma atmosfera agradável, que proporcionou o enriquecimento de minha bagagem de vida. Depois dessa aventura, finalmente, por volta das 2h30 da manhã do dia 26, chegamos sãos e salvos ao nosso destino.

Tive a oportunidade de conhecer o maranhense Manuel dos Anjos, 79 anos, radicado no Pará, que narrou sua longa história de vida, que teve também passagens por Brasília, como em São Paulo, no seu ofício principal na empreitada da construção. Com uma ponta de orgulho, contou que foi um dos primeiros a participar da construção do Aeroporto de Guarulhos.

Esse homem de sorriso fácil estava acompanhado por suas três netas, que foram morar com ele, sua esposa e familiares, na pequena cidade de Marituba, PA. Entre uma fala e outra, contou o quanto era grato a sua mulher Lourença pelos mais de 50 anos de casamento – algo raro nos dias de hoje, destacando que pelo incentivo da esposa (que era professora) se aprofundou no campo das letras. Em dada hora, lá estava ele, dizendo que já estava sentindo saudades, que se apegava facilmente às pessoas.

A funcionária pública paraense, Maria de Fátima, acompanhada por uma de suas filhas, também me fez sentir em casa. A prosa começou logo no embarque, na plataforma 55, da rodoviária Tietê, onde na fila da pesagem das bagagens – que diga-se de passagem – é uma boa pauta para matéria – foi o ambiente propício para a prosa, que se consolidou durante a viagem. Com aquele jeito de mãe – me adotou por algumas horas – me dando dicas úteis de sobrevivência em Belém. Nem preciso falar, que sabia até o que dizer ao taxista para chegar ao local da minha hospedagem.

Já com a enfermeira aposentada Benedita, moradora da cidade de Benevides, PA, (acompanhada por suas duas netas gêmeas) e a dona de casa Abadia, de Nova Rodalândia, e sua pequena filha Jaqueline, conheci um pouco dos atrativos que a natureza paraense proporciona. Descobri que há vários tipos de “coquinhos”, é isso mesmo, no norte do país. Da bacaba, que lembra o buriti, por exemplo, se extrai um gostoso “leite”. No Para, há ainda outra modalidade de coco, que é o buritirama, que é comestível, ao se colocar em água morna.

Nesse deleite da gastronomia, ainda aprendi que é imperdível tomar o sorvete de bacuri ou experimentar a tapereba, que é uma fruta amarela, de sabor levemente azedo, que lembra a carambola. E na lista, ainda destacaram que não pode faltar o murici, que por sua vez, tem sabor doce. Nesse caldeirão de curiosidades, ainda lembraram do “turu”, que é um tipo de larva comestível, encontrada na madeira... Diante dessa gama de informações, decididamente só podia anotar, para não perder nenhum detalhe.

Ainda pude obter uma aula de cidadania, quando Benedita falou com seu jeito simples e direto sobre a necessidade de consciência ambiental no PA. “Não é correto que as pessoas joguem os copos nas ruas (como vimos uma jogando pela janela de um ônibus). Não adianta culpar só os governos. É preciso colocar a cabeça no travesseiro e não jogar tanto lixo – como sofás, garrafas nas ruas”. Ela ainda frisou que algo que também a entristece é ver que existe o perigo da prostituição infantil – “É uma coisa dolorida e grave”, afirma.

Ah, e com o Sr. Fernando, que mora em Santarém, há doze anos, tive dicas importantes do meu próximo destino, como conhecer a Flona (Floresta Nacional) local e ficar atenta para comprar água potável, para evitar contratempos, devido às condições de saneamento. Enfim, uma perfeita aula de brasilidade, com quem conhece essa terra.

E vale destacar que a rede de contatos foi bem maior, pois pude conhecer outras pessoas, que como eu, estavam indo ao evento, cada um com um propósito e mais histórias interessantes para contribuir a essa viagem de trabalho. Nesse ônibus, ainda conheci os professores Jorge e Vagner, que estavam coletando imagens e informações para promover um trabalho mais interativo com seus alunos; o jornalista Danilo, que estava aberto a enveredar em novas pautas; a representante do MST, Ana Paula, que iria trabalhar em um estande do movimento, além de um livreiro que iria vender títulos ambientais no evento e outro viajante, como nós, prático da economia solidária, que estava indo com o propósito de obter mais conhecimento.

No final das contas, foi uma conversa enriquecedora, que gerou troca de endereços, telefones, convite para ir a casa deles – algo, que em cidades grandes, como São Paulo, é praticamente impensável. Só posso dizer que ter o contato com esses cidadãos de carne-e-osso como eu só me fez bem e começou a delinear o sentido do que me impulsionou a cobrir o Fórum Social Mundial – se é que me entendem...Pois, sem se humanizar, a gente perde o time desse momento histórico.


Sucena Shkrada Resk |




22/01/2009 15:30
Especial - Fórum Social Mundial (Belém-PA), por Sucena Shkrada Resk
Já foi dada a contagem regressiva ao Fórum Social Mundial, em Belém, PA, que ocorrerá entre o próximo dia 27 e 1 de fevereiro. Segundo a organização, é estimado um número superior a 80 mil pessoas, e já constam no cronograma, cerca de 2000 mil atividades (oficinas, mesas de debate e seminários) -http://www.fsm2009amazonia.org.br/programacao/geral-fsm-2009/tabela-de-atividades-fsm-2009-19-01, o que deixa qualquer um abismado com essa gama de temas. A Amazônia, até por uma questão óbvia, terá um peso importante no evento, que também discutirá pautas voltadas à educação ambiental, economia solidária, desenvolvimento sustentável, reciclagem, saúde ambiental, além de temas polêmicos, como aquecimento global e combustíveis fósseis. No campo da saúde, a Aids será um dos temas de destaque.

Pela primeira vez, irei cobrir o evento a trabalho para dois veículos de imprensa, e também para gerar conteúdo ao meu blog. Amanhã parto - de ônibus - em uma viagem que deverá durar 51 horas até lá. Com certeza, uma experiência ímpar e cansativa, do ponto de vista físico, mas que para um repórter, tem um gosto todo especial, que aos poucos compatilharei com vocês. Afinal, estou economizando na logística, já que juntei recursos próprios para ter essa autonomia na viagem. Um sacrifício que vale a pena.
O cenário com o qual deverei me deparar será formado por delegações nacionais e internacionais, como a da Palestina (vide guerra), da UE e do Cone Sul, que estarão presentes ao fórum. Um caldeirão étnico, com certeza, instigante. A concentração da maioria dos encontros será na Universidade Federal do Pará (UFPA) e na Universidade Federal Rural da Amazônia. Paralelamente, organizações do terceiro setor também se apresentarão em tendas especiais, que servirão como mais um local de encontro dos participantes.

A riqueza desse tipo de encontro é dar voz à sociedade civil de uma forma desburocratizada, o que enriquece as relações com o poder público e privado. A exposição de cases, como a de catadores pelo mundo, ou de 60 anos da Palestina revelam a multiplicidade de informações a que teremos acesso. Com isso, a cidadania planetária terá espaço para ganhar fôlego para clamar por ações pró-ativas no contexto da globalização.

Numa segunda etapa, após o Fórum, partirei para mais uma experiência ímpar, ao visitar comunidades ribeirinhas do Tapajós, no barco-hospital do Projeto Saúde e Alegria. É um "sonho" como cidadã e jornalista, que estou colocando na prática, após mais de um ano, após ter conhecimento desse projeto. Com certeza, será significativo para o amadurecimento de minha carreira, e dos meus objetivos de vida. Agora, é partir para a concretização!

Então, até breve, com novas notícias.
Sucena Shkrada Resk |




22/01/2009 15:06
Continuação - A rota da humilhação na saúde pública, por Sucena S.Resk
Como cidadania é ação, não poderia deixar de relatar o desenrolar da narrativa sobre a experiência pela qual passei referente ao atendimento na saúde pública. Depois de enviar a carta à presidência da gestora do hospital e à ouvidoria, ainda liguei novamente à direção clínica da unidade, no último dia 14, onde o funcionário (ao qual havia entregado a primeira carta de reclamação em dezembro), conseguiu falar com o cirurgião responsável pela intervenção cirúrgica em minha tia, e o mesmo deu o ok para me atender no dia 15, afim de prestar todos os esclarecimentos do procedimento e orientações do pós-operatório.

Aí, foi uma correria só. Pois mais uma vez, teria de agendar a ambulância (sendo que ainda estava em minha casa e teria de me deslocar ao litoral, onde a minha tia estava acompanhada de uma amiga). Liguei para o setor e - graças a Deus - consegui o agendamento com facilidade. Daí, fui para lá e o atendimento aconteceu no dia seguinte.

É claro, que não deixou de haver um certo estresse, porque até nos levarem ao encontro do médico, aconteceram alguns desencontros de informações no setor de atendimento. No intervalo de uma cirurgia, o médico explicou que a minha tia havia operado o platô da tíbia (e não, a patela, como constava na ficha inicial dela), e deveria ficar sem apoiar a perna no chão, por mais dois meses).

Entretanto, recomendou que já começasse a fazer exercícios gradativos (para a recuperação do joelho). Para isso, indicou que eu comprasse um imobilizador com velcro - que substituiu o gesso. Também liberou que ela fosse transportada em carro de passeio.

Sendo assim, ontem, ela finalmente chegou em casa e está sendo assistida por sua família nesse período de recuperação. É claro, que algumas dúvidas ainda continuam, mas o médico deu o seu celular - para esclarecê-las, se necessário.

Agora, temos de marcar o retorno com ele, para o final de fevereiro. Até lá, esperamos que transcorra tudo dentro da normalidade do bom atendimento.

Enfim, ao narrar essa experiência, cheguei até a ser prolixa - mas fui muito objetiva e sincera no relato. Afinal, quem de vocês não passou em algum momento da vida por situação similar e se viu - de certa forma - impotente e desafiado a correr atrás dos direitos mínimos de usuário (familiar) do sistema de saúde pública. Acredito que não podemos ter vergonha ou temer descrever a realidade, e tirar as dúvidas. Afinal, somos leigos e cabe aos especialistas nos orientarem para que a recuperação dos pacientes seja satisfatória...

Sucena Shkrada Resk |




10/01/2009 15:55
A rota da humilhação na saúde pública, por Sucena Shkrada Resk
Hoje narro uma experiência em primeira pessoa sobre a humilhação no atendimento em saúde pública, que tantas vezes, reportei como jornalista durante a minha carreira. Do dia 19 a 29 de dezembro vivenciei como a desorganização e a burocracia desconstróem a humanização do sistema, que deveria ser um alento ao usuário. O episódio ocorreu ao auxiliar uma tia, que sofreu um trauma no litoral paulista.

Quando cheguei ao pronto-socorro local depois de três horas de viagem, lá estava ela sobre uma maca na enfermaria geral, com uma tala na perna, sem saber o que iria acontecer daqui um minuto, se sentindo solitária, apesar de dividir o espaço com outros pacientes tão apreensivos quanto se encontrava. O máximo que ela sabia é “que havia quebrado o joelho” e deveria sofrer uma cirurgia. Poderia até voltar para casa – informaram - mas correria o risco de perder a vaga. O medo foi tanto, que lá permaneceu à espera.

Bem, aí a peregrinação começou. Falei com uma enfermeira e ela explicou que não sabia se teria vaga – mas que o processo já estava em andamento. Daí descobri que minha parente queria ir ao banheiro há horas, mas estava impossibilitada, porque não podia mover a perna e não havia cadeira de rodas. Daí, novamente, fui lá perguntar – e a resposta é que deveria usar fralda. E perguntei – se o pronto-socorro não tinha o material. A resposta: não, é preciso comprar. Respondi: então, porque não informam aos familiares (imagine aquelas pessoas que não têm alguém próximo). Lá fui eu à drogaria comprar o pacote.

Nesse ínterim, a dor começou a aumentar e o desconforto com o gesso vivenciado pela minha tia me levou novamente a interpelar a enfermeira a respeito. Depois de certo impasse, lá fomos nós para que fosse refeito o gesso. Depois de um tempo, um alívio: tinha aberto vaga de um leito no repouso do pronto-socorro, em que havia cama hospitalar, lençol e mais higiene, é claro.

Uma etapa superada, e voltei no outro dia ao PS para visitá-la e mais uma nova descoberta – já que não havia sido informada com antecedência. Era necessário levar toalha e sabonete, pois a unidade não tinha o material para dar banho de leito. Não preciso nem falar... Também tive – como demais familiares de outros pacientes - de levar ainda garrafa d`água, pois o acesso também não era tão prático na hora da sede do paciente.

E a cirurgia? – Bem, dependia do plantão do médico e da abertura de vaga no hospital municipal ao lado. As vésperas do feriado também contribuíam para esse quadro de incerteza. E assim foi, até o dia 22, quando a vaga tão esperada surgiu. E, lá vai mais um quadro de correria, pois um familiar tem de assinar a autorização da internação. Corri para o hospital para assinar a autorização.

Depois de algumas horas à espera, em que fui informada que minha tia se recuperava na sala do efeito da anestesia – chegou a hora da visita, e subi ao leito designado pós-cirurgia. Entretanto, chego lá e estava vazio. Um gelo na barriga e interpelo a enfermeira sobre a ausência. Sem saber o que falar, pergunta para mais uma, mais uma. E ah – a “fulana” foi pegar uma paciente, que é essa..... Aguardo cerca de 20 minutos e vejo minha tia chegar de maca.

Ao mesmo tempo, que tive um alívio de vê-la aparentemente bem e falando –, me deparo com o seu lençol encharcado de água do lado direito. Ouvi a enfermeira dizer que era em decorrência do ar condicionado onde estava anteriormente. Pergunto se vão trocá-lo, para que não seque no corpo dela. Daí, a resposta: estamos aguardando o material (da lavanderia), mas vamos trocá-lo.

Fiquei confiante, conversei com a minha tia, deixei uma toalha, sabonete, e acabou a hora da visita, para retornar no dia seguinte. Quis saber o que realmente ela havia operado, daí me mostraram um raio-X com dois pinos, posterior ao anterior, com o trauma. Mas que osso? Bem, só vim a saber dias depois, pois não consegui falar com o médico...

Dia 23, novamente horário de visita – Primeira abordagem – “a paciente teve alta”. Fiquei atônita e perguntei, é claro, quais providências a tomar. Para resumir a questão – ocorreu o seguinte. Ainda demorou horas para que colocassem o gesso para imobilizar a perna do joelho fraturado e operado, o lençol do dia anterior era o mesmo até quase a noite, das 11h até por volta das 21h ficamos na incerteza de contar com uma ambulância para levá-la à sua casa, já que o edifício onde minha tia mora, não tem elevador.

Pedi para a assistência social o empréstimo de uma cadeira de rodas – mas a resposta é que o hospital não dispunha. Então, fui pedir informação à enfermagem, sobre qual deveria comprar – e ninguém sabia explicar.

Lá fui eu ver preço em duas lojas próximas. A cadeira com apoio de pernas – com um preço assustador mínimo de cerca de R$ 600. Então, fui ver a cadeira de banho. Chorei, chorei para o dono da loja, e paguei R$ 140.00. Entretanto, vale lembrar, que a minha tia é aposentada e mora sozinha. Como poderia arcar com toda essa sequência de despesas? Ninguém está interessado em saber a condição do usuário. Isso foi me dando uma revolta por dentro. Mais um agravante, depois descobri que não podia ir de cadeira de rodas, devido ao procedimento cirúrgico.

No momento da saída, recebi um receituário sem data e tempo de adoção dos medicamentos a que a minha tia tinha de se submeter (antibiótico e anti-inflamatório). Ninguém sabia explicar quanto tempo deveria tomar e não havia um médico responsável para completar os dados. Saímos sem saber qual era a cirurgia. Uma mínima explicação para um leigo e instruções pós-operatória...

Nesse vai-e-vem, descobri que minha tia não poderia usar uma cadeira de rodas tão cedo e, mas ficar deitada e sentar-se na cama...e não teríamos condições de levá-la à nossa casa, em outra cidade – o que era a pretensão inicial, até sair dessa condição de acamada.

Apesar da educação da chefe de enfermagem do turno da noite e os profissionais da ambulância, nos sentimos como peixes fora d`água. E com um agravante. Desde as 11h (outro turno de funcionários do hospital), o receituário poderia ter sido entregue à familiar do paciente, para que fosse retirado de graça na unidade básica de saúde, o que é um direito de todo cidadão brasileiro. Devido ao horário, obviamente tive de comprar, porque senão perderia o ciclo de horário.

No sábado, fui ao hospital, para ver se um médico poderia me falar quanto tempo deveriam ser adotados os medicamentos. Então, me mandaram para o PS. Esperei uma brecha do plantonista do trauma, mostrei a receita sem os dados e recebi a seguinte resposta. “Normalmente são 10 dias”. Bem, mais uma vez fiquei preocupada pela forma que foi dada a informação.

Aí mais um calvário começou. Numa outra prescrição, o médico que deu alta determinou que fossem retirados os pontos da cirurgia no dia 5. E aí surge um problema – como faríamos para levá-la ao PS, já que havia o lance das escadas e não poderia ir de cadeira de rodas. Tinha de pleitear a assistência de uma ambulância.

Então, no dia 29, lá estava eu novamente no hospital, falei com a atendente do SAC, expliquei a situação e aí fui descobrir na tela que puxou do prontuário – que a minha tia tinha fraturado a patela (conhecida por rótula, é um dos ossos que compõem a articulação do joelho ativamente).

Depois a assistente social chegou e ela providenciou uma cartinha para eu levar à Secretaria de Promoção Social próxima do hospital. Vale lembrar – que também havia tentado falar com o médico – e nada. Fui orientada, então, para falar com a secretária do médico. Quase duas horas de espera, consigo conversar com ela, mostro a receita sem data e tempo de adoção, e a mesma diz que devem ser tomados por 14 dias. Faz um receituário para os sete restantes, que é submetido à médica plantonista do trauma, que assina.

A secretária disse que estava ok o retorno de minha tia para o dia 5, e que nesta data o cirurgião responsável estaria (o que não ocorreu). Consegui pegar um raio-X, para que pudesse apresentar no retorno (já que não haviam dado nada na alta). O outro consegui depois, pois não estava no mesmo arquivo. Na sequência, vou à promoção social, a assistente social olha o encaminhamento e escreve um bilhetinho à colega do hospital – que a secretaria de saúde teria de providenciar a ambulância, pois a promoção só tinha uma com um motorista. Não tinha como fazer a remoção.

Voltei ao hospital e a assistente estava em reunião. O que fazer??? Ainda precisava de um relatório do prontuário da minha tia, já que não haviam providenciado nada até então para o acompanhamento posterior e informação a ela e nós, familiares. Novo código de burocracia surge – fale com fulano da administração, para solicitar o documento. Fui até o depto, aguardei um tempo e ele me ouve e diz. É preciso preencher um formulário e que a paciente dê uma procuração para que seja retirado (depois de alguns dias a cópia).

Então, questionei o porquê de ela não ter sido informada a respeito e não ter recebido o documento ou um relatório na alta. Não adiantou muito – o rapaz falou que o procedimento era por força de lei. Então, pedi a ele um formulário de reclamação para relatar todos os problemas vivenciados até então. Já que é de lei também, o direito de bom atendimento ao usuário. O rapaz ficou atônito e informou que não havia formulário. Demorou um pouco e voltou com duas folhas de sulfite e carbono.

Descrevi o ocorrido endereçado à diretora técnica da unidade, desde o lençol úmido à confusão do pedido da ambulância. Após ele assinar o protocolo e falar que haveria retorno (até hoje estou esperando). Fui tentar achar a assistente social. Ela já me esperava e narrou que a confusão havia sido feita pela a colega da Promoção Social. Confesso – eu já estava me sentindo uma “barata-tonta”. Aí ela liga para a outra e fala que o procedimento da requisição da ambulância deve ser encaminhado pela promoção mesmo. E mais uma vez vou lá, para pegar a tal cartinha.

Esperem. Só que a tal cartinha eu tinha de entregar na Secretária de Saúde, que fica a cerca de 35 minutos de ônibus do local. Antes disso, ainda fui ao ambulatório da UBS próxima, para pegar os medicamentos gratuitos restantes, a que minha tia tinha direito (mas não imaginem que fui orientada para isso. é que sei desse direito, como qualquer um de nós deveríamos estar cientes). Nesse vai-e-vem, já havia passado aproximadamente cinco horas.

Cheguei à Secretaria, consegui encontrar a funcionária responsável, entreguei o encaminhamento, ela olhou na agenda e diz. Tudo bem – está marcado. Acho que nessa hora a minha carga de stress desabou, porque comecei a chorar. Aí veio aquela “neura” e perguntei. Mas está tudo ok mesmo, né? A moça confirmou que sim.

A carga de preocupação era maior, pois tinha de voltar para minha casa, que fica em outra cidade, e no dia 5, minha mãe iria acompanhar minha tia no retorno. Não queria deixar nada em aberto.

Na segunda, a ambulância chegou na hora marcada. Só que para o retorno, elas tiveram de esperar quase por cinco horas. Ah, não conseguiram o relatório sobre o procedimento cirúrgico (pois o cirurgião responsável não se encontrava, e não há data correta para falar com ele). Já o plantonista mandou trocar o gesso, houve a retirada dos pontos e determinou que minha tia fique imobilizada – pelo o menos por mais um mês. Até lá, talvez, tenhamos de passar por mais esse processo desgastante.

Moral da história - Saber em quanto tempo estimado ela poderá sentar, tomar banho na cadeira de rodas, poder ser transportada em um carro de passeio e fazer fisioterapia – só Deus sabe, porque até hoje temos essas dúvidas a esclarecer. E qual é o comprometimento real do seu trauma para a sua qualidade de vida? Não é preciso falar o quanto tudo isso é humilhante, e quantas milhares de pessoas passam todos os dias por esse descaso.

Aí fica uma reivindicação – Faculdades de Medicina, Enfermagem, Serviço Social e profissionais revejam o conteúdo curricular e ético, e incluam o indispensável quesito da humanização. E senhores, gestores públicos, lembrem que não basta desembolsar dinheiro público para construir um caixote de alvenaria – sendo que esse tinha até mármore - e abrigar pacientes com descaso, literalmente como um número de leito. É preciso respeitá-los com toda dignidade que qualquer ser humano merece.

Sucena Shkrada Resk |