Artigo-2008-Sucena Shkrada Resk - blog cidadãos do mundo

30/12/2008 07:50
Mudanças Climáticas: correndo atrás do prejuízo, por Sucena Shkrada Resk

A 14ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-14) só atestou que o período após o Protocolo de Kyoto de 1997 (ratificado pelo o Brasil, em 2002), emite um sinal vermelho aos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Os maiores poluidores do mundo são os mesmos da década passada - Estados Unidos, China, Indonésia, Rússia, Brasil, Japão, Índia, Alemanha, Canadá e Inglaterra. O prazo acordado de em 2012 se diminuir em aproximadamente 5% as emissões dos gases de efeito estufa em relação aos níveis de 1990 se tornou um verdadeiro engodo mundial. Mas o mais surreal é que estamos querendo enganar a nós mesmos, pois perdemos o time da história e corremos atrás do prejuízo causado pela adoção dos combustíveis fósseis (nos países desenvolvidos) e da chaga dos desmatamentos nas nações em desenvolvimento.

A indústria do petróleo ainda detém um poder grande na pauta de negociações. Chegar a um método eficaz sobre a captura e estocagem de carbono é o grande x da questão, que não se chegou ao consenso. Em contrapartida o Redd (Redução de Emissões por Desflorestamento e Degradação) – que não fazia parte da versão do Protocolo de Kyoto – entrou agora na agenda ambiental mundial. Com isso, entende-se que o Brasil tem de expor uma postura oficial a respeito.

Em Poznan, foram relatadas mais metas, como da União Européia de diminuir em até 30%, as emissões dos gases, implementando um sistema de compensação de emissões.

Já os países em desenvolvimento, no hall em que se inclui o Brasil, deverão receber fundos internacionais originários do Banco Mundial (BIRD), que totalizará a cifra de US$ 40 bi anualmente. E os projetos de envergadura a longo prazo?

Agora começa uma nova rodada de conjecturas. Talvez o anúncio feito pelo o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, sobre alguns dos nomes que estarão à frente dos postos de Energia e Clima, sinalize uma revisão da conduta até agora intransigente do país, que não ratificou o protocolo. Afinal, o Nobel de Física (1997) e especialista em mudanças climáticas, Steven Chu ocupará o cargo se secretário de Estado da Energia. O cientista é conhecido por ser um defensor das fontes de energia renovável.

Já Carol Browner, que será responsável por “clima”, tem em seu histórico a atuação como líder da agência de proteção ao Meio Ambiente, durante o mandato do presidente Bill Clinton (1993-2001) e é colaboradora do ex-vice-presidente e prêmio Nobel da Paz Al Gore. Será que “Uma Verdade Inconveniente” pesará sobre a nova política de sustentabilidade norte-americana? Tendo em vista, que na fase Clinton não houve avanço, como na gestão Bush, quanto à diminuição da matriz fóssil.

Ao voltar os olhos para o Cone Sul, e em especial para o Brasil, resta saber como o país vai fazer valer todas as propostas que levou ao encontro de Poznan, presentes no Plano Nacional sobre Mudança do Clima (http://www.mma.gov.br/estruturas/imprensa/_arquivos/96_01122008060233.pdf ), que tem metas ambiciosas, como reduzir até 2018, em 70% o desmatamento na Amazônia Legal, que não foram detalhadas. A mesma Amazônia, que a todo mês é devastada. Neste ano, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foram 11.968 km2 desmatados, contra 11.532 km 2, em 2007 – predominantemente nos estados de Mato Grosso, Pará e Rondônia.

Vale recordar, que em 2007, pesquisadores do Instituto já sinalizavam a possibilidade de o – “pulmão verde do mundo” se transformar em Cerrado. E quando vemos a situação do “verdadeiro” cerrado brasileiro, a perspectiva é simplesmente virar agreste. Não existe bioma algum no país que não esteja sendo afetado. A progressão do aumento desse cenário desolador é gigantesca, proporcional à dimensão continental do Brasil.

Para isso, o governo brasileiro está criando o Fundo Amazônia – que deverá receber recursos nacionais e estrangeiros – para viabilizar os projetos que revigorem a Amazônia. Fala-se na cifra de US$ 21 bi. E conforme disposto no plano, essas iniciativas deverão estar voltadas à gestão de florestas públicas e áreas protegidas; controle, monitoramento e fiscalização ambiental; manejo florestal sustentável; atividades econômicas desenvolvidas a partir do uso sustentável da floresta; zoneamento ecológico-econômico, ordenamento territorial e regularização fundiária; conservação e uso sustentável da biodiversidade; recuperação de áreas desmatadas; e pagamentos por serviços ambientais.

Os efeitos de uma Amazônia destruída preocupam o mundo ainda por uma questão financeira. Estima-se que possa gerar um prejuízo de US$ 1 trilhão. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) em parceria com outras 29 instituições de pesquisas, as chuvas geradas no Centro-Oeste brasileiro e nos países do Cone Sul vêm em grande parte da evaporação de água da região.

As linhas genéricas do Plano Nacional sobre Mudança do Clima foram delineadas pelo Governo Brasileiro e agora vem o maior desafio – implementá-las – independentemente de gestões. De acordo com o resumo do texto divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), no que tange à matriz energética, (hoje predominantemente hídrica), deverá haver investimento em mais hidrelétricas, matrizes eólicas e de energia fotovoltaica. O Plano ainda destaca investimento em carvão de origem vegetal. A proposta é trocar 1 mi de geladeiras antigas por ano, num período de uma década.

Por outro lado, em outra frente se apoiará a eficiência energética, por meio da redução do consumo (principalmente industrial). A meta é chegar à 10% de economia até 2030, o que representa 30 milhões de toneladas de CO2 naquele ano.

A meta governamental prevê ainda o aumento de reciclagem no Brasil em 20% até 2015 e a diminuição gradual do emprego do fogo no corte da cana-de-açúcar, que é a principal fonte da política de co-geração de combustível do país. Segundo o governo, deverá haver o aumento médio de consumo de etanol e biodiesel de 11% nos próximos 10 anos.
Outra proposta no documento é recuperar grande parte dos atuais 100 mil há de pastos degradados no país e reduzir o desmatamento em 40%, no período compreendido entre 2006 e 2010. Uma das principais tarefas, tendo em vista os percentuais anunciados mensalmente que afligem todos os biomas brasileiros.

E outras metas que deverão ser efetivadas, de acordo com o Plano, é o incentivo a estudos e pesquisas sobre impactos da mudança do clima sobre a saúde, fortalecimento das medidas de saneamento ambiental e de educação ambiental. Ainda há a meta de se realizar capacitação técnica dos profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) em saúde e mudança do clima, além da inserção da temática nos programas curriculares e materiais didáticos.

Pode-se dizer que é um exercício que exige vontade política e pulso firme – já que hoje ainda nos debatemos com problemas cotidianos dos mais elementares, que é a falta de humanização no sistema – de entender que o semelhante merece respeito e não é mais um número de protocolo nas filas de atendimento.

Sucena Shkrada Resk |




12/12/2008 21:58
Representação cidadã é reduzida no perfil da gestão ambiental brasileira, por Sucena S. Resk

Hoje o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a sétima edição do Perfil dos Municípios Brasileiros, e entre os diversos dados ambientais levantados, o que mais me chamou atenção foi a constatação de que menos da metade – 2.650 ou 47,6% - mantêm conselho municipal de meio ambiente, sendo que 11,6% apresentam composição paritária (governo e sociedade), com caráter consultivo a fiscalizador. Já na região Sudeste, um terço está inativo. Esses dados revelam que há muito a melhorar no sentido de participação cidadã e quanto à falta de mobilização.

Mais uma lacuna na gestão ambiental diz respeito à retaguarda de prefeituras para enfrentar os problemas ambientais. De acordo com a pesquisa, 18,7% dos municípios brasileiros possuem simultaneamente secretaria ou assessoria de meio ambiente, recursos específicos para a área e o conselho. Quando o dado é regionalizado, a situação mais crítica é revelada no Nordeste, com 9% de cobertura.

Esses déficits estão intrinsecamente relacionados à “lei de causa e efeito”. O contexto é justamente a confirmação de que 90% dos municípios brasileiros, ou seja, 5.040 revelam que sofrem a ocorrência constante de impactos ambientais. Os líderes do ranking são queimadas, desmatamento e assoreamento de corpos d`água. Esse recorte obscuro do Brasil – que se repete ano-a-ano - faz com que figure como um dos maiores emissores dos gases do efeito estufa do planeta, entre os países em desenvolvimento. Com certeza, é um título do qual não podemos nos orgulhar e nos omitir, por meio da alienação.

Sucena Shkrada Resk |




11/12/2008 17:12
O sinal vermelho do lixo, por Sucena Shkrada Resk
Achar normal que a média brasileira de produção diária de resíduos sólidos seja de 900gr por pessoa, no mínimo, é uma insanidade. Basta ver os pequenos sinais de alerta diários com os quais nos defrontamos em nossas ruas, calçadas, rios – ainda lixões!!!! – e aterros. Só para se ter idéia, no estado de São Paulo, são produzidas cerca de 28 mil toneladas diárias de resíduos sólidos domiciliares, segundo a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). No Brasil, estima-se que sejam 240 mil ton.

A situação chega a ser tão complexa, que até revisões de normas para instalação de aterros são pautas recentes do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Em novembro deste ano, foi instituída a resolução nº 404/2008, que estabelece critérios e diretrizes para o licenciamento ambiental de aterro sanitário de pequeno porte (disposição diária de até 20 t), para que possam ser implementados, possibilitando a dispensa do EIA-Rima (http://www.mma.gov.br/port/conama/legiabre.cfm?codlegi=592)

Provavelmente poucas pessoas se detiveram, por exemplo, em uma notícia recente de que o período de vida útil dos aterros do litoral Norte paulista está expirando e algumas prefeituras se viram obrigadas a buscar alternativas em municípios mais distantes. Uma das possíveis soluções a médio prazo encontrada é a criação de um aterro regional, por meio de um Consórcio Intermunicipal.

Quando trazemos essa realidade para São Paulo capital e aos municípios do entorno, aí as prospecções são mais assustadoras. O sinal vermelho já foi dado há muito tempo. Em novembro, realizei, em companhia de alguns colegas de pós-graduação lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade, uma visita monitorada ao Aterro particular Essencis, em Caieiras, que recebe grande parte do lixo da capital, para ter uma noção real de qual é a destinação de cerca de 8 mil ton/diárias (domésticos).

As minhas conclusões parciais são de que os gestores públicos, as empresas e, nós, enquanto sociedade, precisamos literalmente de educação e consciência ambiental. Em outras palavras, reduzir o consumo, antes da reciclagem.

A primeira impressão que tive ao chegar lá me remeteu àquelas imagens das crateras profundas a perder de vista do cenário de Carajás, no PA. São 3, 5 mi m2 de área de fundo de vale, onde são formadas montanhas (aterradas) de lixos que podem atingir a 45 m de altura, destinadas a abrigar resíduos doméstico e industrial (classes 2 e 1).

Os caminhões não páram de chegar. Aí é necessário abrir um parênteses, que infere a emissão de CO2 no trajeto – que tem de ser contabilizado na poluição. Esse ciclo constante é resultado do modo de vida que temos na sociedade de consumo – pois no meio de todo lixo doméstico (que em grande parte não tem separação seletiva), se encontra de tudo – do orgânico ao potencialmente reciclável.

De acordo com dados da Secretaria de Serviços da Prefeitura de São Paulo, das cerca de 15 mil toneladas de lixo geradas diariamente, 9 mil são de resíduos domiciliares, que vão para aterros sanitários, e somente 0,6% do montante de lixo segue para a coleta seletiva, que atende a 74 distritos.

Destinação do chorume
O chorume (substância líquida resultante do processo de apodrecimento de matérias orgânicas) produzido no lixo – por força de lei e de saúde ambiental, é recolhido em enormes bacias de acumulação para ser tratado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), conforme informa o educador ambiental da Essencis e mestre em Botânica, Giovano Candiani. “Saem de 20 a 30 carretas/dia, com 30 mil m3 cada. É diluído no esgoto urbano e passa por tratamento físico, se transformando em lodo e a água é descartada para o rio Tietê”, explica. Entretanto, nós cidadãos comuns, sabemos o que acontece com dezenas de outros aterros espalhados por este país?

Outro aspecto a observar é que o adensamento urbano no entorno é uma preocupação constante, seja perto do Essencis ou de qualquer outro aterro. No caso do Aterro de Caieiras, a olho nu é possível ver uma comunidade de Caieiras a alguns quilômetros de distância do Aterro. Aí mais um alerta – os gestores públicos têm de fiscalizar essas distâncias e as possíveis construções desordenadas, para que não chegue ao ponto de ultrapassar a limites que sejam perigosos à saúde ambiental.

Para compreender a emergência disso tudo, temos de partir do princípio que, em média, um aterro tem previsão de vida útil de 10 anos, mas a realidade mostra que o adensamento leva, com que posterguem esse teto até 30 anos. Vide o Bandeirantes, que recebia até 6 mil ton/dia, que fechou em 2007, e em tese, deveria ter encerrado suas atividades nos anos 80.

Só o Essencis não dá conta de todo o resíduo de SP. Afinal são cerca de 12 mi habitantes. Aí, a destinação também é dividida para outro aterro particular, em Pedreira, Guarulhos, e ao Aterro público São João, no bairro de São Matheus, em São Paulo, que tem previsão para ter sua vida útil expirada no ano que vem. A criticidade que envolve o tema é tão relevante, que em agosto passado, parte dos 150 m de altura de lixo do São João chegaram a desmoronar.

Monitoramento contínuo
As regras para se estabelecer a segurança dos lençóis freáticos nos aterros também são exigências legais prioritárias para seu funcionamento, que prevêem camadas de proteção (argila, polietileno, gel têxtil, pedras brutas, entre outras), canalizações hídrica, de águas pluviais, de chorume e monitoramento constante. “O controle quanto a contaminações tem de ser feito após o fechamento dos aterros, pelo o menos, por 50 anos (período estimado para estabilizar a matéria orgânica”, explica. Mas a minha pergunta é a seguinte – esse controle realmente é feito de forma sistemática em todo o nosso país?

A compensação ambiental também faz parte desse processo de licenciamento, que deve se dar por meio de reflorestamento. “No Essencis, já foram viabilizados 50 hectares de reflorestamento e o controle da fauna e flora, com o apoio de pesquisadores da USP e ESALQ. Foram catalogadas 175 aves e 15 mamíferos. Observou-se que começou a aparecer onça-pintada”, diz Candiani. O difícil é ter certeza de como está a situação dos demais no país, já que vemos rotineiramente ações por meio do Ministério Público exigindo reparações.

Lixo: produção de energia, redução de metano e créditos de carbono
A experiência de captação de metano e geração de biogás e “créditos de carbono” (cada crédito de carbono equivale a uma tonelada de dióxido de carbono (CO2) que deixa de ser lançada na atmosfera pela instalação de equipamentos de controle de emissão de gases) é mais uma etapa do potencial de um aterro, que ainda não representa o universo das unidades pelo Brasil. O Bandeirantes foi um dos pioneiros em geração de energia elétrica. Obviamente isso requer investimento e tecnologia.

Em notícia publicada pela Secretaria Municipal de Finanças de São Paulo, no mês de setembro, a Prefeitura de São Paulo arrecadou cerca de R$ 37 milhões no segundo leilão de créditos de carbono, obtidos com a captação de gás metano, tando do Bandeirantes, como do São João. Foram comercializados em leilão na Bolsa BM&F Bovespa 713 mil créditos de carbono.

É importante destacar que o dinheiro advindo da transação deve ser destinado ao Fundo Municipal de Meio Ambiente. A destinação da verba obrigatoriamente tem de passar por consulta pública. É aí que os cidadãos precisam ficar bem atentos para as prioridades e aplicações de ordem socioambiental.

De acordo com Candiani, a prática já é desenvolvida no Essencis, onde há uma pequena usina de biogás, que pude observar na visita monitorada. “Hoje a energia consumida aqui é proveniente dela”, afirma. Mas o potencial é bem maior, segundo ele, equivalente ao atendimento de uma população de 400 mil habitantes.

Algumas mitigações, como a produção de energia, são interessantes de ponto de vista de compensação, mas com certeza não se sobrepõem à questão dos riscos ambientais, que envolvem o ciclo do lixo. Tendo em vista as dicotomias da sociedade de consumo, que nos remetem à filosofia do ter e ao status aparente dessa projeção, vemos que se não mudarmos nossos hábitos, talvez tenhamos de disputar o espaço com o lixo que produzimos. E o mais grave, como evitar que não haja contaminações e risco à saúde pública? Por isso, a iniciativa mais eficaz é introduzir a cultura da redução e repensar nossos valores de vida.

Sucena Shkrada Resk |




10/12/2008 20:04
DHs: começam pelo princípio de dar dignidade à vida, por Sucena Shkrada Resk
Celebrar os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos requer que a memória não seja apagada num daqueles lapsos temporais, que permitem passar a borracha na história. E, com a precisão que cabe ao termo, se pode dizer que o princípio fundamental incontestável é que todos têm o direito à vida – mas com um detalhe a considerar – uma vida envolvida com qualidade e dignidade, em que qualquer cidadão encontre opções de escolha para alcançar a felicidade.

No entanto, os focos de crise que assolam nossos bairros, cidades, países e o planeta pelas décadas a fora provocam uma série de reticências sobre quais são as premissas para se estabelecer esse direito universal. O sociólogo e presidente da Cátedra UNESCO de Educação para a Paz, Direitos Humanos, Tolerância e Democracia, Sérgio Adorno, afirma que ainda há muitos desafios a vencer no Brasil, quanto a equívocos que levam muitas pessoas a identificar o DH, por exemplo, “como direito para bandido”. “É preciso reduzir as resistências e solidificar o significado”, afirma.

Em palestra proferida, no último dia 8, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), Adorno fez uma retrospectiva do cenário que envolveu a formação da declaração, em 1948, em paralelo com o que diz a Constituição Federal Brasileira de 1988. Nessa trajetória, o sociólogo apontou as conquistas e arestas a se superar.

Segundo o sociólogo, o mundo das primeiras décadas do século XX tentava se erguer do advento da 1ª Guerra Mundial e da 2ª, que trouxeram uma carga pesada envolvida pelo totalitarismo, genocídios, anti-semitismo, entre outros tipos de violência. “A Declaração teve como princípio básico o direito à vida e como ponto fundamental, as Revoluções Americana e Francesa, quanto ao direito do homem e do cidadão”, explica.

O ideário francês permaneceu como referência, pelo o menos, por dois séculos O mundo pós-holocausto era o símbolo de tudo que a sociedade ocidental queria repudiar. “O objetivo era evitar que os povos estivessem sujeitos à pobreza extrema e serem manipulados; evitar os armamentos bélicos. O que se queria era o bem-estar, justiça e liberdade, além da restrição ao totalitarismo e ao terrorismo do Estado”, diz o sociólogo.

A construção do texto da DUDH também contou com fundamentos já estabelecidos pelo então presidente norte-americano Franklin Roosevelt, quanto à liberdade de expressão, adorar a Deus em qualquer lugar do mundo e de viver salvo da necessidade e do medo. A DH passou por um processo de quatro gerações.

Segundo Adorno, na primeira, o enfoque foram os direitos civis (liberdade de expressão) e político (votar e ser votado); a segunda incluiu os direitos econômicos e sociais (trabalho, habitação, saúde, escolarização e segurança). Já a terceira e quarta se preocuparam em proteger grupos vulneráveis (mulheres, adolescentes, minorias étnicas e, também, o meio ambiente (fauna e flora). “Houve uma perspectiva cada vez mais transversal, mas apesar dos avanços, ainda nos deparamos com situações de mutilações físicas e mortes”, explica.

Algumas iniciativas positivas pós-implementação da DUDH no mundo:

1950 – Estatuto dos Refugiados e Apátridas
1959 – Declaração dos Direitos das Crianças
1960 – Independência aos países e povos coloniais
1963 – Declaração sobre a Eliminação de todas as formas de discriminação racial
1992 – Rio 92 – Convenção sobre a Biodiversidade
1994 – Declaração sobre Medidas para Eliminar o Terrorismo Internacional
1998 – Declaração sobre os Princípios Fundamentais e Direitos no Trabalho da OIT
2003 – Convenção da ONU sobre corrupção

Algumas iniciativas negativas que prevaleceram no período:
Campos de trabalho forçado na ex-URSS
Intervenção americana na Guatemala (1954)
Violações do DH – na Argélia, África do Sul, Angola, Burundi, Moçambique, Ruanda, Zimbábue, ex-Croácia etc
Neonazistas na Alemanha
Narcotráfico, tráfico de seres humanos, turismo sexual, prostituição infantil, torturas e maus tratos
Terrorismo nos EUA (2001)
Guerra do Iraque, entre outras

Segundo Adorno, no Brasil, a Constituição Federal promoveu a ampliação do reconhecimento dos direitos civis, culturais e políticos. “Nomeou-se os direitos, mas sem indicar mecanismos de proteção”, considera. Já com relação a mobilizações importantes, ele cita a luta pela Anistia ampla, geral e irrestrita (1978-79) e a Campanha das Diretas Já (1984).

“Houve ações de resistência, desde 64, que se intensificaram com o Ato Institucional nº 5 em 68, de forma dispersa, em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte”, fala. Como frutos dessas iniciativas, se instituíram o habbeas corpus e o habbeas data, houve o fim à censura. “É um período muito importante, porque setores que haviam aderido ao Golpe, começaram a engrossar as fileiras pelas lutas de estado de direito”, diz.

Ao mesmo tempo, ao longo das lutas, se descobriu um lado obscuro. “O fim do regime militar não significaria o fim da tortura dos cidadãos comuns e das perseguições”, afirma Adorno. Mais um ponto de embate ficou por conta de estabelecer o significado do conceito. “Forças conservadoras defendiam a idéia de que os DH eram direitos para bandidos. Essa política por muito tempo constrangeu os defensores, porque eram considerados porta-vozes do crime e da delinqüência”, analisa.

Hoje, de acordo com Adorno, apesar das resistências não serem tão fortes, ainda são presentes. “Volta e meia há momentos de comoção pública a esse respeito”. E a Cátedra UNESCO de Educação para a Paz, Direitos Humanos, Tolerância e Democracia, segundo ele, tem como papel vencer essas barreiras, com o mote de que os direitos sociais, econômicos, políticos individuais são indivisíveis.

O texto da Constituição Federal, por sua vez, traz pontos convergentes com o DH, segundo o sociólogo. “O direito à vida impede a pena de morte no Brasil”, diz. Outros aspectos se referem aos direitos alienáveis ao bem-estar social, progresso cultural, econômico e direito de imputação de crime, além da dignidade da pessoa humana (contra o racismo e a favor da paz), pluralismo político, liberdade de expressão, religiosa, acesso à informação, direito ao trabalho e de greve, entre outros.

Sérgio Adorno enumera os seguintes desafios a se superar, apesar do instrumental legal já existente:

-Abuso sexual contra crianças e adolescentes
-Conflitos por posse de terras (com mortes)
- Diferença de tratamento entre mulheres e homens, e entre brancos e negros no mercado de trabalho
-Efetivação do direito à memória e verdade
-Efetivar a proteção ao meio ambiente e a políticas urbanas (uso e ocupação do solo, acesso a saneamento...)
-Hesitações para o encaminhamento da reforma política
-Misogenia e homofobia
-Persistências de graves desigualdades socioeconômicas
-Persistência de situações de tortura
-Sub-registro civil
-Violações no controle da ordem pública e no enfrentamento da criminalidade urbana

“Em nenhum lugar do mundo, os DHs estão de forma acabada. O caminho é pelas lutas sociais. Quanto a educar, a questão é como formar os ‘formadores’. Aí se estabelece o desafio da comunicação de convencer os não convencidos. É preciso problematizar o direito à cidade... Os DHs são uma cultura do pluralismo x o monolítico em culturas radicais”, afirma.

Obs: uma das bases para a exposição de Adorno foi a obra “A Constituição de 1988 na Vida Brasileira, SP, Hucitec, 2008, PP 191 a 224.

Sucena Shkrada Resk |




10/12/2008 12:49
Ignacy Sachs: o valor de um pensador, por Sucena Shkrada Resk
Grandes pensadores são ímpares, e, por isso mesmo, devem ser valorizados. Recentemente pude conhecer alguns pensamentos e textos do economista e sociólogo polonês, naturalizado francês, Ignacy Sachs, criador na década de 80, do Centre de Recherches sur le Brésil Contemporain (Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo) e da alcunha ecodesenvolvimento, um embrião do conceito do desenvolvimento sustentável.

Sua leitura de mundo me despertou para o sabor "doce" de discorrer sobre sustentabilidade, sem as retóricas viciadas de marketing. A minha iniciação foi com o pequeno livro pocket chamado "Caminhos para o desenvolvimento sustentável", pela Garamond, no qual é descrita a tese do economista sobre a Moderna Civilização Baseada em Biomassa. Para isso, ele infere como premissa - a biodiversidade, a biomassa e a biotecnologia, para que a civilização consiga cancelar a dívida social acumulada com o passar dos anos, como também a dívida ecológica. Ainda há muita leitura a fazer sobre sua extensa obra, com mais de 20 títulos.

A interdisciplinaridade faz parte do paradigma de Sachs, que tem como alicerce a otimização do uso da biomassa em cinco pilares: alimento, fertilizante, ração industrializada, combustível e suprimentos. Para alcançar isso, em sua opinião, nada há de errado em implementar a biotecnologia - a chamada revolução verde.

"A agricultura familiar para se desenvolver, precisa de políticas públicas articuladas entre si, acesso à terra e aos conhecimentos. Hoje podemos pensar num sistema de extensão rural que usa o computador. A Índia está com projeto de centros de inovação tecnológica nas aldeias", disse hoje (10), Sachs, durante conferência sobre "A Grande Transição - As Biocivilizações do Futuro", no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), do qual é pesquisador visitante.

Segundo o economista, o empreendedorismo coletivo é capaz de restaurar o individual. "Por isso, a importância do sistema cooperativo na visão da agricultura familiar", afirma. Nesse raciocínio, se pensa na inscrição da agricultura familiar no bioma, de uma forma holística. "Não há razão para que os membros da família do agricultor não participem de atividades não-agrícolas, no meio rural", considera.

Isso quer dizer, de acordo com Sachs, que a "pluratividade" é fundamental para a organização desses sistemas de produção. "Não é só a transformação local dos produtos dos agricultores, mas dos serviços sociais e técnicos do transporte e comércio", diz.

A tônica de Sachs é o ecodesenvolvimento, em que as comunidades locais fazem parte do processo de preservação x o conceito da natureza intocada. Esse exercício, no entanto, tem de reunir os cidadãos ao poder público, cientistas e agentes econômicos públicos e privados, integrando o conhecimento tradicional com a ciência moderna.

O pensador concluiu a conferência com a seguinte provocação - "A ecologia profunda está num impasse profundo", tendo em vista o contexto do Aquecimento Global e a crise de paradigmas da sociedade capitalista.

Sucena Shkrada Resk |




10/12/2008 10:52
A polêmica do enxofre (continuação), por Sucena Shkrada Resk
Saúde em segundo plano
Henry Joseph Júnior, da Anfavea, reitera a observação de Saldiva de que o tema saúde não está inscrito nas resoluções sobre poluição ambiental, o que é uma lacuna considerável . O Proconve começou em 86, como uma resolução da Conama, e teve legislação complementar nº 8.723, de 1993, além de resoluções Conama, em 1993, 95, 97, 98, 2001 e 2002. “Apesar de bons resultados já obtidos em reduções de emissões, nunca vi resoluções baseadas em questões de saúde pública. Outro aspecto é o econômico. Não se faz estudo de viabilidade. Com incentivos tributários se conseguiria ganhos ambientais violentos”, diz.

Quanto à resolução nº 315, de 2002, Júnior tece as seguintes críticas. “A resolução não cita a quantidade de enxofre, mas determina limite máximo de poluentes e quais as datas para serem implementados e não especifica determinado combustível”, afirma. Somente em 2007 a ANP definiu o óleo diesel.

Já segundo a Lei nº 8.723, de 1993, os órgãos responsáveis pela política energética e controle são obrigados a fornecer combustíveis comerciais, a partir da data de implantação dos limites fixados por esta lei e de referência para testes de homologação, certificação e desenvolvimento, com antecedência mínima de trinta e seis meses do início de sua comercialização.

“Um erro não foi especificar o combustível de início...É na etapa P6 (baseado no modelo europeu), que é necessário um combustível com qualidade muito boa e com durabilidade, que deveria começar em 2009”, considera Júnior.

O representante da Anfavea diz que “não houve tempo” da indústria cumprir o prazo, porque a definição do óleo diesel foi feita no final de 2007. “Visto que os veículos modelo 2009 são comercializados a partir do segundo semestre de 2008, o tempo não foi suficiente. A indústria automobilística é demorada mesmo (processo tecnológico)”, afirma. Outros fatores agregados, segundo ele, é a indisponibilidade do combustível com redução e tempo para desenvolvimento e logística de distribuição e adição de uréia (que faz parte do processo).

TAC de novembro
Com todo esse imbróglio, no dia 6 de novembro de 2008 foi firmado um Termo de Ajustamento de Conduta, homologado pela 19ª Vara Cível da Justiça Federal. O acordo foi feito entre o Ministério Público Federal (MPF), o Ibama, a ANP, a Petrobras, os fabricantes de veículos motores e a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), estabelecendo medidas de mitigação. Com isso, a Fase P7/veículos Euro 5, da resolução só deverá entrar em vigor em 2012 (redução para 10 ppm).

“Decorrente do TAC, o Instituto de Energia e Meio Ambiente fez um inventário sobre qual é o impacto ambiental do não cumprimento da resolução nº 315. Com a entrada dos veículos Euro 5, em 2012, com certeza haverá redução”, diz Júnior.

Conforme gráfico apresentado pelo especialista da Anfavea, o prejuízo ambiental é de 51 mil toneladas no período de 2009 a 2040, quanto ao material particulado. Já com relação a NOx, o prejuízo ambiental previsto é de 155 mil toneladas no período de 2009 a 2013, e o ganho ambiental de 9 milhões de toneladas no período de 2014 a 2040.

Para se compensar o prejuízo ambiental, a substituição será gradual a partir de 2009, por diesel S1800 (ppm) até chegar em 100% em 2014. E em especial ao diesel metropolitano, deverá passar de 500 a 50 ppm de enxofre, para frotas de ônibus urbanos. A mitigação também deverá incluir programas de avaliação e de regulagem gratuita para frotas de veículos a diesel, patrocínio do programa de fiscalização da fumaça preta da Cetesb no estado de São Paulo, entre outros.

Políticas equivocadas
O promotor José Eduardo Ismael Lutti considera que no Brasil há algumas políticas públicas equivocadas, que levaram ao inchamento dos centros urbanos e ao crescimento desordenado, substituição do transporte ferroviário para o rodoviário. “O Proconve foi criado em um período em que há a concepção do trólebus e metrô com energia renovável X transporte individualista movido a óleo diesel”.

Com isso, o lucro se sobrepõe à preservação da saúde e economia, além do interesse da coletividade. “A vida, saúde, dignidade humana e meio ambiente ecologicamente equilibrado não podem ser abdicados. Isso tudo está na Constituição Federal e não é discurso de ecochatos”, afirma.

Já no seu artigo 1ª, a dignidade humana pressupõe respeito à vida e meio ambiente. “A Constituição traz a possibilidade da intervenção estatal, no artigo 170, quando trata dos princípios da atividade econômica - assegurar a todos, indistintamente, uma existência digna, a defesa do consumidor e do meio ambiente”, explica.

Em outros artigos, saúde é dever de todos e do Estado, e todos têm direito ao meio ambiente equilibrado, e deve ser feito o controle da produção e comercialização de produtos e substâncias que comprometam o meio ambiente. Já a iniciativa privada cabe a obrigatoriedade de respeitar todos esses princípios. “A boa gestão corporativa requer a capacidade do administrador do lucro com os princípios fundamentais da Constituição”.

Lutti esclarece que o Conama pode estabelecer normas, que têm força de lei. O Proconve foi concebido com a premissa de que as indústrias tinham de se adaptar a certas exigências. “Houve uma drástica diminuição, cerca de 15 mil pessoas deixaram de morrer num prazo de 10 anos. Diferentemente do que vem ocorrendo nos últimos anos, com relação à resolução nº 315, de 2002”, afirma.

A Constituição determina sanções administrativas e penais, que pessoas físicas e jurídicas responderão cível e criminalmente. “O TAC, a princípio, pretende revogar a resolução 315, o que não é possível. É isso que as partes envolvidas não estão entendendo. Um acordo judicial não pode afastar a imposição de lei, como o crime de poluição atmosférica”, considera o promotor.

Leituras enganadas
No parecer de Frederico kremer, da Petrobras, ocorreram leituras enganadas de regulamentações. “O TAC não nos leva a um descumprimento da regulamentação, mas a um acordo. Nossa indústria leva um tempo grande para implementação de unidades, como licenciamento e estrutura de engenharia”, argumenta.

Segundo o gerente, desde o início, a Petrobras participou da implementação do Proconve. “Temos dois laboratórios de veículos leves e pesados, para verificar nossas emissões, inclusive, quanto à resolução Conama nº 315”, diz.

Como a Anfavea, a Petrobras alega que a resolução não definiu – em princípio - o teor do enxofre do óleo diesel. “Também na Europa a característica é diferente dos EUA. Conforme a especificação do diesel, é necessário haver diferenciada rota de tecnologia”, diz.

Kremer afirma que a empresa já investiu um montante bilionário para a qualidade do diesel. “Testes realizados pela Petrobras e Anfavea mostraram que o efeito positivo do diesel S-50 em veículos antigos é pequeno. Com a ação do MPF, a Petrobras manifestou determinação de fornecer diesel 50 para os novos veículos P-6, a partir de janeiro de 2009. Mas daí o MMA assume a coordenação do assunto, e a Anfavea confirma que a fase P-6 não seria cumprida, embora com amparo legal, propõe uma série de ações alternativas, inclusive a antecipação da fase P-7”, fala o gerente. Segundo ele, a empresa petrolífera se compromete a reduzir o teor do enxofre em 10 ppm em janeiro de 2013. “Já temos 10 unidades para 50 ppm, a de 10 ppm teremos de construir”, explica.

O executivo ainda informa que até maio de 2009, Fortaleza, Recife e Belém receberão o S-50 diesel metropolitano. Também haverá a substituição de todo o diesel usado pelas frotas de SP, RJ, BH para S-50. “Mas não podemos esquecer que há também outros responsáveis na cadeia, como distribuidores e revendas. Outro aspecto é a colocação da uréia. Somente em 2008, foi publicada no Diário Oficial da União (DOU), pela MMA, a consulta pública sobre a especificação da solução”, diz.

“Ao meu ver, se em 2009, não cumprirem os prazos, serão incluídos nos crimes ambientais, desde os conselhos administrativos que votaram contra o cumprimento da lei. Lá está estabelecido 50 ppm. Na impossibilidade, permitia-se importação do combustível. Essas grandes corporações, todas elas detêm há anos essa tecnologia. Acho arriscado inveredarem por esse caminho, porque trará prejuízo a todos. Solicito a revisão desse TAC”, diz José Eduardo Ismael Lutti, promotor de Justiça e Meio Ambiente do Ministério Público do Estado de São Paulo.

Sucena Shkrada Resk |




10/12/2008 10:42
A polêmica do enxofre, por Sucena Shkrada Resk
Compreender o fogo cruzado que emerge sobre a anunciada falta de cumprimento da redução do teor do enxofre no diesel, determinada pela Resolução Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) nº 315, a partir de janeiro do ano que vem, é praticamente tarefa de xadrezistas, visto que, as informações ao público leigo chegam com tantas nuances, difíceis de decifrar. Afinal, há muitos atores e discursos envolvidos. Por um lado, há órgãos oficiais e reguladores, como o Conama e Agência Nacional do Petróleo (ANP). Por outro, a indústria – cujos principais representantes são a Petrobras e as empresas automotivas e de motores. Numa outra tangente, o Ministério Público e a Justiça. E no contexto dos bastidores, pesquisadores que analisam o aspecto do comprometimento da saúde.

Para tratar do tema, foi realizado no último dia 9, o debate “Enxofre no Diesel”, na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP). Para falar sobre as implicações de saúde, esteve presente o médico e coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Saldiva. A promotoria de Justiça e Meio Ambiente do Ministério Público Federal foi representada por José Eduardo Ismael Lutti. O porta-voz da Associação Nacional dos Fabricantes dos Veículos Automotores (Anfavea) foi o presidente da Comissão de Energia e Meio Ambiente da instituição, Henry Joseph Júnior. A Petrobras foi representada pelo gerente de Soluções Comerciais, Frederico Kremer. A mediação ficou por conta do professor da FEA e do Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa), Ricardo Abramovay.


Por que reduzir?
Uma primeira elucidação – que por muitas vezes os documentos oficiais não tratam – foi feita pelo médico Paulo Saldiva. Ele respondeu por qual motivo afinal é importante reduzir as ppm (partículas por parte de milhão) do enxofre presente no diesel, do ponto de vista da qualidade de vida. Segundo o especialista, é para facilitar que os catalisadores dos veículos (ônibus/caminhões) possam ser eficazes para reduzir a emissão das partículas finas e de ozônio na atmosfera, que são os principais vilões da poluição atmosférica nos centros adensados. Por incrível que pareça, o ozônio, quando está até 11 km acima do solo se torna prejudicial à vida, ao contrário de quando se encontra na estratosfera, com o papel de “filtro solar’ da Terra.

Saldiva afirma que o ideal seria que houvesse a redução para 10 microgramas particulados. “Isso representaria o equivalente a 7 meses de vida por ano”, compara. Já pela resolução, inspirada no modelo europeu, a meta é primeiramente 50 ppm. A Anfavea e Petrobrás expuseram que não conseguem cumprir esse prazo em 2009, e por meio de um TAC estabelecido em novembro, está programado para 2012.

O parênteses é que a empresa petrolífera anunciou ontem, por meio de seu representante Frederico Kremer, que já está produzindo diesel 50 ppm, que será distribuído para São Paulo e Rio de Janeiro, a partir de janeiro. Todas essas questões já causam reação do MP, de entidades ambientais e da sociedade civil, e é a discussão do momento presente na mídia.

De acordo com Henry Joseph Júnior, da Anfavea, o Brasil consome 42 bi de litros de óleo diesel por ano (dados 2006), dos quais 31 bi são para uso rodoviário. Tem um teor máximo de enxofre permitido de 2000 ppm, que é comercializado em todo o país, exceto em 14 regiões metropolitanas, que tem permissão de 500 ppm. Saldiva afirma “que a morte não espera”. Segundo o pesquisador, até 2040 cerca de 30 mil pessoas podem morrer devido à emissão desses poluentes.


Qualidade de vida
“A polêmica sobre enxofre e diesel trouxe uma perspectiva positiva, quanto à prospecção da qualidade do ar. A atual legislação ambiental preconiza que a qualidade do ar em floresta tem de ser maior do que na cidade. Mas o ar deveria ser, pelo o menos igual”, analisa o pesquisador. Na região metropolitana de São Paulo, de acordo com o médico, de 110 pessoas que morrem de morte natural, 10% têm a vida “encurtada”, por causa da poluição. No mundo, o número é assustador – cerca de 2 milhões de pessoas morrem anualmente.

“Nosso sistema ambiental é ultrapassado para tratar a área urbana. Não adianta falar que vai compensar em 2012, pois é uma questão diferente de obra de engenharia. A pessoa vai morrer antes”, alerta.

Na análise do médico, nos anos 90, o conhecimento sobre qualidade do ar e saúde não tinha a mesma densidade do que tem hoje. “Houve um avanço com a legislação, por meio da adoção de técnicas de séries temporais (mortes e internações) e flutuações. Quando há flutuações de poluição, acarreta agravos à saúde (que repercutirão em milhares de pessoas)”, explica. Por volta de 2002, segundo ele, começaram a surgir resultados de que os efeitos de longa exposição são mais “devastadores” à saúde.

Saldiva avalia que a qualidade do ar no Brasil está melhorando, devido à adoção de normas industriais mais limpas. “As grandes indústrias migraram dos centros urbanos, e com a adoção do Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), pôde ser evitada até 2005 a morte precoce de 1,5 mil pessoas ao ano”.

Mas ainda há muito a fazer, pois já é possível realizar medidas da poluição nos grandes centros urbanos. “Já temos medidas da poluição de Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Cutitiba e Porto Alegre. Os níveis estão acima da recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS)”, diz Saldiva.

Como meios de mitigação, há algumas iniciativas isoladas, como transporte integrado e ciclovias. No entanto, os pesquisadores observam que não são suficientes. “(De experiências de fora, já se avaliou que o sucesso ocorre com a parada da queima do carvão, e com a redução do enxofre do diesel”, afirma.

De acordo com Saldiva, em São Paulo, por exemplo, o diesel é “responsável” por 45% das 14 mortes que ocorrem por dia correspondente à poluição atmosférica. “Por isso, a discussão é quem paga essa conta. A redução das emissões diesel vai trazer um benefício significativo para a qualidade de vida”, considera.

(continua)
Sucena Shkrada Resk |




10/12/2008 09:44
Um apelo real, por Sucena Shkrada Resk
Texto: créd.foto-Sucena S.Resk






De uma maneira informal, em uma pequena roda de conversas do evento Prêmio Culturas Indígenas 2007 - Edição Xicão Xukuru, o índio Francisco, da etnia Arara-Shawãdawa, localizada na região do Acre, prestou um depoimento sentido pela preservação das florestas, a uma platéia formada por índios de outras localidades do país e alguns brancos urbanos "como eu", que estavam no Sesc Pompéia, em São Paulo, no último dia 4. Com sua voz suave e pausada, manifestou a ânsia por mudanças e respeito, que muitas vezes, a gente não tem coragem de expressar.

"O Acre é bastante impactado em suas florestas quase virgens...Por conta de tanta floresta retirada, a água vai secando e pouco vai sobrar para beber. Espero que a nova geração se sensibilize...", disse Francisco, que com seu rosto pintado com cores quentes, que destacam um dos traços marcantes da arte secular de seu povo.

Segundo ele, mais uma preocupação que envolve a sua tribo é quanto a preservação de suas raízes. “De 2003 a 2006, tivemos a iniciativa local de gravar as principais festas da etnia. Foi uma luta sem parar, para ter um filme e CD com músicas tradicionais", conta.

Francisco acredita que por esse meio as crianças aprenderão a respeitar sua cultura. "Têm a mente mais limpa e são ligeiras para aprender o que gravamos com os mais velhos", diz.

De acordo com o site Povos Indígenas no Brasil (PIB), do Instituto Socioambiental (ISA), estima-se que hoje existam cerca de 370 índios Arara-Shawãdawa no Brasil, distribuídos em três aldeias na terra indígena Arara do Igarapé Humaitá, no vale do Juruá (que ainda espera homologação), e em outras localidades.

O levantamento de pesquisadores constata que o ciclo de expansão da borracha influenciou negativamente a preservação das características tradicionais da cultura e língua desse povo. Já a partir dos anos 90, houve mobilização interna para reverter a situação, com o incentivo à educação bilíngüe. O vídeo e o CD fazem parte deste resgate concentrado na memória oral.

Ao ouvir Francisco, como representantes de outros povos, que participaram do encontro, a reflexão é quase que uma exigência. Afinal, a política indigenista brasileira é controversa, porque "ao diferenciar o índio e estabelecer proteção" ao mesmo tempo atesta a intervenção devastadora da presença branca destrutiva - tanto do ponto de vista da cultura, saúde e direito à terra, que já deixou suas marcas definitivas e, continua influenciando.

O Prêmio Cultura Indígenas está em sua segunda edição e totalizou a inscrição de 697 propostas, sendo que 102 foram selecionadas. Segundo a organização, cada comunidade premiada recebeu o valor de R$ 24 mil para investir nos projetos vencedores. A iniciativa é uma promoção do Ministério da Cultura em parceria com o SESC SP e a Associação Guarani Tenonde Porã, com patrocínio da Petrobras, por meio da Lei Rouanet. Leva o nome de Xicão Xukuru, em homenagem a um líder índigena assassinado a tiros, em Pernambuco, no ano de 1998.

Sucena Shkrada Resk |




06/12/2008 18:41
Os desafios da regionalização, por Sucena Shkrada Resk
As discrepâncias entre os Índices de Desenvolvimento Humano municipais (IDH-M) na região metropolitana de São Paulo - uma das 33 existentes no país -, entre outros municípios do sudoeste paulista são um indício de que a política de regionalização ainda tem muitas barreiras a derrubar no Estado de São Paulo, para se alcançar a tão almejada "sustentabilidade". Apesar da existência de figuras jurídicas de consórcios intermunicipais, ainda falta coesão de políticas mais efetivas nas gestões compartilhadas, para atender de forma isonômica os mais de 41,3 mi habitantes do Estado (projeção Fundação Seade).

"Principalmente o Vale do Ribeira, o Pontal do Paranapanema, acima de Votuporanga, e o Vale do Paraíba concentram os mais baixos IDHM (parâmetros de longevidade, educação e renda)", afirma o coordenador de Desenvolvimento Econômico da Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, José Luiz Ricca. Em contrapartida, no quadrilátero envolvido por Sorocaba, Campinas, São José dos Campos e Santos, onde também fica o Grande ABC, se concentram 75% do Produto Interno Bruto (PIB) paulista. Os paradoxos ficam entre cidades como Itapirapuã Paulista (0,645 IDH-M), no Vale do Ribeira, e São Caetano do Sul (0,919), que apresenta o maior índice no Brasil.

Ricca fez a exposição, durante o Seminário 18 anos de Cooperação Regional, realizado na Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), no último dia 4 de dezembro. O evento foi promovido em celebração ao aniversário do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, que reúne sete municípios - Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

Vale destacar que as diferenças entre essas cidades, tanto no aspecto geográfico, demográfico e socioeconômico também revelam as diferenças gritantes que envolvem o estado, de uma maneira geral. São Caetano, por exemplo, é uma das menores cidades do país, com 15 km2, enquanto as duas últimas ainda enfrentam um complexo problema, pois estão localizadas em áreas de proteção de mananciais.

De acordo com João Avamileno, atual presidente do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, entre as ações com maior empenho da entidade, está o apoio à consolidação dos Hospitais Estaduais, localizados em Diadema (Serraria) e Santo André (Mario Covas), ao projeto da Lei Específica da Billings e a implementação da Universidade Federal do ABC (UFABC), além das mobilizações e debates com relação aos impactos do Rodoanel - trecho Sul, que passa pela região, entre outras.

Governanças mais pró-ativas
Numa visão mais geral quanto às articulações entre os 645 municípios do Estado, Ricca constata que é preciso haver um olhar mais criterioso para a ocupação do solo e aos aspectos culturais e históricos das regiões "mais carentes", além da necessidade de governanças regionais mais pró-ativas. No aspecto de desenvolvimento econômico, segundo ele, iniciativas que vêm dando certo, são as dos Arranjos Produtivos Locais (APLs) - hoje há 24 oficializados. Dentro dessa concepção, ele afirma que se insere incentivo a incubadoras e à capacitação de mão-de-obra qualificada.

Mas obviamente, faço uma observação - que esse é apenas um recorte do desenvolvimento, para alcançar o tripé da sustentabilidade (ambiental, econômico e social). Pois se trata de um leque bem maior, que requer ações contundentes nas áreas da saúde, educação, geração de renda, saneamento básico, que desemboca em um quesito indispensável - qualidade de vida. Outro ponto importante é a questão dos conflitos políticos partidários, que cronicamente entravam pautas em muitos consórcios, além da desconexão de muitos com relação às abrangências dos comitês de bacias hidrográficas, que é mais um imbróglio.

"Os planos plurianuais devem prever diretrizes, objetos e metas de forma regionalizada, com orçamentos que tenham objetivos de interesse em comum, mas isso ainda não existe de fato", constata a diretora de Planejamento da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa), Eloísa Raymundo Holanda Rolin.

A especialista destaca que o histórico da regionalização começou nos anos 70 e sofreu várias interrupções na agenda administrativa e política, que perdura até os dias atuais. "Nos anos 70, apesar de haver a a eclosão das questões metropolitanas, o contexto era o governo centralizador (Ditadura), por isso os debates mais (consistentes) foram posteriores", explica. Na década seguinte, houve um retrocesso nas discussões, pois os temas que detinham o interesse dos gestores era das estratégias nacionais.

Um marco institucional no Brasil, que coloca a preocupação regional na pauta dos gestores, só vem com a Constituição Federal de 1988, que faculta aos Estados a competência para criação de unidades regionais. "Em 1989, a Constituição Estadual de São Paulo institui a região metropolitana, a aglomeração urbana e a microrregião. "Mas até hoje não foram instituídas as aglomerações urbanas, de fato. O Vale do Paraíba e a região de Rio Preto, por exemplo, pleiteiam essas implementações, pois se ressentem por não ter o aparato de gestão", diz Eloísa.

Mais uma conquista jurídica ocorreu em 1994, com a lei complementar estadual nº 760, que aprovou a criação do Sistema de Gestão Regional. O processo de efetivação é lento, entretanto, de acordo com a diretora da Emplasa, pois não há ainda integração dos orçamentos municipais de forma cooperativa.

Os processos de regionalização ocorrem, de forma concentrada, como a instituição da Baixada Santista em 1996, e da região metropolitana de Campinas, em 2000. "O governo do Estado encaminhou à Assembléia a reorganização da região Metropolitana de São Paulo", explica.

Segundo Ricca, alguns dos principais desafios da região metropolitana de São Paulo se referem hoje a efetivar a implementação de três parques tecnológicos em São Paulo e em Campinas e à questão ambiental dos impactos do Rodoanel, do novo aeroporto, da rede paulista de dutos, além do projeto do Ferroanel, que também envolve a Baixa Santista.
Sucena Shkrada Resk |




01/12/2008 18:59
Santa Catarina: um desastre a refletir, por Sucena Shkrada Resk
A cada dia que vejo as sucessivas notícias sobre a tragédia em Santa Catarina, reflito o quanto nós, seres humanos, somos vulneráveis às intempéries climáticas e, ao mesmo tempo, responsáveis por muitas situações, quando observamos que o desmatamento fragilizava o solo em muitas áreas atingidas, não havia planejamento urbano ordenado de cidades próximas a encostas de morros ou no nível do mar, além de planos mais concretos para prevenção a período de chuvas.

Chover dois meses consecutivamente ou em um dia ter uma quantidade pluviométrica equivalente a 15 obviamente é algo "incomum", mas deve fazer parte das probabilidades que não podem ser deixadas de lado em nenhum lugar do mundo, principalmente no Brasil. Ainda se estuda o motivo do fenômeno. Seria resultado de efeitos do Aquecimento Global, quem sabe? Mas é preciso ir fundo nisso.

E segundo a meteorologia - até devido ao período do verão nos próximos meses - muita água ainda deve cair no estado, como em outras regiões do país. A Secretaria Nacional da Defesa Civil já alertou que chuvas fortes estão previstas, nos próximos dias, no Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Minas, Goiás, Mato Grosso, Maranhão, Bahia, Piauí, Amazonas, Tocantins, Acre, Rondônia, Pará e Distrito Federal. Outras "Santa Catarinas" podem surgir, se nada for feito. Não podemos esquecer que cidades no RJ, já estão em estado de emergência e calamidade pública, na região de Campos.

A questão assume um aspecto humanitário, que excede à visão macroeconômica de um baque superior a R$ 300 mi na Economia (noticiado hoje), por causa da destruição do porto de Itajaí. Estamos falando de centenas e milhares de vidas que precisam ser reconstruídas. Está justamente aí a necessidade da eficiência dos gestores públicos, dos técnicos, empresários e voluntários em otimizar a aplicação dos donativos (que só em dinheiro, mais de R$ 5,7 mi até agora), segundo o governo de Santa Catarina, para a aplicação em soluções de curto e longo prazo, no que se trata de aquisição de mantimentos.

Por outro lado, os atos concretos de solidariedade, que estão sendo multiplicados por cidadãos em todo o Brasil e até no exterior, demonstram o quanto podemos reverter o quadro predatório do cenário contemporâneo mundial. Mas há muito ainda o que fazer a médio e longo prazo, em SC, que não se pode perder de vista. As manchetes, daqui a pouco vão diminuir, mas os problemas estarão lá para serem resolvidos.

Estão apenas no começo. Além dos dados atuais já oficializados de 78.707 desabrigados e desalojados, 116 óbitos e 31 desaparecidos oficialmente (até as 20h20 de hoje), há um novo cenário sendo construído de possíveis epidemias - como de leptospirose de hepatite, em decorrência de contato com a água contaminada ; 10 casos suspeitos já foram notificados. Essas pessoas estão com suas vidas em suspenso, sem casa, roupa, documentos, emprego e, muitas, tiveram suas vidas interrompidas ou estão doentes, feridas e deprimidas, em decorrência da tragédia. É um híato em suas vidas, sem tempo e sem hora para ser extinto.

A maioria das vítimas fatais está concentrada em Ilhota (37), Blumenau (24), Gaspar (16) e Jaraguá do Sul (13). Já os desabrigados estão distribuídos, além desses municípios, em cerca de 35 outras cidades.
Os planos de reconstrução habitacional (com campanhas em parceria com iniciativa privada ou não) têm de ter como premissa, que as novas áreas de ocupação devem ser estudadas tecnicamente contra riscos iminentes de enchentes e deslizamentos.

Hoje ao ler com mais atenção um link para "recados" no site oficial sobre o desastre (www.desastre.sc.gov.br), do Governo de Santa Catarina, vi relatos que traduzem um pouco da sensação de tristeza e de fraternidade que os brasileiros assumiram diante do ocorrido, e pude observar o quanto é importante o exercício de cidadania.

Até há pouco eram 135 mensagens provenientes de pessoas dos locais mais diferentes do país. Algumas desejam força, outras querem ser voluntárias, outras procuram parentes...É uma corrente que expressa um pequeno exemplo da atmosfera que envolve uma grande parcela dos 190 milhões de brasileiros.

Para quem quer ajudar, acredito que este site oficial é uma boa fonte, pois, às vezes, o excesso de informações confunde. Grandes hipermercados, defesas civis municipais e postos das polícias militares estão recebendo donativos também por todo o Brasil.

Reproduzo abaixo algumas informações constantes na página, que são de utilidade pública:

ORIENTAÇÃO PARA DOAÇÕES EM DINHEIRO

A Defesa Civil catarinense disponibiliza contas bancárias para receber doações em dinheiro para ajudar as pessoas atingidas pelos desastres naturais. O dinheiro servirá o Fundo Estadual da Defesa Civil para compra de mantimentos aos desalojados. Os dados estão constantes no site.

obs: Defesa Civil de SC alerta sobre ação de golpistas pela Internet. A Defesa Civil não envia mensagens eletrônicas com pedidos de auxílio.


ITENS NECESSÁRIOS ÀS FAMÍLIAS:
PRODUTOS DE HIGIENE PESSOAL
SABONETES
ESCOVAS DE DENTE
CREMES DENTAL
ROLOS PAPEL HIGIÊNICO
CAIXAS DE COTONETES
SHAMPOO´S
PENTES
TOALHAS DE ROSTO
PACOTES DE ABSORVENTE
FRALDAS ADULTO


PRODUTOS PARA LIMPEZA
VASSOURAS
RODOS
PANOS DE CHÃO
BALDES
SABÃO EM PÓ
ÁGUA SANITÁRIA
SACOS DE LIXO (50 E 100 LITROS)


PRODUTOS INFANTIS
FRALDAS
MAMADEIRA COM BICO
BRINQUEDOS
PRODUTOS DIVERSOS
VELAS/FÓSFORO
TRAVESSEIROS
COBERTORES
PRATOS DE PLÁSTICO (DURÁVEIS)
COPOS PLÁSTICO (DURÁVEIS)
TALHERES
COLCHÕES
SACOS DE PLÁSTICO DE 3 E 5 LITROS, SEM SER DE LIXO, PARA CONDICIONAR KITS DE HIGIENE PESSOAL.
LONAS PLÁSTICA


ALIMENTOS
- Os alimentos devem estar dentro do prazo de validade;
- Todos os alimentos arrecadados devem ser não perecíveis;
- Observar a integridade da embalagem


ROUPAS E CALÇADOS
- As roupas/calçados devem estar limpas e em condições de uso;
- Não podem estar rasgadas ou danificadas;
- Os calçados devem estar completos, amarrados juntos;
- A numeração dever ser marcada com caneta.

Fonte: Defesa Civil do Governo de SC.

Sucena Shkrada Resk |




01/12/2008 15:04
Mais que percentuais e números, por Sucena Shkrada Resk
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou hoje a Tábua de Vida -2007, que aponta que a esperança de vida ao nascer do brasileiro se amplia de forma ascendente, desde o levantamento em 1991. À época era de 67 anos (ambos os sexos) e em 2007, de 72,57 anos. A aparente melhoria quanto à longevidade, entretanto, revela contextos preocupantes, quando se trata de mortalidade de jovens na faixa dos 20 aos 24 anos, que passou da média de 3,34 em 1991 para 4,20, no ano passado. As mortes por causas violentas são consideradas os principais fatores para haver essa alteração, o que demonstra a fragilidade dos rumos da sociedade contemporânea.

Já a mortalidade infantil passou de 45,19% para 24,32%, no mesmo período, entretanto, falta 'muito chão" para chegar a 15% em 2015, que é uma das Metas do Objetivos do Milênio, da Organização das Nações Unidas (ODM/ONU), cujo tratado tem o Brasil como signatário.

Diante desses dados, é possível perceber que os desafios para se estabelecer a dignidade da qualidade de vida se torna cada vez maior para os governos e sociedade. Isso infere, que a Previdência Social deverá ter uma estrutura mais sólida para absorver esse novo perfil de aposentado, além do Sistema Único de Saúde (SUS), uma retaguarda mais realista, com geriatras e gerontólogos, por exemplo. No que tange aos governos municipais e estaduais, requer iniciativas que ampliem as ações de cunho ambiental, de educação, saúde e de empregabilidade. Ao mesmo tempo, cada um de nós temos o dever e obrigação de rever nossos valores, princípios, direitos e deveres, já que os, números são ainda muto díspares, quando são regionalizados no país.

O chamado cosmopolitismo de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e outras grandes capitais refletem um cenário predador e inseguro, e inchado em todos os sentidos, e as diversas facetas dos "guetos", que não aparecem nas estatísticas. Ao mesmo tempo, os pequenos e médios municípios - principalmente do Norte e Nordeste - sofrem crônicas agruras, que refletem políticas públicas insípidas, quando se trata de igualdade de direitos dos cidadãos.

Quando são analisados os estados, de uma maneira geral, se observa, por exemplo, que Alagoas é um dos que estão em uma situação menos confortável. Para atingir os ODM, no que se refere à diminuição de mortalidade infantil, falta 32,7%. E as menores expectativas de vida (ambos os sexos) no país, se encontram novamente em Alagoas (66,77), seguido do Maranhão (67,64), Pernambuco (68,30) e Piauí (68,94). Por outro lado, o Sudeste - que concentra alguns dos estados mais ricos do país - é o mais violento.

Para não nos perdermos nos índices, é importante lembrarmos que atrás deles há pessoas, que necessitam de atenção individualmente e coletivamente, apesar de estarem anônimas nessa somatória e cruzamento de números. E vale lembrar, que cabe aos novos gestores municipais, a partir de janeiro, nos 5.564 municípios brasileiros, assumirem os compromissos de campanha, que fizeram com que fossem eleitos, para cumprirem metas sustentáveis. A tábua de vida é mais um instrumento que dispõem para poder formular e agir na contramão dos baixos desempenhos. Mas para muitos é mais "um monte de dados" que pode ser descartado pela lei do mínimo esforço.
Sucena Shkrada Resk |




27/11/2008 13:27
Não verás país nenhum: a ficção que virou realidade, por Sucena S. Resk
No final dos anos 70, o escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão dava corpo ao livro ficcional Não verás país nenhum, que numa daquelas tiradas de mestre, retrata uma realidade condizente aos cenários que envolvem os dias atuais marcados pelo sinal vermelho do aquecimento global. Para contar um pouco do laboratório, que gerou a obra, o autor narrou a trajetória de criação, durante o lançamento do Projeto Municípios Verdes, promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente, no Memorial da América Latina, em São Paulo, no último dia 26.

“Um romance violento como esse, nasceu de um ipê amarelo, que existia numa rua em Perdizes, com cerca de 80 anos. Era uma árvore-simbolo, que num dado momento começou a secar até morrer. O questionamento era o que teria acontecido para ela terminar o ciclo?”, conta.

Ao conversar com um padeiro do bairro, Brandão comenta que havia uma senhora que regava diariamente essa árvore, inclusive em dias de chuva. “...Fiquei acabrunhado e pedi para um amigo técnico ambiental verificar o que tinha acontecido, e constatou que o ipê tinha sido envenenado...”.

A notícia fez com que Brandão mais uma comissão de moradores seguissem ao encontro da senhora e questioná-la. E a resposta, segundo ele, até hoje o espanta. “...Ela respondeu – claro que fui eu, porque essa maldita árvore sujou minha rua com essas flores desgraçadas....Essa frase me levou a escrever o livro”, diz o escritor.

A construção do enredo foi enriquecida com a passagem da vida de Brandão, desde sua infância. “Aos 10 anos (em 1946), eu fui afetado pelo problema ambiental, na cidade onde nasci, Araraquara...Naquela época, brincávamos na rua, nos rios e nos córregos; nos transformávamos em piratas, fazíamos represas...”. Em dado momento desse período “harmonioso”, o pai do autor começou a sentir um cheiro desagradável que exalava do rio e falou que não podiam mais ficar por lá, porque começava a descarga de esgotos in natura. “O rio do Ouro se tornou o rio da ‘bostas’. Isso impediu nosso divertimento, por causa do perigo à saúde da gente...”

Na fase adulta, o bloquinho na mão se tornou um inseparável companheiro do escritor, no seu processo de observação dessas mudanças do planeta. “Olhava para os jornais, e via notícias de devastação, poluição, petroleiros que vazam petróleo no mar, histórias estranhas sobre doenças provocadas por mercúrio, ocorrência de neve no deserto do Saara. Também fui recortando tudo isso. Descobri que a realidade é mais absurda que o próprio absurdo. Daí começou a nascer o livro...”.

Não verás país nenhum retrata um universo em extinção, que tem como personagem central, Souza – um morador da megalópole, que se vê à procura de uma solução, para “um furo na mão”, numa cidade apocalíptica.

“São Paulo, com seus bairros fechados em guetos, de onde as pessoas só saem com autorização, tem zonas que o sol mata. E não existe mais água no Brasil. Esta cidade é toda vigiada e a violência é enorme. O governo coloca uma muralha eletrônica para que a favela não invada a cidade. Não há mais combustível e os carros ficam paralisados nas ruas. Passados 30 anos, tudo que imaginei, passou a existir”, diz Ignácio de Loyola Brandão.

Esse cenário de destruição conta ainda com o Dia do Consumo Obrigatório. “E hoje todos compram o tempo todo...”. Nessa cidade ficcional também não há mais cheiros naturais, e tudo passa a ser sintetizado. O homem vai se afastando da natureza. A turbulência resulta em um final em que o leitor, de certa forma, decide com sua interpretação. “Reescrevi o final duas vezes até conseguir o tempo dessa ambigüidade”.

Segundo o autor, hoje os congestionamentos são angustiantes, o problema da água iminente. “Tenho (atualmente mais conhecimento) do Aqüífero Guarani e é preciso que se tome cuidado para que multinacionais e empresas não o explorem, como o petróleo do futuro...É preciso dizer não – eu não quero viver esse futuro – e cada um fazer a sua parte...”.

Na sua opinião, a São Paulo de hoje também é dividida em guetos, e no interior paulista há cada vez mais condomínios fechados. “Jamais imaginei que a vida real imitasse a ficção...Temos de gritar a cada ato de agressão. Quero ver (o sentido) da minha obra desmentida”, afirma. Uma saída, segundo ele, está no investimento na educação ambiental desde a infância que é um dos temas de mais um título do autor, a cartilha Manifesto Verde.

Sucena Shkrada Resk |




27/11/2008 12:21
Jovem protagonismo cidadão, por Sucena Shkrada Resk
Rafael, 16 anos; Gabriel, 12, Ana Carolina, 17 e Natacha Cristina, 17, têm em comum o fato de serem moradores da cidade do interior paulista de Bebedouro e, em especial, já exercerem o papel de ativistas ambientais. A oportunidade de conhecê-los surgiu naquelas gratas conversas de bastidores, durante o lançamento do Ranking Ambiental dos Municípios Paulistas 2008 do Projeto Municípios Verdes, promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente, no último dia 26, no Memorial da América Latina, na capital. O que me chamou a atenção é que eram praticamente os únicos representantes jovens entre centenas de adultos presentes ao evento.

Segundo o educador ambiental João Antônio dos Reis, 42, os adolescentes integram um grupo aproximado de 120 pessoas que compõem o projeto Patrulha Ecológica de Bebedouro, conduzida por poucos voluntários do município, há quatro anos, com apoio da iniciativa privada (uniformes) e da Prefeitura. As atividades são desenvolvidas principalmente aos sábados e têm, como pré-requisito, que os participantes freqüentem a escola com regularidade.

“Os estudantes atuam em ações desenvolvidas em seus bairros e no Horto Florestal e Parque Ecológico de Bebedouro. Uma das atividades, sob orientação de engenheiro agrônomo do município, é a plantação de mudas de árvores (dos viveiros públicos), para recuperar matas ciliares, principalmente aos sábados”, explica Reis. A região apresenta tanto vegetação de cerrado, como de mata atlântica e sofre, com situações, como queimadas.

A desenvoltura com que esses adolescentes se apropriam do reconhecimento da importância da educação ambiental demonstra, na prática, o que é o protagonismo cidadão. Por outro lado, revelam a influência positiva da música, por meio do aprendizado do manejo de instrumentos de sopro e percussão, ao participar com outros colegas, do Projeto Guri (estadual). Ao executarem canções, como a Aquarela do Brasil, no lado externo do complexo do Memorial, emocionaram alguns participantes do evento, que aguardavam o início das atividades.

Rafael contou que se preocupar com o meio ambiente já é algo natural para ele. “Quando participei da limpeza de córrego, onde encontrei, desde pneus de trator até sofás, percebi que o mais importante é a redução, só reciclar não adianta muito”, considera. Ao plantar mudas na beira do Córrego de Bebedouro também reconhece que, com que essa pequena ação, pode ajudar antecipadamente aos seus futuros filhos.

Para Gabriel, seus sábados deixaram de ser monótonos, desde junho deste ano, quando começou a participar do grupo. “Já plantei muda de árvore no bairro Centenário, onde havia desmatamento. Agora quero aprender mais sobre as plantas medicinais de minha região e ver a minha cidade mais verde e bonita”, diz.

Natacha e Ana Carolina garantem que querem ser cada vez mais atuantes, e se sentem à vontade em orientar, inclusive os adultos. Elas contam que um dos incentivos que tiveram, foi a oportunidade de participar do curso de coletivos educadores, que tem orientação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).

“Percebo que ainda falta consciência da população. Outro dia vários animais estavam pastando em uma área que tínhamos plantado as mudas de reflorestamento”, afirma Natacha. Segundo Ana, é preciso que a sociedade perceba que as atitudes mais corriqueiras têm um peso muito grande. “Outro dia, vi um professor jogar um chiclete no chão e chamei sua atenção pela atitude, falando dos seus efeitos, até que recolhesse ao lixo”, conta.

A descrição de alguns fragmentos do dia-a-dia desses jovens revela que a união da sociedade, poder público e iniciativa privada pode resultar em lucros acima dos cifrões. Entretanto, como João Antônio dos Reis mencionou, este projeto para ter sobrevida garantida precisa de mais voluntários assíduos. Enfim, é algo a se pensar. Acredito que, não só voluntários, mas pensar mais além. Profissionalizar o serviço de educação ambiental, para geração de renda aos próprios moradores locais. Aí a universidade, a prefeitura, o governo do Estado, as empresas locais podem efetivamente ser decisivas nesse processo junto com o terceiro setor.

Sucena Shkrada Resk |




27/11/2008 10:43
Planos Municipais de política ambiental levam "selo" verde, por Sucena Shkrada Resk
Os municípios de Santa Fé do Sul, Angatuba, Gabriel Monteiro, Santa Rosa de Viterbo e Piraju são os primeiros colocados do Ranking Ambiental de Municípios Paulistas 2008, do Projeto Municípios Verdes, lançado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente em junho de 2007. O anúncio foi feito ontem (26), no Memorial da América Latina, na capital. De um total de 332 adesões completas, 44 municípios receberam a certificação, ao obter nota superior a 8, que tem como premissa o estabelecimento de um plano de ação de Política Ambiental baseado em 10 eixos de ação.

Os temas propostos e resultados para o desenvolvimento de agendas 21 locais, são os seguintes (por ordem alfabética):
Arborização urbana
-Plano ou programa de arborização urbana: 150
-Viveiros municipais: 216

Conselho ambiental
-Instrumento legal que criou o Conselho: 254
-Ata com parecer sobre o panorama do município nas 10 diretivas do projeto: 102

Educação ambiental:
-Instrumento legal instituindo Educação Ambiental como matéria transversal nas escolas públicas municipais: 120
-Ações de capacitação de dirigentes e agentes multiplicadores municipais: 176

Esgoto tratado:
-ICTEM maior que 6,0: 202

Estrutura ambiental:
-Instrumento legal que estabeleça a estrutura ambiental da Prefeitura: 222
-Ações de capacitação de dirigentes e agentes multiplicadores municipais: 176

Habitação sustentável:
-Instrumento legal que favoreça à expedição de alvarás para construções civis que utilizem madeiras legalizadas e de origem comprovada: 108
-Ações visando à diminuição na utilização de recursos naturais: 143

Lixo mínimo:
-IQR maior que 6,0: 299 (índice de qualidade*)

Poluição do ar:
-Instrumento legal que institua a inspeção veicular da frota municipal própria e terceirizada: 111
-Ações voltadas à reducação de emissão de gases de efeito estufa: 130

Recuperação de mata ciliar:
-Projeto de conservação e recuperação de matas ciliares realizados ou em andamento: 280
-Ações de recuperação e/ou proteção de nascentes: 130

Uso da água:
-Programa municipal de combate ao desperdício de água: 281
-Instrumento legal voltada à proteção das águas para abastecimento público (mananciais): 66

Fonte: Secretaria de Estado do Meio Ambiente
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Dos 645 municípios paulistas, 332 apresentaram um plano de ação completo, 282 incompletos e 31 não aderiram ao projeto. Agora, resta saber se os projetos serão continuados nas novas gestões, já que a renovação do quadro político ocorre em 2009, em vários municípios. Aí entra a questão da efetivação de políticas de estado e a inserção da participação cidadã no processo.

Ao observar o ranking, também não é difícil compreender que municípios pequenos do Estado tenham conseguido ficar nas primeiras colocações, mas isso mostra como é necessário, que tanto grandes cidades, como as que estão localizadas em áreas de proteção de mananciais, tripliquem seus esforços para efetivar suas políticas ambientais.

Segundo o secretário de estado do Meio Ambiente, Xico Graziano, além das 10 notas objetivas, também é avaliada a pró-atividade dos projetos em andamento, para se chegar à medial final. Os critérios de avaliação deverão ser aprimorados para as próximas edições, já que o ranking é anual.

“Alguns dos desafios do nosso corpo técnico é dar uma nota adequada, por exemplo, ao funcionamento de um Conselho Municipal de Meio Ambiente, já que hoje a forma de mensuração é sobre as atas. Quanto à educação ambiental, é preciso ir além do conceito teórico, mas avaliar se está dando resultado”, diz. A interface com as prefeituras são os “interlocutores” técnicos, de acordo com o secretário, o que dá mais credibilidade ao projeto.

Prioridades para 2009
Na agenda ambiental do estado de São Paulo prevista para o ano que vem, as prioridades da Secretaria serão córregos urbanos, implementação do projeto Criança Ecológica, de coleta seletiva, ciclovias e proteção de nascentes.

O estímulo aos melhores colocados, de acordo com Graziano, no quesito água – principalmente quanto à revitalização de córregos urbanos - será a obtenção de apoio do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro). “Se faltar dinheiro, o governo estadual irá colocar verba adicional e se não houver recursos necessários, vamos buscar auxílio com o governo federal”, afirma. A extinção dos lixões é mais um desafio a se superar. “Hoje ainda existem 42 lixões no estado. Todos deverão ser extintos até o ano que vem”, afirma o secretário.

Em 2009, em função da comemoração do Ano da Educação Ambiental, está programada a implementação do Projeto Criança Ecológica. “Serão produzidos materiais didáticos, filmes e promovidas excursões (ecológicas), que terão como público-alvo, crianças dos 8 aos 10 anos”, informa Graziano. A escolha da faixa-etária, de acordo com o secretário, se deve à “sensibilização” presente na fase infantil.

A política de apoio aos transportes alternativos no estado também deverá ser reforçada, de acordo com as metas propostas para o ano que vem. “Daqui 20 anos, não vai mais para todos terem carros no mundo. Precisamos favorecer os transportes alternativos. No estado, temos exemplos de Sorocaba e Ubatuba, que fizeram ciclovia em toda a cidade”.

Em tese, todas as propostas são louváveis, mas cabe, a nós cidadãos, tanto acompanharmos, como sermos integrantes ativos dessas implementações, para que não sejam daqui um tempo, meras retóricas políticas. Mais informações sobre o Projeto Municípios Verdes podem ser encontradas no site da Secretaria (www.ambiente.sp.gov.br).


Sucena Shkrada Resk |




25/11/2008 18:49
Percepção sobre os serviços públicos e privados em São Paulo, por Sucena S.Resk
Segurança, saúde, educação e transporte público são consideradas as quatro primeiras áreas prioritárias para a melhoria da qualidade nos bairros e na cidade de São Paulo como um todo, segundo 6.503 trabalhadoras, que foram entrevistadas na pesquisa “São Paulo sob o olhar das consultoras da Natura”. O levantamento é resultado de uma parceria firmada entre o Movimento Nossa São Paulo, Natura e Ibope. A divulgação ocorreu hoje (25), em evento realizado no Sesc Vila Mariana.

De acordo com o coordenador do Movimento, Oded Grajew, o objetivo é que o material sirva de subsídio para a implementação de políticas públicas, ao ser cruzado com dados oficiais dos indicadores municipais. “Solicitaremos que o orçamento da cidade seja regionalizado”, diz.

O diretor-presidente da Natura, Alessandro Giuseppe Carlucci, afirmou, durante o evento, que a empresa se compromete a colaborar com uma próxima pesquisa, para que as consultoras possam avaliar o desempenho de um ano dos setores sobre os quais responderam à atual.

A amostragem reuniu moradoras de bairros localizados em todas as 31 subprefeituras de São Paulo, com idade média de 43 anos, segundo a diretora-executiva do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari. A maioria são profissionais autônomas e com ensino médio completo. Elas responderam, em setembro deste ano, a um questionário de múltipla escolha, em que apontaram quais os serviços públicos e privados existentes ou não nas regiões onde residem. A mobilização para que participassem da pesquisa teve como incentivo um vídeo gravado pelo ex-jogador de futebol Raí, um dos criadores da Fundação Gol de Letra, que também compareceu ao evento.

Na tabulação dos dados apresentados, alguns dos destaques foram os seguintes (itens mais e menos votados):

Serviços e equipamentos públicos existentes no bairro: água encanada (94%) e coleta seletiva de lixo (60%)

Serviços e equipamentos públicos que fazem falta no dia-a-dia: água encanada (28%) e ponto de ônibus (6%)

Serviços e equipamentos públicos mais importantes do bairro: água encanada (15%) e praça (2%) obs: 64% sem resposta

Onde vai quando precisa de algum item que não tem no bairro: no bairro vizinho mais próximo (53%) e na região do seu local de trabalho (7%).

Serviços e equipamentos privados que existem no seu bairro: farmácias (91%) e teatros (45%).

Serviços e equipamentos privados que fazem falta no dia-a-dia: agências bancárias (46%) e escolas particulares (7%)

Serviços e equipamentos privados mais importantes: agências bancárias (22%) e escolas particulares (3%).

A tabulação resultou em um mapeamento da percepção sobre as áreas de cobertura das 31 subprefeituras. Os destaques negativos se concentraram nas zonas Sul e Leste do município, compreendendo as regiões de Campo Limpo, M`Boi Mirim, Capela do Socorro e Parelheiros, além de Ermelino Matarazzo, São Miguel e Itaim Paulista.

Já os que apresentaram melhores resultados, no que diz respeito a serviços públicos, são Pirituba, Freguesia do Ó, Casa Verde, entre outros. E com desempenho abaixo da média, Perus, Santo Amaro, M`Boi Mirim e Capela do Socorro.

A pesquisa na íntegra pode ser consultada no site www.nossasaopaulo.org.br.

Sucena Shkrada Resk |




02/11/2008 19:33
40 anos se passaram, por Sucena Shkrada Resk
Memorial da Resistência - na antiga sede do DOPs em São Paulo - exposição descreve a trajetória dos 40 anos do histórico Congresso da UNE, em Ibiúna, SP. Painéis com 20 fotos de estudantes mortos durante o período da Ditadura Militar, e com os nomes de mais de 700 estudantes presos, que participavam do evento, foram inaugurados em 10 de outubro de 2008. (à frente, secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vanucci)


Sucena Shkrada Resk |




12/10/2008 15:15
Pensata: 10 anos da Lei do Voluntariado, por Sucena Shkrada Resk
O ano de 2008 se tornou referência de comemorações importantes, como a do aniversário de 20 anos da Constituição Brasileira, dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos 10 anos da Lei do Voluntariado (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9608.htm). Essas legislações e princípios de ética de convívio em sociedade são reconhecidamente avançados, mas quando confrontados com a realidade, se transformam em grandes desafios.

Hoje se observa que ainda há falta de percepção sobre o que infere ser voluntário e, ao mesmo tempo, quais são os compromissos de uma entidade que tem a tarja de não-governamental e/ou filantrópica. Tudo gira em torno de um único conceito - a percepção das responsabilidades.

Obviamente, o princípio básico para o ato voluntário é o querer consciente de contribuir a determinada causa, para o bem comum. Mas essa consciência requer análise da entidade, reconhecimento de sua lisura, mas também de suas deficiências. Afinal, se um voluntário enxerga "só o pragmatismo da ação" e deixa de lado o conjunto da obra, que envolve outros atores, poderá cair facilmente na alienação e, consequentemente, no desestímulo. Quantas vezes não nos deparamos com entidades que são uma fachada de interesses políticos e, em vez de líderes, se mobilizam por meio de interesses escusos.

Por outro lado, a sazonalidade do ato voluntário é um problema que aflige ainda algumas instituições na atualidade. O que é comum perceber infelizmente é um certo desprendimento das responsabilidades, por não se configurar um contrato formal que implica obrigatoriedade. O compromisso é uma adesão entre as partes, entretanto, envolve muito mais que isso - a responsabilidade e o reconhecimento das pessoas afetadas pelo o trabalho.

Seja filantrópico, ambiental ou educacional, o efeito multiplicador da ação voluntária é, às vezes, imenso. Ledo engano de quem acha que o conhecimento e o repertório de vida, profissional e/ou acadêmico não interage com o aspecto afetivo. Por isso, há necessidade de um maior aprofundamento neste tema, no terceiro setor.

Não bastam boas intenções, mas uma reavaliação contínua dos propósitos dos trabalhos, da forma de condução das ações e do público-alvo. Senão, é possível cair no enraízado problema do "assistencialismo" ou em atividades inócuas e equivocadas.

Um bom instrumento de reflexão são "as dez dicas sobre o voluntariado", que são difundidas de forma consensual:

1. Todos podem ser voluntários
Não é só quem é especialista em alguma coisa que pode ser voluntário. Todas as pessoas têm capacidades, habilidades e dons. O que cada um faz bem pode fazer bem a alguém.

2. Voluntariado é uma relação humana, rica e solidária
Não é uma atividade fria, racional e impessoal. É relação de pessoa a pessoa, oportunidade de se fazer amigos, viver novas experiências, conhecer outras realidades.

3. Trabalho voluntário é uma via de mão dupla
O voluntário doa sua energia e criatividade mas ganha em troca contato humano, convivência com pessoas diferentes, oportunidade de aprender coisas novas, satisfação de se sentir útil.

4. Voluntariado é ação
Não é preciso pedir licença a ninguém antes de começar a agir. Quem quer, vai e faz.

5. Voluntariado é escolha
Não há hierarquia de prioridades. As formas de ação são tão variadas quanto as necessidades da comunidade e a criatividade do voluntário.

6. Cada um é voluntário a seu modo
Não há fórmulas nem modelos a serem seguidos. Alguns voluntários são capazes, por si mesmos, de olhar em volta, arregaçar as mangas e agir. Outros preferem atuar em grupo, juntando os vizinhos, amigos ou colegas de trabalho. Por vezes ,é uma instituição inteira que se mobiliza, seja ela um clube de serviços, uma igreja, uma entidade beneficente ou uma empresa

7. Voluntariado é compromisso
Cada um contribui na medida de suas possibilidades mas cada compromisso assumido é para ser cumprido. Uns têm mais tempo livre, outros só dispõem de algumas poucas horas por semana. Alguns sabem exatamente onde ou com quem querem trabalhar. Outros estão prontos a ajudar no que for preciso, onde a necessidade é mais urgente.

8. Voluntariado é uma ação duradoura e com qualidade
Sua função não é de tapar buracos e compensar carências. A ação voluntária contribui para ajudar pessoas em dificuldade, resolver problemas, melhorar a qualidade de vida da comunidade.

9. Voluntariado é uma ferramenta de inclusão social
Todos têm o direito de ser voluntários. As energias, recursos e competências de crianças, jovens, pessoas portadoras de deficiência, idosos e aposentados podem e devem ser mobilizadas.

10. Voluntariado é um hábito do coração e uma virtude cívica
É algo que vem de dentro da gente e faz bem aos outros. No voluntariado todos ganham: o voluntário, aquele com quem o voluntário trabalha, a comunidade.

Para refletir sobre esse assunto, há alguns sites interessantes que podem ser consultados:
www.filantropia.org
www.portaldovoluntario.org.br
www.rits.org.br
www.saci.org.br
www.voluntarios.com.br
www.voluntariado.org.br


Sucena Shkrada Resk |




08/10/2008 19:03
Viva o direito do consumidor..., por Sucena Shkrada Resk
A notícia de que foi sancionada, no último dia 7, a Lei estadual paulista nº 13.226, representa aparentemente um avanço quanto ao direito do consumidor. A nova legislação cria o Cadastro para Bloqueio do Recebimento de Ligações de Telemarketing no Estado de São Paulo. De acordo com o texto, o objetivo é proteger os cidadãos que não desejam receber ligações de empresas de telemarketing ou de estabelecimentos que se utilizem deste serviço, com exceção de entidades filantrópicas. Com isso, serão beneficiados usuários de telefonia fixa e celular com DDD estadual. Após 30 dias da efetivação do cadastro, os cidadãos - em tese - deverão ficar livres "da insistência" de abordagens de mercado, que são massivas hoje em dia. Uma perfeita invasão de privacidade.

Obviamente há ainda uma próxima etapa extremamente importante, que é a regulamentação.
Segundo a Fundação Procon-SP, o que já se pode adiantar, é que para requerer o cadastramento, o titular da linha deverá fazer uma solicitação formal à autarquia. Uma das expectativas para facilitar o acesso é a criação de um formulário digital.

Caso haja reincidência de ligações, a situação irregular deverá ser comunicada ao Procon-SP, num limite de até um mês após a ocorrência. A empresa que desrespeitar o cadastro poderá ser penalizada, conforme determina o Código de Defesa do Consumidor. Para acompanhar o tema, o site para consulta é http://www.procon.sp.gov.br.

Sucena Shkrada Resk |




04/10/2008 18:14
Parte 2 - A Idade da Sabedoria, por Sucena Shkrada Resk
Maria é o seu nome. Essa pequena senhora, franzina e delicada, com lindos olhos azuis que brilham por causa da saudade de uma visita, esbanja lucidez, aos 96 anos. Sobre o seu leito, figura o ano de seu nascimento - 1912. Eu a conheci hoje, ao fazer uma visita em um lar de idosas. A comoção me tomou devido ao seu apelo sentido, quando falou que praticamente ninguém a visita. Nesse momento, as gotas rolaram sobre sua face - e com um lencinho branco na mão - enxugou as lágrimas que brotavam sem parar. Ao mesmo tempo, segurou minhas mãos num gesto terno, com uma força interior, que transparecia a energia de seus sentimentos.

A lembrança do neto que criou e da nora que um dia a ajudou, ainda é muito viva. Mas o apelo por um afago de seus parentes queridos ou de amigos "constantes" é seu maior desejo. Ao me deparar com sua "sensação" de solidão, senti o quanto preciso melhorar como ser humano e o quanto os meus aparentes problemas são pequenos.

Quantas horas eu ou você perdemos em ações desnecessárias, consumistas e desgastantes, com assuntos pueris ou consolidados em desentendimentos, enquanto dona Maria só pede um pouco de atenção e carinho, algo que qualquer um de nós pode dar e quer receber. Apesar de ela estar em um quarto com outras senhoras "caçulas" ao seu lado, que mesclam saúde e bom humor, como Maria Alice, uma baiana simpática, que ficou cega por causa de um glaucoma, Maria também se entristece ao ver outras amigas mais enfermas, que em seus leitos descansam seus corpos cansados. A praticamente centenária cidadã brasileira exala pelos seus poros a ânsia por fraternidade.

Não sai de minha mente, a cena em que dona Maria aconchegou sua cabeça no ombro de uma estagiária de fisioterapia, que conversava com ela, como nesse momento, se transformasse em filha. Parecia uma criança, no afã de ser amada e aquecida no calor de um abraço. Uma cena comovente e sensivelmente humana, real e que atinge a gente de uma maneira certeira.

Dona Maria representa outras Marias, Joãos, Josefas...cidadãos planetários que têm um repertório de vida ímpar, em que passaram por duas guerras mundiais, Ditaduras e integram o processo democrático. Sim, uma democracia, um tanto desconexa de seu conceito... Uma democracia que tem pesos e medidas diferentes, que a machuca na fase mais linda de sua existência, na maturidade.
Sucena Shkrada Resk |




03/10/2008 14:58
A idade da sabedoria, por Sucena Shkrada Resk
No Brasil, o contigente de cidadãos maiores de 60 anos representa, nada mais, nada menos, que 10,5% da população total de mais de 180 mi habitantes. Cada um com um nome, um rosto, uma história de vida e um repertório rico para multiplicar ensinamentos. Um sorriso largo, uma gargalhada e um olhar maroto. Os jovens da maturidade têm esse talento inato de persuadir todas as gerações com suas bagagens de vida e sabedoria na arte de viver. As dores que começam a afetar as articulações e até o humor não são suficientes para derrubar esse pelotão de avôs e avós, bisavôs e bisavós ou somente tios, pais e mãe, que resistem, como em um front. Driblam o avanço da matéria, as mazelas sociais com o aprendizado contínuo, que durante várias gerações aprimoram.

Por outro lado, outros homens e mulheres da "maior idade" não resistem à dor física e, muitas vezes, emocional, ocasionada pelo relógio natural da vida e pelo descaso de um filho, de um neto ou simplesmente do semelhante. Quantas vezes, esse descaso se transforma em violência, que é o último estágio da falta de solidariedade de um ser humano. Uma tragédia humana presente todos os dias na realidade de muitas pessoas.

A Semana do Idoso geralmente gera esse tipo de reflexão, mas que com certeza não deve se limitar ao condicionamento de datas especiais no nosso calendário. Nessa altura, só é possível pedir que tenhamos o amor incondicional. E que nos pautemos em exemplos de desprendimento, como flagrei ontem - no Dia do Idoso -, durante uma confraternização realizada por fisioterapeutas e estagiários com pacientes (entre eles, minha mãe) atendidos na clínica da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) (confira as fotos).

As crianças maduras se distraíram, aprenderam, ensinaram e se sentiram queridas, o que é a coisa mais sublime nas relações entre os seres vivos. Essa experiência simples, sem pirotecnias desnecessárias, suscita um mar de bons pensamentos e ações. Como dar um beijo, abraçar, falar eu te amo e ver olhos brilhantes e rugas "lindas" de expressão salientes e vibrantes numa feição de ternura...Dá para "valorar" uma iniciativa dessas? Com certeza, não tem preço.




Sucena Shkrada Resk |




29/09/2008 09:58
Saúde: quais os entraves da comunicação?, por Sucena Shkrada Resk
A linguagem técnica e a coloquial se interagem, se estranham e traduzem o que hoje podemos definir como o universo comunicacional na área de saúde. E é aí que nos permitimos questionar se, de fato, realmente exercemos o papel social e comunitário implícito na temática. Afinal, ao falar sobre as mazelas e situações bem-sucedidas do Sistema Único de Saúde (SUS), que completa 20 anos em 2008; discorrer sobre planos de saúde, medicina preventiva e medicina diagnóstica, entre outros temas, a qual público nos dirigimos, ou melhor, conseguimos atingir, e com qual propósito? Temos consciência disso ou já ingressamos no fisiologismo mecanicista de não nos aprofundar e não chegar à cerne das problemáticas que envolvem as pautas?

Essa profusão de questionamentos integraram as reflexões discutidas no debate "A Mídia em Questão - Notíciários sobre Saúde na Ótica de Jornalistas e Médicos", realizado no último dia 27 de setembro, pelo o Instituto do Câncer de São Paulo - Octavio Frias de Oliveira em parceria com o InRad, do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e pelo Centro de Telemedicina da USP. O encontro integra o Fórum Comunicação e Saúde (www.jornalismoemsaude.com.br). O jornalista Gilberto Dimenstein e o médico sanitarista e coordenador do site http://redehumanizasus.net, Ricardo Teixeira, foram os convidados do painel.

Por um lado, a apreensão intuitiva e a busca pelo furo e descoberta de conflitos, por outro, o raciocínio acadêmico, baseado em processos sofisticados. Segundo Dimenstein, o dilema está em adotar a dose certa de ambos os lados, e em não se reconhecer os avanços positivos na saúde, na ânsia de "farejar" os problemas. Com isso, prevalece a dicotomia de o jornalista ser cobrado por não se aprofundar no assunto, enquanto os profissionais da saúde apresentam dificuldade de sintetizar as informações.

"Por isso, o interessante é a fusão do comunicador com o educador", considera. Mas muitos definem essa adoção como "vulgarização". Mas segundo ele, essa é saída para chegar na "ponta", e não se restringir as informações, por exemplo, somente ao leitor que pode pagar uma assinatura de jornal. A mudança de atitude só é possível, quando o repórter vai às ruas, ou seja, não fica preso à redoma das redações e longe da realidade da maioria dos leitores, ouvintes ou telespectadores.

Dimenstein defendeu a tese que não podemos restringir a comunicação à imprensa formal, e que esse papel é muito mais amplo. O jornalista e um dos idealizadores do projeto Cidade Aprendiz (http://www.cidadeescolaaprendiz.org.br/cidadeescola/content/spuclugesw.mmp) expôs alguns casos, em que a mídia pode ser simplesmente o muro de vielas e as próprias escolas. A experiência envolve a comunidade como protagonista do processo.

Ao apresentar algumas imagens do "antes e depois", na Vila Madalena, na capital, demonstrou que, seja na saúde, na cultura ou na rede de socialização, podemos transformar cenários e situações decadentes em exemplos de sucesso. "Só a comunidade consegue fazer o 'cateterismo social'. O poder público, muitas vezes, não consegue atingir a ponta", diz.

Segundo o jornalista, as pequenas intervenções podem influenciar de "maneira positiva" as ações públicas. "O papel da mídia é fazer com que esses temas virem consenso", considera. Mas, obviamente, na prática as coisas não são bem assim.

Um dos casos expostos por Dimenstein foi o de uma escola que sofria com infiltrações e mantinha brinquedos quebrados, que causavam acidentes e doenças. A comunidade 'abraçou' a causa e recuperou a unidade. Moral da história, a saúde em seu sentido mais amplo voltou ao ambiente.

Outros exemplos que fizeram parte de sua exposição foram a recuperação da Escola Max, na Vila Madalena, por meio da ação conjunta da comunidade e de parceiros institucionais do em torno, além da repaginação promovida por moradores em um muro da rua Cardeal Arcoverde, com intervenções artísticas com "bolas de gude", e do muro de um cemitério do bairro, que anteriormente era alvo constante de pichadores.

Na opinião dele, ao seguir a linha de raciocínio da gestão participativa, projetos como o Aprendendo com a Saúde, desenvolvido pela Prefeitura, e o Saúde na Escola, do Governo Federal, traduzem a proposta de comunicação comunitária.

O olhar da academia e da medicina sobre a comunicação em saúde


Ricardo Teixeira iniciou sua fala, ao observar que a produção do setor de saúde na área de comunicação ainda é muito escassa. O médico expôs que exceções neste sentido partem de ações como a da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que mantém um Observatório da Mídia sobre Saúde.

"Os temas epidemias tem um destaque grande na mídia, de acordo com o Observatório, além dos patológicos e preventivos", diz. Quanto a epidemias em especial, o sanitarista afirma que há uma fronteira tênue com relação à responsabilidade das informações. "A cobertura recente sobre a febre amarela foi desastrosa...A prevenção deve ser trabalhada entre médico e jornalista, sem a imposição do terror", diz, com relação à conseqüência da corrida de usuários para tomar a vacina. "Não foi colocado que o número de casos se mantinha na série histórica e causou pânico, desabastecimento de estoques em locais prioritários e, inclusive, pessoas morreram por tomar a vacina indevidamente". Um jornalista na platéia lembrou que também cabe aos órgãos públicos desempenharem um bom processo de comunicação, para não facilitar ruídos e distorções de dados.

Por outro lado, Teixeira analisa que ainda há "incompetência" por parte de profissionais da saúde em se comunicar com os próprios meios de comunicação. "Não vivemos em um país em que a comunicação é considerada patrimônio coletivo, e a saúde, um bem público...A saúde é tratada como um bem privado, como se não houvessem dimensões coletivas do tema", analisa. As próprias ferramentas de comunicação do poder público, como as do Ministério da Saúde, precisam ser 'aprimoradas', como a pesquisa da Fiocruz levantou, segundo ele.

O caminho da humanização


Com o objetivo de discutir a idéia de cidadania na saúde, Ricardo Teixeira citou a experiência de cinco anos da Política Nacional de Humanização no SUS (http://portal.saude.gov.br/saude/area.cfm?id_area=1342), que de acordo com o especialista, tem de ser vista como um processo de comunicação. "Propõe a radicalização (no bom sentido) da idéia da saúde como um bem público, quanto ao acolhimento, a gestão, o direito dos usuários, a saúde do trabalhador da área - pois é um dos setores em que mais se adoece. E outro dispositivo é fazer a rede, no sentido das pessoas conversarem sobre o tema", diz.
Há seis meses, foi criado o site http://redehumanizasus.net, por uma iniciativa independente do poder público, que visa discutir o tema entre profissionais da área, como também dar espaço a usuários. "A participação do cidadão ainda é lenta, mas já representa um índicio de enriquecimento", diz Teixeira, que coordena o projeto.

De acordo com o médico, a discussão em rede é positiva na mudança de paradigmas. "A comunidade valida o que vai para a página principal, além da clippagem das notícias. A idéia é também sugerir pautas que permanecem no campo da invisibilidade", diz. Um dos links da página é da mostra da Política Nacional de Humanização, que está percorrendo o país. Lá, algumas das intervenções interessantes foram da população que freqüenta a rodoviária de Belo Horizonte, com a exposição de reivindicações a depoimentos "comoventes". Um cidadão em especial, de nome Vagner, começou a colocar diariamente frases de pensadores como incentivo - entre elas - "...Uma boa coletânea de pensamentos é como uma faxina moral...(Voltaire)". A intervenção (aparentemente simples) foi importante para quebrar preconceitos, segundo o médico.
Sucena Shkrada Resk |




27/09/2008 20:01
Parte 2 - Plano Nacional de Mudanças Climáticas vai à consulta pública, por Sucena Shkrada Resk
Depois de cogitações de adiamento, o projeto do Plano Nacional de Mudanças Climáticas foi apresentado à imprensa, no último dia 25, e deverá ser disponibilizado para consulta pública, de segunda-feira (29) a 31 de outubro. A decisão foi tomada pelos ministros da Ciência e Tecnologia (MCT), Sergio Rezende, e do Meio Ambiente (MMA), Carlos Minc, por um motivo estratégicamente político e diplomático. O Brasil tem um prazo enxuto para consolidar a versão definitiva, já que deverá apresentá-la na Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), em dezembro deste ano. O encontro acontecerá na Polônia e tem um forte peso quanto ao estabelecimento de compromissos mais factíveis, dos países que mais poluem no mundo.

Mais informações podem ser obtidas e acompanhadas no site do MCT (http://www.mct.gov.br) e do MMA (http://www.mma.gov.br) Este é o momento em que a sociedade civil, representada pelas Organizações Não Governamentais (ONGs), universidades e pelo empresariado - e todos nós, como cidadãos, devemos ler atentamente as propostas, discuti-las, sugerir adendos, se necessário, e acima de tudo, reivindicar clareza quanto às responsabilidades da condução das ações de mitigação.
Confira alguns links de repercussão de notícias a respeito do Plano:

http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/09/25/materia.2008-09-25.0207263774/view

http://www.inesc.org.br/biblioteca/textos-e-manifestos/plano-nacional-del-mudancas-climaticas-falta-preparo-governamental

http://www.socioambiental.org/nsa/detalhe?id=2760
Sucena Shkrada Resk |




24/09/2008 17:33
A saga do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena Shkrada Resk
O Plano Nacional de Mudanças Climáticas brasileiro se torna cada vez mais um quebra-cabeças difícil de decifrar. Nesta semana, foi noticiado que a apresentação à consulta pública, do projeto básico elaborado pelo o Governo Federal foi adiada, porque sua versão preliminar foi considerada "muito genérica". Em 149 páginas, segundo matéria veiculada pela FSP, não apresenta números de redução de gases de efeito estufa em diferentes setores da Economia e se limita a listar programas já existentes potencialmente redutores, sem expor novas alternativas. Quanto ao desmatamento, que é o principal problema no país, estipula a meta de zerar a ilegalidade, mas sem propor prazos. Enfim, a situação, no mínimo, é desesperadora, tanto do ponto de vista político, como socioambiental.

Ao fazer um resgate histórico, é importante destacar que o Brasil tem um compromisso firmado de estabelecer diretrizes, ao ratificar o Protocolo de Kyoto (2008-2012). Tanto que, em 2007, foi sancionado o decreto presencial nº 6.263/2007 (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2007/Decreto/D6263.htm), que criou o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM), que tinha o prazo de até 30 de abril definir propostas preliminares para o documento. A pauta complexa e desafiadora prova que a tarefa não é tão simples.

Por sua vez, a sociedade se mobiliza e quer ser ouvida. No final do ano passado, o Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS) - http://www.fboms.org.br - e a Vitae Civilis elaboraram uma cartilha com propostas para o Plano (http://www.fboms.org.br/files/governanca_ambientalFBOMSVC.pdf). Neste mês, um grupo de ONGs capitaneadas pelo Observatório do Clima (OC), pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Eaesp-FGV, e pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, também divulgaram um documento com sugestões. As propostas foram abertas para consultas e novas contribuições, por meio do site do OC - http://www.oc.org.br.

Segundo Rachel Biderman, da OC e do GVces-Easesp/FGV, essas "contribuições" deverão ser entregues à apreciação do Congresso Nacional, no mês de novembro. "A aprovação deste plano não pode acontecer de uma forma estritamente política, sem o aporte criterioso da sociedade", diz.

A advogada e pesquisadora afirma que é preciso estar claro quem serão os responsáveis pelas ações, no que estiver descrito na política de mudanças climáticas. "Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o processo climático atual é praticamente irreversível, mas o que se preconiza é a estabilização, por intervenções...e que o Brasil faça a sua parte, sem normas genéricas, que dificultem a regulamentação", disse no último dia 1º de setembro, durante evento, realizado no auditório da FGV, em São Paulo.

A especialista cita que algumas das arestas que podem ser observadas são a desatualização do inventário nacional do clima. "Apesar de o país ser signatário, só fez um documento até hoje, depois da Convenção do Clima. Há necessidade de instrumentos econômicos e fiscais mais contundentes com relação ao tema", afirma. Nesse aspecto, um dos segmentos importantes é o transporte. "...Deveríamos descarbonizar nossa matriz energética, mas estamos indo no caminho contrário", diz.

O secretário-executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas e Biodiversidade, o consultor ambiental e ex-deputado federal, Fábio Feldman, alertou que o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) ainda é insuficiente na realidade brasileira e criticou o modelo de educação adotado. "Existe uma lei de Política Nacional de Educação Ambiental, só que desde o ensino fundamental, o conteúdo é voltado à quantidade", diz. O desafio, segundo ele, é como preparar os educadores para contemplar essa dimensão da mudança climática. "O risco é que esse tema é tão grande e que as pessoas tenham receio dessa escala, e de não ter capacidade de interferir". Feldman afirma que é a favor da política de precaução e de se estipular a regra do poluidor-pagador, como preconiza o documento elaborado pelas ONGs.

Para Rachel, do OC, é preciso ainda haver uma maior sensibilização de atores vulneráveis, como pequenos produtores rurais afetados pela seca na Amazônia. "Também se deve preparar as defesas civis, para não se repetir casos , como o de Nova Orleans, nos EUA, e Bangladesh, que é mais vulnerável, do ponto de vista climático", analisa.

"A proposição do documento que elaboramos é mais construtiva, do que punitiva, porque a legislação atual é suficiente. "Uma das proposta é que a licença ambiental tenha o condicionante da emissão de gases do efeito estufa. No Brasil, apesar de 70% das emissões serem provenientes do desmatamento, em centros urbanos, como São Paulo, são os combustíveis fósseis", fala.

A ânsia por ações mais efetivas também se destaca na “Pesquisa com Lideranças sobre Mudanças Climáticas no Brasil”, realizada pelo ISER – Instituto de Estudos da Religião com o apoio da Embaixada Britânica no Brasil. O levantamento foi realizado de janeiro a maio deste ano com 210 líderes em todas as regiões do país (http://www.iser.org.br/RELATORIODIVULGACAOISERPESQUISAMUDCLIMATICAS.pdf), sob coordenação da especialista Samyra Crespo.

De acordo com os resultados do relatório, o tema das mudanças climáticas está na agenda dos atores sociais e governamentais. Nenhum setor dos sete selecionados (cientistas, empresários, ONGs e sociedade civil, mídia, governo e congressistas) negou a alta relevância do tema ou avalia que o fenômeno das mudanças climáticas não deve ser tratado como uma das questões mais importantes e estratégicas do nosso tempo.

Seguem abaixo algumas conclusões do documento:

"...a problemática entrou com força a partir dos anos 90’ e com mais consistência nos últimos 5 anos. A consciência recente de que o então “aquecimento global” e os “gases do efeito estufa” (terminologia da época) estavam indicando mudanças drásticas no regime climático do Planeta começou com a Rio-92.

Para a maioria, foi a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, realizada no Rio de Janeiro, que pautou o Brasil, signatário da Convenção do Clima e do Protocolo de Kyoto desde a primeira hora. Entretanto, admitem que foram, na seqüência, o Relatório Stern (2007), o Relatório do IPCC (2008) e o documentário de Al Gore – Uma Verdade Inconveniente – amplamente divulgado no Brasil, que chamaram a atenção para um fato que poucos contestam: o fenômeno das mudanças climáticas já se faz sentir, não é um problema distante de nós (a geração atual). Por conseguinte, todas as sociedades têm que cooperar e encontrar um modelo de governabilidade para lidar com a questão...."
Sucena Shkrada Resk |




10/09/2008 21:59
Humildade é sinal de liderança, por Sucena Shkrada Resk
O trabalho de campo é a melhor forma de resgatar nossos laços com a realidade e um instrumento importante, que nos facilita jogar os velhos pensamentos ultrapassados no baú das memórias e revigorar novas perspectivas. E foi essa gratificante sensação que tive no último dia 6 de setembro, ao conhecer a empreendedora Delza Maria, 58 anos, do bairro Jardim Olinda, na zona Sul de São Paulo.

Depois de percorrer um bom trecho da favela, acompanhada pelos meus amigos da Pós-Graduação em Meio Ambiente e Sociedade, Fabiano, Jacienne, Juliana e Roberto, em busca de material para um projeto acadêmico de revitalização local relacionada ao lixo, me deparei com uma situação, no mínimo inusitada.

Meus olhos já haviam se habituado a ver a dicotomia do processo de urbanização local, onde conjuntos habitacionais contrastam com simples moradias em vielas e escombros de outras misturadas ao lixo e esgoto. Entretanto, algo diferente me chamou a atenção. Em um pequeno galpão com portas de aço, lá estava "dona Delza em seu ambiente de trabalho, arrumando as sucatas armazenadas de um lado, enquanto no outro divide a multiplicidade de seus negócios, desde revenda de cosméticos, potes plásticos, produtos de limpeza e uma infinidade de objetos.

Detalhe - nessa aparente miscelânia - ainda mantém um pequeno brechó - com calçados oriundos do "lixo". Nem pensem em achar que são peças sujas e com aspecto ruim. Nada disso. Os sapatos femininos pendurados e em exposição estão lá, perfeitos e sem manchas, convidativos aos olhos do consumidor.

Bem, aí a curiosidade me deu a oportunidade de conhecer um pouco da trajetória desta mulher, que acorda todos os dias 5h30 da manhã, e parte em busca de plásticos, papelões, madeira, garrafas e tudo mais que possa servir para vender a um ferro-velho localizado nas imediações. Essa rotina já completa 3 anos e, segundo ela, deve continuar por muito tempo. "Depois que comecei, surgiu um monte de concorrentes - afirma bem-humorada - e complementa - "Mas o Sol nasceu para todos".

"Via as pessoas catando as coisas nas ruas e observei que dava dinheiro. Então, também comecei a separar tudo que pudesse ser reciclável, até três vezes por semana. "Com a sucata consigo mensalmente de R$ 150 a R$ 180. Isso paga praticamente o aluguel do galpão", conta.

Daí perguntei a ela se só se importava com o lucro tirado do lixo. Então, a dona-de-casa e empreendedora me deu mais uma lição de vida. "Quando cato as coisas, estou limpando as ruas, que estão tão sujas por falta da consciência das pessoas. Fico feliz por isso", diz.

Para completar a renda do mês, dona Delza não faz corpo mole e se vira ainda em muitas "Delzas". Assim surge a executiva de cosméticos de duas empresas - função que a enche de orgulho - , que dá emprego a outros revendedores. Com humildade, continua sua jornada e parte para as suas vendas de porta em porta, sacolejando dentro dos ônibus, sem reclamar.

"Quando dá, no caminho, também vou fazendo crochê", conta. Algo que a distrai e é mais uma fonte de recursos para pagar suas contas no fim do mês. Tudo isso, para não depender dos outros e poder garantir sua aposentadoria e uma velhice digna e segura.

Sucena Shkrada Resk |




04/08/2008 14:33
Pensata: Como dar sentido à educação..., por Sucena Shkrada Resk
Nos últimos tempos, o tema educação tem sido uma pauta à qual tenho dedicado um pouco de atenção, devido a um trabalho voluntário que estou desenvolvendo. E a reflexão sobre o que é prioritário na formação do cidadão, com certeza, vem na linha de frente de uma infinidade de incertezas com as quais estou me deparando. Afinal, o quadro que se apresenta é o de uma infância e adolescência carentes de valores morais, dos saberes das letras, da matemática, das ciências e reticente no prazer do aprender, por falta de estímulo psicossocial e, inclusive, de nutrientes básicos na formação física. Em miúdos, carente de alimentação em todos os sentidos!

Nesse processo de observação e troca de experiências, conceitos caem por terra. Como não rever o que até então eram hipotéticas verdades, quando no dia-a-dia desses estudantes, há a falta de conforto mínimo, já que muitos vivem em cubículos de poucos cômodos, onde têm de dividir o espaço até com dez pessoas. Nessa ciranda de ausências, falta diálogo entre pais e filhos, existe a cruel depressão socioeconômica, além dos perigos nas ruas.

Esses jovens cidadãos brasileiros, muitas vezes, expressam com todas as letras que se sentem marginalizados por morarem em vielas, onde o perigo mora ao lado. E nesse confronto, a vontade de seguir adiante, vislumbrar o futuro sofre um bloqueio impiedoso, que precisa ser quebrado. E heróicamente é quebrado por alguns representantes desses estudantes, que são os multiplicadores anônimos dessa esperança.

Para completar essa situação que causa inquietude, vem mais uma avalanche da problemática do sistema educacional. Aí, a questão é a seguinte: como solucionar o problema crônico de instituições de ensino, que com "receio" de ter suas bibliotecas destruídas, simplesmente dificultam o acesso ao acervo. Aqui está parte de um cenário real coberto de paradoxos que se contrapõem à esperança em um futuro com mínimo de dignidade, que qualquer ser humano merece.

Nesse círculo vicioso, professores desmotivados, afrontados por seus alunos vêem o seu papel de educador descontruído por uma formação fisiológica ou por regras bonitas no papel, mas que no dia-a-dia, simplesmente não funcionam. Mais que respeito a um "superior", falta o respeito ao semelhante. Agressões verbais e até físicas começam cruelmente a ser banalizadas nesse cotidiano.

Essa desconstrução da educação vai mais além do que x trocado por ch, ou "erres" que fogem das palavras ou de concordâncias discordantes. O implacável é a contaminação travestida de desestímulo. Crianças hipoteticamente alfabetizadas sentem um terrível desconforto ao ler enunciados simples e se sentem cansadas ao escrever mais do que cinco linhas, em que haja necessidade de expressar seus próprios pensamentos. Desconhecem o nome de suas ruas, de seus irmãos, a origem de suas famílias e, até, que o Brasil é um país. Isso tudo está acontecendo na maior e mais rica cidade do Brasil - São Paulo, que na verdade, é uma colcha de retalhos de vários pesos e medidas.

Mas o simples fato de que uma situação dessas causa indignação, sinaliza que nem tudo está perdido. Essa injeção de estímulo vem por meio de palavras, como da pedagoga Maria Dolores Fortes Alves, na obra "De Professor a Educador". No livro, a autora permeia o exercício de ensinar em suas diversas formas e chega à conclusão, após realizar uma pesquisa com professores e ter o aparato de uma bibliografia, com nomes como o filósofo francês Edgar Morin e o respeitado educador Paulo Freire (1921-1997), que o caminho é ressignificar os valores e despertar a autoria dessa juventude.

Com essa premissa, o educador substitui a figura institucionalizada do professor. Nessa relação com o educando, Maria Dolores cita a importância da confiança. É uma troca de colheita a acolhimento. Nessa trajetória, segue o respeito, a solidariedade, confraternização, compreensão e amor. Não é mais possível manter a ditadura cega para mudar o sentido desequilibrado, que aflige a educação nos dias de hoje. E para isso, o desafio é cativar! E nada mais próprio para expor essa idéia, do que a frase de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe, citada pela autora - ...'Os homens não têm de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!"...
Sucena Shkrada Resk |




22/07/2008 13:26
Não pode cair no esquecimento, por Sucena Shkrada Resk
A história mundial nos reserva fatos hediondos que não podem ser esquecidos, por uma questão de respeito a milhares de pessoas que morreram em decorrência dessas atrocidades, às suas famílias que convivem com esse martírio, que atravessa gerações, e à própria humanidade. Isso não quer dizer que valia a "lei de talião" nesses casos, mas com certeza, líderes genocidas devem responder por seus atos, por meio da Justiça, e não podem ficar impunes, como se nada tivesse acontecido.

Nesta semana, me chamou a atenção a notícia sobre o anúncio da prisão do ex-líder sérvio-bósnio, o médico psiquiatra e poeta Radovan Karadzic. O então presidente "democrata" é acusado de ser responsável pelo comando do massacre que resultou na morte de cerca de 8 mil muçulmanos bósnios e croatas em Srebrenica, na antiga Iugoslávia, além de mais 10 mil pessoas, em Sarajevo, no ano de 1995. Ele deverá ser encaminhado ao Tribunal Penal Internacional para a ex-Ioguslávia (TPII), que foi criado para tratar esse crime de guerra. Agora, espera-se que o senhor transfigurado, que exibe hoje cabelos e barbas brancas, seja julgado e cumpra a pena devida.

Há 13 anos, está foragido, apesar de ter sido indiciado por duas vezes pelo tribunal de crimes de guerra da Organização das Nações Unidas (ONU). E o mais incrível é que, neste período, estava clinicando sob outro nome em Belgrado, e ainda colaborava para uma revista de vida saudável. A situação surreal mostra como o homem político e com uma mente desequilibrada pode se travestir com várias roupagens, de acordo com as circunstâncias.

O híato da memória da humanidade foi quebrado em 2005, quando os holofotes da mídia e da comunidade internacional se voltaram novamente à Karadzic, porque veio à tona vídeos de execuções, que revelaram as atrocidades praticadas por soldados sérvios, em 1995. O ex-presidente sérvio nega as acusações e se diz "injustiçado". Entretanto, foram seus subordinados que destruíram tantas vidas, por causa de um conflito étnico e religioso, sem precedentes.

Sucena Shkrada Resk |




16/07/2008 18:08
O melhor sentido da luta, por Sucena Shkrada Resk
O mineiro Gleison Fernandes de Faria, 30 anos, da cidade de Itaúna, é um dos milhares de brasileiros deste país, a quem podemos chamar de herói, sem cair no piegas. Gleisinho, como gosta de ser chamado, é portador de necessidades especiais desde o nascimento, quando quatro segundos sem respiração mudaram o trajeto de sua vida. Todas as limitações impostas por isso não foram suficientes para exterminar o que tem de mais contagiante - a vontade de viver e de contribuir para uma sociedade mais solidária.

Recentemente Gleisinho, que é formado em Ciência da Computação, pela Universidade de Itaúna, ganhou o Prêmio Nacional do Senai, ao projetar um teclado adaptado a Portadores de Necessidades Especiais (PNE). Com este equipamento, o usuário tem mais mobilidade para poder teclar, de acordo com os recursos físicos, que disponha. Seja com os pés, ou com um instrumento manipulado com a boca.

O fato, é claro, chamou a atenção da mídia. Mas muito mais que uma notícia que "comove" e rende ibope, prova que ainda temos muito a aprender sobre o exercício de viver. O jovem, que trabalha hoje na mesma universidade em que se formou, também tornou-se palestrante, há algum tempo. O ofício é mais uma fonte de renda para ele, segundo declara, no site que criou (www.gleisinho.palestras.nom.br). Afinal, é um homem independente, e batalha honradamente por seu ganha-pão e seu espaço como cidadão, como cada um de nós.

Suas palestras, pode-se dizer, são extremamente cognitivas e sensoriais. Apesar da dificuldade na fala, de depender de uma cadeira de rodas, Gleisinho conta que transmite sua experiência a variadas platéias, com a ajuda de um intérprete, que facilita a comunicação. Esse elo prova que é possível superar qualquer barreira, quando não temos vergonha de pedir auxílio e o outro tem o prazer de ajudar.

Enfim, consegue, através da sensibilidade, gesto e energia, contribuir, de fato, para uma sociedade mais justa, e comprova que os diversos obstáculos que a vida nos impõe, estão aí, para serem superados. Depressão e limites físicos, de acordo com sua experiência, podem ser coisa do passado, a partir do momento que acreditamos em nosso potencial e corremos atrás de um futuro sem rótulos.

Para isso, somente muito empenho e luta, no sentido mais positivo da palavra, ao contrário do exemplo de tanta gente que se julga inquebrantável e à prova de qualquer erro. O mineiro de Itaúna erra, corrige, compartilha suas descobertas, e não tem medo de recomeçar, se necessário. É um ser humano de carne-e-osso, que domina suas limitações com garra, sem se melindrar com as imposições de uma sociedade ainda tão preconceituosa.

Sucena Shkrada Resk |




11/07/2008 13:59
Uma acessibilidade longe ainda do dia-a-dia, por Sucena Shkrada Resk
Quando se trata de legislação, o Brasil é um dos países mais ricos em leis no mundo. A questão é a implementação de todo este arcabouço de artigos e mais artigos na realidade do cidadão. Nesta semana, o país politicamente, obteve mais uma conquista, ao consolidar a ratificação da Convenção de Direitos do Deficiente. O Senado aprovou por 56 votos, o projeto de decreto do legislativo (PDS 90/08), que prevê o cumprimento das diretrizes dos textos da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU), do ano passado. O documento encaminhado para sanção ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora, é mais um instrumento legal. A incógnita é saber o que, de fato, vai ser colocado em prática.

É importante destacar que os países que adotam a convenção são obrigados a eliminar costumes, leis e práticas discriminatórias. Isso reflete em ações com relação à inclusão social, educação, saúde, emprego e proteção social.
Vale lembrar que, desde 2000, já vigoram as leis nacionais voltadas à Acessibilidade - nº 10.048 de 8/11/2000 e 10.098, de 19/12/2000, que foram regulamentadas quatro anos depois, pelo decreto nº 5.296 - 2/12/2004, mas que na realidade, ainda estão longe do cumprimento efetivo.

Para compreender um pouco desse complexo tema, basta ver o que diz alguns trechos, quanto à quebra de barreiras aos portadores de deficiências:
" ...acessibilidade: possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos transportes e dos sistemas e meios de comunicação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida;
II – barreiras: qualquer entrave ou obstáculo que limite ou impeça o acesso, a liberdade de movimento e a circulação com segurança das pessoas, classificadas em:
a) barreiras arquitetônicas urbanísticas: as existentes nas vias públicas e nos espaços de uso público;
b) barreiras arquitetônicas na edificação: as existentes no interior dos edifícios públicos e privados;
c) barreiras arquitetônicas nos transportes: as existentes nos meios de transportes;
d) barreiras nas comunicações: qualquer entrave ou obstáculo que dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens por intermédio dos meios ou sistemas de comunicação, sejam ou não de massa;

Quando se define que pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida é aquela que temporária ou permanentemente tem limitada sua capacidade de relacionar-se com o meio e de utilizá-lo, tratamos de um público estimado de 27 milhões de pessoas portadoras de deficiência e mais de 20 milhões de idosos. E eu e você, que a qualquer momento podemos também integrar esta estatística. Afinal, o direito de acessibilidade é para todos.

Todos os itens dispostos na legislação vigente são conscienciosos, mas o que vemos todos os dias ainda é muito pouco que corrobore neste sentido. Como exemplo, temos a quantidade infindável de buracos e calçadas "cheias de armadilhas" nos grandes centros urbanos, passeios reformados que ainda têm algum tipo de problema, como pedras soltas.

Muitas administrações públicas não dão conta de tamanha responsabilidade - para tornar viável essas adequações. Por sua vez, milhares de "cidadãos" e instituições privadas não mantêm em boas condições os patrimônios ou não os adeqüam às normas técnicas.
Ainda vemos aos poucos, iniciativas em construções e edificações novas, com os requisitos técnicos corretos e outras, incrivelmente, ainda inadequadas. Como compreender esta dicotomia?

O prazo de junho de 2007 para que todos os prédios públicos se adequassem à Lei de Acessibilidade no país, já foi cumprida nos municípios brasileiros? Se alguém puder me responder.... E as construções particulares estão se adequando às normas?

Os Planos Diretores Municipais e Planos Diretores de Transporte e Trânsito já estão em conformidade com a Lei de Acessibilidade?

Não é preciso ir muito longe. Como é possível compreender que sejam construídas rampas tão íngrimes, que praticamente impedem que o portador tenha segurança de caminhar. Ou portas tão estreitas, que inviabilizam a passagem de cadeiras de rodas? E mais, milhares de calçadas sem o dispositivo para sinalização a deficientes visuais.

Na área de transporte público, apesar de muitos ônibus estarem adaptados às normas técnicas, outros são praticamente uma grande armadilha. Sequer é possível dobrar a perna, pois a distância entre um banco e outro é ínfima. Sem dizer, corrimões soltos, portas com defeitos etc.

Os ônibus adaptados com pisos diferenciados também são, no mínimo, um exemplo de antagonismo. Enquanto facilitam o ingresso de cadeira de rodas, dificultam a mobilidade interna com escadas. A cada solavanco, qualquer pessoa está sujeita a se machucar, devido a esses desníveis.

Só nos resta acompanhar e fiscalizar o cumprimento dessas legislações, cobrar dos órgãos públicos, de engenharia e de regulamentação técnica uma participação maior da população, que sente na pele todas as dificuldades e, acima de tudo, sermos contribuintes efetivos na manutenção e desenvolvimento dessas adeqüações. Afinal, não dá para ser eternamente passivo diante do que aparentemente não nos afeta de perto. Um dia nós, nossos familiares e amigos também podemos ser vítimas do descaso. E aí - a quem vamos remeter a culpa?
Sucena Shkrada Resk |




09/07/2008 16:35
É hora de refletir, por Sucena Shkrada Resk
Mais um ano de eleições, e a máquina política começa a funcionar a todo vapor. Esse período me lembra - em algumas circunstâncias - o termo "ingênuo útil", que infelizmente cabe a uma massa, que desconhece o poder e a importância do voto consciente. E especialmente me remete ao enredo da peça descrita no livro Um Inimigo do Povo, do escritor nórdico Henrik Ibsen, pela L&PM Pocket, que estou lendo nesta semana. A obra do século XIX é incrivelmente atual, quando se trata de penetrar nos meandros de alguns exemplos negativos que podem ocorrer com a máquina administrativa e com os jogos de interesses, nesta ciranda, que envolve ainda iniciativa privada, mídia e os próprios cidadãos.

Demonstra o quanto o regime dito democrático pode sofrer uma extenuante deturpação, quando se trata de poder e lucro. Neste caso, envereda para um anulação da consciência individual, diante da retórica da mesquinhez. E nesse universo, surge, volta e meia, algum personagem quixotesco, que no livro, é representado pelo o médico Thomas Stockmann.

Com a ingenuidade e boa intenção de querer divulgar a contaminação da água no balneário da cidade - que é o grande chamariz da administração pública- sofre retaliações de todo o tipo. Tudo porque, depois de receber um laudo técnico, decide divulgar o problema, por meio do jornal local, para que haja uma ação contundente da Prefeitura (cujo gestor é o seu próprio irmão, Peter). Diante de sua certeza das graves consequências de saúde pública, se vê sozinho, nesta empreitada, porque outros interesses estão em questão.

O prefeito quer se reeleger a todo custo, o dono jornal e o dirigente da associação de empresários não pensam duas vezes em voltar atrás em ajudar o médico, quando em conluio com o gestor público, percebem que podem perder dinheiro com isso. Por sua vez, o dono de um dos maiores curtumes - de onde vem o problema - não quer, de maneira alguma, ver seu estabelecimento tradicional denegrido. Afinal, as obras de recuperação exigirão um gasto considerável, que afetará o bolso de todos, revelará uma falta de ação efetiva de governabilidade, e ao mesmo tempo, fechará por algum tempo, a maior fonte de renda da cidade, que é o balneário.

E uma massa contaminada por esse discurso, que desacredita o dr. Thomas, nem sequer, dá voto de confiança ao médico, que simplesmente quer ajudar a população.

O prefeito não quer ver sua gestão aniquilada por ineficiência e usa de todo o poder de pressão - para minimizar o problema. Diz que a obra sairia muito cara e do bolso da população e não é tão grave, como o médico afirma. O argumento cai como uma luva para influenciar o jornal local, os empresários e os contribuintes.

Dr. Thomas - desiludido - discursa para essa platéia "massificada", destacando de forma incisiva, essa falta de consciência dos cidadãos - e acaba sendo taxado de inimigo do povo. Ainda, por cima, é demitido e execrado pela comunidade.

Moral da história. Esse conto se repete na vida real, muitas vezes, ainda no século XXI, com outros personagens, por esse mundo afora. E cabe a nós, "eleitores", termos discernimento em avaliar as informações e ações executadas pela mídia, pelos governos e pelas entidades, e não servirmos de massa de manobra para interesses escusos. Com isso, percebemos, que muitas vezes a opinião pública não representa a suprema verdade, justamente devido à ignorância.

E dá o seguinte recado...não devemos ter medo de sermos solitários, em alguns momentos de nossas vidas, quando temos consciência sobre a importância e retidão de nossas iniciativas. Afinal, como o próprio dr. Thomas fala no livro - "...o homem mais poderoso que há no mundo é o que está mais só...". E não é que muitas vezes isso é verdade?

Sucena Shkrada Resk |




02/07/2008 21:15
De volta à vida, por Sucena Shkrada Resk
Legenda: reprodução de imagens de libertação da ex-senadora e candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, e outros reféns das Farc, que chegaram a ficar por nove e dez anos em cativeiro (exibição televisionada pela Rede CNN e reproduzida pela Record News, em 02/07/2008






"Vou seguir lutando pela liberdade e rodar o mundo em prol de quem está no cativeiro. Penso hoje em todos os seqüestrados mortos pela guerrilha...", disse hoje a ex-senadora e candidata à presidência colombiana em 2002, Ingrid Betancourt, em declaração pública, após ser resgatada pela Inteligência do Exército Colombiano, do poder das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas. Por seis longos anos, a política de origem franco-colombiana viveu "humilhações e privações" nas selvas do país, onde ficou com a saúde debilitada, ao contrair hepatite e leishmaniose, entre outras doenças - uma fronteira entre a vida e a morte, pela qual muitos outros reféns passaram e ainda passam.

Segundo Ingrid, foi um período em que se sentiu na pré-história. "Na selva, qualquer coisa é luxo, porque tudo é escasso. Não havia luz elétrica ou água corrente. Há muito tempo não sei o que é um banho quente", declarou à imprensa internacional presente no Aeroporto de Bogotá, onde desembarcou com mais 11 reféns colombianos libertados, além dos dois norte-americanos, que seguiram diretamente aos EUA. A entrevista ao vivo foi exibida pela CNN e reproduzida pela Record News.

Um desconforto político internacional
A possibilidade de sua libertação, nos últimos meses, era considerada incerta, devido a sucessivas tentativas frustradas, que gerou mal-estar diplomático no Cone Sul, principalmente entre o presidente colombiano Álvaro Uribe e o venezuelano, Hugo Chaves, por esse último querer intervir nas "negociações" com as Farc, que ainda mantém muitos prisioneiros civis e militares. Nem a intervenção do líder francês Nicolas Sarkozy foi suficiente para haver êxito anterior de uma operação de resgate.

O semblante sereno da ex-senadora e candidata à presidência colombiana, ao sair hoje com os demais reféns, do avião que a trouxe a ambiente seguro em Bogotá, representou um sucesso de ordem humanitária e, inclusive, política do governo do presidente Álvaro Uribe, que trava uma batalha com a justiça do país, que questiona sua eleição. O resgate - sem feridos, executado pela inteligência militar colombiana, repercutiu mundialmente.

Ingrid conta que pensou que o grupo que estava entrando em contato com ela e outros reféns pertencesse a alguma comissão humanitária. Já os guerrilheiros achavam que eram companheiros de causa. No entanto, a abordagem estava sendo feita pelos militares disfarçados do governo colombiano. "Quando entramos no helicóptero e descobrimos que estávamos sendo salvos, saltamos de alegria. Foi um milagre de Deus. Não há antecedentes históricos de uma operação tão perfeita", conta a ex-senadora, que agradeceu ao exército e ao presidente Uribe, pela coragem de se arriscar nesta empreitada, que poderia ter outro desfecho.

Ingrid Betancourt narrou, que há um ano, a situação de infra-estrutura da guerrilha está cada vez mais precária. "Já dá sinal das dificuldades de logística do grupo. A comida é escassa, há problemas para conseguir botas e roupas...".

Esse convívio da ex-senadora com os guerrilheiros é considerado útil pelo governo colombiano com relação à luta travada com as Farc, que também são acusadas de narcotráfico. "Percebo que tinha de ter passado por tudo isso, até para conhecer como são as Farc . Espero que possam ser úteis esses momentos da vida que estive em uma encruzilhada", disse.
Sucena Shkrada Resk |




26/06/2008 09:41
Sem medo de defender convicções, por Sucena Shkrada Resk
Quando percorremos a história republicana brasileira, sobram poucas referências às "primeiras-damas", ou por extrema falta de crédito que a mídia concede às esposas dos presidentes ou pela falta de exemplos de ação mesmo, que compete ao seu papel e status, que não se restringe a cerimoniais. No caso da antropóloga Ruth Corrêa Leite Cardoso (1930-2008), a sua postura merece menção, pois extra a sua carreira acadêmica e de consultora internacional, foi uma primeira-dama (termo que abolia) que colocou as suas convicções intelectuais à disposição da massa, com o Programa Comunidade Solidária.

Estima-se que, de 1995 a 2002 (período da gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso), tenham sido alfabetizadas mais de 3 mi pessoas e capacitadas 114 mil para o mercado de trabalho. O empenho da antropóloga em promover a autonomia de mulheres artesãs por esse Brasil também é algo digno de nota.

O que enriquece essa atitude é o fato de condizer a uma postura que sempre defendeu como cientista política e conselheira do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sobre Mulher e Desenvolvimento. Empregou a intelectualidade a algo concreto - repassou conhecimento, fazendo com que milhares de cidadãos pudessem ter acesso à educação e ao desenvolvimento de suas habilidades. Implementou uma nova mentalidade de política social. Mesmo após o término do mandato de FHC continuou a sua mobilização como conselheira da Oscip Comunitas, que dá continuidade ao projeto.

E o que é preciso destacar, é que apesar de sua morte, nesta semana, aos 77 anos, o seu legado já está multiplicado. Uma postura que transcende partidarismos de esquerda, direita ou centro, e que nasceu de uma cidadã - que não gostava de estar sob os holofotes da mídia -, que foi e continuará a ser respeitada por sua contribuição à sociedade, sem ter se preocupado em vida em receber os "louros" por isso.


Sucena Shkrada Resk |




24/06/2008 11:27
Será que as novas gerações sabem o que representa Mandela?, por Sucena S.Resk

Legenda: Nelson Mandela, na década de 60 - reprodução no livro Nelson Mandela - A Luta é a Minha Vida, pela Editora Globo

A caminho dos 90 anos em 18 de julho de 2008, o sul-africano Nelson Rolihlahla Mandela é o que podemos chamar de um ícone da paz, que excede a uma simples designação nos livros de história e à credencial de ter recebido o prêmio nobel. Muitos jovens das novas gerações nem sabem quem é este homem, que ficou por 27 anos preso, por acreditar em uma causa - a democracia na África do Sul, contra o regime do Apartheid.

Apesar dos anos atrás das grades, não esmoreceu o vigor por seus ideais, quando foi libertado em 1990, sob forte comoção da população e do "mundo". Quatro anos depois, lá estava ele, no posto mais alto de seu país - o de presidente - mas sem deixar de lado uma característica ímpar - de ouvir, refletir e multiplicar a proposta de isonomia, numa ciranda de desigualdades impostas por décadas de segregação racial. Esse homem já septuagenário ainda teve fôlego para levantar mais uma bandeira - a do combate a Aids, que dizima milhares de cidadãos pelo continente africano.

Até hoje, guardo com carinho o livro "Nelson Mandela - A Luta é a Minha Vida", organizado pelo Fundo Internacional de Defesa e Auxílio para a África Austral (Idaf), tradução de Celso Nogueira publicada pela Editora Globo, que adquiri exatamente em 26 de fevereiro de 1990, quando cursava a faculdade de Comunicação Social - Jornalismo, na PUC-SP. Com certeza, não é mais um título na estante. Foi o meu primeiro contato com a trajetória desse líder negro e sua aspiração libertária, que foi marcada por manifestações inesquecíveis.

O nome da obra refere-se justamente a um trecho de uma das centenas de manuscritos que Mandela escreveu. Especificamente, em seu período de clandestinidade, em 26 de junho de 1961, três anos antes de ser condenado à prisão perpétua.

E nesta sexta, haverá um grande show em Londres em sua homenagem - em vida - o que é importante frisar. Espero que signifique muito mais que um momento de "alegria", mas de lembrança de uma luta que não pode ficar confinada no tempo. Uma bandeira sem cor, sem credo. Uma bandeira de um cidadão que soube e sabe valorizar a solidariedade e irradiou essa energia pelo planeta.


Sucena Shkrada Resk |




16/06/2008 09:17
A cidadania pela música, por Sucena Shkrada Resk

Legenda: reprodução de imagem de TV - exibição_15-06_08_apresentação Orquestra Criança Cidadã, de Recife, no Domingão do Faustão

Finalmente, os programas televisivos começam a acordar aos poucos para a cidadania, ao exibir trabalhos dignos de mobilização. Ontem pude ver um desses exercícios de jornalismo social, ao assistir ao case brasileiro, aparentemente bem-sucedido, do projeto Orquestra Criança Cidadã, de Recife, PE. Há um ano e meio, cerca de 150 crianças e adolescentes, moradores da comunidade carente do Coque - uma das mais violentas da capital pernambucana - fazem uma imersão no aprendizado musical, sob a batuta do regente Cussy D`Almeida. Pequenos artistas, a partir de seis anos de idade, aprendem a tocar instrumentos de corda, de onde tiram sons belíssimos de violinos, violoncelos... São clássicos de Vivaldi, Villa-Lobos...

O maestro -que um dia foi assaltado quando passava por esta comunidade - é isso mesmo - resolveu retribuir, doando um pouco de sua vivência e experiência de mestre ao incentivar os jovens desse bairro pernambucano. Levou uma didática diferenciada do padrão tradicional das escolas, porque parte do lúdico para depois ingressar nas notas musicais. "Dificilmente conseguiríamos em tão pouco tempo, que esses alunos tivessem a performance que têm", diz. A subversão da ordem, segundo ele, teve inspiração no modelo japonês Suzuki. E o resultado é realmente emocionante. A cadência e o ritmo impresso por esses meninos e meninas, que têm a ausência de condições de vida mais digna, revelam um bem maior, que é o potencial e sensibilidade expressos pela dedicação desses jovens brasileiros.

A iniciativa só consegue sustentação porque recebe o apoio de empresas patrocinadoras da região. Inclui refeições e apoio escolar aos alunos, porque são itens prioritários para a vida de qualquer ser humano e, que muitas vezes, são escassos nas mesas das famílias desses estudantes.

Segundo o coordenador da entidade, o juiz corregedor João Targino, em entrevista concedida ontem no programa Domingo do Faustão, na TV Globo, o paradigma de inserção social é o seguinte. "Enquanto um detento custa mensalmente cerca de R$ 2,6 mil no sistema prisional pernambucano, o per capita do trabalho com essas crianças não chega a R$ 1 mil. Então, o que vale mais a pena?".

Realmente é algo a se pensar. Afinal, "valorar" investimentos é importante, pois é preciso aflorar o que cada um de nós temos de melhor. Não é mais possível, vermos cenas cotidianas de infâncias destruídas pelo crime, pelas drogas, pela falta de perspectiva, de dignidade e humilhadas por um sistema que privilegia a desigualdade. Há outros exemplos por esse Brasil, como o projeto Orquestra Jovem Baccarelli, em Heliópolis, entre outras, em São Paulo. São sementes plantadas e semeadas por pessoas idealistas que podem, de fato, mudar o caminho de muitas vidas.

Sucena Shkrada Resk |




26/05/2008 23:16
Especial Brasil/Japão - Peru antecedeu Brasil, por Sucena Shkrada Resk
O Peru recebeu os imigrantes japoneses, em 1899, antecendo 9 anos ao Brasil. A psicóloga e museóloga peruana Amélia Morimoto, da Universidad Mayor de San Marcos, traduziu essa trajetória por meio de fotos históricas, que expôs durante o Simpósio Internacional Presença Japonesa na América Latina, no último dia 20, realizado no Memorial da América Latina, em São Paulo.

"No início, os camponeses iam principalmente para as áreas de cultivo de cana-de-açúcar, mas dos 790 japoneses, desse primeiro grupo, 150 faleceram por causa do paludismo", conta. Os imigrantes sobreviventes e seus descendentes começaram a formar comunidades de serviços e promover a urbanização, com o passar do tempo.

Na década de 30, 80% dos japoneses deportados, segundo ela, seguiam ao Peru. "Na década de 60, o destaque foi a construção do Centro Cultural Peruano Japonês", diz. Os japoneses começaram a marcar presença na indústria e na educação, ao abrir escolas. Nos anos 70, a cozinha nikkei, principalmente com pescados e mariscos, foram marcas deixadas de sua contribuição. Nas artes, um dos expoentes foi o poeta José Watanabe (já falecido), que foi reconhecido, inclusive, na Espanha.

"Na política, houve a figura controvertida de Alberto Fujimori. Durante o seu governo, muitos pequenos negócios desapareceram. Mas muitos nikkeis votaram nele, o associando à colônia japonesa. E a partir de 1988, começa o fenômeno de fluxo inverso, com os dekasseguis, que seguiram em maior número para Okinawa", afirma a museóloga.

Segundo ela, os filhos dos dekasseguis que nascem no Japão já não querem mais voltar ao Peru. "Em contrapartida o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) está incentivando a criação de empresas no Peru, o que está sendo um incentivo aos nipo-peruanos retornarem ao país", fala.

Como no Brasil, o período pós 2ª Guerra Mundial começou a refletir um outro retrato da imigração japonesa no Peru. "Somos peruanos descendentes de japoneses. As feições vão se perdendo, mas nossa preocupação é com a transmissão dos valores de respeito e honestidade", diz Amélia Morimoto.

"....Perdemos a língua, apelidos e ganhamos outros, com a fusão da cultura. Com essa mescla, surge uma nova cultura de tolerância, de ser parte dessa existência da sociedade latino-americana...Mas hoje é um incógnita as propostas dos jovens nisseis quanto ao tema imigração", afirma.


Sucena Shkrada Resk |




25/05/2008 20:02
Especial Brasil-Japão - O fenômeno dekassegui (continuação), por Sucena Shkrada Resk
O debate sobre a situação dos dekasseguis acalora opiniões. Segundo Reimei Yoshioka, da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, é preciso ter uma atenção ao futuro das crianças, no processo de idas e vindas. "É uma questão muito séria, pois não estão preparadas para enfrentar a escola japonesa e o retorno ao Brasil, ao mesmo tempo", avalia.

Segundo Yoshioka, os jovens dekasseguis cometem mais infrações no Japão, do que aqui no Brasil. "É uma situação anômala, que reflete na aceitação da presença dos brasileiros lá. No Japão, já existem projetos de lei para cobrar que os dekasseguis saibam ler e escrever japonês", diz. Diante dessa nova realidade, a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa criou uma comissão especial sobre o tema. "A pauta já se estende a cobranças políticas entre os países", afirma.

"Há mais de 90 escolas brasileiras no Japão. E algumas são até credenciadas pelo Ministério da Educação (MEC), mas têm mensalidades caras. Os dekasseguis desempregados passam seus filhos para as escolas gratuitas japonesas. Essa mudança causa um problema sério de adaptação", constata. Com a interrupção da formação das crianças, a educação fica postergada. "Por outro lado, as que ficam no Brasil, também sofrem a ausência dos pais".

Em outro aspecto, está a questão da aposentadoria. "O brasileiro no afã de ganhar mais, evita pagar a contribuição à Previdência Social, assim, fica sem direito à assistência médica, seguro-desemprego etc. "Portadores de Aids, por exemplo, nessa situação, são obrigados a voltar ao Brasil, porque não recebem tratamento lá", diz. E o dekassegui, ao envelhecer e retornar ao Brasil, se depara com mais um problema, segundo Yoshioka - a falta de chance no mercado de trabalho.

Diante de todos esses percalços, muitos dekasseguis partem para a naturalização japonesa, como estratégia de sobrevivência. "A legislação brasileira não obriga que renuncie à nacionalidade brasileira", explica.

Sucena Shkrada Resk |




25/05/2008 19:59
Especial Brasil/Japão - O fenômeno dekassegui, por Sucena Shkrada Resk
Estudos mais aprofundados sobre o processo emigratório de dekasseguis ao Japão foram iniciados na década de 90. "Hoje os políticos já colocam o tema na pauta - como "gravíssimo"", diz a professora colaboradora da Unicamp, a socióloga Lili Kawamura. Estima-se que até hoje 310 mil pessoas tenham feito o caminho do Brasil ao arqupélago. "A trajetória faz parte do processo de globalização, que infere novas tecnologias, e possibilita que possam ir e vir continuamente. Isso se chama movimento internacional circular", explica.

De acordo com o levantamento elaborado pela especialista, de 1993 a 2003, o princípio dos chamados 3 ks (pesado, sujo e perigoso) norteou o trabalho desenvolvido pelos brasileiros no Japão. "Mas eles introduziram mais uma definição - muito exigente - situação que detestavam", comenta.

No contexto econômico, a década de 90 representou um desenvolvimento galopante, segundo ela. "Mas faltava mão-de-obra para chão-de-fábrica. O envelhecimento da população, a alta escolaridade e ausência da participação das mulheres no trabalho fazia com que houvesse dificuldade para preencher cargos de baixa escolarização", diz a pesquisadora.

Então, surgiu "uma visão equivocada" de que os nikkeis e nisseis seriam semelhantes aos japoneses. "O projeto do governo japonês facilitou a entrada, com a emenda de lei da emigração, favorecendo até a terceira geração de descendentes. Daí foi um boom emigratório", conta Lili Kawamura.

Como a economia brasileira passava por uma fase crítica à época, com inflação e desemprego, isso facilitou a ida ao Japão. "Nas fábricas, exerciam funções repetitivas e tinham de seguir as regras e normas expostas em letreiros e luminosos. Não havia o requisito básico de se saber japonês. A função era semelhante ao do peão no Brasil", explica.

A pesquisadora faz um parênteses e explica que a expressão dekassegui originalmente surgiu do processo migratório japonês de pessoas do Norte e Sul, que seguiam ao centro do país, sazonalmente. "Como o objetivo dos brasileiros originalmente era o mesmo, de ganhar dinheiro, e voltar ao local de origem, também receberam o codinome", diz.

Com o passar do tempo, os problemas de adaptação apareceram. "Apesar de o brasileiro ser flexível, não combina com as regras japonesas", afirma a professora da Unicamp. O resultado é que hoje há uma complexidade da posição dos brasileiros no Japão. "Existem algumas exceções, em que saem da condição de operário, para serviços intermediários, como intérpretes em escolas", diz.

O fenômeno dekassegui também contribui para a presença de produtos nacionais vendidos em redutos brasileiros, devido ao crescimento desse mercado próprio. São restaurantes, lojas..."Tem até shopping center, pequenas fábricas alimentícias, clube de futebol infanto-juvenil. De Minas Gerais, por exemplo, há várias filiais de uma escola que se instalou no Japão", explica a pesquisadora.

Na ponta oposta, há os sem-teto, que desempregados e sem possibilidade de voltar com recursos próprios, ainda enfrentam a falta de visto de permanência. "Vivem debaixo da ponte, local que limpam durante o dia. Organizações japonesas os ajudam para alimentação. Alguns dormem de favor em carros de japoneses, enquanto procuram emprego. Daí surge um sentimento de vergonha de voltar ao Brasil", afirma Lili Kawamura. O conjunto dessas situações reflete também condições de desigualdade social, que também são presenciadas no Brasil.

O mapa dos dekasseguis
A primeira cidade japonesa, com presença brasileira marcante, é Oizumi. Lá existe a "Brazilian City". Outras são Homi Danchi, Ota, Hamamatsu e Toyota. "A expansão da imigração também atinge Tayohashi, Komaki, Nagoya, Shojiri, Nagano e Matsumoto. Mas é possível encontrar brasileiros em todo Japão", afirma a professora.

"Há a preocupação de formação de guetos, por causa deste aspecto predominante de transitoriedade. Os próprios japoneses apresentam uma reação de "medo" a esse fenômeno. E os dekasseguis, quando voltam ao Brasil, também se defrontam com dificuldades".

Um ponto que exige maior atenção, segundo ela, é o destino dos filhos desses imigrantes, nesse processo de transitoriedade. "Não existe uma política própria para a formação desses jovens. Isso acarreta, em muitos casos, a marginalização. Somente as que são japonesas (nasceram lá) têm melhores chances", diz.


Questionamentos

A socióloga começa a analisar um novo fenômeno. "Há uma tendência de brasileiros, que conseguiram subir na escala de emprego, querer permanecer no Japão. Ao mesmo tempo, os dekasseguis contribuem à transformação dos padrões culturais , que afetam os grupos com os quais convivem. "Isso se percebe nos mangás, na cultura pop, nos brinquedos e tecnologia", resume.

Sucena Shkrada Resk |




25/05/2008 14:31
Especial Brasil/Japão - A democracia das relações, por Sucena Shkrada Resk
A historiadora da Universidade de São Paulo, Célia Sakurai, autora do livro "Os Japoneses", afirma que uma das maiores contribuições da imigração ao Brasil foi a da relação entre japoneses de províncias diferentes, que antes não tinham chance de manter contato, por causa da rigidez cultural no Oriente. Com isso, as diferenças regionais começaram a se dissipar. "O nikkei carrega em si esse lado de cunho racial. É importante amadurecer essa relação inter-étnica", analisa.

O desembargador aposentado Kazuo Watanabe, da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, analisa que por causa dessa abertura de relações, a comunidade japonesa está comemorando o centenário da imigração, mais do que o próprio governo japonês. "O que importa para nós é o fato de ter sido estabelecido um vínculo humano, por isso, a mídia brasileira dá ampla cobertura, enquanto que a japonesa, não", afirma.

Mas Watanabe considera que os japoneses, apesar dessa assimilação cultural, poderiam se expressar mais e passar seus conhecimentos aos brasileiros, como no caso da soja. "São envergonhados. Não transmitem, por exemplo, tudo das técnicas de alimentação, que seria muito útil à população mais humilde. O país é uma dos maiores exportadores e não consome a soja direito. Além da proteína vegetal, é rica em outros nutrientes", fala.

O fantasma da segregação
Para a socióloga da Universidade de Campinas (Unicamp) Priscila Nucci, o Brasil, apesar do status democrático, ainda mantém um projeto integracionista excludente. "No caso dos japoneses, foi de uma forma sofisticada", diz.

Segundo Watanabe, embora haja esse critério de exclusão, hoje os descedentes de japoneses são mais aceitos do que outras etnias do Oriente. "Mesmo nos EUA, a discriminação é mais aberta, os japoneses são colocados na categoria de asiáticos", fala.

Watanabe conta que Durante a 2ª Guerra Mundial e pós seu término, realmente havia um movimento anti-nipônico no país. "Já em 62, quando prestei concurso para juiz de Direito, por exemplo, muitos diziam que eu não iria entrar, e consegui na segunda tentativa. Já o preconceito se dava quanto à mulher na magistratura, que só veio a ingressar nos quadros, 19 anos depois", afirma.

Mas nos anos 70, um novo "surto" de movimento anti-nipônico começou a surgir, segundo ele. "Havia alguns casos de empresas japonesas, que não aceitavam os dekasseguis Cheguei a me reunir com um grupo de amigos para combater esta postura", conta.

Sucena Shkrada Resk |




25/05/2008 10:13
Especial Brasil/Japão - O que é a colônia hoje?, por Sucena Shkrada Resk
"Desde a década de 70, a colônia japonesa não existe como tem sido conceituada". Essa análise é do desembargador aposentado e professor de Direito, Kazuo Watanabe, da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa. O magistrado, que tem em seu currículo, participação importante na revisão do Código do Processo Civil e no ante-projeto do Código de Defesa do Consumidor, entre outros trabalhos, é defensor de que a comunidade nipo-brasileira é, acima de tudo, brasileira, apesar de elementos culturais diferentes. Recentemente colaborou na produção do livro "O Nikkei no Brasil", coordenada pelo professor Kiyoshi Harada.

Segundo ele, o primeiro passo é compreender a história da imigração. "Em 18 de junho de 1908 chegaram 781 imigrantes e, antes da 2ª Guerra Mundial, já eram 197 mil. Posteriormente, de 52 a 88, vieram mais 53.555 japoneses, totalizando cerca de 250 mil pessoas", diz. Watanabe fez um levantamento baseado em dados colhidos pela professora da USP, Célia Sakurai, que é uma das maiores especialistas no tema nikkei, no país, entre outras fontes.

No período antes da 2ª Guerra, o cenário era predominantemente rural, principalmente na lavoura de café, entre outras. "Havia uma grande dificuldade quanto ao idioma, usos e costumes, condições precárias de habitação e salários ínfimos. Na segunda fase, os japoneses e descendentes começaram a arrendar terras e adquirir pequenas propriedades", conta.

O magistrado se recorda de sua própria origem, na cidade de Bastos, no interior Paulista. "Lá a sociedade colonizadora japonesa adquiriu terras, as transformando em um núcleo urbano, e a minha família estava entre eles", diz.

Cem anos se passaram e a transformação dos traços étnicos e culturais vieram com os nikkeis. "No primeiro período havia uma existência sociológica concreta da colônia, uma maior identidade e redes de associações. Mantinham-se escolas, ligas esportivas e espaços de lazer próprios. Com o término da 2ª Guerra e a derrota do Japão, houve uma transformação e a assimilação dos hábitos da comunidade brasileira", diz.

O chamado "abrasileiramento" dos imigrantes japoneses ocorreu, apesar do vínculo sentimental com origem nas décadas de 40 e 50. "Com isso, veio a tarefa de educar nisseis e sanseis (netos), que foram às universidades e, em muitos casos, atuando com sucesso na sociedade brasileira", afirma Watanabe. Dentro desse contexto, seu parecer leva à seguinte conclusão - de que todos hoje são brasileiros.

"Em 1944, 41% da comunidade nikkei eram de sanseis e o casamento inter-étnico representava cerca de 50% das relações. E esse índice aumentou de geração para geração", fala.

De acordo com o desembargador, os filhos mestiços atualmente são aproximadamente 400 mil pessoas. "Devem ser considerados nikkeis. Não dá para ter só o critério racial, mas cultural de valor assimilado. Até mesmo os cônjuges brasileiros, nesse aspecto, podem ser considerados da colônia", considera. Com isso, a população, em sua análise, passaria de 1,5 mil a 1,8 mi pessoas.

Em sua opinião, existe uma força "centrípeta" no Brasil, tendo como exemplo os bairros orientais - com cunho principalmente comercial. "Mas não são para auto-defesa da comunidade", diz. Watanabe afirma que o processo de mestiçagem é natural e cita como exemplo a trajetória dos próprios portugueses. "Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda já trata deste tema, sobre o início da colonização do país. O mesmo faz Caio Prado Júnior, que escreveu a História do Brasil Contemporâneo".
Watanabe conta que em 1997, estimava-se que havia 1,4 mi imigrantes e descendentes no país. "Hoje, devem ser 1,5 mi", afirma. Segundo o desembargador, o esforço dos "velhos" imigrantes não foi em vão. "Investiram na educação de seus filhos, que trouxeram frutos", afirma.

Como exemplo, Watanabe cita os seguintes números da presença da comunidade nipo-brasileira, no estado de São Paulo:

Professores em universidades...
Universidade de São Paulo (USP) - 324 (incluindo aposentados)
Universidade de Campinas (Unicamp)- 65
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - 40
Universidade Federal de São Carlos - 23
Universidade Federal do ABC - 8
Universidade Estadual Paulista (Unesp) - 143

Área militar:
181 tenentes p/patentes acima
Reserva - 119
Aeronáutica - 119
Exército - 152
Magistratura - 50 juízes
" no Trabalho - 21
Ministério Público - 63
na Área Federal - 14
Procuradores do município de São Paulo - 20
Procuradores do Estado - 61
Fazenda Nacional - 23

Em efeito reverso, hoje, no Japão, existem 310 mil nipo-brasileiros. "Já mandamos para lá muito mais do que em 100 anos de imigração no Brasil E esse processo deve ser analisado com mais atenção", alerta.

Sucena Shkrada Resk |




24/05/2008 16:29
Especial Brasil/Japão - Os japoneses na literatura brasileira, por Sucena Shkrada Resk
"Amar, Verbo Intransitivo", de Carlos Drummond de Andrade (1927); "Marco Zero - 1 e 2", de Oswald de Andrade (1943 e 1945) e o "Sol se põe em São Paulo", de Bernardo Carvalho (2007), são as três obras, que a conferencista Berta Waldman, especialista em Teoria Literária da USP, triou para representar a inserção japonesa em um período de 80 anos de literatura brasileira. Nessa análise, ela destaca a importância da mudança significativa da valorização dos personagens, do Modernismo à fase contemporânea. O romance quebra paradigmas com o passar das décadas.

No clássico de Drummond (1902-1987), o serviçal japonês Tanaka contracena com sua antagonista, a governanta alemã, estando numa posição hierárquica submissa, em que divide o trabalho e a obediência. "São inimigos de dia e companheiros à noite, quando falam mal dos patrões", resume Berta. Segundo a professora, neste romance, cada um dos personagens se considerava dono dos patrões a quem trabalhava - os Souza Costa. Numa forma metafórica, define as duas personagens como tigres japonês e alemão, em conotação ao tigre, presente no poema de Castro Alves.

Em "Marco Zero - A Revolução Melancólica", os japoneses são inseridos por Oswald de Andrade (1890-1954) no contexto rural junto a outros imigrantes, no período da crise da monocultura cafeeira, em 1929, quando há a quebra da Bolsa de Nova York. "Nesta obra, são expressos sentimentos ambíguos, de que o japonês consegue na terra mais resultados do que outras nacionalidades. Ao mesmo tempo mostra o encontro de um homem negro com uma japonesa, que é indício da miscigenação", explica a especialista. Já na versão 2 - "O Chão", o pano de fundo é o período do Estado Novo e da repressão aos comunistas.

Os caminhos da narrativa dão uma guinada de 180º, no romance contemporâneo, de Bernardo Carvalho, em que há uma outra ótica mais inclusiva sobre a presença japonesa. "Todos os personagens são japoneses e a história central é de Setsuko, uma senhora japonesa da Liberdade, que precisa descobrir a história de sua vida...".

O narrador, que é um publicitário desempregado, se esforça em desvendar o mistério, e acaba virando personagem. E toda a narrativa ocorre em São Paulo, Promissão e Tóquio, destacando a cultura japonesa.

"O que percebemos nesta trajetória de 80 anos é que o padrão xenófobo das primeiras décadas é quebrado com O Sol se põe em São Paulo. Nessa nova leitura, Bernardo Carvalho passa a idéia de que o Japão também é aqui", fala Berta Waldman.
Sucena Shkrada Resk |




24/05/2008 09:10
Especial Brasil/Japão - Rosa de Hiroshima...os japoneses na lit.brasileira, por Sucena ShkradaResk
O silêncio respeitoso "disse" tudo. Assim cerca de 50 isseis e descendentes brasileiros e de outros países do cone Sul reagiram ao fim da execução da música "Rosa de Hiroshima", na voz de Ney Matogrosso, no Centro de Convenções do Memorial da América Latina. A cena foi um dos momentos marcantes do Simpósio Internacional Presença Japonesa na América Latina, no último dia 20.

Com os ouvidos atentos e olhos fixos e marejados na letra de autoria de Vinícius de Moraes (1913-1980), estampada no telão, a maioria da platéia, formada por respeitados representantes da comunidade japonesa, manifestou um dos momentos mais emocionantes, que flagrei como cidadã e jornalista, nos últimos tempos. As expressões de seus rostos demonstravam uma viagem no tempo e a quilômetros de distância, até 6 agosto de 1945, quando uma bomba lançada pelos EUA destruiu 150 mil vidas e deixou seqüelas sem precedentes à população da cidade japonesa de Hiroshima. Três dias depois era a vez de mais um crime contra a humanidade, em Nagasaki. Deflagrava-se o fim trágico da Segunda Guerra Mundial.

A reprodução desse clássico da Música Popular Brasileira (MPB) - um poema de Vinícius de Moraes, musicalizado por Gérson Conrad, dos Secos & Molhados - ,com certeza, deve ser eternizado para as próximas gerações.

Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume

A escolha dessa música de 1973, que encerrou o painel "Terra à Vista: anotações sobre a presença japonesa na literatura brasileira", foi do professor Francisco Assis de Queiroz, da Universidade de São Paulo (USP). O historiador relativizou à composição ao processo imigratório. "Alguns sobreviventes de Hiroshima/Nagasaki vieram para o Brasil nas décadas de 50 a 70. Em 1984, foi formada a Associação de Vítimas da Bomba Atômica do Brasil, com 17 associados. Hoje são 135, que ainda lutam pelos seus direitos com auxílio do governo japonês", conta.

Ainda destacou a presença da cultura e de "personagens" japoneses em obras do autor concretista Haroldo de Campos (1929-2003), com traduções de haikais ou haikus (poesias curtas de origem japonesa), desde a década de 50, quando começou a aprender o idioma, do qual foi um importante tradutor. E de Paulo Leminski Filho (1944-1989). Esse último traduziu o escritor Yukio Mishima e em 1983 publicou a biografia de Bashô, poeta budista do século XVII, entre outras obras.
Sucena Shkrada Resk |




23/05/2008 17:06
Especial Brasil/Japão -O orgulho de ser imigrante, por Sucena Shkrada Resk
"Eu sou imigrante japonês (a afirmação é feita com um tom todo especial...). Vim em 1936, com nove anos para o Brasil, e fui puxador de enxada, como meus pais. Não me esqueço das dificuldades dos primeiros tempos em ir para escola. A gente andava muito e precisava procurar onde tinha capim para não queimar a sola dos pés", recorda emocionado, o engenheiro hidráulico da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, Kokei Uehara, 80 anos.

Segundo ele, essa trajetória de sacrifícios foi importante para a sua formação como cidadão. "A contribuição dos isseis e nikkeis à educação foi primordial na formação das novas gerações. Se conseguimos estudar, devemos tudo isso a eles e aos nossos primeiros professores, que nos apoiaram a seguir, desde a educação básica até o ensino universitário na USP (única universidade gratuita) na época. E o grande problema do Brasil hoje é justamente a educação básica", considera o professor, que é um dos maiores especialistas em hidrelétricas e barragens no Brasil.

Com fala mansa, esse senhor de cabelos grisalhos, e de convicção inabalável, confessa não se arrepender de um único minuto de sua história de vida. "Graças ao esforço dos velhos imigrantes, estamos aqui. Usávamos camisas feitas com saco de farinha, que era a melhor roupa que tínhamos. Tínhamos cheiro de roça com muito orgulho. Por causa disso, hoje muitos descendentes têm sucesso e andam engravatados", afirma.

Nesse período difícil de assimilação de uma nova vida, Uehara conta que o principal legado, como o de outras comunidades japonesas, foi no campo da agricultura (cultivo de hortaliças, legumes, cereais e frutas). "Mudou os hábitos de alimentação brasileira para melhor. Antes da imigração, geralmente as pessoas ganhavam maçã, por exemplo, quando ficavam doentes. Hoje se consome em qualquer lugar de São Paulo e do país", diz.

Sucena Shkrada Resk |




23/05/2008 11:13
Especial - Brasil/Japão - Quem pensa na antropologia cultural?, por Sucena Shkrada Resk
O cientista social e político, especialista em Línguas Modernas na Universidade de São Paulo (USP), Koichi Mori, cobra uma posição acadêmica mais incisiva entre os pesquisadores sobre os nikkeis. "Falta um projeto internacional na América Latina", afirma. Segundo o especialista, que também é pesquisador do Ministério da Educação e Ciência do Japão, é preciso que a Ciência abra os horizontes de atuação. "É importante saber como cada nação contribui para a modernização de cada país. Só assim, é possível pensar como é o seu papel", diz.

De acordo com o especialista, as primeiras iniciativas de pesquisa no Brasil quanto à contribuição japonesa e de seus descendentes ocorreram na década de 40, com a Escola de Sociologia. "Posteriormente foram realizadas outras pesquisas no Amazonas e sobre São Paulo, com o foco na aculturação, mas não houve troca de informações", afirma.

A partir da década de 70, Mori conta que a atenção foi voltada ao ponto de vista da etnicidade, das religiões e da questão dos dekasseguis. "Na USP, há 15 teses de mestrado e doutorado a respeito. Mas é preciso mais projetos, incluindo outros países", considera.

O especialista, a partir de 1995, iniciou uma pesquisa sobre a culinária japonesa no Brasil. "Sobre o sushi, sashimi e a presença dos "sushi-bar", que já são mais de 600 em São Paulo. Mas é importante destacar que já sofrem a influência da aculturação brasileira".

Para o professor Mori, na atualidade, no entanto, não se pode restringir o tema somente à preservação da cultura japonesa. "Outro ponto importante é estudar o fato de muitos dekasseguis estarem entrando em processo de naturalização, e que enfrentam problemas de adaptação de seus filhos, entre outros. Falta uma visão transnacional. Os dois governos precisam criar uma política, para que nikkeis e dekasseguis vivam melhor", considera.

Sucena Shkrada Resk |




23/05/2008 10:19
Especial- Brasil/Japão - A contribuição dos filhos da Terra do Sol Nascente, por Sucena Shkrada Resk
Daqui a 50 anos, o Brasil irá comemorar os 150 anos da Imigração Japonesa, como acontece hoje aos "100 anos"? Esse é um questionamento que paira entre representantes da comunidade que vive no país, e norteou as principais indagações presentes nos dois dias do Simpósio Internacional Presença Japonesa na América Latina, realizado neste mês, no Centro de Convenções do Memorial da América Latina, em São Paulo. A dúvida é pertinente, já que os últimos representantes dos isseis (primeira geração de imigrantes) e nikkeis vêem que a partir das atuais gerações de nikkeis, sanseis (netos) e yonseis (bisnetos), os vínculos com as raízes de seus ancestrais se diluem com o tempo. Um processo que não se restringe somente aos nipônicos, mas é reincidente também em outras etnias mundiais, presentes no Brasil, e em outros países do mundo.

Alguns especialistas denominam esse fenômeno, de aculturação, tendo em vista que houve a fusão de duas culturas, surgindo em tese, uma terceira. Valorar esse processo como "bom" ou "ruim" não é a questão principal. "O desafio é identificar diversidades e prioridades e difundir realidades históricas às novas gerações", fala o presidente da Associação Pan-Americana Nikkei, Felix Kasamatsu. A entidade foi criada em 1981, no Peru, e é regida pela Convenção Pan-Americana Nikkei, constituída por 11 países, entre eles, o Brasil.

Segundo ele, estima-se que hoje há mais de 3 milhões de nikkeis espalhados pelo mundo, sendo que 2,5 mi no continente americano. "Mais da metade está no Brasil, seguido pelos os EUA, Peru e Canadá, entre outros países", diz. Apesar dessa cifra considerável, é uma minoria comparada a outras etnias.

De acordo com a análise de Kasamatsu, a partir do momento em que os nisseis começaram a ter uma educação mais local, os sunseis cresceram num mundo "mais interdependente". "Por isso, no campo da educação, é importante revalorizar os atributos nikkeis, que envolvem disciplina e educação ao trabalho. Na AL, principalmente, houve uma contribuição ímpar à agricultura e pecuária, e ao setor de maquinários etc. Foram pioneiros no cultivo da soja, das hortaliças, na área da floricultura. A antiga Cooperativa Agrícola de Cotia foi um exemplo de cooperativismo regional", relata.

A entidade criada por 83 lavradores em 1927 chegou a reunir 16 mil associados e mais de 10 mil funcionários, e atravessar décadas até 1988, quando quando encerrou suas atividades, devido à falência. Mas esse fato não desmereceu sua história de pioneirismo no país. Na América do Norte, a principal contribuição dos japoneses e de seus descendentes foi no setor automotivo.

O Peru foi um caso ímpar, no campo político, com o engenheiro agrônomo especialista em Física nipo-peruano Alberto Fujimori, que ficou no poder (1990-2000). Independente de sua origem, dividiu opiniões no mundo positivas e negativas, desde o campo macroeconômico à forma de regime autoritário. Depois de asilar-se no Chile e ser extraditado ao Peru, hoje o ex-presidente está na sede da Divisão de Operações Especiais da Polícia Peruana, sob acusação de violação dos direitos humanos.

"No campo empresarial, vemos na atualidade, que existem questões de nacionalismos e preconceitos que afetam os asiáticos, de uma maneira geral", afirma Kasamatsu.
E na cultura, arte, esportes e religião, o legado dos "filhos da Terra do Sol Nascente" - como são identificados os japoneses, é incalculável. Trouxeram, acima de tudo, o hábito alimentar de se comer frutas, verduras e legumes ao cardápio brasileiro, muito além do sushi e sashimi. Com a sutileza do bonsai, da ikebana e demais artes orientais mostraram como é possível proporcionar harmonia pelas mãos. No campo dos esportes, as artes marciais, o beisebol e as práticas de relaxamento foram introduzidas no modo de vida nacional. E muitos brasileiros e nippônicos se identificaram com a filosofia do Budismo e Sintoísmo.

Uma viagem pela história...
Segundo o presidente da Associação Pan-Americana Nikkei, o percurso histórico da imigração japonesa nas Américas teve início em 1878, no Havaí. "Depois seguiu à Costa Oeste dos EUA e ao Canadá. Na AL, os primeiros 34 imigrantes chegaram a Chiapas, no México, em 1897. No ano seguinte, já havia a presença deles em Cuba", diz.

No ano de 1904, é a vez do Peru receber os imigrantes principalmente em suas lavouras de cana-de-açúcar. E em 1908, chegam oficialmente ao Brasil 781 no navio Kasato-Maru (apesar de que em 1906, já terem vindo alguns japoneses morar no país). "Esses trabalhadores formaram colônias agrícolas no Paraná e em São Paulo até 1941. Depois da 2ª Guerra Mundial, a imigração cresceu consideravelmente. Nos anos 50/60, o governo japonês incentivou imigração organizada às colônias agrícolas. Nessa fase, os destinos do Pará e Amazonas tiveram destaque, além da zona de Santa Cruz, na Bolívia e Paraguai. No Chile, o processo foi mais contido, pois o país tinha mais restrições à entrada de estrangeiros.

As formas de imigração se dividiam em contratos de trabalho com grandes proprietários agro-industriais, empresas colonizadoras, de "modo voluntário" e trabalhos temporários, como funcionários de governo, consultores, cientistas e investigadores.
Sucena Shkrada Resk |




11/05/2008 20:01
Ética, acima de tudo, por Sucena Shkrada Resk


crédito: Sucena S.Resk

A jornalista chilena Mónica González Mújica, do Centro de Investigação e Informação Periodista, deu uma lição de cidadania, nesta semana, ao discorrer com autoridade sobre a importância da ética, do estudo e da seriedade ao exercício da profissão, independente de regimes, durante o Fórum Liberdade de Imprensa e Democracia, realizado em São Paulo, pela Revista Imprensa. Sem se intimidar, questionou o poder econômico sobre a mídia.

"Podemos fiscalizar - como o quarto poder - e observar o funcionamento de muitas áreas da economia, sem ter conhecimento especializado? - Não. Apesar do término da Ditadura, existe um mecanismo mais sofisticado e complexo. Houve somente a transformação "do rosto da miséria...Apesar do crescimento e da democracia, há um poço profundo de violência social hoje".

Na sua opinião, o prazer da investigação é imenso, desde que o profissional não pense em seu ego, mas no leitor, para que sejam quebradas as barreiras da informação. E nesse exercício, a palavra-chave é "checar". "Quando vejo o rosto agradecido de um cidadão, sei que trabalhei direito", afirma a jornalista veterana, que traz uma bagagem respeitável de décadas, desde o período conturbado da ditadura Pinochet.

Segundo Mónica, não há mais espaço para o jornalista que se coloca em um pedestal - quando acha que é o porta-voz da verdade. "Se não há publicidade, os veículos não têm como subsistir. Mas isso não exime que eu investigue as pressões subterrâneas sobre a informação. A questão é persistir na veracidade", afirma.

"O modo de vida da sociedade cada dia tem menos liberdade para o amor. Não é um problema menor. Quando falo de amor, estou tratando de comunhão. O jornalismo está ajudando para isso? Creio que não", afirma.

Na análise de Mónica, as desigualdades impostas por um sistema econômico perverso exigem do profissional, acima de tudo, persistência. "Fazer bom jornalismo hoje não requer somente valentia, mas conhecimento e gana de ter dignidade". A jornalista considera que o poder político está mais debilitado no "chamado" regime democrático, por causa da corrupção. "E por que não se denuncia quem entrega milhões? Isso revela que algumas empresas continuam com a mesma liberdade para corromper", critica.

Essa postura, segundo ela, é extremamente perigosa. "Ao omitir, estamos contribuindo para a desinformação da população". De acordo com Mónica, o desafio da atualidade é três vezes maior que na época da Ditadura. "É muito pior investigar a rede de narcotráfico. Os métodos de tortura são mais sofisticados e, ao mesmo tempo, primitivos", constata.

Mas nada justifica a alienação, em sua opinião. "O que ocorre todos os dias com a sociedade civil atenta contra nossa dignidade. E o que mais importa é nos indignarmos e termos espírito de equipe. É o motor real dos jornalistas. A experiência e a ânsia de conhecer ajuda a enfrentar os muitos poderes e a não sermos ferramentas do mercado", diz Mónica.

Uma história de luta

A vivência combativa contra a ditadura Pinochet reuniu passagens penosas à jornalista investigativa Mónica González, desde torturas à prisão. Após o Golpe Militar no Chile, em 1973, exilou-se em Paris. Lá não se deu por vencida, trabalhando como operária, ao mesmo tempo em que que fazia uma imersão em programas de comunicação para o Chile e pesquisas sobre Forças Armadas e direitos humanos. Essa trajetória lhe rendeu um Prêmio Novo Jornalismo, na categoria homenagem, entregue pelo escritor colombiano Gabriel García Márquez, em 2006.

Incansável e com uma postura humilde, pleiteou recentemente uma bolsa da instituição Avina, para realizar mais um trabalho incansável - o de contar a história de mulheres do Chile (camponesas, empresárias e ministras... Enfim, um exemplo para as novas gerações de jornalistas.

Sucena Shkrada Resk |




04/05/2008 14:54
O glossário do trabalho, por Sucena Shkrada Resk
Você sabe que tipo de trabalho exerce, segundo a Consolidação das Leis de Trabalho (CLT), de 1939, e regulamentações e legislações federais posteriores? Para a maioria dos brasileiros, esse é um assunto que foge da pauta cotidiana, entretanto, é um ponto determinante do exercício dos direitos humanos. Vide a situação da exploração ilegal do trabalho infantil, que arrebata milhares de crianças e adolescentes no país, apesar de a legislação em vigor determinar que o ingresso ao trabalho deve ser a partir dos 16 anos. Nem campanhas e ratificações de acordos internacionais com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) dão conta para exterminar essa chaga socioeconômica.

Segundo o secretário de Políticas Públicas da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Valdir Vicente, é importante que a população tenha a noção básica trabalhista, que nada mais é, que um princípio de cidadania. Ou paradoxalmente, de reconhecimento do desrespeito aos direitos...

Quem nunca ouviu falar, por exemplo, da situação insalubre de bóias-frias por esse Brasil? Esse é um exemplo clássico de trabalho forçado, que pode ser considerado uma versão modernizada da escravidão (trabalho análogo). Aquela, em tese, abolida pela princesa Isabel...É difícil compreender que, em pleno século XXI, pessoas são humilhadas e maltratadas, e praticamente trabalham pela comida e um copo d`água. Mas é importante destacar que o trabalho rural tem regulamentação e deve ser exercido de forma digna na relação entre empregador e empregado.

Na nomenclatura e na vida real, ainda há espaço para o trabalho penoso, geralmente manual, que atinge principalmente o público jovem, gerando doenças profissionais. "Isso acontece com quem exerce atividades em pedreiras ou em minas, por exemplo. Muitos morrem antes dos 40 anos", fala Vicente. Apesar de haver punições legais pelo descumprimento das legislações a respeito (como segurança do trabalho etc), ainda há alto índice de fatalidade, segundo ele.

Para completar o quadro das ocupações de risco, está o trabalho perigoso. Nesta categoria, são incluídos os eletricitários, profissionais que lidam com explosivos e transporte de produtos inflamáveis. Segundo o Ministério do Trabalho, esses profissionais têm o direito ao acréscimo de 30% sobre o salário, além de gratificações, prêmios ou participação nos lucros da empresa.

Quando partimos para a urbanidade, muitas pessoas confundem o significado de trabalhador doméstico. Não se restringe somente às funções da empregada doméstica ou ao sexo feminino, como equivocadamente aparenta. Neste grupo, ainda há acompanhantes de idosos, babás, caseiros, cozinheiros, faxineiros, governantas, jardineiros, lavadeiras, motoristas particulares e vigias.

Por outro lado, existe o trabalho em domicílio, que é exercido fora do estabelecimento da empresa contratante. E nesse pelotão, estão principalmente profissionais liberais, que fazem o seu trabalho em casa ou em oficina de família. O importante a destacar é que a CLT não estabelece diferença entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador e o executado no domicílio do empregado. O que precisa estar caracterizada é a relação de emprego entre ambos.

E no aspecto de jornada, há a tempo parcial, que não exceda a 25 horas semanais. E a jornada normal de trabalho é de 44 horas semanais. Bem, aí é uma outra história, já que muitas categorias excedem a esse período, com horas extras - devidamente remuneradas ou não...
Enfim, aqui está uma pequena descrição de um universo que ainda temos muito a aprender...

*informações baseadas em resumo de explicações dadas por Valdir Vicente, no último dia 28 de abril, durante o curso O Trabalho e Suas Relações, promovido pelo Sindeepres/SJSP e colhidas no site do MTE*

Sucena Shkrada Resk |




04/05/2008 13:51
Está mais do que na hora de substituir a sociedade do ter pelo ser, por Sucena Shkrada Resk
A hegemonia do "ter" na sociedade capitalista pode estar com os dias contados - Será? Essa é uma indagação permanente feita por cada um de nós nos dias de hoje. Afinal, nos últimos séculos, a ditadura do poder de consumo domina o cenário mundial, que resulta na balança desigual socioeconômica, em que 75% da produção mundial está concentrada nas mãos de 25% da população. "Mas estamos vivendo o limite do padrão "material". Há um esgotamento dessa base de bem-estar social", considera o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Márcio Pochmann.

Na atualidade, a prática de mimetismo dos países pobres e em desenvolvimento sobre o padrão dos países ricos já se configura em "mito", de acordo com o economista. "Há uma profunda concentração de renda. No Brasil, por exemplo, existem bairros que representam o padrão de riqueza x outros sob carência", diz. E não é possível passar uma borracha sobre o fato de 8 milhões de pessoas estarem desempregadas, outras trabalharem 60% a mais em horas extras, enquanto 5 mi crianças são vítimas do trabalho infantil.

Segundo Pochmann, dos anos 80 para cá, a idéia de planejamento no país foi abandonada. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro per capita é o 85º no mundo. "O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ainda é um começo", diz.

O economista discute a possibilidade de redução de jornada para 4h diárias e até 12h semanais, para que se possa abrir mais postos de emprego. De acordo com Pochmann, apesar de a jornada de trabalho ter passado de 16h para 8h, no séc XX, a inserção da tecnologia não se traduziu em aumento de sensibilidade. "Com a inovação (celular, e-mail, internet), as pessoas estão trabalhando cada vez mais, fora de seu local de trabalho. Há uma dependência de produtividade. Trabalhar em casa se torna uma arapuca", diz.

Segundo ele, para atender à clientela mais rica, o mercado de trabalho também sofreu transformação, com a figura dos prestadores de serviços. "São os trabalhadores domésticos, seguranças, cortadores de gramas, personal trainer. São cerca de 25 milhões de pessoas".

Com essa demanda por produtividade, surgem novas doenças profissionais. "Principalmente mentais. Surge uma profunda crise da socialidade, com a solidão e o individualismo. O próprio computador é um instrumento que nos basta", alerta Pochmann.

Nessa sociedade do ter, as pessoas não têm mais tempo de falar com os filhos, amigos e olhar "olho-no-olho". Há a reformatação das famílias, que se tornam monoparentais (um adulto mais uma criança). "Daqui três décadas, a estimativa de vida estimada é de 100 anos e as mulheres deixarão de ter filhos", afirma. Por essas razões, é preciso se pensar em uma nova agenda de trabalho. "Não dá para dizer que um país é uma república, com desigualdades de direitos".

Para diminuir as diferenças, o presidente do Ipea acredita que uma alternativa é a criação de um fundo público para a acessibilidade à educação. "Escola e educação não são uma fábrica de salsichas. Temos possibilidade de dar um salto, que não pode ser a educação de hoje, que não ensina para a vida", fala o presidente do Ipea.

Com a atual estrutura do modelo capitalista, não é possível difundir o padrão de consumo universalmente. "Atualmente circulam 25 mi veículos no Brasil, enquanto a população é na faixa de 200 mi pessoas. Nos países ricos, essa relação seria de 140 mi veículos para a mesma população", compara.

O caos do transporte, por sua vez, obriga o poder público a ações na área de infra-estrutura. "Os recursos saem de um orçamento contido, das áreas como educação e saúde", diz.

Outro aspecto que contribui para a crise da sociedade do "ter", segundo ele, é a questão climática. "Em todo o mundo, circulam 1 bi de veículos. Ainda há probabilidade de se inundar os países pobres, com automóveis a custo menor de US$ 2,5 mil", diz.

Caso a temperatura da Terra aumentar em 2,5º, a Amazônia poderá em 2050 virar uma savana e a Sibéria, um pântano.

"Todas essas transformações ainda têm um impacto sobre a empregabilidade, pois produz com menos pessoas. Dessa forma, se economiza mão-de-obra. Esse é o efeito perverso", constata o presidente do Ipea.

*Pochmann tratou do tema, no último dia 29 de abril, durante o curso O Trabalho e suas Relações, promovido pelo Sindeepres/SJSP*
Sucena Shkrada Resk |




01/05/2008 16:30
Pressão democrática é mais do que retórica, por Sucena Shkrada Resk
"É possível sair do lirismo para o plano prático". A frase é do ex-secretário Nacional de Direitos Humanos e atual presidente da Comissão Municipal de Direitos Humanos de São Paulo, o advogado José Gregori. O contexto de sua afirmação são as nuances apresentadas pelo processo democrático, e em especial, o anúncio feito pela China, no mês passado, de se dispor a dialogar com representantes do líder budista Dalai Lama sobre uma maior autonomia para a região do Tibete.

A mudança de rumos e de revisão de conceitos de regimes é uma das premissas dos Direitos Humanos, segundo Gregori. "Uma decisão pessoal e de um grupo restrito pode se espalhar como meta. Nunca me conformei que o DH ficasse só no âmbito das declarações", afirmou, no último dia 26, ao se apresentar em um painel do Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência, em São Paulo.

O ex-secretário, que em 1998, foi o primeiro brasileiro a ser premiado pela ONU, pelas suas iniciativas em prol aos Direitos Humanos (DH), se diz um "constante inconformado" com as desigualdades. Hoje no âmbito municipal afirma não se desestimular. "Fizemos um levantamento bairro-a-bairro sobre como 32 itens do DH estão sendo vividos em cada um desses locais, que pode ser acessado no site da Prefeitura de São Paulo. É o SIM - Direitos Humanos (http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/sim_dh/index.html).

Segundo Gregori, a iniciativa visa facilitar aos gestores promoverem os planos de desenvolvimento locais. "É um elemento concreto e objetivo, que não pode ser contestado nem pelos economistas. Agora tenho uma planilha também com números matemáticos", diz.

O levantamento é dividido em indicadores socioeconômicos, de violência, sobre criança e adolescente e mulher e negro. Há desde percentual de pessoas com baixa renda até a comparação entre as taxas de desemprego de negros e brancos por local de moradia. Os bairros são classificados de alta até precária garantia de DH.

Nos extremos constam Pinheiros, Vila Mariana e Santana/Tucuruvi (alta garantia), que se contrapõem a Itaim Paulista, São Miguel, Socorro, São Mateus, M´Boi Mirim, Cidade Ademar e Guaianases (precária garantia).

O que, de fato, se espera, é que os indicadores sejam instrumento de cobrança da população e utilizados, de forma consciente, pelos atuais e próximos administradores, independentemente de partidos ou correntes políticas. Afinal, não é possível mais sustentar governanças com falta de planejamento a médio e longo prazo. E a olho nu vemos essas desigualdades, que são um impacto ao exercício de cidadania.

Sucena Shkrada Resk |




01/05/2008 12:40
É possível superar a alienação, por Sucena Shkrada Resk
Legenda: David Adams, em apresentação no Fórum Cultura da Paz e Pedagogia da Convivência
créd.foto -Sucena S.Resk


A vida é muito mais do que ter o poder de consumo e uma conta bancária polpuda, do que se dedicar somente ao prazer estético, fazer compras no shopping, tomar um choppinho, assistir ao filme "cult" ou filosofar e aplicar o "sociologuês" eternamente, sem colocar em prática os conceitos mínimos de respeito à convivência.

Que bom que ainda há aqueles seres humanos -e muitas vezes, sem os canudos das universidades - que se preocupam com a humanidade e o meio ambiente, e agem muito além do argumento de seu bem-estar pessoal. Vão mais longe - têm noção sobre qual mundo vivem e quais são os problemas a serem superados. Deixam de se colocar como "ingênuos úteis" (cada um de nós já exerceu esse papel, pelo o menos, uma vez na vida) e se comportam como protagonistas. Só a tentativa já é louvável, pois quebra aquela alienação, que se tornou hoje a maior inimiga de nós, seres humanos, no Planeta Terra.

Segundo David Adams (especialista em Mecanismos Cerebrais do Comportamento de Agressão, Cultura de Paz e Psicologia para Pacifistas, e um dos mobilizadores da Unesco, da Década da Cultura de Paz e Não-violência para as Crianças no Mundo), o efeito multiplicador da união entre sociedade, estudantes e educadores, em especial, com órgãos públicos tem um poder, que não pode ser subestimado. E a América Latina pode servir de exemplo a outras nações, nesse processo. O pano de fundo potencial é a mudança de contextos geopolíticos, nesta década, que pode figurar em uma nova ordem mundial.

Para isso, é preciso reflexão, segundo o especialista. E foi justamente essa oportunidade que Adams concedeu aos presentes, durante o Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência, no último dia 26, no Masp, em São Paulo. Num bate-papo interativo, criou uma hipotética carta de propostas à Organização das Nações Unidas (ONU), baseada nas reflexões da platéia. O exercício resultou na seguinte análise conjunta, partindo do reconhecimento dos problemas e possíveis soluções aos antagonismos mundiais.

Cultura de Guerrra x Cultura de Paz
Dominação x Cooperação, convivência, democracia participativa
Intolerância x Tolerância, fraternidade, respeito, solidariedade
Armas x Desarmamento
Inimigos x Amigos e comunidade
Interesses x Desenvolvimento sustentável e equitativo
Propaganda x Livre circulação de informações, compartilhadas livremente
Estratégia do Caos x Estratégia da cultura de paz
Prisioneiros x Sem prisão
Dinheiro x Dinheiro com aplicação positiva
Crença na violência x Educação para não-violência
Segredos x Liberdade
Dominação do mal x Igualdade

Ao supor que a ONU adotasse, no mínimo 8 propostas, em consenso com os 192 países-membros...Iria partir para o desenvolvimento desse novo alinhamento.

E aí, haveria o reconhecimento do fundamento dos problemas. Confira trechos da exposição de Adams sobre essa análise:
- Cultura de guerra faz parte da natureza humana?
- É uma invenção cultural de uma mesma espécie, que pode também inventar a paz...

- Por que dura mais de cinco mil anos?
- Porque tem o mecanismo do Estado para ações destinadas a manter o próprio poder (ex. na ONU, o estado falido é o que perdeu o monopólio sobre a violência - Ex: Iraque, Somália...

-Também não se deve esquecer o advento da Guerra Fria - Império Americano depois da queda do Império Soviético. E que geralmente há um período de tempo, que pode haver a ausência de poder. O colapso da URSS já havia sido previsto 10 anos antes. O dos EUA é previsto para até 2020, por especialistas.

-Então, qual é a estratégia para a preparação dessa provável transição (em andamento)?
-Não teremos mais navios atravessando os mares. Isso significa que não haverá petróleo e os caminhões não poderão circular com os produtos. Os tratores não terão combustíveis nas lavouras. As lojas e supermercados das cidades estarão desabastecidos e as pessoas migrarão ao campo.

-Se o Estado não detém poder, no nível da ONU, vai haver dependência local. Haverá muito sofrimento, mas poderemos obter algo novo, novas fontes de energia, de economia solidária, de poder local com maior participação da sociedade...

-Temos de treinar e capacitar pessoas nesse processo (menção ao processo que Paulo Freire descreveu)
-As pessoas se tornam protagonistas na tomada de decisão
-Surgem novas formas de diálogo e comunicação
-O processo se torna horizontal com bases na tradição da democracia local
-E isso traz o resto do mundo para participar. Querem ver o que está acontecendo na América Latina...
-Um incentivo baseado na coragem e criatividade.

-"Quero voltar daqui 10 anos para ver esse novo modelo de cultura de paz criado na região", finalizou David Adams.

Sucena Shkrada Resk |




01/05/2008 11:07
A educação para o convívio entre diferenças, por Sucena Shkrada Resk
"Tudo que nós sonhamos pode se tornar realidade, desde que haja a união de nossas idéias. Isso significa que há esperança". Esse conceito norteou a palestra proferida pelo historiador da Educação e criador da Etnomatemática (pioneira em dar valor a culturas tradicionais não-européias ), o professor Ubiratan D`Ambrósio, no último dia 26, no Masp, durante o Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência. O educador narrou momentos importantes da linha histórica desde a segunda metade do século XX, que segundo ele, proporcionam até hoje, um sentimento de angústia da humanidade, pelo exercício da guerra, que, por sua vez, são enfrentados por movimentos que fazem frente à política da violência.

"Com o período da Guerra Fria (EUA xURSS), surgiu o Manifesto Pugwash (1955). O apelo era que houvesse progresso contínuo em caminho à felicidade, conhecimento e sabedoria", diz. O grande questionamento era sobre o porquê de se apelar à morte para a resolução de conflitos. "E apesar da Guerra Fria não ter sido totalmente resolvida, foi ouvido o apelo", afirma.

D`Ambrósio explica que os paradoxos da civilização moderna remontam a séculos e têm sua origem - na chamada sociedade do conhecimento, desde o século XVII, que sempre teve como pivô, o fato de a Ciência evocar uma certeza de resultados e ações. "Julga-se quase infalível, substituindo e criando. De certo modo, a vida pode continuar por esses sistemas. Entretanto, significa ao mesmo tempo, a incapacidade de sustentabilidade da vida em sociedade", analisa. Diante da dicotomia, a analogia é a seguinte - "Não há vida, sem paz", afirma o professor de Pós-Graduação em História da Ciência, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Segundo ele, a ameaça da peste há 500 anos, quase dizimou a civilização européia, mas não foi uma ameaça tão grande à sobrevivência, como existe agora, com a má utilização da Ciência Moderna. "Os instrumentos intelectuais e materiais (filosofias, idéias, e partidarismos) são utilizados para promover o extermínio, embora sejam mecanismos formidáveis, se forem bem aplicados. O que falta é uma ética maior, de respeito e solidariedade da humanidade com a natureza", diz.

Nesse confronto, bombas destróem vidas, grupos destróem outros, e há uma certa aceitação disso. "Ouvimos frases como esta - O sujeito mereceu ser executado. Tal grupo mereceu ser eliminado. Existe uma racionalidade que justifica essa cultura, por isso, é urgente que se passe para a cultura de paz (que representa a união de idéias nesse sentido)", diz categoricamente Ubiratan D`Ambrósio.

A paz, segundo o educador, começa internamente em cada indivíduo. "Ele não vai precisar recorrer a drogas para sair de uma realidade interna. A paz individual é ligada à social. Não podemos viver em conflito constante com o ambiente, que seja o princípio do confronto. Por isso, educar para a paz é educar para a sobrevivência com dignidade".

"Em todas as relações humanas, há conflitos de interesses. Isso é normal, mas não pode chegar ao objetivo de se eliminar as partes envolvidas. Temos como exemplo, o clássico Laranja Mecânica (romance de Anthony Burgess, que virou filme sob direção de Stanley Kubrick)", afirma.

A educação para paz - apesar de parecer uma definição redudante para muitos - é a aceitação do convívio entre as diferenças. "Do outro time, do outro sexo, cor, língua e religião. Neste sentido, está a importância do ensino de História, no que diz respeito à humanidade X se deter a cronologias", alerta o professor.

Isso significa respeito a raízes, relações históricas emocionais, religião e sistemas de conhecimento. "Um indivíduo é diferente do outro. Preservar essa diferença é fundamental", considera. D`Ambrósio define a violência como resultado da ignorância. "Todos nós somos educadores e temos a responsabilidade de passar algo (positivo) ao outro", afirma.

"Muitas vezes os tratados mundiais são inócuos, pois justamente não solucionaram a base dos confrontos - com suas tensões, desconfiança e medo, memórias de destruição e morte....", diz. O educador cita como exemplo o Tratado de Versalhes, em 1919, o confronto entre palestinos e israelenses, entre ETA e governo da Espanha, e nacionalidades que compunham a ex-Iugoslávia.
Sucena Shkrada Resk |




29/04/2008 17:14
Os alicerces da pedagogia da convivência são inerentes ao homem, por Sucena Shkrada Resk


créd.foto-Sucena S.Resk



Saber conviver com os conflitos e as diferenças é uma das máximas da pedagogia da convivência, segundo o escritor Xesús Jares, coordenador do Coletivo Educadores pela Paz da Nova Escola Galega, na Espanha. O especialista resume na palavra respeito, o sentido de comunidade, implícito no tema. Segundo o conferencista internacional, os marcos reguladores estão concentrados na família, nos contextos sociais de vivência, nos códigos de normas das escolas e dos meios de comunicação, além da política. "E esse aprendizado começa desde a infância", afirma.

Nesse paradigma, de acordo com o especialista, está inserido o conceito de cidadania planetária. A extensão deixa de ser somente o ser humano, para abranger os seres vivos e o meio ambiente, ou seja, o Planeta Terra. Com isso, deixamos um universo isolado para transcender. E nesse caminho, uma das ferramentas essenciais é o diálogo.

"Conviver com os outros é um contínuo exercício de diálogo, que gera a resolução de conflitos entre as partes e por meio de mediadores. Para isso, é necessário haver o desenvolvimento da solidariedade (talvez uma palavra em desuso para muitos), desde os primeiros anos de vida. Significa humanização, além da instrução para melhorar a qualidade da integração", diz.

Por meio da pedagogia da convivência, Jares destaca que é importante conhecer a origem da violência, para, dessa forma, poder combatê-la. "O lacismo é uma forma de não-violência, pois permite a liberdade jurídica e de consciência, sem impor crenças. Com esse mesmo raciocínio, também atinge as interações entre as culturas. "O ser humano é fundamentalmente cultural e mestiço", afirma.

Nesse processo de transformação de comportamento tem de haver espaço para a ternura. "A afetividade é uma necessidade fundamental dos seres humanos. E a alfabetização nesses sentimentos faz parte do processo educacional", considera. De acordo com Jares, certos problemas de disciplina têm sua origem justamente pela falta de afeto.

O perdão. Eis uma palavra indispensável à pedagogia da convivência, segundo o autor espanhol. "Não quer dizer o esquecimento da falta ou desculpa. É o reconhecimento da falta e o compromisso de não repetir a mesma ação", diz.

Sendo assim, respeito, diálogo, solidariedade, não-violência, lacismo e perdão levam à aceitação da diversidade e ao compromisso com os necessitados, segundo a tese defendida pelo coordenador do Coletivo Educadores pela Paz da Nova Escola Galega. É uma imersão que leva àquele estado tão "almejado" pelo ser humano: F E L I C I D A D E.

Mas para atingir essa plenitude, os padrões consumistas da sociedade moderna têm de ser revistos. Com isso, o imaterial se torna mais importante que o material. Nessa filosofia de vida, há espaço para a revisão de conceitos. "Por isso, o papel dos pais, das famílias e dos professores é o de educar para a esperança, que leva ao otimismo. O sistema educacional movido pela alegria e pelo descobrimento do conhecer consegue enxergar avanços nos estudantes e nos trabalhos bem feitos - que muitas vezes, passam desapercebidos no cotidiano", afirma Jares.

*resumo sobre a mensagem de Xesús Jares traduzida pela jornalista Elisabete Santana, durante o Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência, realizado no último dia 26, no Masp, em São Paulo*


Sucena Shkrada Resk |



28/04/2008 21:55
Pedagogia da Paz: os frutos da mobilização, por Sucena Shkrada Resk
´Grupo Movimento pela Paz no Grajaú' narrou sua experiência de luta, durante o Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência
 


crédito da foto: Sucena S.Resk



O relato de jovens multiplicadores do bairro do Grajaú, em São Paulo, comoveu a platéia formada por cerca de 300 educadores, estudantes, gestores e cidadãos comuns, que participaram do Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência, realizado no último dia 26, no auditório do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Os seis moradores da zona Sul da capital se expressaram de uma maneira incisiva - como é própria à fase do amadurecimento - e descreveram uma história de nove anos de luta contra a violência na comunidade, revelando o quanto pode ser gratificante o empenho e perseverança das novas gerações.

Os estudantes destacaram a importância do incentivo para se promover mudanças. No caso deles, a força partiu do padre italiano Paolo Parise, da paróquia local (que está atualmente em fase de estudo na Itália). E com uma seriedade - talvez imposta precocemente pelas circunstâncias da guerra urbana -, fizeram um desabafo profundo e honesto, que calou fundo entre os presentes.

"Os moradores sofriam com a violência local. Vivíamos numa situação em que não podíamos nos conformar com a realidade. Então, há 9 anos, começamos com um movimento tímido. Pedimos que uma luz nos guiasse no caminho, que nos indicasse resultados. Conseguimos reunir 7 bairros pequenos em prol de uma causa...".

"Não fazíamos barulho pela violência, mas pela paz. Pois ouvíamos barulho de tiros, agressão a crianças, mulheres. Achamos uma maneira de manifestar de forma cultural, para falar de paz, e não cruzamos os braços...."

"...Desde a pré-escola à juventude, a reflexão é importante sobre esse tema. Acrescentamos festivais de música, poesias, teatro, rap (que é a manifestação cultural mais presente no bairro). Daí, as escolas e ONGs começaram a participar. Chegou a ter 3 mil pessoas em eventos em praças públicas..."

"...Queríamos fazer um barulho que não incomodasse, porque a violência já incomodava demais. Nossa preocupação era que o movimento não fosse banalizado. Usamos flores e correntes como forma de expressão..."

"....Em 2006, deixou de ser um movimento sozinho, em uma região em que as pessoas têm medo até de falar de paz..."

"...Tivemos o apoio do Instituto Sou da Paz, e participamos do Grajaú em Rede. É um trabalho de formigas, que vale a pena. Fizemos concursos de desenhos para falar da paz. O tema deste ano é ´Paz: O movimento é da hora!'- Não é conquista permanente, mas movimento constante. Não é isolado, se faz necessário sempre. Não há idade para ser vivida e para repousar. - entonaram os jovens, ecoando a sua mensagem no auditório, em que olhares e ouvidos atentos representavam um daqueles momentos propícios para reflexão".

O grupo "Movimento pela Paz no Grajaú" representou milhares de jovens da capital, que anônimos batalham por uma sociedade mais justa, e constituíram um momento de humanização do Fórum, em que cada participante se sentiu, "em parte", representado. O evento foi uma iniciativa das Secretarias de Relações Internacionais e do Verde e do Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo e da Universidade Livre do Meio Ambiente e Cultura de Paz (UmaPaz) em parceria com a instituição Palas Athena, o Instituto Pólis, a Embaixada da Espanha, a Aecid Centro Cultural São Paulo e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura no Brasil (Unesco).

Sucena Shkrada Resk |



27/04/2008 21:37
Parte 3-Urbanização: o exercício do questionamento, por Sucena Shkrada Resk
O exercício do questionamento faz com que sejamos consumidores mais conscientes dentro do processo da urbanização. Algumas perguntas que devem ser recorrentes são - Que cidade queremos construir? O que está ao meu alcance como cidadão? E como profissional? Segundo a especialista em Arquitetura Sustentável, Daniela Corcuera, esse é um princípio básico, que deveria nortear cada um de nós na concepção da sustentabilidade.

A representante da Associação Nacional de Arquitetura Biológica define que hoje é preciso haver uma visão holística. "As diretrizes para cidades sustentáveis se norteiam pela preservação do meio ambiente, economia financeira e aumento de qualidade de vida urbana", diz. Nesse escopo, é necessário, de acordo com Daniela, priorizar os seguintes eixos:
-Preservação de áreas naturais com compactação urbana
-Quesitos como proximidade, diversidade e uso misto
-Maior eficiência energética, com sistemas limpos
-Consumo consciente hídrico, de energia
-Pensar na questão dos microclimas
-Desenvolvimento de edifícios sustentáveis
-Reúso e reciclagem

"Hoje vemos ocupações desordenadas, nos vazios urbanos, e a formação de anéis intermediários, que favorecem a ocupação clandestina, com condições insalubres e áreas contaminadas", alerta.

De acordo com a arquiteta, a área central de São Paulo, por exemplo, passa hoje por um processo de desocupação acelerado. "É preciso pensar em novamente adensá-lo, com a diversidade de uso, e ter mais respiros como a Praça da República", diz.

Para isso, não adianta haver ações isoladas, em sua opinião. Os agentes são o poder público, a mídia, a sociedade, os escritórios de projetos, incorporadoras, empresas e empresários.

"O modelo de cidade sustentável é circular, com nascimento e renascimento de recursos. Não adianta ouvir discursos como 'o córrego trouxe problemas'. O problema, de fato, são as casas que estão em locais errados", afirma. E a premissa dos 4 R(s) - repensar, reduzir, reutilizar e reciclar deve ser um fio condutor nesse modelo.

A arquiteta Daniela Corcuera alerta que não é mais possível pensar nas cidades da mesma forma. "Um por cento da superfície da Terra é ocupada por cidades, que representam 75% do consumo de energia do mundo, e são responsáveis por 80% dos gases de efeito estufa", diz. E as projeções para o futuro revelam que, se algo não for feito agora, não haverá reversão. "Em 2007, 50% da ocupação está concentrada nas cidades. Em 2050, a perspectiva é que esse percentual passe para 75%". Temos de nos preparar para esse adensamento, que será um impacto para as próximas gerações", afirma.

Os desafios, nessa trajetória, são a mobilidade, a qualidade do ar, a segurança e a qualidade de vida e da paisagem. "Considero deprimente o mecanismo de adaptabilidade do ser humano em não se indignar com essa situação. Isso não é normal, e quem faz a cidade somos nós!", diz.

*A palestra de Daniela Corcuera integrou o Encontro Desafios da Urbanidade Sustentável, promovido pela Mais Projetos, no último dia 24 de abril, em São Paulo*

Sucena Shkrada Resk |



26/04/2008 21:40
Parte 2 - Urbanização: percepções sociais, ambientais e econômicas, por Sucena Shkrada Resk

Quando a gente vê os espigões e os mais diversos tipos de edificações espalhados pelas metrópoles, não tem noção de como é a rotina de muitos trabalhadores que são responsáveis pela construção. A arquiteta, urbanista e especialista em sáude ambiental, Rosana Navarro conta que o aspecto social é uma linha tênue, que está sempre na pauta dos problemas enfrentados no setor.

"Hoje é fundamental que haja a capacitação contínua das equipes nas obras. A deficiência de treinamento se tornou um ponto crônico relacionado ao segmento", afirma. Segundo ela, a falta de preparo de pessoal constatada em muitos empreendimentos acarreta problemas, que vão desde o desperdício de material, e conseqüentemente danos à natureza, até conflitos de relacionamento entre colegas e com a comunidade, fazendo o ambiente "adoecer".

Rosana diz que não são raras as vezes em que o barulho e sujeira provocados por obras espalhadas pelas cidades geram o descontentamento dos moradores do entorno. "A população involuntariamente participa da obra, por isso, é necessário que sejam diminuídos os ruídos, poeiras e efluentes. Tudo isso depende de conscientização", avalia. De acordo com a arquiteta, o mais preocupante, que geralmente fica nos bastidores dos canteiros - é a sucessão rotineira de atritos entre colegas nas obras, que em muitos casos, chegam a agressões físicas.

Para reverter a situação, a urbanista só vê uma saída: treinamento contínuo. "A proposta é que as empresas promovam um exercício de percepção entre os trabalhadores, desde o boy e operário até os engenheiros, sobre o projeto que estão construindo. Muitos trabalhadores não sabem compreender uma planta. Quando as pessoas têm consciência de seu papel e fazem o trabalho com o coração, o resultado é uma obra melhor, que por sua vez, traz felicidade", analisa. Dessa forma, diminui a necessidade de correções e alterações de cronogramas, que geralmente são conseqüências dessas deficiências de planejamento e gestão.

A partir do momento, que o sentimento de equipe aflora, com a cooperação, mudam-se os paradigmas - com o respeito interpessoal. "Como se fosse uma orquestra", diz. E essa orquestra pode atuar ainda melhor se for incentivada a contratação de pessoal que resida nas proximidades do empreendimento. "Isso evita o desgaste do transporte entre longas distâncias", observa a arquiteta.

Percepções ambientais

Ao se manter novos valores, Rosana afirma que é destacada a percepção cultural. "A equipe pode ter, a partir daí, a noção da importância de se usar eco-produtos, materiais reciclados e reaproveitados. Ainda há o restauro, que é pouco falado, mas eficiente", diz a urbanista. Outro ponto da visão sustentável é a utilização de produtos adquiridos na região. "Assim, alavanca o desenvolvimento local", conclui.

*a palestra de Rosana Navarro ocorreu, no último dia 24 de abril, durante o Encontro Desafios da Urbanidade Sustentável, promovido pela Mais Projetos, em São Paulo*
Sucena Shkrada Resk |



25/04/2008 15:55
Parte 1 - Contaminação: um entrave para a urbanização sustentável, por Sucena Shkrada Resk
O principal desafio de gestores, legisladores, empresários e da sociedade é promover a sustentabilidade nos grandes centros urbanos, que cada vez mais adensados, crescem desordenadamente, sem planejamentos a curto e longo prazo, pós Revolução Industrial. Planos diretores são exaustivamente debatidos, entretanto, em muitas situações, se tornam elefantes brancos, por faltar justamente regulamentação. E nessa ciranda, surgem conflitos de competências entre os âmbitos municipais, estaduais e federal quanto à legislação ambiental, e os passivos ultrapassam décadas. Dessa forma, provocam um impacto grave para a manutenção da qualidade de vida da população.

O engenheiro civil e mestre em Tecnologia Ambiental, Marcos Moliterno, atual coordenador da Divisão Técnica de Meio Ambiente do Instituto de Engenharia, afirma que a existência de áreas contaminadas é um dos principais problemas enfrentados para se efetivar a viabilização da sustentabilidade urbana, que não pode ser tratada de forma corriqueira. O especialista apresentou um painel sobre o tema, durante o encontro Desafios da Urbanidade Sustentável, promovido pela Mais Projetos, no último dia 24, em São Paulo.

Segundo Moliterno, o registro de maior número de casos de áreas contaminadas em São Paulo, de acordo com levantamento da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) 2005, está localizado em postos de combustíveis (73%), indústrias (16%), comércio (6%), resíduos (4%), acidentes (1%) e de origem desconhecida (1%).

O engenheiro destacou que há, no Brasil, 27 mil postos de gasolina. "Todos lidam com hidrocarbonetos, benzeno, tolueno e xileno, entre outras substâncias químicas, que exigem um acompanhamento contínuo, devido ao perigo de vazamentos. E atualmente há tratamento de recuperação de áreas afetadas por contaminação, o que não havia há tempos atrás", diz.

No segmento industrial, as ocorrências estão distribuídas entre as áreas química, petrolífera, farmacêutica, de metais pesados, de indústrias têxtil, plástica e de metalurgia. "Também há casos em loteamentos, que foram fazendas e enterraram resíduos no solo", diz.

A contaminação química ainda pode partir de outros setores, como lavanderias, tinturarias e serviços de revelação fotográfica. "E um problema que pode ser grave mais para frente é o dos laboratórios clandestinos de drogas ilícitas", alerta.

Em uma outra vertente, estão os resíduos produzidos pela construção civil. "Muitas vezes, não se é levado em conta o consumo de recursos naturais, de insumos, e da logística que acarreta problemas com poluentes", afirma.

Nesse grupo de fatores, há inúmeros produtos, atividades e práticas que exigem extremo cuidado na produção, manipulação e descarte, como é o caso das baterias, adubos, plásticos, limpeza química, agroquímicos, ferros velhos, madeireiras, beneficiamento de metais, óleos combustíveis, papéis e têxteis.

Mudanças de paradigmas

O que mais pode causar espanto à maioria dos cidadãos é que, em grande parte dos casos, é possível recuperação, segundo o coordenador da Divisão Técnica de Meio Ambiente do Instituto de Engenharia. É o mais importante, prevenção - com projetos sustentáveis. Para isso, no entanto, é preciso efetivamente responsabilidade empresarial e administrativa pública. Afinal, as contaminações são caracterizadas como crimes ambientais e afetam a saúde de inúmeras maneiras e, podem, inclusive, ser letais. Isso pode ocorrer por via respiratória e pelo consumo d`água oriunda da contaminação da água pluvial, do solo da água subterrânea, de rios e de córregos. "Em São Paulo (capital), por exemplo, há muitos poços clandestinos no subsolo, que abastecem residências", diz.

"Hoje a cidade ainda tem muitos galpões industriais abandonados, porque São Paulo se tornou um município predominantemente de serviços. E as grandes incorporadoras já incluem uma cláusula, em que pagam 80% ao proprietário na aquisão do imóvel, sendo 20% destinados para possíveis remediações, se houver contaminação", explica. Aparentemente, isso é um bom sinal. Ao mesmo tempo, as empresas já se preocupam em efetivamente fazer estudos de passivos ambientais.

E quando se fala em contaminação, não se pode esquecer das que são provocadas por meio dos gases e fumaças e pelo visual agressivo. Enfim, há muito o que fazer. Empresários mais conscientes de seu papel e respeito à legislação; gestores com retaguarda mais eficaz de fiscalização; leis mais objetivas, que não gerem jurisprudências; e cidadãos mobilizados em defender uma urbanização sustentável.

Sucena Shkrada Resk |



21/04/2008 16:25
Parte 3 - A riqueza de histórias de vida, por Sucena Shkrada Resk
Um novo paradigma para a Agenda 21 - Pensar de forma local e agir globalmente. Essa foi uma das propostas discutidas na Roda de Conversa Histórias de Vida e Desenvolvimento Local, do I Festival Histórias em Movimento, promovido em São Paulo, no domingo (20).

Rui Mesquita, associado de programação da W.K. Kellogg Foundation, destacou a necessidade da intervenção da sociedade em decisões internacionais. "Além do desenvolvimento local é preciso ser ampliado ao âmbito regional e global", diz. Participantes do encontro citaram a importância de se voltar as atenções a eventos como a 5ª Cúpula dos Chefes de Estado e de Governo da América Latina e União Européia, que reunirá governantes, de 16 a 18 de maio, em Lima, Peru.

O coordenador de projetos também ressaltou que é preciso rever o conceito do jovem, como um eterno educando. "Apesar da boa fé por trás dessa definição, ela se choca com outro lado da moeda. A juventude está aqui para realizar seus sonhos e seus projetos políticos. Não é só um agente local", diz. E para exercer essa agenda utiliza o empoderamento, o associativismo e as redes juvenis. "Isso não é educação, mas uma ação política". Em sua opinião, as histórias de vida não podem ficar restritas ao ciclo juvenil. "O próximo passo é contar a história dessas redes", considera Mesquita.

O secretário de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura (MinC), o historiador Célio Turino, alerta que o desenvolvimento local não pode ser tratado isoladamente. "Senão, se transforma em guetos", diz. Turino propõe que cada vez mais, tanto os jovens, como qualquer cidadão, exercitem a expressão em primeira pessoa - (eu e nós). "É uma maneira de romper o quadro de alienação em relação ao outro, ao planeta e se perceber no mundo", afirma. Segundo ele, um case que ilustra essa proposta é o de Olinda Nova, MA, onde crianças e jovens são gestores de rádios e TVs comunitárias.

De acordo com o secretário, o MinC contribui para essa filosofia de participação, com o apoio aos projetos batizados de pontos culturais. Nos últimos 4 anos foram implementados 800 espaços no país, segundo ele. "Estamos lançando editais para mais 1,2 mil. O proponente apresenta o projeto, que tem como elemento comum, o estudo multimídia. Ao ser aprovado, recebe o valor de R$ 180 mil/anual, dividido em três parcelas", explica.
Sucena Shkrada Resk |



21/04/2008 15:18
Parte 2 - A riqueza de histórias de vida, por Sucena Shkrada Resk
"Existem convergências entre as diversidades regionais, que por meio das histórias de jovens potencializam os projetos, que podem ser integrados. Conhecer a realidade é um ponto de partida". Essa é a constatação de Patrícia Cucio, representante do Coletivo Jovem de Meio Ambiente da Cidade de São Paulo, ao ouvir os cases da pernambucana Rejane e da maranhense Mirchelândia, durante o I Festival Histórias em Movimento, realizado em São Paulo, no último dia 20. A ambientalista considera que a sua geração defende hoje uma pauta muito mais ampla, que extrapola as políticas dirigidas somente à juventude. Com isso, atinge a transversalidade.

O princípio, de acordo com Patrícia, é o desenvolvimento local a partir do desenvolvimento integral do cidadão, unindo arte, cultura, saúde, educação e trabalho. Um conceito que a maranhense Micherlândia Freitas, 19 anos, leva à risca. "Faço parte do grupo de jovens comunicadores do Fórum Jovem. Mantemos uma rádio comunitária, uma revista que publica nossas atividades e estamos divulgando o CD Diga Não ao Trabalho Escravo, nos 11 municípios que integram a rede. A mobilização ainda reúne articulações nas áreas de arte e cultura, esporte e lazer e manutenção de diálogo com o poder público.

Para Isaque Menezes, 26, do Fórum da Juventude de Recife, PE, os exemplos das jovens nordestinas revelam que, apesar de todos os problemas enfrentados na região, existe uma efervescência das recentes gerações . "Demonstram outras formas de fazer política", diz. Segundo o mobilizador social, quando o case de Rejane, PE, traz a história da monocultura (ex: cana-de-açúcar), que é muito forte na região, o questionamento é o seguinte: "Como transcender esse parâmetro de desenvolvimento? Também temos de salientar os preconceitos regionais e a concentração de renda. E a pergunta seguinte é qual é o modelo de desenvolvimento viável?", diz.

Patrícia Cucio lembra que também há a prática de monocultura extensiva, em algumas regiões do estado de São Paulo. "E enfrentamos também preconceitos - quanto à própria regionalidade local - na maneira de falar, por exemplo, dos caipiras e caiçaras", afirma. As comunidades, segundo ela, também já se mobilizam contra grandes intervenções, como é o caso do projeto de construção da Usina Hidrelétrica de Tijuco Alto.

Segundo Germano Barros Ferreira, diretor do Serta (entidade localizada em Ibirimirim, no sertão do Moxotó, em PE, a 400 quilômetros de Recife), é preciso incluir a família em todo o processo de desenvolvimento. Também é necessário ver como é a participação da escola, se é regionalizada, incluindo tópicos, como animais, plantio e geografia regional. "E não pode ser esquecido o elemento da subjetividade - que congrega valores, crenças e religiosidade, que fazem parte do desenvolvimento local, que poucas vezes, a Ciência ocidental inclui", diz.

A profissionalização das associações é imperativa, de acordo com o gestor. "Precisamos pensar no apoio neste sentido, tendo como proposta a manutenção de Arranjos Produtivos Locais (APLs), como estrutura para geração de renda", afirma Ferreira.

Sucena Shkrada Resk |



21/04/2008 14:04
A riqueza de histórias de vida, por Sucena Shkrada Resk
Rejane vive em Bacia do Goitá, na zona da mata pernambucana. Micherlândia é uma mobilizadora comunitária de Olinda Nova, a 350 km de São Luís, MA. Em comum, essas duas jovens têm como bastidor, um Brasil de dezenas de sotaques e cores, com tons rurais e urbanos, em que cidadãos buscam a dignidade por meio da sobrevivência com a agricultura familiar. Ao mesmo tempo, se unem contra o trabalho escravo, uma chaga que invade os rincões, e é umas das marcas do processo de emigração no país. Seus exemplos e de outros brasileiros são um alerta aos formuladores de políticas públicas e gestores, que se acomodam na confinação de seus gabinetes e universo de protocolos, deixando de lado seu principal papel: ouvir, conhecer e representar a população.

Sem medo de recomeçar
Na zona rural pernambucana da Bacia de Goitá, estima-se que vivam cerca de 90 mil habitantes, em quatro municípios. Nessa região, a fonte de renda e sobrevivência de grande parte da população é rural. Uma dessas famílias é a do agricultor Luís, pai de Rejane, que com quase 80 anos, dá uma belo exemplo de cidadania, pois não teve medo de aprender a tornar sustentável seu principal ofício - o cultivo da terra. "Eu plantava cana e fazia queimadas. Era um modo errado de trabalhar", conta o camponês. O resultado eram safras fracas, que não davam para o sustento de 15 filhos. Assim, muitos deles partiram para São Paulo, para procurar melhorar de vida.

Segundo Rejane, o ciclo vicioso da pobreza foi quebrado com o apoio do terceiro setor, por meio de instituições locais e do Instituto Aliança. Assim a família aprendeu a fazer adubo orgânico e técnicas de desenvolvimento local. "Agora usamos esse adubo em nossas plantações, são produtos naturais, que conservam nossa saúde. Até paramos de necessitar do uso de medicamentos", fala seu pai.

Além do consumo para a subsistência, os produtos começaram a aumentar a renda familiar, ao serem vendidos em feiras orgânicas do Recife. E a maior satisfação, segundo o "sr. Luís", foi bem maior, já que possibilitou que seus filhos voltassem ao poucos de São Paulo.

As narrativas de "sr. Luís" e Rejane foram expostas em um vídeo-documentário da W.K. Kellogg Foundation, e revelam em poucos minutos, que quando a comunidade se mobiliza, pode ser responsável por grandes transformações. Mas isso só é um indício para um processo bem maior, que não pode eximir a responsabilidade do poder público e das empresas.

A quilômetros de distância de PE, outra história de vida enriquece a pauta pública, no MA. Uma das imagens que estão marcadas na memória da jovem maranhense
Micherlândia, de 19 anos, é o dia em que seu tio partiu para tentar a sorte em Mato Grosso, para conseguir alcançar seu sonho: comprar uma moto. "Lá , ele foi vítima do trabalho escravo e perdeu a vida, quando o caminhão em que o transportava com outros trabalhadores, caiu numa ribanceira. Ele foi o único que não sobreviveu...", conta ela. Seu relato compõe o CD "Um milhão de Histórias de Vida de Jovens - Maranhão" com mais 38 histórias de cidadãos anônimos, produzido pela ONG Formação.

A estudante, que integra o Fórum da Juventude do municipio e de mais 10 cidades vizinhas, constata que a história de seu tio se assemelha a de inúmeros conterrâneos de seu município e no entorno. "Por semana, saem de dois a três ônibus, com jovens e adultos, que vão em busca de trabalho, pela carência de oportunidades na cidade", contou no último domingo, dia 20, durante uma roda de conversa no 1º Festival Histórias em Movimento, realizado no Centro Cultural de Juventude, na Vila Nova Cachoeirinha em São Paulo. O evento reuniu jovens de vários estados e foi uma iniciativa da Aracati Agência de Mobilização Social, Projeto Um Milhão de Histórias de Vida de Jovens e do Museu da Pessoa, em parceria com com W.K. Kellogg Foundation.

Mas isso não é motivo de desânimo. Segundo Micherlândia, uma de suas bandeiras e de inúmeras pessoas e instituições no MA é a luta contra o trabalho escravo no Brasil, principalmente no estado, que tem grande incidência de casos. "Muitas pessoas têm o pedaço de chão aqui, e precisa conhecer mais a realidade e ir atrás de políticas públicas para a população", considera. Ao mesmo tempo, a jovem revela esperança, ao citar o caso de Richardson, que tem perspectivas positivas de permanecer em Olinda Nova, pois persistiu nos estudos e agora está iniciando um empreendimento - uma pequena pousada, por meio de uma incubadora de empresas.

Ao ouvir os dois relatos, a gente faz uma reflexão além de nossos repertórios tão automatizados pelo mundo moderno. Poucos minutos de suas narrativas são suficientes para nutrir um mosaico de mais histórias e leituras- de personagens anônimos, que compõem o Brasil. É um momento de quebra de fronteiras de regionalidade, e dos paradoxos entre pobreza e riqueza. Afinal, cidadãos simples, que não usam o artifício da arquitetura da retórica, conseguem ser tão eficazes em seus discursos, passando seu recado em poucas palavras. Percebemos, que pobreza é não conseguir transcender e crescer diante das adversidades. Ou resumir uma ação diante da falta de um prato de comida ou de quilômetros de distância aos serviços básicos, à cesta básica e a promessas de palanque. Pobre é aquele que considera o discurso político, sinônimo de sabedoria, ou que o avanço tecnológico anda em sentido contrário à humanização e inclusão. Na verdade, pobre somos nós, que nos enebriamos na sociedade de consumo e esquecemos conceitos básicos de companheirismo e solidariedade.

Sucena Shkrada Resk |



13/04/2008 21:44
Responsabilidade socioambiental só existe se a comunidade é ouvida, por Sucena Shkrada Resk
Discursos vazios que se repetem toda vez em que se fala sobre o universo da responsabilidade socioambiental não mais são aceitos pelo cidadão comum. Afinal os "chamados" pilares dos stakeholders querem assumir o protagonismo. Na análise de Daniela Reis, gerente de Comunicação da Vale (para a área de licenciamento ambiental), os exemplos se repetem cada vez mais em projetos nacionais e internacionais da empresa. É um processo que não tem volta. "Não dá mais para pensar que o público é somente a comunidade diretamente impactada. A pergunta que se faz hoje é - quem realmente é afetado? A resposta vem à reboque - toda a sociedade. Por isso, promover discussões pode antecipar até em 20 anos os riscos", diz a analista. Para isso, os mecanismos não precisam ser sofisticados e mirabolantes. Vale a velha e boa democracia, por meio de reuniões e audiências públicas.

Daniela afirma que as empresas não podem queimar etapas. É preciso esgotar os motivos que levam cidadãos a não querer determinado empreendimento. "Podem ser manifestações ideológicas, referentes à história da comunidade. Em Moçambique, por exemplo, uma comunidade não queria que uma árvore sagrada fosse tirada do local", conta. Já em outro projeto no Peru, a resistência era por causa da principal fonte de água de uma população. "Como existia uma preocupação com esse meio de subsistência, a empresa decidiu inserir na planta a dessalinização da água". De acordo com a gerente de comunicação da Vale, essas formas compensatórias, além das imposições das leis, são satisfatórias para ambos os lados.

No exercício de aproximação entre comunidade e empresa, a analista constata que até "o formato da linguagem, como um sotaque diferente" pode ser um fator de ruído. A experiência mostra que a "boa comunicação" não pode ficar restrita a departamentos. "Todo mundo, inclusive os engenheiros, têm de fazer esse contato fluir. O interlocutor tem de ser aceito pelos cidadãos. Caso contrário terá de ser trocado. Já tivemos essa experiência", conta.

Dentro da concepção de responsabilidade socioambiental, os embates e posições contrárias não podem ser vistas pela empresa como algo negativo, segundo Daniela. "Recentemente uma professora de Minas Gerais passou aos seus alunos do ensino fundamental informações sobre uma barragem que ia ser construída próximo à comunidade. Isso teve um efeito de multiplicação aos seus pais. Isso é sustentabilidade", afirma.

Todas essas iniciativas propiciam ajustes nas soluções e acordos, para que se evitem situações de litígios e até inviabilizações de empreendimentos. "A consciência sobre impactos (nessa leitura) vai além de empregos e impostos", constata a gerente de comunicação da Vale. A exposição foi feita pela analista, nesta semana, durante o debate Comunicação em Dois Tempos, promovido pela Fundamento Comunicação Empresarial, na Bovespa, em São Paulo.

Sucena Shkrada Resk |



10/04/2008 11:36
O Cerrado e a sustentabilidade
Crédito das fotos: Sucena Shkrada Resk - 03/2008


Imagens tiradas do Cerrado- da área e entorno do sítio Cachoeira do Rosário, a 35 km de Pirenópolis, GO




Sucena Shkrada Resk |



10/04/2008 11:28
Cerrado: Algumas imagens valem mais que mil palavras, por Sucena Shkrada Resk
Quem não se indagou em algum momento, se está sendo politicamente correto em pagar, para poder usufruir de belezas naturais? Com certeza, esse conflito cultural sobre os limites do direito público e privado, dá um nó em nossas cabeças constantemente. Mas ao fazermos uma imersão no tripé da sustentabilidade - que tem o viés econômico, humano e ambiental, algumas iniciativas, no mínimo, nos fazem refletir. E a sabedoria da máxima - uma boa imagem vale por mil palavras - , em alguns casos, tem pleno sentido. Neste artigo, o objeto de reflexão é um passeio ecoturístico a 35 km da cidade goiana de Pirenópolis, no meio do coração do Cerrado.

Lá, o empreendedor Demócrito Pereira montou um pacote, que agrega translado, visita à Cachoeira do Rosário, com 42 m de queda, caminhadas pela vegetação nativa de Cerrado, na área da várzea do Lobo (cujos guias são moradores locais), além de um almoço típico de fazenda. O turista não paga barato - aos padrões convencionais - dos chamados passeios de um dia, entretanto, a experiência local nos conduz a um case típico de uma tentativa de turismo sustentável, que segundo ele, só é rentável, no período de alta temporada. Algo que se repete em outros locais do Brasil.

Segundo Pereira, não é fácil financeiramente manter o empreendimento, sem agredir a natureza, e ao mesmo tempo, torná-lo sustentável, já que enfrenta as burocracias legais. Está quebrando a cabeça para impor a limitação de pessoas - a chamada capacidade de carga. A sua iniciativa e desafios se repetem com modelos diferenciados de planejamento e estrutura - em outros destinos no entorno. É interessante observar, que há muitas propriedades privadas, que integram hoje o roteiro turístico local, já que a única área pública oficializada, é o Parque do Pireneus, a 18 km de Pirenópolis, que é uma unidade de conservação com 2.833,23 ha.

Dentro das limitações, o que chama atenção ao se chegar à estrutura do receptivo da Cachoeira do Rosário, é a casa do turista. Construída com madeiras reaproveitadas, no sopé da área, apresenta um detalhe importante - não tem paredes. Por quê? Demócrito explica - "Para que o visitante veja um quadro vivo de cânions, montanhas e vegetação do Cerrado". E não é que o impacto visual é esse mesmo?...É uma imagem inesquecível...

O empreendedor goiano confessa que esse aprendizado veio com a experiência adotada por seu pai - o artesão moveleiro "Roque Pereira", que ganhou tradição pelo Brasil, com a fabricação dos móveis moldados em madeiras descartadas, que seguem o design criado pela própria natureza.

A preocupação com a preservação ecológica segue nos trajetos à Cachoeira e a outras caminhadas em meio à paisagem local. Somos guiados por moradores que nasceram na região - pessoas simples e com o repertório de conhecimento da terra, que não se aprende na academia. Batendo um papo com os jovens monitores, descobrimos que alguns deles viviam antes do trabalho braçal da retirada de pedras na região - que é uma questão muito polêmica socioambiental e, inclusive, do respeito à dignidade. Nessa nova empreitada, se sentem felizes em serem remunerados, para poder mostrar o habitat onde nasceram e cresceram.

E nessa atual oportunidade de empregabilidade, colocam ao turista, de uma forma coloquial, o quanto é importante a preservação ambiental, já que lidavam há pouco, com a dicotomia de retirar bens naturais, para a indústria e comércio de pedras. O impacto ambiental dessas intervenções é possível de ser visto no caminho das estradas de terra, que leva à região. O solo desgastado e o pretume deixado, no resto da extração, é uma cena desoladora.

Enfim, quem sabe, se este empreendedor, como tantos outros, tivessem uma assistência maior das autoridades oficiais e dos especialistas, não poderia tornar essa atividade econômica socioambiental mais profissionalizada, possibilitando que os trabalhadores tivessem acesso à continuidade da educação formal e aprendizado sobre as espécimes nativas (extra à sua sabedoria autodidata), que não pode - de forma alguma - ser descartada. Aí está uma riqueza insubstituível de brasilidade.
Assim gerando mais renda, qualidade de vida e, porque não, felicidade. Afinal, nada melhor do que poder ganhar o sustento respeitando o meio ambiente, sem ter necessidade de migrar, para tentar a sorte.

Sucena Shkrada Resk |



09/04/2008 15:25
Ciência e Cidadania
Crédito da foto: Sucena S. Resk
"Como cientistas e cidadãos estamos preocupados com a epidemia que atinge principalmente o Rio de Janeiro. Mas não podemos queimar etapas na pesquisa da vacina contra a dengue. Agora iniciaremos a fase de pesquisa clínica. O tempo da Ciência é mais prolongado, e temos de avaliar todos os aspectos de segurança à saúde, antes que seja distribuída em escala para a proteção da população. O importante a alertar é que, independente da vacina, a melhor prevenção é o combate contínuo aos criadouros do mosquito Aedes aegypti".

Dr. Otávio Azevedo Mercadante, diretor do Instituto Butantan
Sucena Shkrada Resk |



09/04/2008 14:47
Otávio Azevedo Mercadante, diretor do Butantan, fala sobre o papel cidadão da ciência

Apesar de estarmos na chamada sociedade do conhecimento, ainda existe um longo percurso para aproximar cada vez mais o cidadão comum do universo da Ciência. Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, o diretor do Instituto Butantan, Otávio Azevedo Mercadante, conta como a instituição centenária reconhecida pelo seu know-how em produções de vacinas e pesquisas busca, desde a época do pioneiro cientista Vital Brazil, estreitar este laço - por meio do contato mais próximo à comunidade. O pesquisador destaca ainda o empenho da unidade pública estadual paulista em uma das principais pesquisas em andamento hoje no Brasil: a vacina contra dengue, alertando que, tão importante quanto essa possibilidade de combate à doença, é a ação contínua de prevenção.

Por Sucena Shkrada Resk

Cidadãos do Mundo - Quais são as principais ações do Instituto Butantan hoje, no âmbito da inserção e cidadania?

Dr. Mercadante - O principal trabalho é junto às escolas, promovendo orientação em educação e saúde, a estudantes das redes pública e privada, desde a pré-escola ao ensino médio. Por ano, são atendidos aqui cerca de 80 mil alunos em visitas monitoradas, extra as visitações individuais. Desde a fundação do Butantan, com Vital Brazil, mantemos essa filosofia. Naquela época, o foco principal era a população que trabalhava no campo, e sofria com freqüência, acidentes com animais peçonhentos.

O que chama até hoje a atenção, principalmente das crianças, são as cobras, muito mais que as vacinas (rs..). E por meio dessa curiosidade, aproveitamos para promover a educação ambiental, destacando que os répteis (como outros animais), pertencem ao meio ambiente e precisam ser preservados, para a manutenção das espécies, das pesquisas em saúde, e para a sustentabilidade do ecossistema. Passamos assim informações sobre a importância da natureza e respeito ao meio social - como a importância de jogar o lixo no lixo, manter silêncio para ouvir as orientações, e não estressar os animais. Essas pequenas dicas de convivência também fazem parte do nosso papel como cientistas.Outro enfoque de nosso trabalho são as dicas de prevenção a acidentes e primeiros-socorros.

Com o passar dos anos, nós - como pesquisadores - também fomos mudando nossos paradigmas, tanto que readaptamos os espaços físicos do Butantan para alojar as cobras, reproduzindo o mais fielmente possível seus habitats naturais, com espécies compatíveis e com poucos exemplares em cada ambiente. Isso é uma forma de respeito aos animais.
Dentro deste conceito, também deixamos de realizar as demonstrações públicas de extração de veneno (das espécies peçonhentas), porque estressa muito o animal. Afinal, não há necessidade dessa exposição, já que a finalidade é a pesquisa sorológica. E para haver o melhor aproveitamento por parte dos estudantes, são formados grupos máximos com 20 pessoas, que têm uma imersão de cerca de 2h, no Instituto.

Estamos fechando convênio com a Secretaria de Estado da Educação, para atender um total de 160 estudantes semanalmente, além de nossa demanda, que vai integrar a partir de agora, uma atividade curricular da escola pública, que envolve visitas a outros museus na cidade de São Paulo.

Tudo isso é gratificante. Toda vez que recebemos uma pessoa aqui, não é difícil ouvir - "quando eu era criança...eu vim aqui no Butantan". E hoje, essas pessoas também trazem seus filhos, netos ou alunos. A população - principalmente paulistana - tem essa experiência, que integra nossa história. Até se perguntarmos aos biólogos ou zoólogos, entre outros profissionais, que trabalham conosco, fazem alguma referência semelhante. Isso tudo nos impulsiona a qualificar cada vez mais o nosso ambiente, para atender aos visitantes.

Cidadãos do Mundo - Dr. Mercadante, em sua opinião, quais são os principais desafios da Ciência para se aproximar cada vez mais da sociedade?

Dr. Mercadante - Um ponto importante é questionar o mito do conhecimento mágico atribuído aos cientistas, que acabou acarretando esse distanciamento. Por isso, é essencial incentivar as vocações a partir da infância e juventude. Aqui no Butantan, realizamos anualmente, uma Semana da Ciência e Tecnologia, quando é organizada uma série de atividades para colocar o pesquisador em contato direto com os alunos do ensino médio. Neste momento, os profissionais mostram para que servem as aparelhagens de pesquisa, o que estão pesquisando etc. Ainda mantemos visitas agendadas ao Museu de Microbiologia, que aproxima o cidadão comum do universo científico.

Mais um aspecto que pode causar o distanciamento é a desvalorização do pesquisador, que ainda existe no país, por uma questão cultural e, até, salarial. E a ciência precisa estar mais atrelada à tecnologia e inovação. Desde os bancos das salas das universidades, o futuro cientista tem de se questionar sobre o que representa esse caminho para ele, e saber da responsabilidade social, que existe em seu papel.

Por todas essas questões, muitas vezes, a sociedade questiona por que tanto do orçamento dos Estados vai para as universidades públicas. E para que é necessário o avanço do conhecimento. Muitas pessoas não conseguem relacionar o papel do cientista com a melhoria da qualidade de vida, das condições de moradia, do ar, do transporte e no combate às doenças...

Dessa forma, a sociedade começa a cobrar mais respostas. E ao mesmo tempo, as novas gerações de cientistas também começam a se questionar sobre a importância do novo paradigma da ciência. E isso é muito positivo.

Cidadãos do Mundo - As pesquisas sobre vacinas e novos medicamentos geralmente levam anos até que os resultados possam ser usufruídos pela sociedade. Como é o caso da pesquisa da vacina contra a dengue, que está sendo realizada no Butantan. Gostaria que o senhor falasse sobre o andamento deste projeto e sobre a epidemia que hoje é um problema grave de saúde pública no país, em especial no Rio de Janeiro.

Dr. Mercadante - O essencial é que haja o controle sobre a proliferação da fêmea do mosquito Aedes aegypti, que é a transmissora da doença. Na minha avaliação, perdemos a batalha hoje, por questões ambientais e de prevenção. Durante décadas, no Brasil, criou-se uma expectativa de erradicação da doença, algo não realista, sem haver um controle maior sobre o vetor. E em 2002, houve uma grande número de casos. Diante dessas situações, o controle tem de ser imediato e contínuo.

Por parte dos cidadãos, o ideal é que o controle dos focos sejam feitos semanalmente em suas casas, e ao poder público cabe a orientação, fiscalização e ações mais efetivas para diagnóstico e tratamento de sintomas. O que a gente percebe é que o sistema de saúde e muitos profissionais não estavam preparados, principalmente no RJ.

É importante se ter em mente que um caso pode se transformar em 40 em um curto espaço de tempo. O mais grave hoje é o fato de muitos casos serem com crianças (mais sensíveis) e de dengue hemorrágica. Houve uma falha na assistência. No aspecto científico, a tendência é que se diminuam os casos, num prazo de dois meses, por causa das condições climáticas, com a chegada do inverno, quando há menos incidência de chuvas. Também muitas pessoas podem ser picadas pelo mosquito infectado, mas não contrair a doença.

A principal mensagem que posso passar é que ninguém pode se acomodar. A vacina que estamos pesquisando é contra os quatro tipos de dengue hoje conhecidos. Ela é um elemento a mais aos hábitos de prevenção, que devem ser permanentes, contra os criadouros do mosquito. A estimativa é que as pesquisas estejam concluídas em cinco anos.
Sucena Shkrada Resk |



07/04/2008 10:16
Pirenópolis: sob um olhar de fora, por Sucena Shkrada Resk







Crédito das fotos: Sucena S.Resk


De Ouro Preto, MG, diretamente para Pirenópolis, GO. Esse é o trajeto escolhido pelo artista plástico Mirim Santos, 33 anos, que já é uma personagem conhecida na cidade histórica goiana. Em frente à Igreja do Carmo, ele pinta aquarelas que retratam a paisagem com seus detalhes arquitetônicos e naturais das cercanias, envolta pelo Cerrado. Autodidata, ele conta que essa relação mais próxima começou, quando foi executar um trabalho de restauro, em 1997, na mesma igreja. "Depois deste primeiro contato, quis ficar aqui, porque me sinto muito bem", afirma.

Mas o mineiro, que vestiu a roupagem goiana, sem perder as raízes (quem conhece Ouro Preto compreende essa afirmação...) não se limita às pinceladas e matizes de suas obras. "Desenvolvo voluntariamente com crianças carentes, aulas de capoeira. Esse é um outro lado da situação socioeconômica da cidade, que enxergo, e tento colaborar", diz. Santos faz uma leitura sobre essa dicotomia entre a beleza e a realidade. "Deveria haver um olhar mais atento por parte dos gestores e, inclusive, turistas, para essas questões", analisa.

O artista ainda se desdobra em mais uma faceta nas noites de Pirenópolis, e toca percussão. Segundo ele, todas essas atividades o completam. E para iniciar mais um dia - revela qual é o seu segredo - "Medito às 4h da manhã", diz.

Bem, não é difícil entender o porquê de tanta inspiração. Basta abrir a janela e ver o verde que desponta no alto das chapadas e nas planícies, sob o céu de brigadeiro - que é comum no Cerrado - e ver aquelas construções centenárias - em sua maioria, bem preservadas - que dão uma sensação, que mistura satisfação e paz.
Sucena Shkrada Resk |



06/04/2008 20:48
Pirenópolis (GO) - A tradição das máscaras pulsa na Festa do Divino, por Sucena Shkrada Resk
Texto:Legenda: A arte da confecção das máscaras é tradição da Festa do Divino, em Pirenópolis, GO (obra de Maria de Lourdes Oliveira Leite)


crédito das fotos: Sucena S. Resk

Papel e grude (polvilho e água) mais uma boa dose de criatividade na escolha das cores e expressões. Aí estão os ingredientes que a artesã Maria de Lourdes Oliveira Leite, de Pirenópolis (GO), usa e abusa para criar seus personagens estilizados no formato de bois, rostos e onças, destinados a compor os adereços da Festa do Divino, realizada no município, há 189 anos. A tradição portuguesa é comemorada entre maio e junho, 50 dias depois da Páscoa, e tem outros elementos folclóricos agregados, como as Cavalhadas (remete a um embate entre mouros e cristãos a cavalo), que já surtiu frutos - com a "Cavalhadinha". A versão infantil é realizada dez dias após o evento, que reúne os adultos, e perpetua a manifestação folclórica no município e redondezas.

Como na produção de peças de cerâmica, os moldes das máscaras vão ao forno, só que a uma temperatura média de 150º, para que possam ser pintadas, o que resultará no acabamento. É a união do prazer da arte com a geração de emprego, não só a Maria de Lourdes, como a outros artesãos anônimos do município.

"No meu caso, o trabalho é uma fonte de renda adicional importante ao meu comércio e já ganha reconhecimento fora do país, como EUA, Itália e Alemanha. A gente fica contente, porque os turistas estrangeiros também valorizam nossa cultura", diz.

"Eu aprendi a fazer os bonecos com uma artesã daqui mesmo, quando tinha sete anos, e não parei mais. Apesar de usar moldes, nenhuma peça sai igual a outra, porque tiro uma foto antes, para fazer algo novo na próxima", conta. Segundo Maria de Lourdes, aí está a riqueza da arte, que já está sofrendo os impactos do mercado global.

"Iniciamos uma campanha contra as máscaras de borracha, que começaram a tirar o sentido da tradição, nos últimos tempos ", diz.

Sucena Shkrada Resk |



06/04/2008 19:03
Pirenópolis (GO) - um olhar sobre a preservação, por Sucena Shkrada Resk

Legenda: Moradora de Pirenópolis tem suas raízes fincadas no município goiano.

Legenda: Município em dias de feriado lota e é um contraste à tranquilidade na baixa temporada

Crédito das fotos: Sucena S. Resk_03/2008

Uma história de cumplicidade...
Já se contabilizam algumas décadas...E a cena se repete rotineiramente pelas primeiras horas da manhã, na cidade histórica de Pirenópolis, GO. "Dona Clarice" conserva a vitalidade da juventude, no apogeu de seus 85 anos, ao sentar-se sobre a calçada de pedras de quartzito, próximo à sua casa centenária, e iniciar um dedinho de prosa com os vizinhos. A cena chama a atenção - pela simplicidade da atmosfera interioriana. É inevitável não retribuir "um bom dia" e, de repente, puxar papo, para degustar histórias, que contam um pouco da tradição local.

"O dia dos velhos é comprido, por isso, todo dia, mais ou menos às 7h da manhã, venho para cá, e assim o tempo vai passando e sou feliz", diz a tradicional moradora, que tem suas raízes fincadas no município goiano. "Meus avós nasceram aqui. Naquela época tinha muitos coronéis e fazendas, e tudo se fazia à cavalo...", relembra.

Ao recobrar suas memórias de infância, "dona Clarice", afirma orgulhosa, que Pirenópolis também foi arrojada na história do Estado. "Um dos primeiros jornais de Goiás nasceu aqui. Foi a Gazeta (Matutina Meyapontense)', conta.

A bisavó goiana construiu no município, uma longa história de vida com o seu falecido marido, criando 4 filhos com muito esforço. E, hoje, ela se diz realizada, por poder presenciar a perpetuação de sua família, que já conta com 8 netos e quatro bisnetos.

Viúva há 20 anos, ela garante que não nunca pensou em mudar de lá, em todos esses anos. "Só nesta casa, moro há 50 anos. Gosto daqui e da minhas coisas, e tento deixar tudo arrumado. O Patrimônio Histórico exige que seja assim, com janelas e portas de madeira e quadro de força escondido. Eu concordo. A minha casa tem mais ou menos 200 anos", fala.

A consciência sobre a importância da preservação é algo latente no discurso da tradicional moradora, que chegou a ser "enfermeira prática", na cidade de Anápolis, professora rural em Pirenópolis, e por mais de 50 anos, costureira - ofício do qual confessa mais se orgulhar. "Já fiz muita roupa de casamento e de mortalha...", fala.

E nesse vaivém da memória, o saudosimo bate. "As coisas estão mudando com o tempo. Tem tanta gente que veio morar na cidade, que nem conheço. O crescimento trouxe bons e maus benefícios. É importante a chegada de pousadas e restaurantes, mas o barulho é demais à noite, e ao mesmo tempo, começou a ter assaltos", afirma a moradora.

Segundo ela, com isso, hoje já não dá mais para ficar com a porta de casa aberta, como era possível há décadas passadas. "Temos guardas na rua, e há tempos atrás nem sonhávamos com essas mudanças. O progresso melhora num ponto e piora no outro", analisa a moradora.

O delicado convívio entre o antigo e moderno

"Dona Clarice" vive no centro histórico de Pirenópolis, que é formado por construções preservadas dos idos dos séculos XVIII e XIX - e conserva detalhes arquitetônicos e históricos, que resultaram em 1989, em seu tombamento, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Encravada sob a Serra dos Pireneus e distante apenas 120 quilômetros de Goiânia e a 150 km de Brasília, o munícipio goiano faz com que se viaje no tempo, quando ainda era o vilarejo de Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. Esse perfil só é quebrado com a leva de turistas aos feriados e finais de semana, que lotam a cidadezinha à procura de história, diversão, gastronomia típica - com os famosos empadões goianos e arroz com pequi - e o turismo ecológico, já que fica em uma área rica em biodiversidade do Cerrado. Nessa hora, a constatação da antiga moradora se materializa, sendo um bom indicador para se repensar o planejamento de um turismo com bases mais sustentáveis.

Sucena Shkrada Resk |



01/04/2008 13:47
Parte 4 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena S. Resk
Reflexões ambientais no século XXI

O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame - autor do projeto substitutivo para a adoção do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, define o documentário “Uma Verdade Inconveniente”, do ex-vice-presidente norte-americano, Al Gore, e o relatório de Nicholas Stern, ex-chefe do Banco Mundial (Bird) e atual assessor do primeiro-ministro da Inglaterra, como alertas para que a comunidade mundial “aja” e saia do comodismo. “Stern sugere o investimento de 1% do PIB mundial na redução dos gases do efeito estufa, para evitar de 5 a 20% de emissão nos próximos 20 anos”, explica.

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), coordenado pela Organização das Nações Unidas (ONU), que reúne 2,5 mil cientistas, concluiu que o Aquecimento Global decorre de ações antrópicas (humanas). Thame questiona a atribuição da prevalência do homem como principal causador. “A questão não é ser antrópico ou não, mas agir com medidas efetivas de precaução”, afirma.

Os cenários previstos pelos pesquisadores vão desde o mais pessimista ao mais otimista, dependendo das ações de mitigação. “Para que a temperatura suba menos de dois graus, precisa haver até 2020, a redução em 25% da produção dos gases de efeito estufa, com base em 1990. Os impactos previstos nos oceanos, se a temperatura aumentar em 1,8º C, é de 30 a 60 cm, nos próximos 100 anos. “Mas nesses 18 anos já aumentaram muito as emissões”, rebate o autor do projeto substitutivo que preconiza as diretrizes do Plano Nacional de Mudanças Climáticas.

A ameaça da desertificação no Brasil, principalmente na região do Vale do Jequitinhonha, e em contrapartida, a presença de grandes inundações no país, é mais uma das prospecções ameaçadoras.

“Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por exemplo, prevê que se a elevação do mar for de 6m (como destacado por Al Gore), pode cobrir toda a região do Corcovado, Leblon, Ipanema, no Rio de Janeiro”, diz Thame, referindo-se a uma matéria veiculada na Revista Veja, em 2005. Outros pontos do território nacional, como a Ilha do Marajó, Santos e Atafona, este último, no RJ, também poderiam ser afetados.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) também estudam os efeitos de perda na área agrícola, segundo Thame. “Se subir a temperatura em 1ºC, a perda de produção de café pode ser na ordem de 23% e da soja 10%, entre outras”. E se a visão pessimista de cerca de 2º de aumento ocorrer, o processo de fotossíntese será prejudicado. “A Amazônia, dessa forma, virará cerrado ou savana”.

* O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame realizou a palestra sobre Aquecimento Global, na última segunda-feira (31 de março), na secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP)

Sucena Shkrada Resk |



01/04/2008 13:43
Parte 3 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena S. Resk

Uma longa história de negligência ambiental


Desde a década de 70, se fala do problema do desmatamento das florestas, da erosão dos solos agricultáveis, da agricultura predatória, da diminuição da produção pesqueira (maior fonte protéica da população costeira) e da escassez de água. “Só não se discutia a agroenergia – que é uma pauta mais recente”, afirma o deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame.

Segundo o advogado e também engenheiro agrônomo, com o advento da Eco 92, houve a canalização de esforços no sentido de se fazer um mapeamento da situação “real” do planeta, praticamente dois séculos pós Revolução Industrial, e se começou a estudar sistematicamente o efeito estufa. “A espessura da atmosfera é de 100 km, mas 75% dos gases se concentram em menos de 12 km da superfície da Terra. Com isso, existe um efeito estufa positivo e negativo, quando os raios solares penetram nessa camada e voltam à atmosfera”, explica o especialista.

O lado negativo é provocado pelas emissões excedentes de CO2, decorrentes principalmente da queima de combustíveis fósseis; da produção de gás metano, da queima de material orgânico e do óxido nitroso dos sprays, entre outros. “Esse material forma uma camada que impede que os raios retornem à atmosfera, provocando o aquecimento. O resultado é que a temperatura média da Terra, que era de 14º C passou para 15º C”, diz Thame.

O que toda comunidade científica já constatou é que a diminuição crescente do fluxo normal desses gases pode ser desastrosa para a manutenção da vida. “Se não fosse esse fluxo, a Terra poderia ser como Marte, que não tem CO2 e mantém uma temperatura média de menos 50º C ou igual a Vênus, com cerca de 420º C”, compara. Enfim, é uma incógnita para onde caminha o futuro do planeta.

Mas nada aconteceu de um dia para o outro, como afirma Thame. “A produção desses gases começou a crescer após a primeira fase da Revolução Industrial, em 1760, com o advento da máquina a vapor. Surgiram as marias-fumaças, que precisavam de carvão e madeira – principalmente na Inglaterra e Austrália”, explica.

Na segunda fase, em 1850, o motor à combustão interna, introduz os combustíveis à petróleo e diesel. “Surge a eletricidade, que precisa de gás, carvão, madeira e petróleo. Com isso, a produção de CO2, que era de 280 partes por milhão na primeira fase, passa para 310 partes por milhão. E no século XX, depois dos anos 60 até o ano 2000, com a curva ascendente de intensa industrialização, essa proporção subiu em 17%”, alerta.

Efeitos em cascata
Nesse ciclo histórico, o que a comunidade de pesquisadores já avaliou, é que a temperatura média da Terra aumentou 0,6 º C nos últimos 100 anos e, especificamente nos pólos, a quase 2º C. “A conseqüência é o derretimento das geleiras, como na Patagônia, no Glacial Pasterze, nos Alpes, e no Monte Kilimanjaro”, exemplifica Thame. Ao mesmo tempo, outras regiões sofrem o processo de desertificação, como a Tanzânia e a África.

“Na minha opinião, é uma das piores situações. E as regiões semi-áridas dos países tropicais – como o Brasil – tendem a ficar áridas. Cada vez mais as pessoas têm de andar quilômetros. A humanidade não pode ficar indiferente a isso”, alerta.

O autor do projeto substitutivo da Política Nacional de Mudanças Climáticas lembra que em 2005, houve o reflexo da seca no rio Amazonas, depois de 100 anos. “Foi algo inesperado. Tudo isso se deve a essa variação de 0,6 º C”, considera.

O planeta começou a conviver com um número maior de ciclones e furacões, que passaram das categoria 1 e 2, para 3 e 4. “Em 2004, por exemplo, houve o fenômeno do furação Catarina”, diz o parlamentar. As mudanças também afetam os ecossistemas. “Ocorreu o desaparecimento de corais, o aparecimento de fungos resistentes e, inclusive, redução das abelhas, que já afetam a produtividade agrícola”. E o ser humano começou a padecer de doenças, que pareciam extintas. “Os vetores passaram a ter condição de multiplicação, com o aumento da temperatura”, explica.

* O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame realizou a palestra sobre Aquecimento Global, na última segunda-feira (31 de março), na secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP)
Sucena Shkrada Resk |



01/04/2008 13:40
Parte 2 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena S.Resk
Mecanismos de indução

Hoje a grande indagação em todos os cantos do planeta é como induzir as ações para reverter o processo do aquecimento global. De acordo com o parlamentar Antônio Carlos Mendes Thame - autor do projeto substitutivo para a implementação das diretrizes do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, isso acontece, por meio de legislação eficiente, investimentos em infra-estrutura e fiscalização, e com a conscientização da sociedade.

“As leis têm tanto o aspecto estático e dinâmico. Esse último induz o comportamento do cidadão, que faz ou deixa de fazer algo que a sociedade considere deletério. Nós somos condenados em função dos princípios, mas o comportamento é conseqüência também de nossos valores”, avalia Thame.

Segundo o autor do projeto substitutivo sobre as diretrizes da Política Nacional de Mudança Climática, essa mudança pode ser traduzida de diferentes formas, tendo como base a mudança dos padrões de consumo estabelecidos pelo mote da publicidade. “A consciência ambiental não influencia somente o indivíduo. Esse, por sua vez, começa a cobrar que as empresas sejam ecológicas e a exigir mais ações do governo. A sustentabilidade é esse valor agregado, que une meio ambiente, trabalho e marketing, entre outras áreas”.

Mas na análise do parlamentar, a soma de todas essas ações ainda são insuficientes para remediar os efeitos destrutivos do aquecimento global. “Como diz o ex-chefe do Banco Mundial (Bird), Nicholas Stern, essa situação é resultado de uma falha de mercado, em que não se pensou nos efeitos colaterais, mas somente se levou em conta a produção e os insumos nesses últimos 240 anos”, afirma.

A mitigação, segundo Thame, só poderá ocorrer por meio de medidas mandatórias – legais – e administrativas. “Isso quer dizer ações como, incluir a desoneração na taxa de carbono, quando houver remediações positivas e investir principalmente em pesquisa. É preciso ficar claro, que um país sozinho não consegue reverter um problema global”.

* O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame realizou a palestra sobre Aquecimento Global, na última segunda-feira (31 de março), na secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP)
Sucena Shkrada Resk |



01/04/2008 13:32
Parte 1 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena S.Resk

Nunca se falou tanto em mudanças climáticas, como hoje. Entretanto, desde 1972, com a instituição da Declaração de Estocolmo, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) – que é considerada um dos princípios do Direito Ambiental -, esse tema tem sido discutido mundialmente com mais regularidade. “Agora, 35 anos depois, o que melhorou? – quase nada. Hoje enfrentamos dois graves problemas ambientais – a escassez de água generalizada no planeta e o aquecimento global”, diz o advogado e engenheiro agrônomo Antônio Carlos Mendes Thame, deputado federal responsável pelo projeto substitutivo sobre as diretrizes da Política Nacional de Mudanças Climáticas, que tramita no Congresso Nacional, desde 2007*.

O efeito mais grave dessas conseqüências anunciadas é o de caráter humanitário, que ele define como o risco dos “refugiados ambientais”. “Cerca de 200 mi pessoas das áreas costeiras serão vítimas das inundações, e de 30 a 200 mi correm o risco da fome, se o cenário mais pessimista ocorrer, do aumento de 2 a 3º sobre a temperatura dos anos 90”, afirma.

A conseqüência reversa dessa situação catastrófica só pode ocorrer sob o tripé da vontade política, que envolva executivo, legislativo e sociedade, segundo Thame. “Precisamos reduzir em 50% os gases do Efeito Estufa”. Para isso, tanto as nações industrializadas e desenvolvidas – que são as maiores emissoras – e os países em desenvolvimento, sem exceção – têm de diminuir o uso de combustíveis fósseis e a devastação das florestas e, ao mesmo tempo, promover a maior eficiência energética e aumentar a utilização de combustíveis renováveis.

Nesse hall dos países mais poluidores do planeta estão EUA, União Européia, Rússia, Japão, Canadá e Austrália ao lado da China, Brasil, Índia, Indonésia, México e África do Sul.

Segundo Thame, o Brasil, nesse contexto, tem a obrigação de desenvolver as tecnologias limpas. “Não precisa crescer como a China. O país tem uma matriz energética limpa, com as hidrelétricas e o biocombustível. No meio deste ano, o consumo do Etanol deverá superar o gasolina”, diz o especialista.

Por outro lado, ele afirma que não pode ser esquecido o grande passivo ambiental brasileiro – com a devastação das florestas. “Destruímos 18% da Amazônia e 4% já viraram deserto. Existe uma posição acomodada. É preciso a pressão popular sobre os dirigentes e a implementação da reforma tributária, para que seja viabilizado o investimento em energia renovável”, defende.

* O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame realizou a palestra sobre Aquecimento Global, na última segunda-feira (31 de março), na secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP)
Sucena Shkrada Resk |



01/04/2008 00:03
Rodada Financiamento Sustentável



Crédito da foto: Sucena S. Resk




Frases:

"Não podemos nos iludir. Os conceitos ainda são marginais de que a sustentabilidade entrou na indústria financeira. O que tem de variar são as ferramentas. É preciso aproveitar, por exemplo, as tecnologias sociais, em parcerias com Organizações não governamentais (ONGs) para promover soluções inovadoras... E se fosse aplicado meio por cento do dinheiro dos fundos de pensão, por exemplo, dobrariam os investimentos socialmente responsáveis".

Mario Monzoni, coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV)


Sucena Shkrada Resk |



31/03/2008 13:29
O financiamento sustentável além do discurso, por Sucena Shkrada Resk
O compromisso das instituições financeiras na área socioambiental é um máxima de mercado, que não tem como voltar atrás. Esse foi o eixo central da rodada Finanças Sustentáveis do evento Sustentabilidade em Pauta Internacional, promovido pelo Instituto Cultural Itaú e parceiros, em São Paulo, no último dia 28 de março.

A diretora da instituição internacional SustainAbility, Jodie Thorpe, constata que as empresas estão sendo "muito lentas" para agir e reagir na área de sustentabilidade. "Tantas ações poderiam ter evitado tragédias humanas e prejuízos econômicos, como na África", afirma. Segundo a consultora, hoje os investidores internacionais buscam mudanças a longo prazo, que envolvam ações de empresas emergentes sobre os desafios climáticos.

"O United Financial da Organização das Nações Unidas (ONU), que trata de alguns indicadores de responsabilidade e governança socioambiental corporativa são importantes. No setor energético, por exemplo, avanços em questões ambientais e governamentais podem tornar as empresas mais lucrativas e de interesse de investimento futuro", diz.

Segundo Jodie, atualmente são aplicados US$ 13 tri para aumentar a qualidade de análise em investimentos sociais e para agregar valor às empresas. "No setor financeiro, os bancos também estão mudando os conceitos. No passado, viam suas responsabilidades sociais somente voltadas ao papel reciclável e à redução de gastos de energia. Atualmente avaliam que a agenda é muito mais que isso - é a responsabilidade no empréstimo", afirma.

A consultora internacional cita como exemplos a iniciativa da Morgan Stanley, ao estabelecer o critério do risco de carbono em investimentos em usinas elétricas e da adoção de um novo índice de empresas com contribuição às mudanças climáticas, pelo HSBC.

Cidadãos não querem saber de discurso de marketing
Essas transformações se devem em grande parte à cobrança da própria sociedade. Paulo Itacarambi, diretor-executivo do Instituto Ethos, diz que essa avaliação pode ser constatada nos resultados da publicação recente da 6ª edição da Pesquisa do Intituto Akatu em parceria com o Ethos - Responsabilidade Social das Empresas - Percepção do Consumidor Brasileiro. "Continua alta a expectativa das pessoas quanto ao impacto dos processos operacionais. Os cidadãos cobram a eliminação de impactos negativos e uma participação efetiva na agenda pública do bem comum", diz.

As questões levantadas, segundo ele, são o desequilíbrio social, apesar do crescimento da Economia e os valores de coesão da sociedade. "Os valores de coesão da sociedade, como integridade, respeito, honestidade estão sendo perdidos. E as pessoas têm a expectativa de que as empresas contribuam contra esse processo. Ao mesmo tempo está caindo o nível de crédito da sociedade de que as empresas vão agir", resume Itacarambi.

De acordo com o diretor do Instituto Ethos, em 2000, 39% dos entrevistados buscavam premiar as empresas. "Agora, esse percentual foi reduzido a 24%. Também caiu o número de pessoas que pensam em punir, de 35% para 27%. Está diminuindo a boa vontade da sociedade para com as empresas. O questionamento é que as divulgações são marketing puro", afirma.

Diante dessas cobranças, Itacarambi questiona os discursos socialmente responsáveis. "Muitas empresas dizem que são 60 anos socialmente responsáveis, mas a mensagem implícita é de que não vai mudar nada", diz.

No campo da administração pública, cresceu o número de pessoas, de acordo com a pesquisa, que querem que o governo regule a responsabilidade social empresarial (64%). "As pessoas acham que têm pouca possibilidade de interferir. Estamos diante de uma ameaça. No início dos anos 90, a discussão do comportamento das empresas estava na política e elas eram consideradas a fonte do mal. Veio a responsabilidade social e hoje, levam "pedrada", sem receio. Mas o perigo é se direcionar às mudanças só ao campo da política, daí fica difícil fazer as mudanças reais", considera.

Itacarambi defende que haja a reversão do fluxo de capital. "Temos de mudar o critério do financiamento das construções. Se olharmos a edificação em todo o período de vida útil (consumo de água, energia etc), os critérios serão diferentes. O mesmo princípio vale para os outros setores da economia. O mote é fazer uma atividade com retorno positivo para todos", finaliza.

O alerta do diretor-executivo do Instituto Ethos é que Os Princípios do Equador, elaborado em 2003, como um parâmetro para o setor das instituições financeiras sobre determinação, avaliação e gerenciamento de risco ambiental e social em financiamento de projetos, ainda é limitado.

O vice-presidente do Itaú, Roberto Matias, constata que há necessidade de haver atitudes mais pró-ativas no setor. "A sociedade não quer só discurso. Quem não faz seu papel deve ter algum tipo de punição. A política não deve tutelar a sociedade com relação às finanças sustentáveis", diz.

Segundo o executivo, os bancos não vão perder o atributo de fomento de investimentos, se agir dentro do equilíbrio ecológico e da responsabilidade social. "Os próprios bancos são emissores indiretos do gás de efeito estufa, com as suas inúmeras frotas de carros, viagens. Não se concebe a idéia de uma corporação eco-eficiente, sem ações básicas desde o consumo de água ao material de escritório", afirma. E sua responsabilidade vai mais adiante, ao liberar financiamentos a atividades ilegais. "Ao financiar empresas, por exemplo, que contribuem com o assassinato do rio Tietê, estamos sendo co-responsáveis".

O desgaste imposto por essa co-responsabilidade tem efeitos devastadores, de acordo com Matias. "Na área de construção, por exemplo, acho que não há quem se importe em pagar 10% a a mais para ter um imóvel melhor, do ponto de vista de sustentabilidade', diz.

Mas o caminho das mudanças é longo, na opinião de Matias. "O Itaú Cultural existe há 20 anos e não pertence mais aos acionistas e às empresas, é da sociedade. Rompeu a idéia de filantropia pura e simples e partiu para o protagonismo. Com isso, surgiu em 2003, o Fundo Itaú Social. Temos a preocupação com campanhas de consciência de crédito, de orientação contra fraudes nas transações pela Internet etc. "Esse é um pequeno pedaço da responsabilidade do serviço de crédito. Agora, em 2008, criamos o Fundo Itaú de Excelência Social, em que 50% do lucro vai para projetos de educação e, no ano passado, o Fundo Itaú Eco-Mudança, que repassa 30% da taxa administrativa a projetos", resume.

E a pressão da sociedade é um grande termômetro, de acordo com o vice-presidente do Itaú. "Por isso, estamos lançando agora um prêmio de Finanças Responsáveis, incentivando matérias jornalísticas e projetos acadêmicos nesta área", afirma.

O papel da mídia na sustentabilidade

O diretor de conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, observa que é complexa a relação da sociedade brasileira com o processo do lucro e progresso ascendente dos negócios. "Não é de todo absurdo, dada as mazelas e dificuldades sociais no país".

De acordo com o jornalista, já se pode verificar efeitos positivos dessa mobilização, como no caso de leis municipais em São Paulo - Cidade Limpa e Psiu Ante Ruído nos Bairros. "Quem faz a lei pegar são os cidadãos, e a imprensa serve como trombone e tribunal da sociedade, e acaba fazendo parte da cadeia de marketing também. Mas o seu papel é contar tanto histórias boas, como más. E do ponto de vista interno, a empresa de mídia deixará de ser sustentável, se a crença do todo não respeitar as partes ou se obrigar o repórter a não escrever o que ouve", afirma.
Sucena Shkrada Resk |



30/03/2008 22:53
Parte7-A aclamada interoperabilidade, por Sucena S. Resk

Interoperabilidade é um termo que vem ganhando projeção no universo da Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Segundo o professor Phillipe Navaux, do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o conceito é simples: significa a habilidade do sistema ou produto em trabalhar com outros sistemas e produtos. Por isso, transmite, em tese, a idéia de cidadania sem fronteiras no mundo globalizado, composto pelo critério da síntese, da funcionalidade, da execução e dos protocolos e regras de ambiente.

A Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Educação e a Cultura (Unesco), no documento Rumo a Uma Sociedade do Conhecimento, já preconiza a interoperabilidade, que representa o acesso livre a documentos digitalizados, redes de gerenciamento coletivos e a geração de plataformas sustentáveis. "É importante destacar que a base do conhecimento da sociedade global dobra a cada três anos. São 7 mil trabalhos científicos produzidos por dia no mundo. Estudantes de escolas secundárias em países industrializados são expostos a informações mais que seus avós em todas suas vidas", destaca Navaux. De acordo com o especialista, nas próximas três décadas haverá mais conhecimentos disseminados do que nos últimos três séculos.

A atual plataforma de comunicação prevê conteúdo e serviços, inclusão digital e cidadania, TI como chave de desenvolvimento industrial e interação. Como exemplo dessa iniciativa no Brasil, cita o governo eletrônico, entre outros.

Mas atingir a pluralidade depende estritamente da definição de protocolos individuais e de corporações. "Se o protocolo é muito restritivo e imperialista passa a ter risco de exigir uniformização que elimina a interação", explica o professor do Departamento da Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (USP), Flávio Soares Corrêa. O especialista em inteligência artificial é a favor da co-existência de protocolos para atender a nichos específicos. "Hoje verificamos, que neste sentido, o governo eletrônico se beneficiia. Do ponto de vista internacional, é positivo para o comércio e questões diplomáticas. Já internamente, cria a possibilidade de transparência", diz.

Nesse universo da globosfera, ganha força o projeto da certificação digital, como afirma o gerente de Certificação do Serasa, Igor Rocha. "O objetivo é de que os documentos eletrônicos digitalizados tenham a mesma validade jurídica dos assinados em papel, desmaterializando os processo", explica.

Rocha recorda que o governo brasileiro iniciou em 1998 o trabalho na infra-estrutura das chamadas chaves públicas. "Em 2001, nasceu o ICP-Brasil, em co-existência com a iniciativa privada. O benefício proposto ao usuário é que esse certificado se baseia em padrões internacionais da ONU. O processo do mensalão, por exemplo, foi digitalizado. Tanto ministros, como advogados tiveram acesso simultâneo aos documentos", conta.

"Mas a interoperabilidade sofre entraves jurídicos", afirma Marcelo Zuffo Filho, engenheiro de Sistemas Eletrônicos da Poli/USP. De acordo com o acadêmico, historicamente o Brasil ainda não superou a onda da Revolução Industrial. "Há ausência de brasileiros nos fóruns internacionais. Como exemplo, temos a discussão da implementação da TV Digital. O Banco Mundial também tem um estudo, que menciona que a engenharia brasileira é "world class", mas há timidez e constrangimento dos profissionais em participar desses fóruns", diz. Essa ausência, de acordo com Filho, acaba resultando na aceitação de royalties implícitos.

Agora, a discussão é sobre a adoção oficial do padrão ODF no Brasil x XML. "O governo brasileiro é favorável ao ODF. Aí vem a questão da harmonização e extensabilidade. Sou favorável ao conceito de "padrões únicos", já que o Open XML é difundido na educação, saúde e finanças", afirma o diretor nacional de Tecnologia da Microsoft, Raimundo Costa.


Sucena Shkrada Resk |



30/03/2008 20:37
Parte 6 - De idéias se faz a inovação, por Sucena Shkrada Resk
O celeiro de idéias que resulta em processos de inovação geralmente tem um percurso extenso. "Um sucesso pode ter partido de uma seleção entre 3 mil idéias. Existe um custo embutido nessa perda do cancelamento. Por isso, inovação é risco", diz o sócio-diretor do Monitor Group, Gustavo Zevallos.

Segundo ele, o licenciamento da propriedade intelectual é uma fonte de retorno que não pode ser minimizada. "Essa é a lógica econômica da viabilidade da implementação da inovação, e a perda que ocorre nesse processo não é vista pela sociedade", explica. Esperar ganhos imediatos é um equívoco, de acordo com o especialista. Leva-se um tempo para que o investimento se torne rentável.

"Não se deve ter uma posição extremista, quando se trata de propriedade intelectual. Em alguns casos é procedente, em outros não. A proteção é uma maneira de haver a transformação em riqueza, mas exige custos", observa o diretor de mercado da Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex), Djalma Petit.

O executivo concorda que a maior dificuldade é exigir da micro e pequena empresa arcar com os custos de acordos internacionais de propriedade intelectual. Mas existe um sinal no fim do túnel quanto ao acesso à promoção das inovações. "Em novembro passado, o Programa Nacional de Ciência e Tecnologia anunciou o volume de recursos de mais de R$ 300 mi da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), pelo Governo, às pesquisas e inovação, a fundo perdido, que devem ser muito bem aproveitados", diz.

Formas de proteção
A presidente da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual (Abpi), Juliana Viegas, explica que a propriedade industrial é uma das partes da propriedade intelectual. "A patente não é a única proteção possível. O governo outorga uma espécie de monopólio legal com a patente, que pode impedir que terceiros usem a mesma, apesar de ter chegado a igual resultado". E a contrapartida é que o inventor revele à sociedade sua criação. "é uma forma de proporcionar mais inovações", diz.

Outra forma de proteção, segundo Juliana, é o segredo industrial/empresarial. "Neste caso, não impede que terceiros cheguem à mesma conclusão e tenham o reconhecimento do invento". A vantagem que tem sobre a patente, segundo ela, é que esta última é cara e inviável para pequenas e médias empresas. "O segredo não depende de gastos e burocracia. Uma vez tornado público, no entanto, perde toda a proteção. Jà a patente publicada, a mantém e deve ser usada pelo titular, que deve retornar os benefícios à sociedade".

A presidente da Abpi explica que hoje a legislação brasileira é "praticamente avançada" nesta área e cumpre o Tratado Tríplice da Organização Mundial do Comércio. "O que precisa é ter mais eficácia, principalmente do reconhecimento do juízo, do ponto de vista de proteção das fronteiras e questões alfandegárias", afirma.

O papel da universidade
Para o pró-reitor de Inovação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Jorge Luís Nicolas Audy, os parques tecnológicos, a exemplo do TecnoPUC, onde hoje trabalham cerca de 1,5 mil pessoas, principalmente na área de TIC, é uma saída positiva para o avanço no setor.

"O ambiente da sociedade do conhecimento nas universidades deve assumir um papel diferente de tempos atrás. Em meados do século XIX surgem os centros de pesquisa, mas é no século XX, que se destaca Stanford, e o Vale do Silício, além de Harvard", explica.

Audy define que as instituições universitárias assumem uma vocação empreendedora como agente de desenvolvimento econômico. "Requer cooperação em rede, mas com atores da sociedade. Com isso, gera mais resultados. O que se discute hoje é o caminho de volta dos conhecimentos gerados pelos recursos aplicados na pesquisa, que não podem se deter só no desenvolvimento científico", diz.

Todo o processo, de acordo com o pró-reitor, envolve mudanças culturais fortes. "É um erro ter exclusividades. Exemplos positivos que geram riqueza e melhoria de qualidade de vida são iniciativas, como o Porto Digital, da Universidade Federal de Pernambuco e o Sistema Mineiro de Parque Tecnológico", afirma Audy.

Na análise do diretor geral da Agência USP de Inovação, Osvaldo Massambani, a missão central da universidade é a formação de RH bem preparado. "Entretanto, o potencial de conhecimento transborda para o setor industrial. Na USP, por exemplo, estamos patenteando 120 projetos anualmente. Mas isso se estende à ótica técnica e de mercado, e parceria com as empresas", diz.

Sucena Shkrada Resk |



30/03/2008 18:58
Parte 5 - Brasil precisa acelerar na inovação, por Sucena Shkrada Resk
Existe hoje uma dicotomia entre o momento macroeconômico favorável e a "lentidão" no avanço digital no Brasil. Esse foi o consenso entre os debatedores do painel Capital de Risco na Inovação, do Fórum Inovação Brasil 2008, realizado no dia 27, na sede da Fiesp, em São Paulo.

"O país tem a geração de muito conhecimento, empreendedores e capital (fundos brasileiros nacionais e internacionais), mas a qual velocidade segue esse ciclo? Esse é o questionamento do diretor de investimentos da Intel, Fábio de Paula. Segundo ele, existe uma "miopia" ao se rotular que o DNA nacional é somente o agronegócio. "Tudo depende de TI e, com o setor avançando, as empresas se tornam mais competitivas", diz.

O economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Danilo Igliori, concorda que atualmente é um momento favorável do risco-país. "Mas isso não que dizer que não se deva fazer nada. "Olhar para o desenvolvimento local é muito importante e, para isso, têm de estar envolvidos todos os atores para promover a inovação e a adoção de políticas públicas do setor", diz. O especialista acredita no potencial das chamadas indústrias criativas - nas áreas de design, moda, software, games, cinema e publicidade.

Na opinião do diretor de marketing da Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação (Brasscom), Ricardo Asser, a estratégia de desenvolvimento está na promoção da exportação, na convergência digital, na capacitação de RH e nas questões marco-regulatórias. "O Brasil não pode perder essa onda. A perspectiva é que nos próximos 5 anos sejam realizados 5 bi em exportações", diz.

Segundo ele, são importantes iniciativas de se instalar clusters nas proximidades dos grandes centros, como é o caso do projeto de Arranjo Produtivo Local (APL) de TIC de São Caetano do Sul. "Pela proximidade a São Paulo e com uma ação concreta na área de educação, promove o potencial do setor", considera.

Um ponto nevrálgico, de acordo com Roberto Mayer, presidente da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação, Software e Internet (Assespro-SP), são as altas taxas de juros de títulos do governo federal. "São algumas das maiores do mundo, o que causa um problema ao investimento. Dessa forma, os fundos de investimentos estrangeiros são beneficiados", analisa.

Por outro lado, o empresário enfatiza a necessidade de se ampliar a internacionalização. "A entidade está assinando vários acordos com outros países. O mais recente foi com a Câmara Internacional da Argentina", diz. Com essas iniciativas, Mayer considera que o Brasil se coloca de forma mais assertiva no mercado globalizado.

O presidente da Assespro-SP afirma que existe um vácuo de liderança no setor de TIC no Brasil. "O Chile e o México saíram na frente, nesse processo. A TIC tem de ser tratada como política de estado", afirma.


Sucena Shkrada Resk |



30/03/2008 17:37
Parte-4 O risco e o crescimento, por Sucena S.Resk (Fór.Inovação)
O capital de risco tem uma relação intrínseca com o estímulo do crescimento da economia global, segundo Dan`L Lewin, vice-presidente da Microsoft para Estratégias e Desenvolvimento de Negócios Emergentes. O executivo, com um know-how de 32 anos no Vale do Silício, acredita que o setor de TIC está atingindo uma curva ascendente, desde os anos 1970 e, mais recentemente, com a definição W3C de conversões de aplicativos. "Nos últimos 7 anos, essas conversões acontecem de maneira simples e padronizada, para a integração de famílias, amigos e nas relações de consumo, trabalho e governamentais", disse, durante sua palestra, no Fórum Inovação Brasil 2008, realizado no último dia 27, na sede da Fiesp, em São Paulo.

Um elemento importante para auferir credibilidade no processo, segundo ele, é o Interop Vendor Alliance (IVA). "Essa chave de segurança representa uma evolução no sistema bancário, tanto que foi criada a Alliance Securet", diz.

No campo da inovação e acessibilidade, a Microsoft aposta as fichas nos últimos anos nos centros de desenvolvimento tecnológicos. "Já criamos cerca de 100 mundialmente, sendo 20 no Brasil. As unidades respondem à cultural local e têm o objetivo de promover a inclusão digital e criar oportunidades comerciais", afirma.

Mas Lewin diz que um dos principais entraves na ampliação do mercado é a burocracia. "O combustível para o empresário é focar sua atenção no produto e, para isso, precisa assumir riscos. E não pode temer o aparecimento de problemas. Ao identificá-los, tem de aprender com o fracasso e o que deve fazer de diferente".
Sucena Shkrada Resk |



30/03/2008 16:39
Parte 3 - Os gargalos da TIC no Brasil, por Sucena S.Resk
Os grandes gargalos do Brasil na área de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) são a falta de mão-de-obra qualificada, pouco fomento de parcerias e a baixa cultura de patentear inovações. "É preciso valorizar o capital intangível desta área, que propicia o surgimento de novas empresas e novos negócios", afirmou Pierângelo Rossetti, vice-presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e diretor titular adjunto do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, no último dia 27, no Fórum Inovação Brasil 2008, realizado em São Paulo. Isso representa, segundo ele, agregar valores adicionais, como os distritos digitais e centros de serviços digitais regionais.

"Hoje a liderança da China e da Índia se baseia na formação de melhores técnicos. Temos de seguir essa experiência e não podemos perder tempo", afirma. Rossetti considera que o crescimento econômico sustentável do Brasil, no patamar dos US$ 40 bi, é um cenário positivo para esse fortalecimento. "O país é o quinto consumidor mundial de computadores e não temos medo de aumentar esse consumo", analisa.

Vahan Agopyan, coordenador de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Desenvolvolvimento do Estado de São Paulo, defende a quebra do ciclo vicioso, em que o Brasil produz quase 2% do conhecimento mundialm e ao mesmo tempo, não consegue produzir no mesmo patamar para a sociedade.

"O estado de São Paulo responde por 1% desse conhecimento, principalmente com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). Mantém ainda duas das 100 melhores universidades, além das escolas técnicas. Com isso, é possível dar guarida a empresas do setor, mas isso não está acontecendo", diz.

Na opinião do presidente da Microsoft Brasil, Michel Levy, é preciso haver maior empenho para derrubar as dificuldades de acessibilidade. "Vinte por cento dos 6 bi de habitantes no mundo têm conexão com a informação na internet. Temos responsabilidade para diminuir esse fosso".

Segundo ele, a multinacional já mantém no país 20 centros de inovação com parceiros locais para fomentar soluções de software e de aquecimento da economia local. "A Microsoft também promove a Copa de Computação há 5 anos, onde o Brasil se destaca no número de inscritos. Foram 36 mil em 2007 e mais de 50 mil, neste ano. Esse é um sinal de que esse potencial deve ser aproveitado", diz.

Levy analisa que há uma projeção favorável nos próximos três anos no cenário de TIC. "De acordo com o IDC, é esperado que a importação de softwares na América Latina duplique neste período, o que significa 600 mil empregos na área, sendo que 50% deles no Brasil", afirma. E para isso acontecer, o presidente da Microsoft Brasil afirma que é vital a formação de mão-de-obra jovem, alavancada por meio do ensino de Ciências e de Matemática.
Sucena Shkrada Resk |



30/03/2008 16:02
Parte 2 - A educação no caminho da inovação, por Sucena Shkrada Resk
O secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia, Augusto César Gadelha Vieira, afirma que o Brasil deve quebrar o estigma de ser inferior à Índia e China, mas precisa fazer um investimento significativo na educação. "Fui à Índia e verifiquei que temos chances maiores na área de TI. Mas lá eles acertaram na questão do estímulo à educação na área tecnológica, diferentemente do Brasil". A sua análise sobre o setor foi feita, no último dia 27, durante o debate sobre educação e inovação para a sustentabilidade, promovido no Fórum Inovação 2008, realizado pela Microsoft Brasil, na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Vieira considera que a saída não é copiar os modelos estrangeiros. "Mas temos de investir na Ciência da Computação, pois está em 15ª lugar nas áreas de ensino universitário. Essa é uma discussão que já estamos mantendo com a Frente Parlamentar da Ciência e Tecnologia", afirma.

Mas ao mesmo tempo, o secretário elogia o empenho dos outros países. "Na Índia, a pobreza é impressionante, mas o contraste é verificar a construção de institutos técnicos que almejam a qualidade. E o sonho dos indianos é ver seus filhos estudarem nestas escolas, para ascenderem socialmente". Já na China, também observou a ânsia dos estudantes em aprenderem o inglês para se inserirem no mundo globalizado.

A escola, de um modo geral, tem deprimido o ímpeto da inovação. Essa é a principal crítica de Fernando Fonseca Júnior, da Fundação Padre Anchieta, ao modelo pedagógico adotado atualmente no Brasil. "Nossas metologias atuais levam à passividade e não atacam problemas reais, para fazer com que o aluno produza", afirma. E o especialista vai mais além. "O fundamento ético não está colocado na escola. Vivemos num mundo com recursos finitos", questiona.

Para o presidente do Compromisso Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos, a formação dos educadores tem de ser avaliada de forma mais rígida. "Somente 9% dos professores que ensinam física, tiveram formação nesta área", diz. E o mais grave, segundo ele, pode ocorrer em um prazo de cinco a 10 anos. "Os atuais professores de educação básica vão se aposentar e não teremos como suprir esta demanda", afirma.

Mais um dado de impacto apresentado pelo especialista em educação é a estatística de jovens no ensino médio. "Um total de 43% de jovens está, de fato, no ensino médio, o restante se encontra no fundamental ou fora da escola. Já o ensino superior apresenta um currículo pouco flexível, como produção em série", analisa.

Para combater essas deficiências, Ramos sugere a adoção de modelos europeus, que enfatizam de uma forma mais regular a presença de incubadoras nas universidades. "Isso não significa privatização", afirma.

Em sua opinião, a produção de paper científico não é suficiente. "Hoje são formados 10 mil doutores no Brasil anualmente, mas podemos dizer que 100 representam a grande maioria da produção científica. O país está hoje na 15ª colocação", diz.

E Ramos se posiciona a favor do patenteamento ser uma ação predominante da indústria. "Existe uma barreira financeira considerável. Para tirar a patente nos EUA, o custo é na faixa de US$ 100 mil. Os nossos pesquisadores ainda enfrentam o exército de chineses e indianos", afirma.

Roberto Lotufo, diretor-executivo da Agência de Inovação Inova -Unicamp, por experiência própria, é a favor do investimento em incubadoras na universidade, e acredita que a academia deve buscar as patentes. A experiência é bem-sucedida, segundo ele, desde a implementação do projeto em 2003. De acordo com o gestor, atualmente mais de 200 empresas foram criadas, neste modelo, dentro da agência. "A universidade deve ser toda empreendedora. E no Brasil, é preciso mais investimento na qualidade da educação e inovação", defende.

Lotufo acredita que é preciso iniciativas no país arrojadas, como a de Casimiro Montenegro Filho, ao implementar o ITA, em São José dos Campos. "Foi uma idéia totalmente diferente, em que professores e alunos moravam na instituição e criavam um entrosamento", diz. E na esfera internacional, citou o case da Coréia, que apesar de ter criado sua Lei de Inovação somente há dois anos, já tem um desempenho surpreendente. "E a China manda os seus alunos estudar fora, mas ao mesmo tempo traz professores gabaritados para formar as melhores universidades no país", compara.

Quebra de barreiras

O vice-diretor superintendente do Centro Paula Souza defende a quebra de fronteiras entre escola, iniciativa privada e sociedade. "A preocupação da instituição é atender à necessidade do mercado e das empresas. Outro ponto importante é a questão das parcerias, segundo o executivo. Saímos da sala-de-aula para ouvir as empresas e criar novos currículos. E dessa forma, conseguimos algumas inovações", diz. Essa tendência de gestão na área educacional, de acordo com Silva, leva a instituição acadêmica à regionalidade e aos Arranjos Produtivos Locais (APLs).



Sucena Shkrada Resk |



29/03/2008 15:07
Parte 1 - A educação no caminho da inovação, por Sucena Shkrada Resk
"Hoje não temos consciência que estamos desnacionalizados e que os concorrentes não estão mais dentro das fronteiras". A afirmação é do engenheiro aeronáutico e atual reitor da Universidade de Santo Amaro (Unisa), Ozires Silva, que em 50 anos, ocupou posições estratégicas no cenário nacional, como ex-presidente da Embraer, da Petrobras e da Varig, além de ministro da Infra-Estrutura. O empreendedor prendeu a atenção de empresários e acadêmicos presentes no Fórum Inovação Brasil 2008, realizado no último dia 27, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital. Ele defendeu a tese de que se não forem quebrados os abismos na preparação educacional dos cidadãos, o Brasil não conseguirá se projetar no caminho para a sustentabilidade.

Em uma breve viagem no tempo, recortou os principais eixos históricos do século XX, mostrando a mudança de conceitos que gerou a globalização da Economia em relação direta com as comunicações internacionais. Segundo ele, um período em que imperou a dicotomia da visão da ameaça x oportunidades.

Partiu do advento da 2ª Guerra Mundial, e o Plano Marshall (de apoio aos países da Europa Ocidental), seguindo para a ascensão dos Tigres Asiáticos (década de 70), a posição estratégica da Coréia e Irlanda (anos 80) e da China e Índia (anos 90). E apresentou a seguinte provocação - E o Brasil, quando passará a ser ator de si mesmo?

De acordo com Silva, um dos entraves para a projeção brasileira é manter uma legislação extensa. "Temos mais de 105 mil decretos, 12 mil leis e isso é ineficiente. Precisamos gerar mais facilidades aos empreendedores e ganhar na área da educação, a corrida contra o atraso na educação básica, humanidades e exatas", diz.

Ozires Silva considera que desenvolvimento é projeto de produção intencional. "Para isso, é preciso vontade política da sociedade em se manifestar (além do poder público e legislativo), unindo inovação com empreendedorismo", afirma. Os números, segundo ele, são prova de que é preciso mudanças. Enquanto no Brasil se formam 20 mil engenheiros por ano, na Coréia são 80 mil, na Índia, 200 mil e na China 300 mil. "Nesse cenário global, o Oriente Médio e a África também estão investindo muito na educação. Em Oxford, por exemplo, 60% dos ingressantes em 2007 são alunos chineses. E o governo chinês matriculou 200 mi estudantes fora do país", diz.

Com o investimento maciço de outras nações no aprimoramento do ensino, o reitor da Unisa conclui que sem educação continuada, não há inovação. E afirma que decisões arrojadas são importantes, citando o case nacional da Embraer, da qual é um dos fundadores. "A empresa nasceu de um processo vitorioso educacional com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), nos anos 70 (idealizado por Casimiro Montenegro Filho). Hoje a Embraer vende em mais de 70 países, e tem uma carteira de US$ 33 bi", diz.

A união da educação com a identificação com o mercado, por meio da fabricação de produtos próprios, é mais um ponto importante nesta jornada, de acordo com Silva. "Com isso, há um processo contínuo de aperfeiçoamento, complementação internacional de tecnologia e autonomia de vendas no exterior".

Uma data ficou marcada em sua mente - 22/10/68. Neste dia, voou o primeiro avião da Embraer. "Não tínhamos capital, usamos equipamentos de várias origens e conseguimos fazer com que voasse. Depois disso, transformou-se no Bandeirante, com 18 lugares, que vendeu bastante nos EUA. E hoje, a empresa fabrica o EMB-190, para até 110 passageiros e vende para a Europa e Ásia, além dos EUA".

Ozires Silva defende que é preciso incentivar a visão de futuro. Sem medo de arriscar, o acadêmico e aviador confessa que está em mais uma nova empreitada, agora, na área de biotecnologia. "Temos de acelerar o estímulo empreendedor", diz. E para isso, há um arsenal à disposição, em sua opinião, formado pela robótica, nanotecnologia, biotecnologia, TIC, serviços e acumulação de conhecimento.

"O risco do empreendedor nunca é zero, mas temos de fazer que seja o menor possível", considera. A pesquisa é fundamental nessa meta para se chegar à inovação. "Noventa por cento das inovações no mundo estão saindo das empresas. E as universidades oferecem garantia de competência no processo. Nos novos cenários de produção, os ciclos dos produtos são menores e há a concorrência global. Por isso, há necessidade do desenvolvimento de técnicas gerenciais de inovação", fala.

O pulo do gato para que as coisas funcionem é não haver medo do questionamento, na opinião do empresário e acadêmico. "As perguntas que devemos fazer são as seguintes - Somos eficientes?
A educação como está?(principalmente com relação à deficiência na educação básica)
E o poder público local até o federal estão envolvidos no processo?"

Ozires Silva encerra sua imersão sobre os caminhos para a sustentabilidade, com a citação da frase de Albert Einstein. "Nenhuma mente que se abre para uma nova idéia jamais voltará a ter o tamanho original".

Sucena Shkrada Resk |



18/03/2008 10:30
O embate sobre o etanol, por Sucena Shkrada Resk

crédito foto: Sucena S. Resk
A viabilidade dos Biocombustíveis é um assunto que ainda vai render muitos capítulos. E no último dia 14 de março, a palestra - "Etanol e Mudanças Climáticas", ministrada em São Paulo, por José Roberto Moreira, presidente do Centro Nacional de Referência em Biomassa (Cenbio) e autor no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), trouxe o tema novamente para o centro das atenções. O especialista resumiu uma série histórica que envolve o assunto, destacando que, apesar de o questionamento sobre a produção do etanol ser presente, essa fonte ainda é a mais sustentável do ponto de vista ambiental. A afirmação foi feita na fase final do III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável. A posição do especialista, entretanto, não é unanimidade entre outros pesquisadores sobre a pauta de bioenergia e agronegócios.

"Até dois anos atrás, o uso do etanol era considerado positivo para a mitigação dos problemas ambientais. Daí houve um boom de produção, puxado pelos EUA (que já ultrapassa o Brasil), e aí veio a "preocupação" da indústria petroleira - quanto à disputa das áreas de cultivo para combustível x alimentos", diz.

A Organização das Nações Unidas (ONU), segundo Moreira, também se posicionou contrária ao etanol no Brasil, com o argumento de que confrontaria o combate à fome. "Então, surgiu a problemática do uso de fertilizantes. Mas verificou-se que o uso de inseticidas é da proporção de 0,12", afirma.

Hoje o questionamento é quanto ao consumo de água para a produção", explica o presidente do Cenbio. Segundo o especialista, uma preocupação sem fundamento. "Uma tonelada de cana-de-açúcar é igual a 100 litros de álcool; e para um litro de etanol são utilizados 50L de água", diz.

Esse é um ponto ainda discutível, já que não há um consenso sobre a quantidade de água utilizada entre os especialistas.

E a polêmica não pára por aí. Outro aspecto que ainda provoca dúvidas, de acordo com Moreira, é se há área suficiente para o cultivo da cana, que não prejudique a produção de alimentos, em uma projeção até o ano de 2030. E nesse ponto, é enfático - "O pobre morre de fome por falta de poder aquisitivo e não de comida", afirma, tecendo crítica também ao desperdício de toneladas de alimentos, que ocorre no Brasil e no mundo. Entretanto, uma outra corrente é mais cética, prevendo que se as metas do uso de etanol forem praticadas à risca em substituição aos combustíveis fósseis, ocuparão a área destinada à agricultura.

O especialista diz que o biocombustível ocupa hoje 1% da terra disponível. "As críticas são infundadas e distorcidas, esquecendo o problema do aquecimento global. Uma tonelada de carbono fóssil é correspondente a 10 ton de combustível renovável. E se emite CO2, tem também como resultado (compensatório) o álcool", afirma.

Um caminho longo a percorrer
O presidente do Cenbio constata, entretanto, que o Brasil, durante a história de 32 anos do PróAlcool, poderia ter sido muito mais eficaz quanto à sua contribuição ao meio ambiente. "A cada um hectare de terra seriam evitadas 700 toneladas de CO2, mas só foram 0,75 GT, em vez de 2,25 GT, neste período", diz.

Nesse ponto, Moreira faz uma análise, que tem como base "as sete cunhas", metodologia de projeção de mitigação de 1 gigatonelada de CO2 (por cunha) elaborada pelos professores da Universidade de Princeton, Pacala e Socolow, em que cada uma representa uma ação bem-sucedida. "Seria importante que o Brasil atingisse 14 GTC/ano de redução de emissão de CO2. Hoje faz 1/7 de uma cunha, mas está realizando uma ação", diz.


Sucena Shkrada Resk |



17/03/2008 14:38
Parte 5-A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena Shkrada Resk

Crédito da foto: Sucena S. Resk
O terceiro e último painel do III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável discutiu o tema "Mudanças Globais: Cinco Continentes e um só Regime Internacional", no último dia 14, em São Paulo. Tasneem Essop, ministra do Meio Ambiente, Planejamento e Desenvolvimento Econômico da Província de Wertern Cape/África do Sul e co-presidenta da Rede nrg4SD, enfatizou que todas as finalidades pós Protocolo de Kyoto convergem na superação da vulnerabilidade, que vai desde os aspectos da saúde ao controle da poluição urbana.

Segundo ela, as ações em Western Cape, na África do Sul, priorizam planos na área de energia renovável, fundos de mecanismo de desenvolvimento dos créditos de carbono e programas de energia limpa e de água integrados.

A presidente da Agência de Gerenciamento de Impacto Ambiental, da Província Norte de Sumatra, na Indonésia, e vice-presidente da Rede nrg4SD na Ásia, Syamsul Arifin, explicou que após os efeitos do Tsunami, a região onde vivem 11,9 mi pessoas teve a intervenção de várias frentes de ações. "Foram desenvolvidos workshops de geração de trabalho e negócios, sobre impactos das mudanças climáticas, de sustentabilidade na área de pesca e reconstruções das cidades com o apoio do Un-Habitat", diz. Um dos conceitos introduzidos foi o de projetos de edificações mais resistentes, com ajuda técnica da União Européia e o da bio-arquitetura.

Marco Betti, ministro de Água, Proteção do Solo, Biodiversidade e Desenvolvimento de Regiões de Montanhas - Toscana, na Itália, informou que as medidas tomadas na região para reverter os processos de erosões e de inundações passam por um conjunto de ações. Entre elas, renovação de energia, retirada gradativa do tráfego de veículos nos grandes centros e a implementação da bio-arquitetura. "Para 2020, a meta é reduzir 14,4 mil ton de CO2", diz.

Já o representante do governo basco afirma que a meta até 2010 no país, é introduzir políticas de colaboração com relação ao etanol e ter um desenvolvimento econômico menos dependente dos combustíveis fósseis. "Não podemos esquecer o social e precisamos assumir mais as nossas responsabilidades", diz.

Sucena Shkrada Resk |



17/03/2008 14:14
Parte 4 - A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena S. Resk

Crédito foto: Sucena S.Resk
"A América Latina: Os esforços e os Impactos da Governança" foi o destaque do segundo painel do III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável, promovido, no último dia 14, em São Paulo. Ricardo Sánchez Sosa, diretor regional do Pnuma para a América Latina e o Caribe, frisou que só crescimento econômico não significa sustentabilidade. "Apesar de o crescimento regional ser de 20%, não diminuiu nem a pobreza e a desigualdade na mesma proporção", afirma. Como gargalos, ele citou a questão dos resíduos sólidos, contaminação das águas, emissões de CO2, e da necessidade iminente de diminuição do número de pessoas vulneráveis e da implementação de programas de eficiência energética. Daí, sim, se pode chegar ao seguinte binômio: melhora da economia e da qualidade de vida.

Os expositores internacionais apresentaram cases de suas regiões para diminuir o quadro de vulnerabilidade. O representante do governo da Província de Santa Fé, Argentina, Cesar Mackler, contou que está sendo necessário um conjunto de ações para se chegar à mitigação de uma região, que sofre mais nas zonas costeiras, onde 2003 houve inundação, que resultou em 14 mortes e três anos depois vitimou a população, por causa de chuvas de granizo de 9cm de diâmetro, que ocasionaram muitos estragos. E no ano passado, as cenas de tragédia climática se repetiram, o que exigiu intervenções imediatas.

"Uma das iniciativas é a readaptação dos assentamentos e canalização das áreas afetadas. O governo também está providenciando o tratamento dos gases dos aterros sanitários, para que no futuro possam produzir energia paralelamente ao plano de eficiência energética", explica. As mudanças atingem até os semáforos das vias locais.

Ao mesmo tempo, começaram os estudos de impacto ambiental de empresas, para haver a racionalização da energia. E no aspecto humanístico, Mackler disse que foi criado um sistema de alarme, que pode anteceder ao desastre climáticos em até 8h. "Pode salvar vidas. Em 2003, não houve tempo. A água subiu 2m, sem aviso prévio", compara.

Sosa, do Pnuma, ressaltou que os créditos de carbono devem ser comprados pelos países desenvolvidos, para que as nações pouco desenvolvidas e em desenvolvimento possam fazer investimentos em educação e saúde, que são decisivas para o desenvolvimento humano. "Catorze vidas humanas são impagáveis (case da Argentina), além dos milhões de U$ em patrimônios perdidos. Hoje o Equador e o Peru, entre outros países, sofrem com fenômenos, como o La Niña, precisam de auxílio. E para isso, também é importante o incentivo da participação cidadã", afirma.

Cidadania Global

O conceito de participação cidadão foi o centro da apresentação da diretora de Acordos e Participação Cidadã, da Secretaria do Meio Ambiente do Estado do México, Laura Mitzi Barrientos. Segundo a especialista, já foram capacitadas mais de 560 mil pessoas em matéria ambiental, dentro dos preceitos de Cidadania Global, trabalho desenvolvido em parceria com o Pnuma.

"Foram formados 63 conselhos municipais de proteção e biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, e criado um telefone verde para denúncia feita pela própria sociedade. Nas escolas, as crianças assistem a palestras e aprendem a separar os resíduos urbanos, a consumir com economia a água, entre outras ações", conta.

E Laura diz que as mudanças também atingem a esfera administrativa, como parte do Plano de Manejo Ambiental. "Com o reúso d`água e a criação de hábitos, como apagar a luz, desligar o computador, porque por mais pequenas possam parecer essas iniciativas, são capazes de modificar o entorno", afirma.

Para sintetizar a idéia de cidadania ambiental, Ricardo Sánchez Rosa, do Pnuma, falou da importância do envolvimento neste processo, de líderes religiosos, municipais e de rádios comunitárias, entre outras, para multiplicar a educação ambiental. "As pessoas aprendem quais as funções de áreas protegidas, o porquê da necessidade do reflorestamento etc", diz.



Sucena Shkrada Resk |



17/03/2008 13:30
Parte 3 - A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena S. Resk
O secretário de Estado do Meio Ambiente de São Paulo, Francisco Graziano Neto, expôs, no último dia 14, as principais frentes de atuação do executivo paulista na revitalização ambiental, e destacou que a pasta está prestes a divulgar o resultado de um levantamento sobre as 100 principais empresas emissoras de carbono fóssil no estado. "Mas posso adiantar que as líderes no ranking são uma siderúrgica, 3 refinarias e uma petroquímica", disse a uma platéia que lotou o auditório no Ibirapuera, durante o III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável.

De acordo com o secretário e também vice-presidente para a América Latina e Caribe, da Rede, a emissão de CO2 pela queima de combustível total da indústria, se divide nas seguintes fontes:
-Fóssil - 18,5 mt (23%) - principalmente originária dos segmentos industriais de cimento, cal e ferro
-Renovável - 60,9 mt (77%) (bagaço, etanol, biogás, biodiesel, lixívia, lenha de reflorestamento)

"Os setores que mais emitem CO2 em sua produção, são o de aço e ferro, de minerais não-metálicos, químico, petroquímico, de papel celulose, de ferro-ligas, alimentício e têxtil. Embora a situação ainda seja difícil, estamos caminhando para o controle em São Paulo, no combate ao efeito estufa. Se houvesse a substituição dos fósseis, seriam evitadas 50 mt de CO2 (dados de 2006)", diz Neto.

Segundo o secretário, uma das propostas do executivo paulista para reverter esse quadro é a de uma lei estadual com metas de reduções. "Essa iniciativa será um diferencial no Brasil", afirma. Para o fechamento do projeto da lei estadual de mudanças climáticas, o Fórum Estadual de São Paulo mantém uma minuta na Internet, para receber sugestões da opinião pública.

"E estamos operacionalizando o Projeto São Paulo Amigo da Amazônia, que fiscaliza nas rodovias paulistas, caminhões procedentes de RO/PA e MT, para verificar se há transporte de madeira ilegal. As ações também se estendem ao comércio atacadista de Sorocaba, Araçatuba e São José do Rio Preto, entre outros, com a verificação dos estoques", informa.

De acordo com Graziano, São Paulo também deverá implementar brevemente um cadastro voluntário de madeireiras, com a adoção de selos verdes. "E as compras públicas só poderão ser feitas desses estabelecimentos", diz.

Sucena Shkrada Resk |



17/03/2008 13:04
Parte 2 - A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena S. Resk
O primeiro painel do III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável, realizado no último dia 14 de março, em São Paulo, discutiu - A Contribuição dos Estados Brasileiros no Combate às Mudanças Climáticas. Eugênio Marcos Soares Cunha, presidente da Associação Brasileira de Entidades Estaduais do Meio Ambiente (Abema) e diretor geral do Instituto de Defesa do Meio Ambiente (Idema) fez um diagnóstico sobre as ações do grupo no país.

Hoje a entidade conta com a participação de 48 entidades e órgãos públicos, em 11 fóruns estaduais. "Mas alguns funcionam e outros não, com menos intensidade, por isso pretendemos reforçar mais as discussões no NE", diz. Segundo Cunha, os processos mais avançados estão nos estados de SP/PR/BA/SC/MG/ES/TO/AM/RJ/PI e RS. "No PR, a diferenciação é que mantém também a participação do setor privado", diz o presidente da Abema.

Segundo Cunha, desde 2000, quando os fóruns começaram a ser planejados, foram instituídos alguns grupos de trabalho, que se dividem em Desmatamento, Vulnerabilidade (principalmente na regiões do semi-árido, cerrado e costeira), Mecanismos de Desenvolvimento Limpo, Energia e Estado da Arte (emissões e causas). A tônica das discussões é se afinar com os objetivos do Plano Nacional de Mudança do Clima e com o Programa Nacional de Mitigação de Gases de Efeito Estufa, de 2000, que foram amadurecidos desde 1992, com a ECO 92.

Uma das implementações mais recentes, de acordo com o presidente da Abema, ocorreu no estado do AM. "Em 2007, criou a política estadual, com o Fundo Estadual de Mudança do Clima, que prevê incentivos fiscais, selos de certificação etc", afirma. Já no PR, foi instituída a Coordenadoria de Mudanças Climáticas, com ações que vão desde seminários até uma publicação sobre o tema, que deverá ser lançada neste ano.

"O Rio de Janeiro está concluindo o inventário do estudo de vulnerabilidade ambiental, para ficar de acordo com a implementação do biodiesel. E tem a proposta da criação de um fundo de compensação energética", afirma Cunha. E no NE, um dos destaques, é o lançamento de um plano de Mitigação, Avaliação de Impacto e Vulnerabilidade de Mudanças Climáticas do RN, até 2017. "Lá também foi produzido o inventário do plano de gases do efeito estufa", acrescenta.

Diante de todas as incursões pelo Brasil, o presidente da Abema reforça a necessidade de uma maior participação do setor privado nos fóruns. "Nossa recomendação é que haja a elaboração de leis estaduais e de incentivo a ações integradas e consolidação de parcerias", diz.

Sucena Shkrada Resk |



17/03/2008 11:10
Parte 1 - A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena S. Resk

crédito foto: Sucena S. Resk
A palavra mitigação ganha força nos países em desenvolvimento, que buscam atenuar os efeitos das mudanças climáticas, provocadas pelo próprio homem. Líderes, políticos, governantes e especialistas tentam encontrar saídas a ações malsucedidas ou ausência de gestão de problemas, que se perpetuam por décadas. O motivo é um só: sem intervenções concretas, o futuro do planeta será uma grande incógnita. Essa tônica guiou o III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável, realizado na última sexta-feira (14), no auditório Ibirapuera, em São Paulo.

O evento promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo em parceria com a Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável (nrg4SD) e com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente para a América Latina e o Caribe (Pnuma) reuniu representantes da gestão pública estadual e federal brasileira, dos governos africano, argentino, basco, italiano, indonésio e mexicano, que puderam expor cases locais sobre programas desenvolvidos em suas áreas de atuação, dentro do conceito da importância da regionalidade.

O diretor regional do Pnuma para a América Latina e Caribe, Ricardo Sánchez Sosa, foi enfático quanto ao caráter humanitário das decisões. "Não podemos deixar que as forças cegas do mercado comandem. As organizações políticas e governos regionais têm problemas com nomes e sobrenomes. Não são mais estatísticas", afirmou. Sosa não mediu as palavras ao falar de situações que afligem o mundo. "Em alguns países na América Latina, de 10 a 70% das pessoas não têm lugar onde viver, não têm acesso à água potável e rede de esgoto e à eletricidade. Isso revela a importância da solidariedade, que envolve o universo de colaboração também do intercâmbio tecnológico", disse. A cadeia de cooperação, de acordo com o diretor deve se multiplicar - por meio de todas as esferas do governos e sociedade.

A quebra de fronteiras do conceito de humanização das relações foi exposta pela ministra do Meio Ambiente, Planejamento e Desenvolvimento Econômico - Província de Western Cape/África do Sul e co-presidenta da Rede nrg4SD, Tasneem Essop. "Quando as ações são realizadas por governos regionais já existem respostas práticas às mudanças climáticas, com o planejamento urbano, uso da terra, administração de desastres e inundações. O grande desafio na África do Sul, como na América Latina e Caribe é quanto à erradicação da pobreza. As ações dos governantes não podem estar separadas dos Objetivos do Milênio da Organização das Nações Unidas (ONU)", disse.

De acordo com a ministra, o aquecimento global pode ser hoje "o problema mais sério". "Mas não é hora de pessimismo, mas de ações", concluiu.

Sucena Shkrada Resk |



16/03/2008 18:55
Ricardo Seitenfus (1º esquerda para a direita)-créd.foto Sucena Resk

Sucena Shkrada Resk |



16/03/2008 18:37
Onde está o Haiti?, por Sucena Shkrada Resk
"Os problemas do Haiti começam aqui. Não temos a mínima noção do que acontece no país". A afirmação é do especialista em Relações Internacionais, professor Ricardo Seitenfus, durante o debate "O Gigante Vizinho: o Brasil na América do Sul", no último dia 12 de março. O evento foi promovido em São Paulo, pela BBC Brasil, em comeração aos 70 anos do serviço noticioso.

Segundo o docente da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM e consultor na Organização dos Estados Americanos (OEA), são graves as questões socioeconômicas - de fundo humanitário - no Haiti, localizado no mar do Caribe, na América Central. "São 200 anos de solidão, parafraseando o escritor Gabriel Garcia Marquez", diz.

A intervenção brasileira e da América Latina militarmente não consegue dar conta dos problemas crônicos, que se avolumam nesta nação, desde 1492, quando os espanhóis ocuparam a ilha e praticamente todos os aborígenes foram dizimados.

Já em 1967, os franceses receberam a cessão da parte oeste da Ilha, onde cultivaram cana-de-açúcar com a força de trabalho dos escravos africanos. E a independência só foi conquistada em 1804. Assim nascia a primeira nação negra das Américas. Mas a conquista não foi total, porque em 1814, o lado oeste foi tomado pela Espanha. E de 1915 a 1934, houve a ocupação dos EUA.

Todo o processo revela a história conturbada da nação, que teve mais um momento crítico, quando em 1957 foi eleito como presidente, François “Papa Doc.” Duvalier, que manteve um governo ditatorial. Após sua morte em 1971, foi sucedido por seu filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que perpetuou a linhagem de gestão. Somente em 1986, ele fugiu para a França, diante do aumento da oposição no país. E mais um golpe sofreu a população haitiana, quando subiu ao poder os militares, depois de uma breve passagem do padre Aristide.

Diante desse caos político, a Organização das Nações Unidas (ONU) e os Estados Unidos começaram a ter uma ação mais presente, para que voltasse o regime democrático. E isso, em tese, aconteceu, em 1994, quando uma força multinacional possibilitou a volta de Aristides ao poder. E 10 anos depois, com eleições, o presidente continuou no cargo, mas teve oposição armada de grupos rebeldes. E ressurge o caos: Aristide renuncia. Daí a ONU envia tropas armadas para o Haiti, sendo que a maioria é de soldados brasileiros, que permanecem no território.

"Hoje os principais problemas no Haiti são o lixo, as crianças abandonadas e uma sociedade complexa sem Estado. Mesmo assim, se mata em Porto Príncipe (capital do Haiti), menos que São Paulo", diz Seitenfus.

De acordo com o analista internacional, para se vislumbrar uma mudança real, há necessidade da entrada de recursos internacionais principalmente do Norte (países desenvolvidos). " Não é possível se recuperar a paz, sem perspectiva de desenvolvimento", afirma.

obs: fonte histórica consultada: site Brasil Escola
Sucena Shkrada Resk |



15/03/2008 17:35
Créd. foto - Sucena S. Resk

Sucena Shkrada Resk |



15/03/2008 17:01
O exercício da liberdade de imprensa, por Sucena Shkrada Resk
A liberdade de imprensa é um tema que ressurge como a alegoria da fênix, de tempos em tempos, e resulta em discussões que envolvem principalmente a categoria, os personagens políticos e as autoridades públicas e judiciárias, sem que se dê voz em muitas ocasiões, à sociedade como um todo. Assim deixa-se de lado, quem é, ao mesmo tempo, consumidora, objeto e parceira no desenvolvimento do jornalismo.

Esse tema foi o centro da discussão promovida no debate "Jornalismo no Século XXI: Objetividade X Subjetividade", promovido pela BBC Brasil, em comemoração aos 70 anos do serviço noticioso, no último dia 13 de março, no Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo. Os convidados dessa rodada foram o sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e da Faculdade Cásper Líbero, Laurindo Leal Filho; Mário Magalhães, ombudsman da Folha de São Paulo e Ricardo Boechat, editor-chefe do Jornal da Band. A mediação ficou sob responsabilidade do diretor da BBC Brasil, Rogério Simões.

Durante o encontro, houve o destaque à prática do respeito e integração mais próxima aos leitores, ouvintes e telespectadores, ao papel das TV públicas - em especial à criada recentemente pelo Governo Federal - e privadas, e sobre os limites impostos pelo controle da liberdade de expressão. O assunto ganhou mais fôlego, devido à polêmica recente que envolve ações contra jornalistas e publicações por representantes da sociedade civil e da liminar concedida em fevereiro, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto, que suspende os efeitos de alguns artigos da Lei de Imprensa, como a pena por calúnia, injúria e difamação (que já são contempladas no Código Penal).

Público quer participar mais

A BBC de Londres realizou em novembro de 2007, uma pesquisa mundial sobre o tema - Liberdade de Imprensa -, em 14 países (África do Sul, Alemanha, Brasil, Cingapura, Egito, Emirados Árabes, EUA, Índia, México, Nigéria, Quênia, Reino Unido, Rússia e Venezuela), em que foram ouvidos cerca de 11.350 entrevistados, que puderam emitir sua leitura sobre os limites que envolvem a comunicação de massa. Apesar de culturas e linguagens diferentes, 56% afirmaram que a liberdade de imprensa é muito importante, sendo que 40% disseram que a harmonia social e a paz são ainda mais importantes e podem justificar o controle sobre o que é publicado.

Isso demonstra o papel estratégico exercido pelo chamado quarto poder e as implicações dos empresários e profissionais de comunicação, na tarefa de vender em todos os sentidos o produto - informação. Os cidadãos entrevistados, neste quesito, foram enfáticos em revelar sua preocupação com a concentração da mídia, cuja propriedade dos veículos de comunicação está em mãos de poucos. No Brasil, México, EUA e Reino Unidos, os percentuais de pessoas que responderam afirmativamente a essa questão foram 80%, 76%, 74% e 71%.

E um item muito importante desse levantamento foi a constatação de que a maioria (56%) quer ter sua voz ouvida sobre temas que estarão no noticiário, sendo que especificamente no Brasil e México, esse índice sobe para 74%. Por sua vez, 39% do total de entrevistados preferem deixar a decisão do que estará no noticiário às organizações jornalísticas. Esses dados mais uma vez revelam o quanto é imprescindível a ética.

O editor-chefe do Jornal da Band, Ricardo Boechat, afirmou que a intervenção do público é cada vez maior nas pautas da emissora. "Isso acontece, com gravações de imagens e encaminhamento de mensagens pela internet", disse. Segundo o jornalista, é uma integração positiva, pois a informação se caracteriza como bem da sociedade e, com isso, a eficácia de se tentar cercear a liberdade de imprensa se torna cada vez menor.

Para o editor, o ibope, entretanto, é uma escravidão. "O desafio da captura da notícia é abordar o assunto de forma atrativa. O público se ressente da mesmice. Por isso, em vez de ficar na visão macroeconômica do Produto Interno Bruto (PIB), optamos por ir ao varejo da população, para despertar o interesse do público sobre os temas", conta.

Com relação à avalanche de ações que vieram à tona recentemente contra uma jornalista e veículo da grande imprensa, movidas por fiéis de uma seita religiosa, Boechat disse que é necessário haver maior reflexão sobre o caso. "A forma de conduzir esse tipo de crítica de rebate às notícias não é um caso clássico de cerceamento, como na época da Ditadura, mas é uma manobra que não facilita a liberdade de imprensa", afirmou. O grande desafio, no seu ponto de vista, não é temer o "grande cerceador", mas como os jornais tratarão de se retificar para que exerça mais a isenção.

Defesa da prestação de contas

Na ótica do público, o progresso da imprensa hoje obriga que o jornalismo tenha de prestar contas", disse o ombusdman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães. O jornalista ilustrou casos de fraudes, nos últimos dois anos, que envolveram profissionais e veículos respeitados nos EUA e, inclusive, de um case brasileiro de um jornalista envolvido com caça-níqueis.

"A concentração de mídia no Brasil é algo obsceno. Inexiste democracia plena, se não há informação contraditória. É preciso equilíbrio de direitos - o de informar, ser informado, no âmbito individual e da sociedade", afirmou.

Segundo Magalhães, hoje, diferentemente do século XIX, a imprensa é fiscalizada também pela sociedade. " Isso é bom, inclusive, por meio de blogs. Como ombudsman, verifico que para os leitores não basta falar, mas participar. Querem uma relação honesta. Não estão satisfeitos com um papel passivo", disse.

No aspecto do profissional jornalista, Magalhães observa que muitos profissionais ainda sofrem constrangimentos físicos e de ordem econômica no exercício de suas atividades. "Em localidades menores, aumenta essa intensidade. Segundo o Consultor Jurídico, em 2007, houve mais de 3,1 mil ações por dano moral, sem considerar juizados de pequenas causas", disse.

O ombudsman da Folha de SP aponta a necessidade de equilíbrio. "Boa parte das empresas rés não têm condições de arcar com as custas dos processos. Já a vida do repórter virar um inferno", disse.

A ditadura do mercado

O sociólogo e jornalista Laurindo Leal fez uma análise histórica, desde o período da Revolução Industrial na Europa Ocidental até o século XXI. Segundo ele, a partir do século XVIII, as esferas públicas das classes trabalhadoras começam a ser protagonistas, para depois cair na atrofia do discurso, e ocorre o surgimento da consolidação dos oligopólios comunicacionais. "No século XX, surge a lógica capitalista de maior ibope. Os cidadãos de determinados países saem de cena, para as transnacionais tomarem seu lugar", disse.

Na década de 70, de acordo com o sociólogo, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) cria a Comissão - "Um Mundo e Múltiplas Vozes", com o propósito de democratizar o processo de comunicação. "Mas pressões sobre a organização, nos anos 90, acabou podando esse processo. A informação e seus meios passam a ser um bem econômico em vez de ser cultural, passando à discussão na Organização Mundial de Comércio", conta. Leal define essa situação como a ditadura do mercado.

Daí volta à discussão, os preceitos da Comissão da Unesco, que são o conceito do serviço de comunicação como um bem não comercial. E nesse contexto, surge a radiodifusão pública e estatal.

"A TV Pública brasileira está sendo implantada, provocando um debate de como efetivamente ser pública, já que tem forte presença do Estado. O distanciamento com o cidadão poderá torná-la inócua", considera.
Sucena Shkrada Resk |



11/03/2008 09:36
Resiliência às adversidades, por Sucena Shkrada Resk
Encontrar ícones, que sejam exemplos através das gerações, não é uma tarefa muito fácil. Mas quando encontramos histórias de vida que, no mínimo, nos fazem sair daquela inércia que chega a incomodar - já é um bom começo. Uma dessas histórias é a do pianista e regente brasileiro, João Carlos Martins, 68 anos. Com uma carreira brilhante - em que se destacou mundialmente como um dos melhores intérpretes de Bach - teve sua carreira musical abreviada e interrompida por várias vezes, após os 26 anos, depois de uma partida de futebol entre amigos, aparentemente inofensiva em Nova York. E hoje, é um regente que encanta multidões, capaz de também dedilhar ao piano, o Hino Nacional brasileiro em uma expressão muita própria, quase que numa súplica, que verte lágrimas de seus ouvintes.

Um incidente lhe rendeu o comprometimento dos nervos de sua mão direita - instrumento mais precioso de seu ofício. Daí por diante, cirurgias, intervalos, retornos, LER, comprometimentos físicos após sofrer um assalto na Bulgária, um tumor dianosticado na outra mão foram se somando às fatalidades que acometeram sua vida. Mas num gesto de resiliência, insistiu bravamente até onde pôde, a tocar os teclados, com o que restava de forças, apesar da dor.

Mas não se sentiu derrotado em sua arte e não teve medo de recomeçar, ao ingressar já na chamada terceira idade, em uma escola de regência. Voltou a ser aluno e adaptou suas dificuldades a decorar milhares de partituras, como conta. Esse processo de reconhecimento de como conduzir suas limitações abriu novas possibilidades. Compartilhar seu aprendizado na formação da Orquestra Bachiana Jovem - que atua com comunidades carentes ou narrar sua experiência em palestras motivacionais. Em reconhecer o potencial de pessoas portadoras de deficiência e incentivá-las. Enfim, multiplicar suas dores em gestos solidários
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Sucena Shkrada Resk |



06/03/2008 08:11
Células-tronco embrionárias, por Sucena Shkrada Resk
Fazer pesquisas com células-tronco embrionárias fere o princípio da vida na Constituição Brasileira? Esse é o grande debate que teve mais um round ontem (dia 05/3), no Supremo Tribunal Federal (STF). A pauta deve voltar à votação no prazo de um mês, devido ao pedido de vistas pelo ministro Carlos Alberto Menezes Direito, mas teve um posicionamento - no mínimo - corajoso da ministra Ellen Gracie, que antecedeu seu voto e se manifestou a favor das pesquisas. O mesmo parecer foi expresso pelo relator Carlos Ayres Britto.

Acompanho esse tema há algum tempo, e já tive oportunidade de falar com cientistas, especialistas jurídicos e representantes de religiões, além de pacientes com doenças crônicas degenerativas. Diante de todos os relatos, confesso que a "esperança da melhoria de qualidade de vida" e, inclusive, de possíveis reversões de doenças como diabetes, cânceres, neurológicas, cardíacas e lupus, entre outras tem um peso muito forte sobre os dilemas éticos e religiosos, que permeiam a pauta.

Pela Lei de Biossegurança brasileira, aprovada em 2005, é autorizada a utilização de embriões inviáveis ou congelados há mais de três anos em clínicas de fertilização, com o consentimento expresso dos genitores. A questão é se podem ser considerados seres vivos ou não. Uma corrente expressiva de especialistas, diz que não, outros, sim. O certo é que no Brasil, considera-se que um indivíduo está morto, quando há a paralisação definitiva encefálica. E no caso dessas células-embrionárias não existe o encéfalo.

Por um outro lado, a Ciência tem um longo caminho pela frente para os estudos dessa área, tendo em vista, que já se sabe que as embrionárias podem se transformar em qualquer tecido de nosso organismo, mas ao mesmo tempo, têm a possibilidade de ocasionar tumores. O grande desafio dos pesquisadores é encontrar a chave da reprodução das células condicionada à sua finalidade - por exemplo, de substituir neurônios lesados etc. Alguns pesquisadores falam em cinco anos ou décadas para haver a resposta. Mas esse é o "tempo da ciência", diferente do imediatismo das necessidades que permeiam as grandes doenças do século XXI.

Sucena Shkrada Resk |



06/03/2008 07:37
A superação refletida pela objetiva, por Sucena Shkrada Resk
Ao ler hoje essa notícia publicada pela BR Press, por Juliana Resende, senti um misto de perplexidade e literalmente tristeza. Em Angola, está sendo realizado o concurso Miss Mina Terrestre, que tem sua votação pela web, por meio do site www.miss-landmine.org . As participantes são mulheres que foram mutiladas pelas minas terrestres que lotam o país. A princípio, pode parecer uma exposição excessiva, entretanto, ao refletir sobre todos os contextos, podemos perceber que é uma forma de superação de seqüelas incalculáveis e um alerta ao mundo.

O idealizador desse projeto é o norueguês Morten Traavik, que contou com o financiamento da iniciativa pelo governo de Angola e pela União Européia. E o que mais me causa espanto é que a ciranda de números sobre o número de mutilados é cada vez maior e, na verdade, o mundo não sabe a real extensão de vítimas, visto que, cada fonte relata um número totalmente diferente de pessoas. De acordo com a reportagem, são 70 mil, nos últimos 40 anos, em decorrência da guerra civil, que´envolveu os Movimento Popular de Libertação de Angola e a União Nacional para Independência Total de Angola (Unita) até o ano de 2002, mas que ainda deixou milhares de artefatos espalhados pelo território.

Sucena Shkrada Resk |



26/02/2008 17:21
O desafio da desigualdade, por Sucena Shkrada Resk
A Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou, nesta semana, uma análise sobre o Brasil, quanto às ações para a defesa dos direitos humanos, em que o país revela um mau desempenho. Problemas crônicos, como desigualdade social, superlotação carcerária, tortura e violência urbana fazem parte da lista de desafios que governo e sociedade têm de superar.

O mapeamento teve o cruzamento de dados fornecidos pela Unicef, que aponta um número alarmante: 50 milhões de pessoas no Brasil ainda vivem na pobreza. Tendo em vista que somos cerca de 186,3 mi, o número de excluídos representa aproximadamente 27% do total dos cidadãos.

Essa exclusão se dá de várias formas, com crianças que não chegam a concluir o curso primário, jovens que são vítimas de homicídio, por causa do tráfico, do vício, dos acidentes de trânsito...Ou detentos que disputam centímetros quadrados nas delegacias e penitenciárias e reincidem no crime, já que falta uma política penal reeducativa.

Enfim, o Brasil está entre os cinco países considerados mais desiguais no mundo, segundo o Banco Mundial (Bird), ficando atrás apenas de nações africanas, apesar de estar sob um regime democrático.

Dessa forma, é preciso se rever os conceitos do regime, já que na prática, ainda a balança pende mais para um lado. Há necessidade de maior empenho nas políticas públicas de educação e segurança, para que as crianças de hoje possam vislumbrar um futuro mais promissor do que seus pais e avós.

Sucena Shkrada Resk |



25/02/2008 09:25
Os fantamas bem vivos das guerras, por Sucena Shkrada Resk
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha emitiu um relatório sobre o mapeamento das chamadas bombas clusters pelos países em situação de guerra. O saldo desse tipo de intervenção bélica, que já é utilizado há mais de 4 décadas, é catastrófico. De acordo com a organização, mais de 13 mil pessoas (e quem sabe, muito mais...) morreram ou ficaram mutiladas em decorrência desse armamento, que resulta em vítimas, ainda anos após os conflitos. E o Brasil é um dos cerca de 40 países, que fabricam o armamento.

Homens, mulheres e crianças de todas as idades sofrem com o que podemos denominar de estratégias de barbáries resultantes dos efeitos desses pequenos equipamentos letais. Cada um pode se multiplicar em vários, por isso, recebe a identificação de cluster. Com isso, países como Afeganistão, Camboja, Etiópia, Líbano, Sudão e Kosovo, entre outros, sofrem a todo momento, baixas principalmente em sua população civil, por causa das explosões.

Estima-se que ainda haja milhares desses artefatos espalhados pelos solos desses países. São perfeitas armadilhas prestes a explodir. Assim, famílias são destruídas, sonhos de vida dizimados e os estados não conseguem dar conta da reabilitação dos mutilados - tanto no aspecto físico, como psicológico.

Diante desse quadro em que o aspecto humanitário parece não ter nenhum significado para líderes e extremistas,tramita o Tratado internacional de Oslo, que tem como objetivo, proibir a fabricação, uso e transferência desses dispositivos. No entanto, há pouco avanço neste sentido. Uma próxima rodada de negociação está programada para maio deste ano.

Mesmo que haja o acordo, ainda demorará, quem sabe, décadas, para que essas bombas sejam dissipadas. O mais importante é que as atuais gerações e as próximas tenham conhecimento disso e não fiquem alienadas quanto a isso. Não é possível esperar que o problema chegue ao quintal de nossas casas, para que tomemos consciência de que o homem precisa assumir seus atos.

Sucena Shkrada Resk |



22/02/2008 11:15
Tragédia Palace 2 completa 10 anos, por Sucena Shkrada Resk
Indignação. Acredito que essa palavra sintetiza o episódio do Palace 2, que completa 10 anos e devastou a vida de centenas de moradores e deixou oito mortas. Como a morosidade é algo reincidente nos meandros da justiça brasileira, a maioria das famílias aguarda até hoje indenizações. Segundo matéria da jornalista Luisa Belchior para a Folha Online, no Rio, somente 15% foram indenizadas e 15 delas ainda vivem a rotina de um hotel - que pelo o menos - é bancado por meio dos leilões dos bens do empresário Sérgio Naya (que foi absolvido na esfera criminal pela Justiça), dono da construtora Sersan, responsável pela obra.
O desabamento do edifício ficou nos anais da história do ramo de construção e imobiliário, como prova da necessidade de maior empenho do setor e das áreas de fiscalização, no quesito qualidade. Com certeza, as vidas desses condôminos - hoje representados pela Associação das Vítimas do Palace 2 - viraram de cabeça para baixo. Oito já morreram durante essa década e não puderam ver o caso totalmente resolvido (pelo o menos, no que tange à parte dos danos)
De acordo com entrevista concedida por Naya (que responde hoje somente pela parte civil do processo), à Folha, a tragédia se deu por erro de cálculo na distribuição dos pilares. "Uma fatalidade, vez que o calculista era tido como competente. Por isso fui absolvido em todas instâncias e tribunais. Não tive culpa pela tragédia", afirmou.

Mas a questão é a seguinte: imaginem se a todo momento ocorressem erros de cálculos nas edificações ou fossem usados materiais de baixíssima qualidade? Se um dia você ou eu estivéssemos confortavelmente em nossos imóveis e, de repente, ficássemos sob o pó dos escombros. Quantas pessoas não utilizaram recursos reunidos por anos para adquirir o imóvel próprio (mesmo que ainda estivessem pagando as prestações)...São vários ângulos que devem ser analisados. Afinal, recuperar esse histórico é importante, para que não fique perdido no tempo. Assim serve de exemplo para que algo dessa monta não se repita.

Sucena Shkrada Resk |



20/02/2008 09:21
A intolerância ao diferente, por Sucena Shkrada Resk
A Record News exibiu na última terça-feira, 19 de fevereiro, um documentário internacional da BBC sobre portadores de uma patologia rara congênita chamada neurofibroma, que desfigura principalmente o rosto dos pacientes, e pode apresentar os primeiros sintomas na infância. Ao ouvir as narrativas sobre a luta para enfrentar preconceitos, depressões, inúmeras cirurgias e, acima de tudo, conviver com que os padrões estéticos podem intitular de feio, observei o quanto a humanidade ainda precisa saber para conviver com o diferente.

Ter um queixo mais longo e saliente ou uma palpebra caída e caroços na testa nos faz ser melhor ou pior que o outro? A embalagem que nos reveste - se assim podemos chamar - é mais importante que o conteúdo, que representa nossos sentimentos, personalidade, valor espiritual?

A mensagem que consegui retirar de todos os depoimentos é que precisamos ser mais tolerantes e menos materialistas. Basta ver a alegria de um portador de neurofibroma ao olhar no fundo do olho de seu semelhante e verificar que ele o vê como um igual, com respeito e ternura.

Sucena Shkrada Resk |



19/02/2008 11:16
Acaba o ciclo cinquentenário de Fidel em Cuba, por Sucena Shkrada Resk
Após 49 anos, Fidel Castro renuncia ao poder. É incontestável que essa decisão do presidente cubano marca um ciclo da história geopolítica mundial. O líder comunista manteve até agora um dos últimos resquícios do regime no planeta.

Em sua carta de desistência, citou o arquiteto brasileiro centenário Oscar Niemeyer, com a seguinte observação - "Penso como Niemeyer que é preciso ser conseqüente até o final". A frase tem um sentido bem eloqüente, para o ditador, que aos 81 anos e com a sua saúde debilitada, acredita que deve passar o bastão a um sucessor. Agora, a questão é - será que o seu irmão Raúl, que já governa o país, será realmente o seu sucessor e terá a mesma mão-de-ferro e personalidade, que perpetuou o ditador no poder, por décadas. A experiência dos últimos anos, revela que não. Afinal, é possível o regime comunista subsistir no século XXI?

O que o povo cubano quer, depois de tanto tempo, sob um mesmo comando? Sabemos que não é fácil a vida no país, sem a democracia no strictu sensu e uma política que enfrenta entraves nas relações internacionais, que têm forte impacto na economia local. Entretanto, não é possível desmerecer o mérito do governo cubano com relação ao desenvolvimento de áreas importantes, como a educação e ciência. Qual é o anseio do povo cubano, como ele irá se expressar a partir de agora? É uma questão crucial a se analisar. Libertar - se do período de Fulgêncio Batista, mas ficar sob o comando de Fidel, por tanto tempo...com as portas fechadas para o regime capitalista, que domina o mundo globalizado...Mas que peitou de frente a potência dos Estados Unidos.

Agora, começa a ser escrita uma nova história. Quem sabe o êxodo de milhares de cubanos, que todos os anos seguem em sua maioria clandestinos a outros países, para tentar a sorte, se reverterá... E que o país vai abrir suas portas a partir de agora à nova ordem mundial e reverterá o isolamento. No próximo dia 24, começará a se desenhar uma nova etapa do maior arquipélago das Antilhas, no Caribe.

Sucena Shkrada Resk |



11/02/2008 09:47
Falta de cidadania, por Sucena Shkrada Resk
O endereço é avenida Almirante Dellamare, bairro Heliópolis, São Paulo. Até aí, nada de inusitado, a não ser o descaso da população e do poder público quanto à questão do entulho e lixo orgânico. As calçadas próximas à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do Grande ABC estão sendo tomadas literalmente pelo despejo desenfreado de resto de construções, lixos de todos os tipos. Carrinheiros sem cerimônias jogam à luz do dia o que não serve mais para as obras e, assim, até a rua já começa a ser tomada por essa avalanche, bem em frente a um terreno baldio.
Mais adiante, sentido São Caetano do Sul - SP, na mesma calçada, casebres de madeiras foram construídos sobre o passeio e o esgoto clandestino transborda ao meio fio.
Essa cena se repete há vários meses e, o mais gritante, é que só se altera para pior. Aí está um problema de saúde pública e vigilância sanitária- por causa da incidência de ratos - de limpeza urbana, de educação ambiental e de cidadania. Não é possível, em pleno século XXI, esse cenário de descaso ser notório na maior capital do Brasil e da América Latina. Que progresso é esse? Aí está um bom tema bem urbano para ser discutido na Cúpula das Cidades, que vai acontecer no Sul, que tem como um dos pilares, o Saneamento, como parte dos Objetivos do Milênio...

Sucena Shkrada Resk |



08/02/2008 14:37
Um defensor de quatro patas, por Sucena Shkrada Resk
Gravem bem este nome - York Von Golderberg. Eis aí o primeiro cão contratado da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suiça. O servidor de quadro patas tem como principal função rastrear explosivos e cuidar da segurança do escritório. O pastor alemão já carrega o crachá em seu pescoço e é mais um cidadão - por que não? - que literalmente corre risco de vida, como milhares de profissionais que trabalham na instituição e, em especial, em guerras e operações humanitárias.
Sob o comando de seu instrutor, o cão policial acaba sendo um exemplo de companheirismo, como tantos outros que fazem seu trabalho anonimamente em vários locais do planeta. Não é só pela ração ou um afago, que esses animais se mobilizam. Eles criam uma empatia pelo ser humano, que muitas vezes, é esquecida pelo próprio homem em suas relações sociais.

Sucena Shkrada Resk |



06/02/2008 08:34
A alienação ao quadrado, por Sucena Shkrada Resk
Toda vez, que vejo na TV alguma menção ao BBB, me questiono qual é o papel dos meios de comunicação na atualidade. A nítida sensação de que o pueril supera o premente faz com que uma revolta se ascenda sobre o ritmo da alienação.
Fulano brigou com ciclano, ou ciclano ficou com fulano...Ah, mas um terceiro armou contra o x ou o y, e nesse ritmo, do insosso, lá seguem os discursos, as narrativas, apelos teatrais, sensuais e tudo o que se possa imaginar - com direito à chamada e ao horário nobre, e o que mais assusta - ibope.
O brasileiro precisa de distração? Claro, afinal a vida não pode ser fundida somente em função do trabalho e da resolução de problemas, evocando uma seriedade absoluta. Agora traduzir o sentido do que podemos chamar de distração é que são elas.
Sem entrar nos meandros da filosofia, poderíamos dizer que a distração deve produzir felicidade e acrescentar algo positivo em nossas vidas. E aí vai a pergunta - você, eu, nós somos felizes ao sermos bombardeados por essa programação de massa?

Sucena Shkrada Resk |



12/01/2008 18:33
Realidade à flor da pele, por Sucena Shkrada Resk
Andar de trem está acima de um simples meio de transporte. Pode-se dizer que é um retrato, por muitas vezes, da carência que assola o país. Passam-se os anos e as cenas pouco mudam. Vendedores ambulantes em sua clandestinidade às avessas vendem de tudo um pouco - é o chocolate por R$ 0,50 ou a cartilha matemática, que é intitulada de solução para os problemas na escola e, quem sabe, um cortador de unha. No mesmo corredor, outro grupo discursa sobre o "desemprego" e pede, nem que seja R$ 0,05, para que possa comer, tomar um café ou comprar o leite do filho. "Se não tiver - que Deus te abençoe do mesmo jeito...", muitos dizem.

Ver essas personagens de carne e osso - para muitos - se transformou em uma situação corriqueira, praticamente banalizada. Mas não é. Com a devida ponderação, quanto àqueles que fraudam um estado de extrema pobreza - com direito a pedido datilografado e tudo, esses cidadãos atingem praticamente o extremo da humilhação. É um ir e vir desnorteado, em que a mão se estende para pegar moedas e que os ouvidos dezenas e centenas de vezes ouvem um não ou os olhos decifram um aceno de cabeça negativo. Ninguém escapa a essa fragilidade. Homens e mulheres jovens e idosos, portadores de deficiência. Um pelotão que há muito não sabe o que é um salário ou uma renda. As palavras saem quase que automaticamente, como se fossem fundamentadas em uma palestra autodidata sobre a balança desigual socioeconômica brasileira.

Então, a parada da estação chega, a porta se abre, e para trás fica essa realidade à flor da pele. Mas no outro dia, tudo se repete, para que a gente lembre que há muito a melhorar nesse país, quando o tema é o binômio - direito à educação e empregabilidade.

Sucena Shkrada Resk |



07/01/2008 14:43
Armadilha da acessibilidade, por Sucena Shkrada Resk
Andar de ônibus na cidade de São Paulo tornou-se uma perfeita aventura, com direito a salto em altura, e tudo. O que deveria significar um design arrojado e funcional, facilitando a acessibilidade, é, na verdade, uma verdadeira armadilha.

Lá está o aviso. "Cuidado com a escada". E que escadas...Qualquer usuário pode ter, com certeza, dificuldade de subir e descer os degraus, com risco de cair ou torcer o pé. Imagine, quando o coletivo está em movimento. A situação fica mais perigosa.

Afinal, houve uma regressão nos padrões técnicos? Essas escadas estão em conformidade com a ABNT, ou a intenção do poder público é aumentar a fila do Sistema Único de Saúde (SUS)? Sinceramente chega a ser surreal, no dia-a-dia, presenciar a dificuldade que esses desníveis provocam. Gostaria de saber o argumento para o novo modelo das composições do transporte público. Quem sabe alguém me convence que é a melhor solução para o usuário...Talvez, seja uma ferramenta para fazer exercício de estepe, não é verdade? Ou para o lema dos escoteiros - "sempre em alerta"...

Sucena Shkrada Resk |



05/01/2008 16:04
Intolerância sem rédeas, por Sucena S. Resk
O assassinato da ex-premiê paquistanesa Benazir Bhutto, em dezembro do ano passado, revela um estado de intolerância, que pode culminar numa total dissolução do que podemos chamar de democracia naquele país, que passa por grave crise política. Após oito anos, em auto-exílio, voltou aos 54 anos, para morrer sob os disparos de um extremista. Por quê? Esse é um questionamento feito por milhares de cidadãos comovidos dentro e fora das fronteiras. Poder, cobiça, convicções idealistas...qualquer nome que se dê a essa ação de violência só denota um estado enfraquecido por uma política sem freios, em que não há controle sobre os atos fundamentalistas, que levantam pseudo-bandeiras libertárias.

Benazir foi a primeira chefe de estado de uma nação islâmica, representante do Partido Popular do Paquistão, em dois períodos entre 1988 a 1996, entre tumultuadas acusações de corrupção, que culminaram em condenação, anistia e, por último, em auto-exílio. O seu pai, que também foi o primeiro premiê eleito do país, teve um fim trágico, ao ser assassinado, quando houve um golpe militar em 79. A história se repetiu praticamente 30 anos depois.

O líder da oposição paquistanesa, Nawaz Sharif, garantiu que dará prosseguimento à bandeira defendida por Benazir - que era da defesa dos pobres, apesar de ser oriunda de uma família rica e ter uma formação universitária sólida em Oxford. Seus correligionários estão abalados com sua morte, que pode ser estopim de mais violência, em uma nação que sofre com a ditadura e o terrorismo, por décadas, e que volta e meia, retorna à cena mundial, por causa das ameaças nucleares, em entraves com a Índia quanto ao domínio da região da Caxemira. Agora, que o país está prestes a novas eleições, tornou-se foco das atenções do Ocidente e do Oriente. A delicada situação geopolítica pode influenciar o mercado global, que sofre os impactos da instabilidade que rege o século XXI.



Sucena Shkrada Resk |



03/01/2008 18:38
Créd. Sucena S. Resk - Ilha Grande - 12/2007

Sucena Shkrada Resk |



03/01/2008 18:34
Créd. Sucena S. Resk - Ilha Grande - 12/2007

Sucena Shkrada Resk |



03/01/2008 18:29
Um paraíso em perigo, por Sucena Shkrada Resk
Ilha Grande, no RJ, pode ser definida como um dos mais belos destinos brasileiros. O turismo cresce ano-a-ano, no arquipélago fluminense, mas retrata o que a falta de controle pode ocasionar a médio prazo. A pequena vila de Abraão, que concentra o receptivo, não suporta mais o fluxo de turistas, em período de alta temporada. Pela segunda vez, fui para lá, e pude observar, que num prazo de quatro anos, muita coisa mudou...

A produção de lixo, esgoto e todo o tipo de resíduos, nessas épocas, transforma o cenário de cartão-postal em um retrato do conflito entre o homem e o meio-ambiente. O desrespeito segue nas trilhas fechadas, que levam a cenários escondidos entre as matas. Uma garrafa PET aqui, outra acolá, ou um saquinho no chão, ...contrastam de forma cruel, com os contornos perfeitos da natureza.

Mas nem tudo está perdido. Ainda é possível flagrar pequenos pássaros cantando nas primeiras horas da manhã, micos e saguis brincando nas copas das árvores das trilhas fechadas na mata e os caranguejos que aparecem e desaparecem sorrateiros nas praias - como Lopes Mendes e Dois Rios. Este último, um patrimônio histórico, onde ficam os escombros do presídio de Ilha Grande, que marcou uma fase importante da história brasileira.

Essa dicotomia nada mais é que um apelo para que haja o turismo sustentável. Que os moradores e os barqueiros sejam conscientizados de sua importância nesse processo de preservação. Que o poder público exerça, de fato, um papel de educador e fiscalizador. E que, acima de tudo, nós - turistas - sejamos agentes dessa transformação, para que futuras gerações possam apreciar o que o Brasil tem de melhor.

Sucena Shkrada Resk |

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